terça-feira, 28 de abril de 2015

O Amigo do Menino João

    Quem acompanha esse blog sabe que presenciei uma tragédia pessoal no início do ano. Estava com minhas filhas em Boiçucanga (litoral norte de São Paulo), em férias esperadas há mais de 4 anos. Conheci numa manhã um garoto fora do comum, em vários sentidos. Em menos de uma hora ele me conquistou absurdamente. E no mesmo dia sofreu um acidente fatal na cachoeira de Boiçucanga. Desde esse momento não há um dia em que eu não pense em João.
   Ele tinha 14 anos e era lindo. Não era só o físico, o sorriso e os olhos brilhantes, tinha uma beleza cheia de vivacidade e vontade de saber sobre todas as coisas. Uma inteligência espetacular. Eu tinha a certeza de que esse menino faria parte da minha vida, mas nem deu tempo de trocarmos o número do celular, faríamos isso na noite de fogueira e violão, que nunca aconteceu.
   Mas o que mais me faz lembrar dele não é a fatalidade, não é me sentir de certa forma culpada por indicar o caminho em que o levaria à morte. Penso nele todas as vezes que vejo adolescentes enredados no computador, que não olham para os lados nas ruas porque preferem olhar o virtual do celular. João olhava nos olhos, perguntava sem medo e tinha uma admiração pela mãe, sem a menor vergonha de dizer que era sua "ídola", que a amava e seguia seu exemplo. Um amor nos olhos quando olhava para ela que não vejo na minha filha adolescente. Uma energia e vontade de fazer tanta coisa que não vejo em quase ninguém.
     E mais estranho ainda é que muitas vezes escuto alguma música e penso se João gostava ou conhecia tal banda. Muitas vezes eu ainda choro pensando nele. Na noite seguinte do acidente, fiquei horas conversando com Dora, que chorou falando dele. Sensível que é me disse com voz engasgada: "Se nós, que conhecemos o menino em um único dia estamos assim, imagine os amigos da escola, do esporte, da música e toda a família". Não, eu não conseguia mensurar isso.

      Mas numa tarde em que eu estava particularmente triste, quando perdi a confiança em mais pessoas e em mim mesma, vi um comentário no blog, justamente no post sobre o menino João. Era um amigo dele, que não imagina o quanto me confortou e como me fez de novo acreditar no amor e na bondade das pessoas. Talvez seja uma prova que João não era mesmo deste mundo, talvez fosse um anjo mostrando que a vida é o agora e só o agora é realmente importante. Ele cantou "que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se parar pra pensar, na verdade não há". E não houve amanhã para nós, não houve nem a noite combinada. Mas ele demonstrou o amor no tempo em que esteve comigo. Um amor que tenho a certeza que espalhou nos seus 14 anos de vida. E acho que não só ele era um anjo, mas fazia parte de uma legião angelical e fez seu amigo Arthur Henrique chegar até mim e me tocar com as palavras, que dividirei com vocês. Porque só o amor e a morte são capazes de modificar tudo.
    


Adriana, Não sei se acredita em Deus ou em destino, mas temos diversas coisas em comum:

.Sou estudante de jornalismo e amo esses "relatos do cotidiano"
.E conheço João, sou vizinho e amigo bem próximo dele.

Pulando de blog em blog acabei achando o seu e não acreditei no que vi: "Um texto sobre o João", pensei. Me recusei a acreditar até lê-lo...

Sabe, conheci João na escola. Não estudávamos na mesma classe, mas sempre nos "esbarravamos". Uma partida de futebol foi o suficiente para começar uma efêmera, porém significativa amizade. Sempre conversávamos sobre Fórmula 1, Rock e Guerra Mundial (assunto que ele entendia muito bem, por sinal).

Quando me formei em Dezembro de 2013, ele me perguntou se eu o abandonaria quando fosse à faculdade. Disse para ele parar de falar besteira e falei que nunca abandonaria meu irmãozinho (ele sempre me chamou de manão). No decorrer do ano passado, sempre nos falávamos e nos encontrávamos quando dava, nossa amizade foi crescendo muito e sempre o considerei demais, se tornando inclusive meu confidente (e vice-versa).

No dia 8 de janeiro, estava comemorando o aniversário da minha irmã quando recebi a ligação do acontecido. Nunca chorei e fiquei triste na minha vida como naquele momento: "Deus tirou meu maninho de mim", dizia.

Adriana, Não sei se acredita em Deus ou em destino, mas eu ter encontrado este texto "por acaso" não foi para mim coincidência! E não sabe o quão estou agradecido... Você, em pouquíssimo tempo que o viu, o descreveu perfeitamente. O menino que nunca tirava o sorriso do rosto, sempre tentando alegrar. Falante (demais kk) e no meu ver uma das almas mais puras que o Mundo teve...

Estou tentando agradecer, mas acho que estou escrevendo demais... é que amava tanto meu amigo que quero que saiba que o ocorrido não foi sua culpa ou de ninguém...Era pra acontecer e poderia ter ocorrido comigo, com suas filhas, com qualquer um...

Acredito em Deus e agradeço muito por ter chegado aqui e ler seu maravilhoso texto...Quero que saiba que deixou um amigo do menino que descreveu muito feliz e relaxado. E quero que saiba que Joãozinho foi um menino espetacular e ele está eternizado em minhas lembranças e em meu coração...

Muito Obrigado, Adriana

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Confiança

   Lá no começo da década de 1990 conheci a obra de Hal Hartley. Entre seus curtas e longas, me encantei com o filme Confiança (Trust, 1990), se fosse cineasta, roteirista ou escritora, queria ter feito algo parecido. Seus filmes são perfeitos na estética, na montagem, nos personagens filosóficos, desajustados e apaixonantes que cria. E nas trilhas sonora que escolhe, com todas as bandas dos anos 90 que gosto (Pavement, Sonic, P.J. Harvey). Nesse filme conheci o ator Martin Donovan, por quem arrastei uma paixão platônica anos a fio. Confiança é uma história de amor improvável. Uma adolescente é abandonada grávida pelas pessoas mais próximas e que mais confiava. Encontra estrutura e amor no homem mais velho (Donovan) que o acaso coloca em seu caminho. Toda essa introdução para falar que confiança é a base de tudo. Sem confiança não há amor, não há amizade e poucas chances de haver vida.
   A primeira vez que perdi a confiança foi aos 13 anos. Tinha um diário onde colocava os fatos da minha vida, as relações, as aspirações, os sentimentos e treinava a escrita. Um dia, numa discussão banal entre mãe e filha, minha mãe disse que mesmo eu não contando nada, sabia tudo o que eu fazia e pensava, pois lia meu diário (que eu guardava numa gaveta, bem escondidinho). Rasguei todas as páginas, indignada, fato que lamento muito, porque lá haviam muitas pérolas e histórias incríveis. Depois perdi a confiança em alguns namorados que não me contavam a verdade, mesmo eu sendo tão sincera. Então tive uma filha com alguém que eu não amava, mas que tinha amizade e carinho. Esperava ter uma relação saudável para criar uma filha saudável. Daí essa pessoa acabou de vez com minha confiança, inclusive em mim mesma. Porque uma mãe pode esperar até o abandono do pai do filho, mas jamais que invente calúnias para tirar o filho. Jamais que afaste indeterminadamente o filho.
   Talvez depois disso eu tenha me tornado uma pessoa que não se apega, que aceita tudo, não exige nada. Mas que não aprende. Ainda esse ano fui enganada por uma suposta amiga, que também era minha advogada. Agora eu sei porque minha ação demorou tanto. E outras ações estão em meu nome, sem eu nem sequer ter assinado nada.  Mas a justiça é feita, de um jeito ou de outro.
    
   Incêndio - Santos está pegando fogo há quase uma semana e não há previsão para conter as chamas. A imprensa não deu muita importância ao fato nos primeiros dias, afinal era feriado e morreu o filho do Governador (não diminuo a dor de seu luto, até porque conheci dona Lu e seus filhos e, mesmo se não tivesse conhecido, respeito a dor de qualquer família nessa situação). Mas foram três dias para criar uma equipe para administrar essa crise. No começo nem se falava em desastre ambiental, mesmo com o mar recebendo dezenas de milhares de peixes mortos. As partículas de gases poluentes se espalham pela Baixada Santista, haverá chuva ácida. Há risco para a população sim e o que está sendo feito é resfriar os barris ao lado dos que pegam fogo, para não haver uma explosão em cadeia. Já se fala sim em evacuar a área dos bairros próximos.
    O Governador está em luto, mas há uma equipe inteira no Governo que deixou a cidade, que tem o porto mais movimentado da América Latina, como um nau sem direção, uma pequena embarcação perdida no meio do oceano sujo de petróleo. O prefeito fez selfie entregando ovo de Páscoa para os bombeiros!
   Não confio na imprensa, não confio nos administradores da crise, nem no Governo. Confio no trabalho incessante dos bombeiros e na boa vontade das pessoas que acreditam que tudo vai dar certo. Mas eu, infelizmente, não sou uma dessas pessoas. Perdi a confiança em quase tudo. E acho justo que as pessoas também não confiem em mim.

Trailer de Trust https://youtu.be/pIgv4Tvx3V0 
   
  

terça-feira, 7 de abril de 2015

Caronas Perfeitas, Explosões, Reencontros e Rock

   No último feriado de Páscoa os planos não saíram como desejado, mas deu tudo certo no final. Para começar saí de Santos rumo a Ribeirão Preto de carona com um cara muito legal, advogado, que conheci por um grupo de Santos-Ribeirão. No carro estavam também três universitárias que estudam em Santos e tem família em Ribeirão Preto. A viagem foi longa, porém cheia de descobertas e confissões íntimas. Não lembro se foi Bruna ou Isabella quem viu primeiro a imagem das chamas e fumaça dos barris de combustível que explodiram em Santos. Uma faz Engenharia do Petróleo, a outra Ciências do Mar. E a outra moça, que passava mal de enjôo, Biologia. Todas sabíamos, ou pelo menos imaginávamos, a tragédia ambiental que se formava. Esse acidente já colocou abaixo meu plano de almoçar, após tantos anos, com minha mãe (avó de Dora) e Miranda (a irmã sempre saudosa).

   Após 5 horas de estrada cheguei para almoçar com as duas adoráveis filhas da minha amiga Paola (que estava viajando em alguma trilha ou montanha), tomei um banho e fui buscar Dora no ballet. A volta foi com outra carona ligeira de Ribeirão para a Capital. Em São Paulo ficamos na casa do amigo Gustavo Liedtke. Cinema e gastronomia, tipicamente paulistanos, foram os programas. Passeios com William Tagata, um adorável professor universitário. Foi bom Dora conhecer e rever meus amigos. Da trajetória cinematográfica, um filme em particular, foi emblemático: A Terceira Pessoa tem como tema pais e filhos e uma mãe que perde a guarda do menino e não o vê há tempos e o pai a proíbe de vê-lo. Não era nada disso a sinopse. Se soubesse não teria entrado. Chorei menos do que tive vontade, porque precisava me controlar. Foi difícil. Depois lembrei que Gustavo tinha me falado deste filme, porém não liguei nome a roteiro.
  Inesperadamente, uma derradeira festa no Aeroanta (sim, ele ainda existia, porém não funcionava), com show de seis bandas, antes da demolição para construir uma nova casa noturna. Eu e Dora, dançando ao lado do pessoal bongando, junto ao querido Fábio Diegues, como nos velhos e bons anos 90. Mas engana-se quem pensa que lá haviam apenas saudosistas. Sim, não teve como não lembrar das btandas que vi nascendo e crescendo por lá, mas a maioria dos presentes, tinha menos de 30 anos, logo, não deve ter participado de nenhum show, imagino.

   A volta foi ainda mais maluca (fisicamente falando). Saímos domingo 15h30 de São Paulo, e deixei minha filha na casa dos avós às 19h15. Menos de uma hora depois já estava em outro carro de volta para São Paulo, com um advogado muito bem humorado na direção, um jovem estudante de de Ciências Sociais ao lado e um casal de arquitetos comigo atrás. Apesar da chuva e do trânsito de fim de feriado, a viagem foi muito bacana, com assuntos dos mais variados e muito politizado, assim como foi a ida, com um estudante de Direito da USP de Ribeirão. Vítor é um garoto muito inteligente, que vai terminar o curso porque é bom ter um diploma de Direito, porém, não vai exercer, porque já está enojado com o sistema judiciário. Eu disse para não fazer isso, porque é de pessoas como ele que esse sistema precisa. Mas depois de me despedir, olhando-o afastar-se, pensei que talvez nunca mais o veja e ele precisa ser feliz e não fazer o que a sociedade precisa que ele faça. Infelizmente, nossa missão poucas vezes está relacionada com felicidade. Mas nunca é tarde para mudar o rumo dessa missão.
    Cheguei em São Paulo de madrugada, cansada, exausta, caindo diretamente nos braços do amor.  Porque como diz o título do filme O amor não tira férias e eu não me canso de amar. Mal me recuperei da quilometragem percorrida, mas já me preparo para a próxima viagem de surpresas e novas pessoas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Vida Imita a Pop Art


   Conjecturando com meu primo Junior, o primeiro salvador após uma súbita perda financeira de carteira abastecida, cartão de banco e documentos, passei do choro ao riso, há um mês atrás. Quando esses roubos ou assaltos acontecem (e comigo acontecem, em média, uma vez por ano) dá um vazio interior, uma dor de estômago, um pesar profundo ao pensar em todo o tempo despendido em PerdeTempos, RoubaTempos burocráticos, uma sensação de idiota. Ficar sem cartão, sem carteira não é tão charmoso quanto sem lenço e sem documento.
   Daí eu e meu primo tentávamos analisar porque essas coisas acontecem e entender a razão e reação, como uma troca de energia. Sua teoria é que “assombrações” só costumam aparecer perto de cemitério e lugares sombrios. “Você nunca ouviu dizer que apareceram espíritos em festas, onde tem gente dançando e se divertindo”. Filosofamos sobre as energias negativas das coisas e pessoas.
   Então tentei afastar meus pensamentos negativos e imaginar algo engraçado nisso. Me senti um episódio de Two Broke Girls, em que uma patricinha falida mora numa kitnet com uma garçonete vulgar. Essas séries ficam no inconsciente quando há uma identificação, acho. Então ouvi mensagens positivas de “somos fênix”, “acalme-se que tudo se resolve”. Mas penso que fênix ressurgir das cinzas é uma lenda e quando tudo se resolve, algo acontece para complicar. De novo pensei nas amigas Max e Caroline, as garotas quebradas. A cena inicial mostra quanto dinheiro as amigas iniciaram o dia e a última, a cifra de quanto conseguiram aumentar ou diminuir ao final do episódio. Pois eu comecei o dia perdendo uma nota na máquina de lavar e encerrei o dia recebendo o mesmo valor do primo Junior. Não vou dizer quanto é para não causar dó ou piedade nos mais abastados, nem indignação ou tornar humilhado o menos favorecido. O incrível foi ele, meu primo, ter o valor idêntico e ser a pessoa mais próxima, geograficamente. Nós dois, tão céticos, começamos a elucubrar sobre algo que não seja só o caos.

  A dor no pescoço me despertou cedo demais. Lembrei que continuava quebrada e, após levar Miranda na escola, sem capital para consumir nada além do necessário, resolvi ler algo que fosse útil: Dor nas Costas, como Tratar e Evitar. Vi que evitar não tem mais jeito e é ilusão de quem pensa que natação é um esporte que só faz bem. O que mais conheço é nadador (de competição) com problemas em joelhos, ombros, coluna. Mas os pulmões, olha, esse está sempre bom, podem acreditar!

   Estava procurando um apartamento para alugar em Santos. Enquanto isso, me hospedei na casa da grande amiga Marcia Abad, outra garota quebrada. Mas nossa situação chegava a ser pior do que de Max e Caroline, porque tenho uma filha de 6 anos e ela um de 16, totalmente por nossa conta e risco. Marcinha, uma engenheira florestal, que chamo de amiga google porque sabe de todos os assuntos, é só chamar, também andava quebrada e desanimada, pois não conseguia achar mais emprego em sua área e o que via estava muito abaixo do salário merecido. Sim, vivemos uma crise como nunca vista em nossas vidas e começamos a tentar driblá-la com risos e nos chamando de Max e Caroline. Eu sou Max, apesar de não ser uma garçonete vultar, mas pelo volume dos seios. Marcinha é Caroline, apesar de nunca ter sido patricinha, mas pela falta de volume nos seios. Assim como as duas personagens, também nos trolamos com essas características.
   Outro seriado de comédia que gostamos (aliás, é o meu favorito desde a primeira temporada) é o The Big Bang Theory. Percebemos que os mais nerds e estudiosos, também são os mais falidos. Será coincidência? Sendo ou não, chega um tempo em que o dinheiro é mais importante do que o prestígio e precisamos fazer até algo nem tão prazeroso, mas que dê grana. Da tristeza dos apertos passamos a nos divertir com pouco e ficar felizes com banalidades. Não esperamos um prêmio Nobel como o Dr Sheldon Cooper, mas queremos ser reconhecidas em nossa área, por mérito. E se um dia vierem prêmios (e pagos em cash) serão muito bem vindos.

   Então olhando no calendário vi que terei alguns feriados com minha filha Dora e as idas e vindas para Ribeirão Preto, seguidas de outras viagens e estadias e passeios, ficarão bem caros. Ontem mesmo avisei Caroline: “Não sei se você percebeu, mas não mudarei daqui antes do final de maio”. Tudo bem, já está se tornando uma sátira essa vida dividida. O pior era a convivência entre Miranda, de 6 anos e Dionísio, de 16. Mas como ele tem uma irmã de 7 anos, por parte de pai, e Mi tem uma de 13 que pouco vê, é uma forma de perceberem como seria esse convívio entre crianças e adolescentes. Dio joga esses jogos cheios de histórias da Era Medieval, Miranda virou sua assessora para armaduras e garotas bonitas. Fez até que ele tivesse dois filhos no mundo virtual, muito a contra gosto. "Miranda, pra quê ter filho? Você não vê como nossas mães tem trabalho?". Dionísio é um bom garoto. Sabe das coisas.
   
  No fim a vida não passa de uma imitação da arte. No nosso caso, é imitação dessa cultura pop que não temos vergonha em admitir o quanto gostamos. Mas Marcia está há um mês em novo emprego, como engenheira florestal... mas essa é história para outro post, já que a militância na defesa do meio ambiente é outra motivação que nos une. Seguimos quebradas, porém com remendos cada vez mais fortes.

terça-feira, 24 de março de 2015

Por um Mundo com Mais Beijos

   Não vi nenhum capítulo da novela global Babilônia, mas sei do beijo entre as personagens das brilhantes atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg, logo no primeiro capítulo. Impossível não saber. Meus amigos gays adoraram. E alguns parentes de parentes postaram coisas em redes sociais do tipo: "que nojo, que decadência essas duas grandes atrizes se submeterem a isso". Não sou do tipo de excluir ninguém em facebooks, twitter ou coisa que o valha. Acho sempre bom saber o que pensam os radicalmente diferentes de mim. Mas continua sendo incompreensível o que motiva tamanha aversão a beijos. Afinal beijo é beijo, entre homens, mulheres ou homens e mulheres. Se não gosta de beijo, não beija. O que tanto incomoda o beijo alheio?

   Daí hoje estava numa loja no Gonzaga, em Santos. Enquanto escolhia o produto ouvi o diálogo entre as vendedoras: " - Meu sobrinho foi na casa de uma tia e quando voltou perguntou para a mãe se duas mulheres podiam se beijar!". "Nossa, mas a tia beijou a namorada na frente dele?". "Já pensou como vai ficar a cabeça desse menino? Só tem 3 anos!". " E o que a sua irmã fez?". "Ah, agora nunca mais vai dormir na casa da tia". Depois dessa conversa de me embrulhar o estômago, uma delas virou-se e perguntou: "Precisa de alguma coisa?". "Me viro sozinha, mas preciso de menos preconceito, por favor". E saí andando sem ouvir o que as homofóbicas tinham a dizer.
   Infelizmente, mulheres também são homofóbicas. Minha vontade foi perguntar se elas também achavam que o tal garoto deveria parar de brincar com armas de brinquedo, parar de ver filmes e desenhos violentos e assistir lixo televisivo. Também senti vontade de dizer que a tara de 9 em cada 10 homens é ver duas mulheres se beijando (e muito mais). Que ele cresceria achando isso normal e não se tornaria um daqueles namorados escrotos que fica o tempo todo perguntando para a parceira se aceita uma segunda mulher na cama (porque homens adoram pedir uma segunda mulher na cama, mas ficam deveras ofendidos quando a resposta é: por que não um outro homem na cama?).

    Daí numa tarde de Carnaval, também em Santos, dia do aniversário de 6 anos de Miranda, dois rapazes beijavam-se com paixão, às 15h, em um ponto de ônibus. O beijo era tão ardente que chegou a ser constrangedor. Mas não porque eram dois homens, se fosse um casal heterossexual também acharia exagero, porque ali haviam crianças e idosos e cachorros. Enfim, não sou beata (bem longe disso), mas considero haver lugares apropriados para beijos tão intensos, tipo balada, calçadão da praia à noite, quarto, casa...
   Entramos no ônibus e uma outra garotinha, também com a mãe, seguindo para uma matinê, falou para Miranda: - "Nunca tinha visto dois homens se beijando". Respondi que era melhor ver dois homens se beijando do que brigando. Ela refletiu um pouco e completou: "Ou se matando". A mãe da menina me deu um sorriso de agradecimento, porque acho que não saberia o que responder para a filha. Imagino que essa criança já deva ter visto filmes em que as pessoas se matam com tiros, facadas ou requintes de crueldade, porque os filmes mostram isso o tempo todo.
    
    Já é comum ver casais homossexuais andando de mãos dadas e abraçados pelas ruas. Isso não deve chocar. O que me choca é ver casais se agredindo e xingando na rua, como presenciei no último domingo. Uma garota veio enfurecida para cima de um garoto e começou a socá-lo, repetindo "viu o que você fez?". Não sei o que o rapaz fez, mas tive pena de vê-lo levar tanto soco, com cara de perplexidade e vergonha. Só olhava incrédulo e dizia "pára, o que foi?". O detalhe é que a garota era bem mais forte do que ele, um magrelinha vestido de preto. Vai ver era emo e gosta de sofrer. Mas não deixa de ser uma cena chocante. Ainda bem que minha filha não estava junto, seria muito mais difícil explicar isso do que um beijo gay. 

   Beijo gay? Não, beijo é beijo e dizer que o beijo é gay só aumenta o preconceito. Eu quero um mundo com muitos beijos. Entre homens, mulheres, pais e filhos, mães e filhas, avós, tios, primos e amigos. Eu quero um mundo em que as pessoas fiquem chocadas com violência e não com beijos. Mesmo que só ao meu redor eu possa criar esse mundo de muitos e amorosos beijos e sem violência.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Me Abstenho Porque Eles não Valem Nada

    Apesar da crise irreversível que o País vive, da última eleição tão disputada e do meu histórico de participação política e ativismo ambiental, me abstive de escrever sobre tudo isso. Mas me sinto compelida a discorrer sobre as causas que me levaram à desilusão total, pragmatismo político absoluto e desesperança por um mundo melhor e mais justo. 
    Aos 12 anos me juntei à turma do Greenpeace para impedir a construção de três prédios de 30 andares, no Costão das Tartarugas, no canto da praia da Enseada, Guarujá. Cheguei a ver tartaruguinhas correndo para o mar na minha infância feliz e a aberração desses prédios iria fazê-las migrar e continuar migrando até não haver mais mar para migrarem. Não teve jeito. A Prefeitura do Guarujá, duvidosa desde sempre, liberou a construção em troca de milhões. Chorei muito por isso. Um ano depois tive minha primeira grande briga com meu pai, que trabalhava na construção civil e vendeu todo o cimento e cal para a obra abominável. "Se eu não vender, outros irão vender, é assim que acontece", me explicava, sem paciência para tanta ideologia juvenil. Hoje entendo o quanto tinha razão. Esse dinheiro todo talvez fosse para alguém mercenário e explorador de trabalhadores, coisa que meu pai não era.
   Na minha primeira eleição, em 1989, após os anos da ditadura, votei em Mario Covas e iria me abster no segundo turno, não conhecia Collor, não acreditava em Lula. Mas amigos petistas me convenceram que Lula seria menos pior. Votei nele. Quando o presidente caçador de marajá, Fernando Collor de Melo, convocou a população para apoiá-lo vestindo verde e amarelo, fiz carreata na avenida da praia de Santos, com carro preto e vestida de preto. Tinha esperança de mudar, tinha o frescor das ideias da juventude. Tinha endorfina e sangue nos olhos.
   
   A última vez que votei foi em 2002, no próprio Lula. Tinha esperança que o Partido dos Trabalhadores no poder daria também poder ao proletariado, que o MST, movimento que sempre admirei e apoie, ganharia força, que o desmatamento na Amazônia diminuiria, que haveria mais igualdade nos direitos civis. Eu não era proletária, graças ao capitalismo do meu pai tive muitas oportunidades e queria que os menos favorecidos também tivessem.
    Em 2003, com minha primeira filha prestes a completar 2 anos, sem apoio nenhum do pai dela (nem físico, emocional ou financeiro), fiquei realmente preocupada com seu futuro. Infelizmente não tenho o tato para vendas e negócios como meu pai e sinto muito por não ter seguido seus passos e decidido ser jornalista, uma carreira difícil, cansativa, para poucos. Na época eu tinha 20 mil reais sobrando (sim, já houve um tempo na minha vida, quando não havia processo, nem advogados, nem juízes, nem outras partes, que dinheiro me sobrava) resolvi fazer um investimento. Em novembro de 2003 procurei o gerente do meu banco para escolher uma aplicação que rendesse, nos próximos 16 anos, o suficiente para pagar a faculdade da minha filha ou comprar um pequeno apartamento, caso ela entrasse em Federal. Concluímos que o melhor seria investir na Previdência Privada, porque Lula havia sancionado uma lei que não descontava em imposto para bancos nesse investimento. Achei ótimo, até porquê sei, há décadas, que na minha velhice não poderei contar com aposentadoria. O País não tem como sustentar uma população que cresce e envelhece cada vez mais. Só pago INSS quando sou obrigada pelo holerite.  Não pago há mais de 10 anos porque jornalista contratado, com carteira de trabalho assinada, é bicho em extinção.
   Então em janeiro de 2004 recebo um documento em que meus 20 mil se transformaram em 17! O gracinha do presidente revogou a Lei, justamente entre Natal e Ano Novo, quando ninguém presta muita atenção em mudanças políticas. Pode parecer muito individualismo e talvez seja, afinal, nem o Partido dos Trabalhadores pensa no coletivo, porque eu iria pensar? Passei a ter muita raiva de Lula e sua corja.
    Em julho de 2005 estava no Chile e acompanhando as notícias do Brasil, ao lado de Francisco Javier Cabezas, meu querido Chico, vimos estarrecidos a notícia dos dólares na cueca de José Genoíno. Mandei um email na hora para Carla Stoicov, porque isso não poderia ser real, ela poderia me esclarecer melhor, talvez. Mas era! Carla, que foi petista e é uma das pessoas mais politizadas que conheço, estava em choque. Chico, que veio para o Brasil aos 6 anos, com a família, fugindo da ditadura de Pinochet, diretamente para Santo André, no ABC paulista, berço do PT e dos movimentos sindicais, quase chorou de desgosto.
      Lula não parou de me surpreender com sua soberba e egocentrismo. Houve outro caso, que poucos se lembram, mas eu, enquanto jornalista de memória privilegiada, não consigo esquecer. O correspondente norte-americano do Washignton Post escreveu que o então presidente Lula estava sempre alcoolizado em todos os eventos que participava. Lula simplesmente deportou o trabalhador para seu País, numa atitude ditatorial e que acaba com a liberdade de expressão. Se fosse uma pessoa justa levaria o caso aos tribunais, exigiria indenização. Mas não, agiu como agem pessoas sem razão e com poder ilimitado.
     Tive uma depressão arrasadora em 2004 e muitos foram os motivos que me levaram a isso. Nenhum deles foi desilusão amorosa, embora seja a pergunta que todos os homens (arrogantes) me façam. Não! Existem bilhões de homens no mundo e se um me magoar e me ferir posso chorar algumas noites, sentir dores no peito, mas sei que sempre haverá alguém melhor para mim. Como há hoje. Mas foi difícil demais ver minhas ideologias afundarem-se, não ter esperança em nada, ver meu pai morrendo em vida, cuidar sozinha de uma criança e ser desdenhada pelo pai dela, ouvindo coisas como "você quis ter, que cuide sozinha!". Foi muito difícil tudo isso, mas eu superei. Meu pai morreu e eu o enterrei. O pai da minha filha me tirou a filha e eu, finalmente, aceitei. E nunca mais votei!
     Em 2014 quase mudei de ideia, votaria na Luciana Genro no primeiro turno, mas não deu tempo de chegar na minha zona eleitoral (acho que não é coincidência o lugar onde votamos ser chamado de zona). Não votaria em Dilma para dar aval em continuar fazendo o que fazem. Não votaria em Aécio, pois parece que todos se esqueceram da tonelada de cocaína em sua propriedade. Já teve até uma ex-amiga que me disse que não acredita que ele trafique, "é para consumo próprio". Nossa, mas é cocaína para consumo próprio e para consumo de todas as futuras gerações de familiares e familiares de amigos!

    Aproxima-se 15 de março e rumores sobre impeachment. Seria o primeiro País da história a derrubar dois presidentes por clamor popular. Não estarei lá, não participo, não quero mais Dilma, mas vocês sabem quem é o vice? Michel Temer, o temerário! Seja quem for que assuma, não se iludam, nada irá mudar. Sou egoísta? Posso ser, posso ter me tornado essa pessoa amargurada e descrente, não quero mais resolver os problemas dos outros, porque muitos outros me encheram de problemas porque apenas quis ajudar. Estou onde estou e como estou porque eu escolhi ser quem sou. Não consigo nem me ajudar, nem resolver meus problemas pessoais. Como posso defender os direitos iguais se lá no Planalto está cheio de Bolsanaros dizendo que mulher tem que ganhar menos, que homossexualismo é doença? Eles não valem nada! Nem essas palavras gastas e desgastadas que vocês acabaram de ler valem alguma coisa.

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Sarro que Fortalece e o Bullying Destruidor

   Quando eu era adolescente também existia bullying. Eu usava óculos e me chamavam de "quatro olho", mas eu nem ligava porque desde a tenra infância gostava de óculos. Depois começaram a me chamar de Velma, do Scooby Do, porque eu era metida a saber tudo e parecia mesmo com ela. Adorei tanto o apelido que nem pegou. Na natação começaram a me chamar de Fanta por causa da cor do meu cabelo. Fiz até pulseirinha com o nome, não pegou. O que eu detestava mesmo era o apelido de "mosquitinho" dado pelo meu primeiro professor de natação. Detestei tanto que nadei muito para ficar forte e grande e não fazer mais sentido o tal apelido. Aliás, o professor Roberto dava apelido antes que qualquer engraçadinho pensasse em dar. Nos ensinou cedo que o sarro viria e teríamos de ser fortes para encará-lo de frente e sem medo nem de chorar.
    Mas quando eu via que o sarro chegava na cor, no peso ou na falta de dinheiro ou habilidade dos meus amigos, eu partia para cima, literalmente. Cresci e fiquei grande cedo, então até os meninos respeitavam meus braços e tamanho. Na escola, eu levantava o punho e ameaçava, caso não parassem de tirar sarro de quem já estava chorando. Depois me tornei um pouco mais diplomática...
     Então penso que o bullying sempre existiu e talvez tenha tornado muitas pessoas mais fortes. Os nerds de ontem são os vencedores de hoje. E as bonitonas e bonitões de ontem podem ter sofrido mudanças drásticas com a perversidade do tempo. Se não há nada de muito sólido no coração ou não se tem cérebro privilegiado, sinto dizer, caso não saibam, beleza acaba. E nem sempre as cirurgias plásticas dão certo.

   No final dos anos 80, quando estava no terceiro colegial e era popular entre atletas e nerds, bonitões e magrelinhos, via com tristeza um grupo ser chamado de "bicharada", porque eram visivelmente afeminados. Um outro garoto, dos mais ricos, que já tinha carro aos 16 anos e, para mim, muito bonito e inteligente, começou a passar o intervalo com eles, indo junto comer pastel. Perguntei se não se importava de ficar com os meninos na frente de todos. "Não, pelo contrário, combinei de irmos estudar lá em casa, porque vão me tirar umas dúvidas de química e física". Sim, os meninos da "bicharada" eram ótimos alunos. Passados quase 30 anos, conversei sobre isso com o tal amigo rico. Nunca imaginei, mas ele também sofria bullying, justamente por ser tão rico e sempre chamado de playboyzinho. Se achava fraco e franzino e que as garotas se aproximavam dele pelo dinheiro, não pelo que era realmente. Me disse também saber que eu não era uma dessas garotas e também por isso nunca me esqueceu. Acredito que nunca esqueceremos quem nos defendeu ou nos defenestrou.

   O que vejo hoje é tão pior. Porque existe internet! Não é só o sarro que nos fortalece. É o sarro que humilha, rejeita, coloca abaixo do cocô do cavalo do bandido! Deixa adolescentes deprimidos sem sair da cama. Fiquei muito mal quando vi uma garota linda, que era pura doçura e gratidão, me mostrar na internet fotos da "menina mais feia do colégio", rindo. Fizeram até página com fotos dela, só para todos comentarem e "zuar". Não consegui disfarçar meu repúdio. Quis parar de ver e cada vez mais fotos que a pobre menina mesma faz e coloca no facebook. "Mas ela pede para ser zuada". Não, ela não pede, ela não se acha feia e tem pais que a amam muito e a aprovam. Ainda tentei persuadir a parar com aquilo, dizendo que ela poderia se tornar a garota mais linda e popular em um futuro próximo, dando exemplos da minha adolescência. "Mas você viu como os pais dela também são feios?". Fui dormir triste pensando em como os jovens são cruéis.

    Nessa semana, uma moça passou mal, teve diarreia no meio de uma balada em um dos lugares mais badalados de Ribeirão Preto. Não procurei saber quem é essa coitada, mas já deve esta mudando de cidade, porque a história espalhou-se viralmente pela internet. Nem eu sei o que quero dizer com esse texto. Só sei que dói em mim ver isso o tempo todo de forma arrasadora. Não é mais uma brincadeira de mau gosto, entre amigos, como há 20 anos. Hoje é uma maldade generalizada com quem não se conhece. É uma inconsequência tão grande que pode acabar com a vida de um jovem para sempre, com traumas que nunca serão superados. Tenho medo e pena, ao mesmo tempo, de quem trata o outro dessa maneira. Pode me faltar tudo, mas nunca me faltará humanidade. Nessas pessoas, falta.

   Essa é uma canção (Sounds of Silence) que ouvia muito na adolescência, quando aprendia inglês sozinha, traduzindo músicas. Sempre me ajudou muito nos momentos de solidão. Aprendi também que estar sozinho é bom e que os outros são só os outros, nunca saberão o que somos realmente, o que temos por dentro. Nosso lado mais sombrio ou mais amoroso só nós mesmos conhecemos profundamente e mais ninguém. E se algum adolescente que sofre estiver lendo esse texto, saiba que isso também vai passar. Você será sempre você o os outros, apenas os outros.

* Coloquei a música traduzida porque não quero causar bulliyng em quem não sabe inglês.

http://youtu.be/-BO_6luBp34