sexta-feira, 29 de abril de 2016

Ativismo por Igualdade - Amor por Direito

    O cinema sempre foi um refúgio. Onde entro em outra história que não as minhas. Uma espécie de meditação, em que fico no presente por duas horas ou mais, parada, mas acompanhando um movimento exterior que não está acontecendo. Foi montado para acontecer daquele jeito.
   Cinema é programa que dá para fazer sozinho. Mas companhias de amigos cinéfilos (tanto ou mais do que eu), namorados (é um requisito) são sempre boas. Gosto de falar e escrever sobre filmes e ouvir outras opiniões. Decidindo com um grande companheiro de cinema (e de tantas outras maravilhas e desventuras da vida), Gustavo Liedtke, um entre tantos para ver, optamos por Amor por Direito (Freeheld). Um amor lésbico, mesmo sabendo que uma das mulheres tem câncer, parecia leve e condizente com esse momento de lutar para manter direitos adquiridos. 
    Baseado em uma história real, o filme conta a história de Laurel Hester (Julianne Moore), uma policial diagnosticada com uma doença terminal, que luta para assegurar à companheira, Stacie Andree (Ellen Page) os benefícios de sua pensão. Mesmo morrendo, a policial ia em reuniões do Condado da cidade, para pedir que aprovem esse direito. A Comissão do Condado era responsável pela votação, já que as duas não eram casadas, tinham "apenas" união estável, não havia casamento gay. O fato, ocorrido em New Jersey, no começo deste século, foi uma bola de neve que mudou a Lei sobre casamento homossexual nos Estados Unidos.
   A obra já vale pela sempre maravilhosa Julianne Moore e por Ellen Page, atriz ativista e ícone  da causa GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Trans). Ambas estão incríveis. Mas este filme deveria ser visto por todos os homofóbicos e para os que não tem opinião formada sobre união gay. Também por ativistas de causas diversas. 
    Pense numa mulher policial. Sua luta contra o machismo é diária. Ela precisa ser muito melhor do que a média para ser reconhecida. Pense que essa mulher é homossexual e esconde isso de todos. Na maturidade encontra o grande amor numa jovem mecânica. Temos aí mais um ingrediente para o preconceito: a diferença de idade.
    Se for duro demais ver beijo entre mulheres, ultrapasse as poucas cenas de olhos fechados e veja apenas duas pessoas que amam ficar e viver juntas. E que projetam e realizam sonhos. E que uma dessas duas pessoas está morrendo e quer deixar sua pensão para a outra, com quem está, de fato (mas não de direito) casada, como todos os funcionários públicos fazem. Mas precisa de votos e de Lei. E essa mulher nem era ativista e nem queria que o mundo soubesse que era gay.
    Então entram no filme personagens secundários que poderiam ser qualquer um de nós:
 - O policial hetero, branco e ateu, apoiador da causa, que nunca havia imaginado que sua parceira fosse gay e que não muda em nada a amizade e admiração que sempre nutriu por ela. 
 - O jornalista judeu e ativista gay, que convence o casal a levantar a bandeira da causa e mostra o quanto isso é muito maior do que uma pensão. Pode ser a mudança de um sistema.
- O político que sente-se envergonhado em votar contra e mal pode olhar na cara da filha, enojada pela postura do pai. A mudança que esse provoca lentamente nos demais.
- O jovem policial gay que resolve sair do armário para apoiar a colega.
- O chefe que tenta ser imparcial.
     Foi bastante emblemático ter visto esse filme com Gustavo, um ativista gay. Nesse País assumir ser homossexual já é ativismo. Mostrar em redes sociais, denunciar homofobia, falar abertamente sobre homossexualidade, querer direitos iguais e respeito é considerado petulância, arrogância. Um filme sobre direitos conquistados que não podem ser tirados é essencial em tempos de retrocesso político e avanço conservador.

   Sobretudo é um convite ao ativismo. As cenas que mais emocionaram foram as que personagens tomaram posição. Mostra a importância de lutarmos pelos direitos civis e humanos. Você não precisa ser gay para apoiar o casamento gay. Você só precisa ser justo.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Carta Aberta ao Deputado Jair Bolsonaro

    Primeiramente, deputado, gostaria de agradecer. Os absurdos proferidos pela sua boca no domingo, durante a votação na Câmara, me fizeram deixar de ser tolerante. Tenho familiares que o apoiam, via também apoio de desconhecidos na minha página de facebook. Mas quando ouvi que o seu voto é pela ditadura e torturadores, resolvi não tolerar mais os intolerantes. Tolerar não é aceitar. Nunca aceitei, mas tolerava. Hoje não tolero mais. Também agradeço porque muitos dos que estavam apenas no "oba oba" do  Fora Dilma, ficaram chocados com as declarações dos parlamentares e, principalmente, a sua. E começaram a pensar. E só agora parecem entender o que nos espera com a saída da presidente Dilma.
   Imagino que o senhor deva ter sido muito castrado na sua família, foi obrigado por seu pai a continuar no militarismo, senão apanhava, como declarou certa vez.  Talvez tivesse profundo interesse nos corpos dos soldados, mas conteve-se pela família, tradição e propriedade. 
   Em uma das suas declarações cheias de ódio, disse que gastaram bala demais com Lamarca, que ele deveria ter sido assassinado a coronhadas. Isso já mostra seu apreço pela tortura. Não basta matar com tiro não é mesmo? Seu prazer está na dor do outro, no sofrimento físico e mental alheio. Lamarca é o meu grande ídolo revolucionário, pois sendo um capitão do Exército, viu as atrocidades que estavam sendo feitas e se rebelou. Ele é muito mais revolucionário que Che Guevara, mas o Brasil ainda prefere reverenciar ídolos de outros Países. Ou fascistas como o senhor.
    Infelizmente o senhor não é um verme ou lixo, como muitos o chamam. Se assim fosse não estaria na Câmara. É um cidadão comum, que pode se eleger e está aí, indo contra os Direitos Humanos, contra a Constituição. O que me estarrece é que comete diariamente crimes de homofobia e racismo, além de incitar ao ódio, mas ainda está livre. Espero que com o desequilíbrio mental apresentado no último domingo, a OAB entre com algum pedido de cassação do seu mandato. 
     Entre algumas de suas declarações "polêmicas" (para não dizer escrotas, nojentas, asquerosas), mandou índio comer capim, negros para o zoológico e que mulher deve receber menos do que homem, já que tem filhos. Ora, deveria era ganhar o dobro, já que tem dupla jornada de trabalho. O senhor não deve ter lá muito respeito por sua mãe, não é mesmo? Ou então foi criado num ambiente tão machista que acha mesmo que mulher que usa saia curta está pedindo para ser estuprada.
      O senhor deputado não representa o Brasil. Representa a escória da política brasileira, o preconceito, racismo, homofobia, misoginia e todos os sentimentos de ódio que destroem a humanidade. Penso até que o senhor não tenha humanidade nenhuma. 
     Não desejo nada que não seja sua casssação e exclusão da vida pública. E que seus descendentes não sejam gays ou feministas, pois sofrerão muito em suas mãos sanguinárias e torturantes. 
      Aos que o apoiam e o admiram, dedico minha compaixão. São pessoas ignorantes (no sentido de ignorar), que certamente não tiveram mãe, mulheres ou filhas. Ou se tem, não as respeitam também. São pessoas, provavelmente, cheias de amargura e recalque. Pessoas que apoiam tortura e violência, segregação e insultos.
    Também tenho pensado muito em religião após o famigerado domingo. Primeiro porque não a tenho. Como não acredito em deus, também não acredito no diabo. Mas vendo-o vociferar aquelas palavras, sua ode ao militarismo, pensei diferente. O senhor parecia a encarnação do mal. O diabo. No fim, é sempre a velha luta do bem contra o mal. Deus é o bem, diabo é o mal. Essa arbitrariedade que se tornou normal na política brasileira, que confunde voto de impeachment com família e deus, tem no senhor muita representatividade. A cusparada que o deputado Jean Wyllys lhe deu está sendo muito contestada. Já os absurdos que o senhor fala no Congresso Nacional parece normal. 
     Talvez essas pessoas estejam cegas de ódio, o mesmo ódio que o senhor é mestre em disseminar. E se esses cegos não tirarem logo o véu da ignorância, em breve não haverão mais cartas abertas aos políticos. Nem eleições diretas.
  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Juízes Mandam, Globo Edita, Fascistas Ganham

   Fazer análise política no Brasil não é tarefa fácil. A coisa é tão rápida que cientista político e jornalistas ficam tontos por aqui. Tinha escrito sobre a indicação de Lula como chefe da Casa Civil. Sobre como essa decisão iria inflamar mais os ânimos dos Fora Dilma e que não havia problema nenhum querer escapar do juiz salvador da pátria, Sérgio Moro. Eu mesma, que não sou tão esperta e apenas uma mãe que perdeu a guarda da filha e ficou anos sem vê-la pela morosidade da inJustiça brasileira, discuti com o juiz e ele saiu do processo. Coincidência ou não, o processo andou mais rápido sem Ricardo Braga Monte Serrat, um juiz que não fazia nada, não decidia nada e quando decidia era algo bem duvidoso. O que dizer sobre Moro? Que é implacável contra petistas e todo rabo preso com psdebistas? É tão óbvio que só o PT é investigado. Faria o mesmo para sair da parcialidade brutal desse Moro.
    Não ia escrever mais nada sobre política nenhuma. Mas lendo um artigo do colega Alceu Castilho, sobre o fascismo crescente no País, me identifiquei com o que ele chama de "esquerda blasé". Isso mexeu com minha dignidade, com meu instinto mais esquerdista. Sim, sou blasé em várias coisas. Falo baixo, não gosto de brigas, sou pelo diálogo, até faço o que não quero fazer por não saber dizer não, não querer decepcionar e ainda gosto de filme iraniano e dinamarquês. Mas contra o fascismo não dá para ser blasé! Não dá mais para tolerar gente que odeia pelo ódio, que é "contra tudo isso que está aí", que detesta pobre (e não pobreza, que eu também detesto), que detesta negro, detesta gay, detesta petista, mas não sabe nem quem sucederá Dilma, caso ela saia da presidência, por renúncia ou impeachment.
     Quando ela foi reeleita eu estava em Ribeirão Preto. O que ouvimos (eu e Miranda, minha filha de 7 anos, que gosta muito da Dilma e acha o máximo uma mulher presidente) foi xingamentos dos prédios, de todos os tipos. Miranda perguntou porque xingavam a presidente. Respondi que essas pessoas, apesar do acesso à educação e informação, não souberam aproveitar sua sorte. Não voto desde 2002, mas sempre torço para que o eleito democraticamente pela maioria, dê conta do recado. Torço por Alckmin também! Torço para que ele perceba que a truculência que usa hoje contra manifestantes e estudantes pode se voltar contra ele um dia, seria extermínio na certa.

    Mas quando pensei em reler sobre a posse de Lula para publicar o texto, eis que uma liminar, assinada em tempo recorde (28 segundos!) pelo juiz Catta Preta, proíbe Lula de assumir. Puxa vida, fiquei impressionada com os dois pesos e duas medidas da Justiça brasileira. Uma vez pedi uma liminar para ver minha filha, já estava acordado e tudo. O pai não deixou ver. Fui até o Fórum e achei que bastava o juiz assinar e mandar um Oficial de Justiça cumprir a Lei. Mas não, ele pediu vistas para o Ministério Público, porque era difícil um juiz decidir sozinho se uma filha tem o direito ou não de ver a mãe. E lá se foram mais 5 meses sem ver ou falar com minha filha. Agora quando é com Lula, tudo é tão rápido, porque Lula vale mais do que eu? Porque não dei a sorte de pegar um juiz tão ágil? Claro que isso é ironia, caros leitores, claro que vocês já devem saber que esse juiz é um dos Fora Dilma. Todos nós temos opiniões formadas, mas levá-las a público tendo um cargo público tão elevado é, no mínimo, leviano.

    Então o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, está sendo investigado por milhões desviados e depositados em contas no exterior. E ele continua presidindo a Câmara! Ele já é réu! Pior, ele faz parte da Comissão de Impeachment!! Mas qual o problema do seu desvio? Vamos concentrar nossos esforços nos pedalinhos de Lula e no sítio em Atibaia. É muito mais amador, mais tupiniquim do que dinheiro em contas na Suíça. É a cara do Brasil. E o Paulo Maluf também está na Comissão! Aquele mesmo que eu pensei estar, finalmente, no ostracismo. As investigações contra Cunha estão paradas há mais de 5 meses. E o que dizer do senador Aécio Neves, que aparece mais no Lava Jato do que no Senado? O que dizer da meia tonelada de cocaína encontrada em sua propriedade? E o helicóptero que transportava a droga era da empresa de Zezé Parrela, amigo de Aécio, que fez três contratos sem licitação para o brother, mas isso é matéria do passado. Para que investigar? Afinal, as pessoas que querem depor Dilma são todas de bem e contra a corrupção, não é verdade?

  
    Quando a extrema direita e a Rede Globo perceberam que Lula poderia assumir a Casa Civil, o justiceiro Sérgio Moro não hesitou em passar todas as gravações sigilosas para a Rede Globo, que em edição profissional, fez de Lula um arrogante, grosseiro e que desdenha do povo. Ele pode ser tudo isso, mas ele não é só isso. A gravação inteira mostra muito mais. Alguns dos odiadores poderiam parar para ouvir na íntegra. Mas o ódio cega e ensurdece. Sei bem disso. Daí mais uma vez penso nos pesos e medidas da Justiça brasileira. Em 2011, a juíza carioca, Patrícia Accioli, foi executada com mais de 20 tiros, por policias que estavam sendo julgados por ela. Ninguém foi preso. Num País onde juiz é assassinado por ter coragem em enfrentar o tráfico, considerei, no mínimo estranho, um juiz vazar todas as gravações de Lula, inclusive, conversas com a presidente. Ele não tem medo? Claro que não! Todos os políticos corruptos de todos os partidos estão ao seu lado. Dilma caindo, Moro ganha um cargo daqueles, acima do bem e do mal, querem apostar?

    Mas os "rebosteios" midiáticos e políticos no Brasil não param por aí. Saiu enfim uma lista da Odebrecht, com mais de 300 políticos envolvidos no Lava Jato. William Bonner, o apresentador do Jornal Nacional, explicou com sua cara lavada de bom moço e voz linda, que a lista não seria divulgada. O mesmo juiz Moro decretou sigilo nessa lista. Por que? Porque o nome da Dilma não está. Nem o meu. Acho que nem o de Lula. Mas todos os outros estão e não é conveniente dar os nomes de políticos que chamaram às ruas para manifestação contra  a corrupção. Sendo que TODOS são corruptos. Inclusive você que compra DVD pirata, que passa ponto para a carteira de habilitação do amigo, que sonega...
   
   Você que está lendo esse texto em outro País e não entendeu nada, não fique constrangido. Estou aqui há 45 anos e não consigo entender até hoje. Você que está aqui e é contra "tudo isso que está aí", reflita um pouco e pense quem você quer no lugar de Dilma. Não concordo com muita coisa desse atual desgoverno. Na minha análise parca, Dilma quis ser legal com banqueiros e empresários, mas não conseguiu. E foi péssima com as classes que a elegeram. Há genocídio indígena, MST (Movimento Sem Terra) sendo desrespeitado, desmatamento recorde na Amazônia. Mas pensem que nunca antes houve tanta investigação de políticos nesse País.
   Corrupção existia, e muita, na Ditadura Militar, mas ninguém podia falar sobre isso. Os fascistas estão mostrando sua cara. E é muito feia. Na manifestação nacionalista dos verde e amarelo, dia 13 de março, estava em Ribeirão Preto, de vestido vermelho (coincidência e não provocação). Gritaram para mim, de um carro: Fora Dilma. Cheguei a fazer piada sobre o acontecido. Mas agora vejo que não tem graça. Tem mãe com bebê de colo sendo agredida por usar vermelho. Ciclista com bicicleta vermelha tomando pedrada. Sei o quanto é pequeno burguês pensar na cor da roupa por medo de represálias. Penso nos negros que acordam todos os dias e temem represálias pela cor da pele. Os valores desse mundo estão muito errados, mas ainda acho que vale tentar acertar os erros.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Culinária Intuitiva na Casa do Ernesto

   A Casa do Ernesto é um espaço de trabalho e convivência coletivo. Foi inaugurada em dezembro do ano passado. Os ocupantes são profissionais que atuam em diversas áreas, principalmente nas sociais, socioambientais e de comunicação. Há engenheiro, há jornalista. Dividimos tudo: contas, espaço, ideias, desejos, projetos (de vida e trabalho). Só para situar como fui parar nesse grupo, voltarei uns meses no tempo. 
   Em agosto do ano passado decidi mudar para São Paulo, uma cidade que adoro, apesar das coisas que se tem para odiar. Então comecei a falar com os melhores amigos que moravam por lá. Entre eles a santista Carla Stoicov. A Casa do Ernesto era uma ideia que já vingava em três cabeças (das mais pensantes): Carla, Wilson Bispo e Flora Cytrynowicz.
   Para dissipar a maior dúvida: Ernesto não é uma pessoa, é um cachorro. E a proprietária da casa, a jornalista Gisele Paulino, é  também a "dona" do Ernesto. Só que a Gi viaja muito e acabou mudando para o Rio de Janeiro, por conta de um mestrado. O Ernesto ficou. Quem alugasse a casa, hospedaria o Ernesto. Embora ele tenha uma "cuidadora", que já morou na casa com o Ernesto. Enfim, em menos de 4 meses já tem muita história nessa Casa. Isso tudo foi apenas um lead bagunçado, como disse, para situar os leitores. Essa Casa vale um post só sobre os ocupantes. Outro só sobre a inauguração. Outro sobre a primeira reunião, que estipulou "as regras" da Casa.
     Mas vamos à culinária. De pouco tempo para cá começamos a cozinhar um "resto de tudo" o que tivesse na geladeira com os que estivessem no horário de almoço (que pode ser qualquer um entre 12h e 15h). E os que estivessem vindo, trariam o que faltasse. Quem me conhece, minimamente, sabe do meu pouco potencial nas manobras do forno e fogão. Por isso sempre fui a pessoa que lava a louça e faz o café. Na semana passada, Carla perguntou/intimou: "- Amanhã você faz o almoço?". "- Pode ser macarrão?". " - Fazer o que, né? A gente come". Paralelamente, há mais de um mês, eu combinava um almoço ou café com o querido Norian Segatto. Eis que ele aceita almoçar na Casa, assim aproveitaria para conhecer o espaço. Fiquei tensa.
     No dia seguinte deixei Miranda na escola e fui ao supermercado. Lembrei da minha musa Jout Jout* e do primeiro vídeo dela que vi (apresentado há um bom tempo por Dora, claro, minha assessora para assuntos de vlog), justamente sobre culinária intuitiva
      Fui no corredor dos legumes e saladas. "Alface não ofende ninguém e tomate é um coringa", pensei e peguei. Daí acrescentei algo que dá graça em tudo: gorgonzola! Segui confiante e avistei um lindo pacote de shitake, que adoro e combina com shoyo, que dá gosto em chuchu. Para completar batatas. Quem não gosta de batata? Com salsinha e azeite não deve ter erro.
    Cheguei na Casa e só estava Carla, numa reunião por skype. Fui para a cozinha e parti para intuição. Norian chegou pontualmente, em tempo de sentir o cheiro do shitake queimando no azeite (a intuição nem sempre leva à perfeição). Então Flora e Wil ligaram para dizer que chegariam para o almoço. "Nossa! Era para ser eu e Carla e agora somos cinco!" Ainda bem que tinha um arroz integral na geladeira, que abrilhantou a salada. Mesmo assim fiquei um pouco mais tensa. Os dois chegaram com uma quirche e ingredientes para fazer brigadeiro de sobremesa. "Ufa! Brigadeiro eu mando bem".
      Para evitar mal entendido, avisei que a culinária era intuitiva. Mas no final, não sobrou grão de nada para contar história. Foi um sucesso de público e crítica. A Casa do Ernesto realmente opera milagres! E me inspirei para escrever porque quem manobrou as panelas hoje foram Carla e Beto Gomes. Fiz de novo o tal brigadeiro. Apenas repetirei aqui o comentário do Wil após provar minha especiaria: "- Dri, larga o jornalismo!".

*Cozinhando intuitivamente com Jout Jout https://youtu.be/iDMdlihU9Dw

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Descaso com Dengue deu em Zika

  Começar o primeiro post do ano falando de epidemia não era minha intenção. Pessoas que não conheço me escrevem para saber se está tudo bem, que sentem falta desses textos aqui, aparece gente nova lendo tudo. Digo que muitas coisas boas aconteceram nesses quase dois meses de ausência. As férias com minhas meninas foram simples e ótimas, muitas mudanças - inclusive geográficas e físicas - aconteceram na minha vida. Leitores me escrevendo por empatia, mais mães querendo desabafar, ouvir conselhos. Mas minha cidadania e essa mania de ter e passar informação me obrigam a falar do zika vírus. Não dá para falar apenas do meu cotidiano às vezes normal, outras surreal. Ainda mais porque este blog é lido em todos os Continentes (humildemente me orgulho muito sobre esse fato) e com tanta tecnologia e informação, é difícil crer que um mosquito possa causar tanto estrago, mas causa. 
   Segundo informações do Ministério da Saúde foram registrados 40 mil casos de dengue em 1990. Os números foram crescendo até atingir 1,5 milhões de pessoas em 2015. E sabemos que muitas pessoas passam pela dengue sem registro. Tenho um caso na minha casa. Há uns 4 anos minha mãe, que não gosta de ir ao médico, que mal fica doente, teve o que chamou de "uma gripe muito forte", passou uma semana "derrubada", por insistência minha foi fazer exame e, bingo, era dengue. Então podemos dizer que esse número pode ser maior que o dobro.
   O zika vírus foi isolado pela primeira vez em 1947, em Uganda, na África. É sempre assim, enquanto a doença mata nossos irmãos africanos, sem poder de consumo, que já "nascem para morrer de fome", ninguém liga muito. Mas depois o vírus se espalhou para Ásia e Oceania. Pior quando chega na Europa e América do Norte! 
   Como o maior transmissor do zika vírus é o mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue, não causa estranhamento a proliferação no Brasil. Mais de 4 mil casos de bebês nascidos com microcefalia nos últimos meses é assustador. Já soube de mulheres grávidas abortando sem nem ao menos ter contraído o vírus, apenas por medo. Mas é para ter medo mesmo. Já não é fácil criar uma criança saudável, imaginemos como seria saber da possibilidade de ter um filho com problemas neurológicos irreversíveis, num País onde a saúde vive em coma.
   Para piorar o quadro, os cientistas ainda não tem tanto conhecimento quanto ao vírus, nem se uma pessoa uma vez infectada estará imune. É assim com a gripe, que precisa de nova vacina a cada ano. Como o Brasil é um País tropical (sei lá se abençoado por Deus), a proliferação é maior. Até acho que o nosso Governo está informando a população e contabilizando os casos de forma eficiente. Mas teremos Olimpíadas em breve e sim, será uma situação de risco, que poderá levar o vírus para lugares onde ainda não existe.

    O que podemos fazer? Mulheres, não engravidem! Pessoas, passem repelente o tempo todo! Mas, por favor, nada disso será eficaz se continuarmos deixando a água parada acumular... estamos em guerra e não podemos perder várias batalhas para um mosquito.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Estudantes: Assim Nascem os Anarquistas

  No final de 2013 recebi um email de Mayara Queiroz, uma estudante que precisava defender o Anarquismo numa aula. Me disse que não sabia nada sobre o tema, estava perdida e chegou até minha pessoa por meio desse blog. A defesa seria como um tribunal, cada grupo defendendo um sistema político (presidencialismo, monarquia, parlamentarismo, socialismo, comunismo, capitalismo). Ela queria respostas minhas, o que achei interessante, já que não se contentava com googles e wikipedias da vida. Respondi o que pude, indiquei livros, autores e passei o contato de um amigo anarquista, Jonatas Nunes, que passou ainda mais informações.
   Eu disse ser um prazer disseminar ideais anarquistas. Mayara agradeceu: "Muito obrigada, o tribunal já acontecerá semana que vem e eu ando vendo uns filmes para me informar e tals, tudo o que souber e lembrar e puder me ajudar avise aqui, por favor". Uma semana depois recebi uma linda resposta:
  "Venho agradecê-los por toda a ajuda que me deram, a base e os ensinamentos. Sou muito grata e graças a vocês vencemos no tribunal! Arrasamos! Acabei com a vida daqueles que eram contra o anarquismo. Critiquei tão bem o capitalismo que não tinha como eles vencerem. Convenci muito bem o júri, me desconheci rsrs. Então, muito obrigada, gente!
 
  Fiquei muito emocionada, mais ainda quando soube que era uma garota de 16 anos, ainda no colegial. Nem tinha perguntado nada, pois "deduzi" que era estudante de Direito, pelas perguntas, por como escrevia bem. Me deu muita esperança porque ela disse que todo o grupo virou anarquista e os outros grupos se interessaram pelos livros e filmes que viram.
  Estava há 2 anos para escrever sobre esse acontecido, mas fui deixando, deixando e agora parece ser muito pertinente o assunto. A maioria das pessoas pensa que anarquia é bagunça, é vandalismo e em momentos como o que vivemos, com a ocupação dos estudantes nas escolas paulistas, o que mais escuto é que estão fazendo uma anarquia, mas no sentido pejorativo. Sim, esses jovens estudantes estão em um sistema anárquico ocupando as escolas. Eles estão dividindo tarefas, cozinhando, limpando, fazendo leituras, dormindo, acordando de forma anárquica, organizada.
   Pacificamente estão lutando contra o opressor, no caso o Governo do Estado de São Paulo, que impôs uma "reorganização" fechando quase 100 escolas. O Governo pensava que essa garotada era alienada e iria aceitar facilmente ser transferida para escolas geograficamente distantes, causando transtorno diário na família toda e até causando o abandono escolar. É muito antagonismo querer reorganizar fechando escolas ao invés de construir escolas novas. Os alunos conseguiram em um mês o que a APEOSP (Sindicato dos Professores de Ensino Oficial do Estado de São Paulo) não conseguiu em 20 anos: negociar e vencer a negociação com o Estado. E ainda tem gente que chama esse movimento estudantil, a mais revolucionária manifestação no Brasil neste início de século, de baderneia anarquista. Sendo que uma coisa nada tem a ver com outra.
    O mais sensato a fazer é mandar quem não entende nada de anarquia estudar um pouco de história. Seria capaz de escrever um tratado sobre anarquismo, mas vou apenas em um ponto, deste sistema que chegou ao Brasil no final do século XIX, pelos imigrantes europeus, principalmente os italianos. Primeiro uma definição simples sobre o que significa anarquia, que é a"ausência de governo". Representa o estado da sociedade ideal em que o bem comum resultaria da coerência entre os interesses de cada um. A anarquia é contra a divisão em classes e toda a espécie de opressão de uns sobre os outros. O anarquismo rejeita o poder estatal e acredita que a convivência entre os seres humanos pode ser determinada pela vontade e razão de cada um. E o ponto que quero chegar é sobre a Educação Libertária proposta pelos anarquistas, que consideram a educação uma maneira de emancipação do indivíduo e dessa forma pode nascer a base de uma nova sociedade. E é justamente essa emancipação que não interessa aos políticos e governos. Quanto mais sabemos, mais questionamos.
   Parece utopia? Sim, parece. Mas esses estudantes paulistas estão provando que não. Eles podem ser os donos das suas escolas, lutar contra o Estado opressor, que não media balas de chumbo e spray de pimenta contra esses meninos. A coisa estava ficando tão violenta que logo haveria um mártir assassinado por algum policial militar do Governo paulista. Ainda bem que o apoio dos pais, sociedade e Jornalistas Livres mostraram o que estava realmente acontecendo. Minha esperança nasceu em Mayara e continua agora nos milhares de jovens nas escolas.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Corpo é Meu

   Há algum tempo vem circulando nas redes sociais do Brasil coisas do tipo #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto. Para quem não entendeu: é uma forma da mulher liberar um assunto muitas vezes sufocado, engasgado e esquecido em algum lugar sombrio da mente. Sempre houve assédio forte e precoce e o tal "amigo secreto" é alguém que teve confiança das mulheres e traiu essa confiança, usando-a.
   Tenho incontáveis amigos homens que são muito participativos na causa do feminismo. Mas jamais poderão ser feministas, pois não são mulheres. Assim como sou partidária contra a homofobia e racismo, mas jamais poderei lutar verdadeiramente pela causa, já que não sou homossexual, nem negra. Sinto o racismo de outra forma, como senti ao ter um namorado negro. Sinto a homofobia quando percebo olhares que recriminam meus amigos gays. Então só as mulheres sabem o que é andar na rua e ouvir todos os tipos de "gracinhas", como se fossemos feitas para isso, como se fôssemos objeto de prazer. Só nós sabemos o que é ter que puxar a saia para baixo ou diminuir o decote para não sentir-se um pedaço de carne suculenta perto de ser devorada.
   Fiquei peituda e cheia de formas muito cedo. No ambiente aquático que frequentava sempre me senti completamente feliz e a vontade com meu corpo. Acredito que os meninos que nadavam, cresceram com a gente, viam tantas garotas (claro que o número masculino era bem maior), que nunca me senti devorada. Sempre me senti respeitada. E hoje percebo a sorte que tive. Às vezes penso quantas mulheres já foram estupradas e quantas vezes voltei sozinha para casa tarde da noite e nunca passei perto disso. Nem com pessoas próximas, que é como acontece o maior número de estupros infantis. É triste pensar que tive sorte, até porque tenho duas filhas e temo muito por elas também. E ainda temo por mim. E por todas as mulheres.
    Meu primeiro assédio, que me lembro, assédio pesado, veio do pai de uma amiga, uma grande amiga. Eu tinha 13 anos, um corpo de 18 e estava no quarto dela. O pai se aproximou da cama onde eu lia um livro. Passou a mão nos meus cabelos. Não senti nada de diferente, pois meu pai me tratava assim, com muito carinho, com afagos. Mas o pai da minha amiga me puxou para beijá-lo na boca. Fiquei tão confusa que só consegui gritar pelo nome dela, que em pouco tempo veio da cozinha. Ele saiu. Não contei nada a ninguém e nunca mais dormi na casa dela. Esta é a primeira vez que comento o assunto. Nunca esqueci, mas não se tornou um trauma. Foi um jeito de me tornar mais esperta quanto à maldade e covardia de certos homens.
     Não sei se foi a partir desse dia que fortaleci ainda mais meu desejo de ser reconhecida por minhas ideias e histórias e não por meu corpo e pele macia de nadadora (o cloro diário tira toda a camada de células mortas da pele, por isso, ao contrário do que se pensa, atletas aquáticos não tem pele detonada e sim, muito macia). Usava óculos e nunca pensei em colocar lente de contato, nunca tratei meu cabelo mais do que com shampoo e condicionador. Eu mesma faço as unhas e muitas vezes corto o próprio cabelo, um jeito punk de ser, do tipo "faça você mesmo". Também cortava o cabelo das minhas amigas da natação. Corto cabelo de amigas até hoje. Ontem mesmo cortei o cabelo de uma amiga.
     Tive alguns namorados muito ciumentos, que não aceitavam eu ter amizade com outros rapazes ou mesmo com ex-namorados. Acontecia que o namoro sempre acabava. Não sou de provocar ciúmes. Mas ninguém pode ser meu dono, a não ser que eu queira ser de alguém. E já quis e quis muito. Mas, geralmente quando eu quero ser só de alguém, esse alguém não quer.
    Enfim, tentei ao máximo ser reconhecida pelo que sou e não pelo que tenho ou tive. Mas nunca teve jeito. Os garotos e os homens sempre falavam dos meus seios fartos, da pele, do cheiro... aceitei. Hoje meus seios são pequenos, "murchos". E me intriga que ainda, aos 45 anos, me sentindo bem acabada fisicamente, continue atraindo pelo corpo.
     Aceitei que o interesse começa pelo corpo, pelo que é visto por fora. Mas só dura e vale muito mais o que cresce com os sorrisos, a intimidade, as histórias de vida, as caminhadas pelas ruas, as idas ao cinema, os mergulhos no mar, a amizade que fica quando o amor romântico acaba. Então decidi que o corpo era meu e que eu faria o que quisesse com ele. Sexo casual, quando você não espera, mas dá vontade e acontece. Sexo com amor, aquela coisa sublime e rara, que é maravilhosa e depois te faz sofrer. Sexo por compaixão, quando você nem está com muita vontade, mas sente tanto a vontade do outro que cede e acaba sendo muito bom também. O corpo é tão meu que digo não, mesmo com muito desejo, porque penso e sei que o depois vai ser um vazio de abismo. Não quero ser só um pedaço de carne. Não sou, nunca fui e nem serei.
      E o dia mais feliz para mim será quando todas as mulheres tiverem poder absoluto sobre o próprio corpo, sem medo de serem atacadas pela roupa que estão usando (embora muçulmanas de burca também sejam estupradas), sem agradecer por nunca ter sido violentada fisicamente. E também sei que, se esse dia chegar, não estarei mais aqui.