sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Quantos anos tem a Teia Multicultural?


   No último dia 11 de setembro, a Escola Teia Multicultural completou 12 anos. Mas essa é a idade da existência física, pois lembro da Geórgya falando da Teia muito antes, desde quando a conheci, na época do colegial. A Geo já vislumbrava uma escola que ensinasse pela arte, com memória emotiva, que colocasse na prática a teoria, que desenvolvesse várias potencialidades humanas. Para minha sorte e, principalmente, para a da minha filha Miranda, somos contemporâneas da Teia Multicultural. 
  Daí eu não conseguia colocar no site esse texto da Geórgya Piacentini Correa, no blog que eu escrevo para a Teia. E qualquer novo blog que eu criava, linkava com esse meu, que era para ter aposentado. Mas, como tudo o que a Geo escreve abaixo é verdade mesmo, inclusive conheço a maioria das pessoas citada por ela, achei que vale muito publicar aqui. Primeiro porque foi escrito no dia do aniversário da Teia. Segundo porque hoje encerram as comemorações da Semana de Arte Urbana, organizada para festejar a data.
 E, principalmente, porque acredito no método de ensino proposto pela Teia Multicultural e agradeço todos os dias pelas crianças, pelas pessoas que convivem nessa comunidade escolar.

Quantos anos a Teia Multicultural faz?
Alguns podem dizer que são doze! Mas repassando toda essa história, que não é curta nem recente, vejo que ela tem muito mais...
Na verdade a história da Teia se confunde muito com a minha história, pois ela é o resultado de uma vida, da minha vida! Quer conhecer? Te convido para esse passeio no tempo...
Para contar essa história direito, tenho que trazer para você o porquê da Arte e do Autoconhecimento, juntos.
Isso faz parte da vida de uma menina que aos três anos viveu a separação de seus pais e buscou em sua vida uma maneira de uni-los de forma harmônica, dentro de si mesma e também do lado de fora.
Minha mãe, Elza Piacentini,  desde que me conheço por gente (e coloco assim porque sei que antes tiveram diversas trilhas) segue o caminho do autoconhecimento. Encontrou-se com a Hoasca ou Ayahusca quando eu ainda era bem pequena e me levava para participar das sessões de festa desses encontros. Também moramos em um sítio onde foi criado o primeiro núcleo da região Sudeste do Brasil da UDV e se comungava o chá. Depois, minha mãe tornou-se discípula do Osho, na época conhecido (ou desconhecido) como Rajneesh. Ela teve o primeiro espaço dele no Brasil, o Soma, junto com meu tio. Moramos na Índia, na comunidade desse mestre, onde pude ter a experiência de estudar em uma escola fantástica que recebia crianças do mundo inteiro, de diferentes culturas, de pais que seguiam esse mestre e participavam diretamente contribuindo para a comunidade com seu trabalho. De volta ao Brasil, minha mãe, meu tio e meu padrasto, Jo Kamal, fundaram uma comunidade num sítio da família, conhecido hoje como Sítio Sollua. Moramos lá por alguns anos, na passagem da minha infância para o início da minha adolescência.
Meu pai, Tanah Correa, comunista filiado ao “Partidão”, que ajudou a esconder seu irmão, um dos dez homens mais procurados do Brasil durante o período militar, depois do golpe de 64, se encontrou com o teatro, logo após o meu nascimento. Começou com o movimento de teatro amador  e, em pouco tempo, eu já passava os fins de semana com ele, aguardando na secretaria de um teatro, a apresentação de Barrela e os debates que aconteciam no final das apresentações para irmos jantar com Plínio Marcos no antigo Gigetto. Meu pai  participou como ator e diretor de diversas montagens teatrais, tanto de teatro adulto, como infantil. Eu adorava acompanhá-lo, sempre com meus irmãos André Corrêa e Alexandre Borges, todos ainda bem crianças.
Quando voltei da Índia, com minha mãe e irmãos, meu pai montou a peça “Os Saltimbancos” da qual eu e meus irmãos (André e Alexandre) participamos, numa montagem com Rafael de Carvalho, Bruna Lombardi, César Pezzuoli entre outros.  Daí para frente praticamente não me afastei mais do teatro...
Meu pai e minha mãe eram, ou haviam se tornado, pessoas totalmente diferentes e, naquela época, ainda com bastante dificuldade de se relacionar. Sentia esse conflito em mim! Sentia e sinto a influência de cada um, a contribuição genética e da construção moral constituída pelo modo de ser de cada um.
Passei grande parte da minha vida fazendo teatro, dando aulas de teatro, mas nessas aulas, sempre tinham as atividades corporais e meditativas. Continuei, também desenvolvendo trabalhos de autoconhecimento, participando de diversos grupos, alguns com minha mãe.
Coordenando e dando aulas de teatro no INDAC para crianças e adolescentes, após uma longa trajetória e muitas conversas sobre um sonho de uma escola diferente, com pessoas que me nutriram com incentivos, como meu padrasto Jô e minha prima, Else Fortunato, resolvi fazer a faculdade de Pedagogia para poder compreender um pouco mais sobre o desenvolvimento dos meus alunos e, talvez um dia, abrir esse espaço dos meus sonhos, parecido com a escola onde eu havia estudado na Índia. Escrevo “espaço” porque não acreditava que poderia ser uma escola formal, devido à enorme distância das escolas formais no Brasil, as quais eu havia estudado a vida toda, escolas públicas e tradicionais. Essa escola da Índia tinha a arte e muito teatro como forma de aproximação das relações entre todos, educadores e educandos, que vinham do mundo todo e, através dela, aprendíamos muitas outras coisas, como Matemática, por exemplo.
Na faculdade de Pedagogia, nas aulas da professora Margaréte May Berkenbrock, conheci a interdisciplinaridade e Ivani Fazenda, através de seus livros. Num primeiro momento de encantamento abri uma empresa chamada Teia – Teatro e Educação Interdisciplinar, para ser utilizada nos cursos e formações que desenvolvia a partir do teatro –  O nome TEIA vinha de um teatro que meu pai teve alguns anos, em Santos, o nome era o “Teia”.
Só depois percebi que, a partir dessa abordagem interdisciplinar, seria possível abrir “aquele espaço” que inicialmente acreditava só ser possível para uma educação não formal, mas que agora percebia poder  ser uma escola formal. Comecei a escrever o meu TCC de pedagogia com esse foco, criando essa escola a partir da prática que exercia no trabalho com as crianças e adolescentes. Todos produziam espetáculos teatrais no curso de teatro - criavam os figurinos, cenografia e até material de divulgação - além de serem atores,  também dançavam e cantavam em cena, pois eu sempre trabalhava com musicais para incentivar essas aprendizagens, sem nunca tirar o olhar do autoconhecimento, mas, nesse momento, somando tudo isso às ferramentas que eu havia recebido do curso de pedagogia e criando uma escola formal. No período de escrita desse TCC, eu dava aulas de teatro em uma escola em São Paulo, onde minha filha, Thaís Piacentini, estudava e lá conheci a Elaine Naldi, que era coordenadora dessa escola e a quem passei a admirar. Eu também realizava um trabalho de jurada em festivais de Teatro e estava trabalhando em Santos, cidade onde morava a ex-mulher do meu pai, a Rosa Bertholinni, que havia saído de um processo bastante delicado de doença e que era uma pessoa bastante querida para mim.
Encantada com o que via na faculdade e o resultado com meus alunos, que adoravam o que faziam, alguns desses até hoje próximos a mim, como Bruna Marra e Francesco Marra Neto, Lara Manesco, Nicolle Fernandes, Caian Gerolamo, Marina Fagali, Luan Gerolamo, Lucas Piacentini entre outros, resolvi que esse era o momento de realmente realizar esse projeto que eu estava finalizando no papel, como TCC, com uma escola que recebia o nome Teia Multicultural, sendo o “Teia” a continuidade de uma empresa que já existia e o “Multicultural”, a partir de um livro de Gadotti, sobre a história da educação, que inclusive inspirou os textos do primeiro folder criado para a divulgação da escola “materializada”. Foi nesse momento que convidei Elaine Naldi e Rosa Bertholini para colocarmos em prática essa ideia, a qual elas desde o inicio acreditaram e passaram a sonhar junto.
Muitos outros amigos, meus irmãos, minha mãe, enfim... muita gente querida se uniu e botou a mão na massa para que essa escola existisse.
O primeiro ano foi de muita luta, pois o projeto era algo, na época, bem fora do considerado aceito e comum para os órgãos responsáveis pela aprovação de uma escola em São Paulo, trazendo muitas dificuldades, inclusive financeiras, que inviabilizaram a continuidade da Elaine nesse projeto. Ficamos, então, eu e a Rosa, e por 8 anos fui responsável pela parte pedagógica (infantil e fundamental) e pelos projetos artísticos-culturais da escola, enquanto ela era responsável por toda a organização, acolhimento e administração. Nesse período tive a oportunidade de iniciar a formação na perspectiva da Teia Multicultural de muitas pessoas, entre elas Marisa Braga da Silva, Francisco Gomes, Dalete Lima Dias, Ludmilla Correa e os próprios Juan Otarola, Joanna Leme e Tanã Ribeiro, quem vêm desde a primeira unidade, na Rua Lincoln Albuquerque.
Posteriormente, após a passagem do Mauricio Piacentini e da Maíra Scombatti na sociedade, dando suas contribuições ao projeto, nos reorganizamos, crescemos, e a Rosa passou a coordenar a Educação Infantil e eu o Ensino Fundamental, que deixou de ser apenas o Fundamental I para se tornar o Fundamental I e II. Ficamos nessa organização durante mais algum tempo, até que esse ano nos mudamos para esse novo espaço, na Rua Apiacás, que acolhe toda a proposta, lindamente, para o Ensino Fundamental.
Hoje, por escolhas que a vida nos traz, eu e a Rosa nos separamos, ela seguindo o seu caminho, emponderada desse processo e adequando-o à sua vida, sua história, e eu, aqui, continuando o meu caminho também.
Sou grata a vida, aos meus pais e a tudo o que pude aprender com eles para que chegasse aqui, na Teia Multicultural, que me possibilitou e possibilita unir o que recebi deles, a arte e o autoconhecimento, fora e dentro de mim a cada dia!


Geórgya Correa, diretora da Escola Teia Multicultural




terça-feira, 13 de junho de 2017

Abandono (de causa)

   Muitas vezes eu falei que se cada vez que alguém tivesse me dito "você escreve muito bem" - desde que comecei a escrever poesia ainda criança - recebesse um dólar, estaria rica. Mas muito cedo vi que não dava para dizer que queria ser "escritora e poetisa" quando crescesse. Foi quando decidi ser jornalista. Mas tanto ouvi que "escrevia muito bem", que acabei acreditando. E continuei escrevendo.
  Escrevia diários, poesias, poemas, peças infantis. Depois matérias, notas, entrevistas. Mas só fui começar a escrever esse blog por um motivo muito triste: minha filha foi levada por busca e apreensão da escola e ninguém me dizia onde ela estava. Passei quase dois anos sem vê-la. A Justiça no Brasil, além de não ser justa, é elitista, racista e misógina. E ao escrever desabafos fui trazendo muitas mães que passaram pelo mesmo, para perto de mim. Eram emails diários, semanais, mães em todo o Brasil. Mães que tiveram filhos levados para fora do Brasil. Mães que nunca mais viram os filhos. Mães que perderam os filhos pelo tempo e distância. Mães que perderam sanidade mental, física, emocional e acabaram com patrimônios pagando advogados, perícias, custas judiciais. Mães alimentando o sistema que lhes tiram os filhos. Então começou um certo ativismo, reuniões de mães, ações midiáticas, "boca no trombone", de repente não éramos mais uma exceção à regra, estávamos virando a regra. O pai quer a guarda do filho, ele consegue. O preconceituoso "nem puta perde a guarda de filho" é um paradigma a ser quebrado. Qualquer mulher pode perder a guarda de filho. Basta que a outra parte seja melhor assessorada judicial e financeiramente e seja homem.

   E um dia uma amiga me convenceu a fazer um projeto no site Catarse, que é um financiamento coletivo. Não é vaquinha, já que a pessoa terá produtos ligados ao projeto, no final. Me convenceram de que é tanta gente que lê esse blog, são tantas mães nessa situação - só no Brasil cadastramos mais de 2 mil - que só pode ser um projeto importante para alertar a sociedade das infâncias perdidas dessas crianças. Das vidas destroçadas dessas mães.

  Então pensei: por que não? A ideia do Catarse é contar, inicialmente, com a ajuda de amigos e familiares. Minha família se resume à mãe e às filhas. Parentes tenho muitos, mas não são meus admiradores, nem nunca torceram muito por mim. Ao contrário, alguns querem me ver pelas costas. Puxa, mas amigos são a família que escolhemos, tenho tantos amigos pessoais. Muitos virtuais. Alguns virtuais que ser tornaram tão reais. E são tantas mães nessa situação, querendo mudar esse quadro do judiciário, que trata criança como objeto, que a tira de onde está, leva para onde nunca esteve e, anos depois, diz que não pode mudar mais, pois a criança agora está "adaptada" e outra mudança será ainda mais prejudicial. Acreditei que era um projeto importante e, mesmo não atingido a meta, teria muita adesão e isso seria um ótimo indicativo para que alguma editora abraçasse a causa - e a edição. E como sou pessoa que pensa na saúde financeira alheia, entrei no Tudo ou Nada - ou consigo arrecadar tudo e faço o que tenho que fazer ou devolvo o dinheiro aos financiadores.

  Mas eis que, faltando cinco dias para terminar o prazo de atingir a meta do projeto, apenas 14 pessoas aderiram. Isso mesmo, 14! O valor mínimo é de 20 reais. Sei que há uma crise mundial. Mas são 20 reais. E algumas pessoas que apoiaram nem me conhecem pessoalmente. Isso me fez refletir muito e chegar a algumas conclusões e certezas:
1 - Não escrevo tão bem assim.
2 - A causa não tem tanta importância.
3 - Tenho  muito menos amigos do que imaginava.
4 - Meus parentes realmente não me apoiam em nada.
5 - As pessoas falam, mas não fazem.
6 -O grupo de mães precisa de ajuda, mas não está disposto a ajudar, nem quando é pela própria causa.

   E eu, aquela pessoa que não tem mais braços para abraçar tantas causas, percebo que muitos estão de braços cruzados. Eu abraço movimento negro, feminista, LGBT, combate ao trabalho escravo e infantil, proteção animal, crianças órfãs... Mas no mundo nem tudo que abraçamos nos abraça de volta. No fim, minha filha já tem 15 anos, nos vemos quando dá e quando podemos. O tempo voa e ela fará 18 em breve e não precisará mais pedir nada para o guardião legal. E as próximas mães que perderem a guarda e me encontrarem por esse blog e me enviarem email - que sempre respondo da melhor e menos dura forma - terão minha resposta mais sincera. Só o tempo e a morte resolverão. O tempo passa, a morte vem para todos. E a morte não é só a literal. Matamos algo dentro de nós todos os dias. Já matei muita coisa que estava dentro de mim, como o ódio, a mágoa e o rancor. Sendo assim, como Elsa (a princesa), livre estou.


Se nada der, vou ouvir Pixies até morrer. I love you, I do.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

Um livro dessas histórias - com financiamento coletivo

   Quando comecei a escrever esse blog foi para enviar aos amigos mais próximos, pois levaram minha filha da escola, com busca e apreensão, e nem me disseram para onde foi levada. Só três meses depois fiquei sabendo que estava em Ribeirão Preto (eu morava em Santos), na casa dos avós paternos. No início eu escrevia sobre minha dor e sobre o processo judicial. Depois comecei a escrever sobre minha vida, para que um dia minha filha soubesse um pouco mais sobre quem foi a mãe dela. Meu medo era de morrer sem poder vê-la novamente. Não queria que lembrasse de mim apenas como a mãe sofredora. Fui muito mais do que isso.
     No começo eu achava que era a pessoa mais "cagada de pombo" que poderia existir. Tive descolamento de placenta e repousei a gravidez inteira. Parei de trabalhar alucinadamente, de nadar quase todos os dias, de sair quase todas as noites para teatro, shows, cinema e festas. Fiquei quietinha esperando Dora nascer. E me martirizava pensando o porquê disso tudo acontecer comigo. Remoía todos os meus erros. Me arrependia de ter me desfeito de todos os meus bens (inclusive o último carro que foi como honorário para advogada), sem ter minha filha de volta. Mas pouco tempo após começar a escrever o blog recebi uma mensagem da Elaine César, que também tinha perdido a guarda do filho e também escrevia um blog. O caso dela era muito pior do que o meu. Ela estava grávida do segundo filho e tinha câncer. E me ligava quando lia algo que escancarava o quanto eu estava deprimida e acabada com toda a situação. A Elaine é personagem fundamental dessa história e está nesse blog.

    Depois veio a Natália Nogueira, de Recife. Ela viu uma matéria na Rede Globo em que a busca e apreensão da minha filha foi gravada. Natália correu para o google e achou o blog. Nos tornamos amigas. Ela, tão mais nova do que eu, tinha perdido a guarda do filho quando ele tinha 2 anos. E ficou dois anos sem vê-lo, morando na mesma cidade. Não acreditava como ela conseguiu suportar tanta dor. Depois eu também fiquei sem ver minha filha dois anos. Foi quando decifrei a melancolia dos seus olhos azuis. E não sei mais como foi a sequência de mães, mas elas foram vindo semanalmente na minha página e me mandavam emails, que eu respondia prontamente, vinham em dezenas, depois centenas. Uma história mais estapafúrdia do que a outra. Cheias de erros judiciais, advogados que perdiam prazos, juízes que não tem prazos para nada, promotores que acusam sem provas (apenas com o que advogados escrevem). Aprendemos na pele que em Vara de Família todos são culpados até que se prove o contrário. 

    Não por coincidência o texto mais lido do blog é o "Nem Puta Perde a Guarda de Filho", porque é o que mais ouvimos, porque é cheio de machismo, de preconceito, porque carregamos esse estigma de "se perdeu a guarda, boa coisa não é". Engano. Quem nunca conheceu uma mãe que perdeu a guarda é porque nunca conheceu um pai que quis a guarda. E, quando os homens conseguem, nunca cuidam sozinhos do filho. A maioria vai morar com os pais, terceirizando os filhos para os avós. Ou então estão em outro relacionamento. E de um pula para outro e para outro. Homens que afastam os filhos das mães não querem o bem dos filhos. Eles querem a derrocada das mães. Geralmente são mulheres independentes, bonitas, felizes e bem resolvidas. E muitos homens não suportam "perder" mulheres assim. Eles ferem onde mais dói. No coração de mãe. E a Justiça patriarcal também é elitista, sempre quem tem mais dinheiro vence. Sempre.

Do luto à luta - Conheci a história da Adriana Botelho, de Salvador, que teve sua filha levada para Portugal há 6 anos... e nunca mais a viu. Fiquei muito amiga também da Flavia Werlang, uma jornalista carioca que mora no Sul. Primeiro ela teve que ir na Justiça para o reconhecimento da paternidade. Tem até um blog sobre ser mãe solo. Mas quando sua filha tinha 4 anos, foi arrancada da escola, no mesmo processo que dizia que a filha não era matriculada em escola nenhuma. Afinal sabemos que juízes não leem o processo inteiro, vão direto na última página.

    Uma vez recebi uma mensagem desesperada de uma mãe também do Sul, Adriane Wieslewski, deprimida, sem conseguir sair da cama, pensando na morte e não mais na vida, pois tinha perdido a guarda do seu único filho e também se achava única. Hoje a Dri é uma militante, que viaja para conhecer outras mães, que dá apoio, que forma grupos. Já veio passar um final de semana na minha casa. Não recuperou a guarda do filho, mas segue lutando. E seguimos amigas.

   E há pouco mais de um ano conheci Luz. Ela me trouxe um lado ainda mais sombrio dos processos de guarda, em que crianças são abusadas e entregues aos abusadores. Mas com as sombras também vieram luzes. Mais militância. Uma mãe vê o processo da outra, dá apoio moral, psicológico, dicas judiciais, conselhos maternos de como reencontrar o filho afastado, como agir com os adolescentes que não reconhecemos mais.

   E tem as mães do Rio de Janeiro, ah, essas cariocas descoladas. Como a Luciana Mendonça (que na verdade é paulistana), que perdeu a guarda do filho e ficou uns anos sem vê-lo, mas o garoto cresceu e ao atingir a maioridade procurou por ela. E agora sabe a mulher incrível que foi tirada (por um tempo) da sua vida. A Luh nos dá muita esperança, sempre. Assim como a Lívia, que ficou 4 anos longe dos seu casal de filhos, enquanto cuidava da caçula super especial. Sempre com sua voz doce e calma e suas lentes sensíveis (ela é fotógrafa). E com seu coração de mãe aberto para receber os filhos de volta. Tem a história triste da Débora Carneiro, que não viu a filha crescer e agora já tem um neto. E que verá crescer! E tem a Carol... ah, a Carol, tão feminista, tão militante. Sua filha mora em São Paulo e tive o prazer de passar o final de semana do dia das mães com as duas, na minha casa, com minha filha caçula... porque Dora continua morando em Ribeirão Preto e continua bailarina e tem ensaios. E a nova exigência do pai é que ela só venha me ver se for de avião, pago por mim, claro. Mas sabemos, eu e ela, que dia das mães é uma data comercial. Ela tem tanto de mim que até assusta. E sei que nem o tempo, nem a distância, nem ninguém conseguiu romper o elo de amor que nos une.

   E não caberão aqui todas as histórias, que estarão no livro que nasceu deste blog. Nele estarão os desdobramentos de várias narrativas do blog. O que aconteceu com os processos dessas mães e filhos? Por que a Justiça é tão lenta? Por que deixa as crianças crescerem em fóruns perícias, buscas e apreensões? Nós alimentamos esse sistema, pagando peritos, advogados, custas judiciais. É muito interessante para o judiciário alimentar litígio. Esse é só mais um lado obscuro e moroso do nosso judiciário.

   Para esse livro ser editado, publicado e lançado me convenceram a entrar no financiamento coletivo do Catarse. Por isso estou aqui, divulgando. Como já está tudo pronto e sou uma pessoa ousada, entrei no Tudo ou Nada. Tenho até 18 de junho para arrecadar todo o dinheiro, caso contrário, é devolvido aos financiadores. O outro "pacote" era de um ano. Não quero esperar mais um ano. Nós todas esperamos demais.

  Para participar, conhecer o Catarse, saber como funciona e divulgar acesse www.catarse.me/pt/e_tudo_verdade_mesmo_848c

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ato pela Liberdade de Rafael Braga

   No dia 20 de junho de 2013, justamente dia do meu aniversário, o Brasil parou em manifestações motivadas pelo aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus e metrôs da cidade de São Paulo. Começou pelos 20 centavos, mas seguiu por várias reivindicações. O Brasil quase viveu um Estado de Sítio. O movimento já se alastrava há algumas semanas, mas o ápice foi no dia 20 de junho e alguns manifestantes foram presos. Apenas um continuou encarcerado: Rafael Braga, preto, pobre, catador de latinhas, sem nenhuma passagem pela polícia. Em sua mochila havia produtos de limpeza. A polícia disse que era para fazer bomba caseira. Tenho para mim que ele nem imaginava como se fazia bomba caseira. Certamente, agora já sabe.
  Ele seguiu preso por mais de três anos, teve liberdade condicional. A polícia novamente parou Rafael e o revistou. Desta vez encontrou 0,6 gramas de maconha em sua mochila, então, no dia 20 de abril de 2017 ele foi julgado e condenado há 11 anos de prisão. 
  Desde que Rafael Braga foi preso, essa história ficou na minha cabeça, que já estava cheia de erros judiciários. Desde a semana passada, quando saiu o seu julgamento, fui tomada por indignação. Apesar de branca, tenho contato com várias lideranças de movimentos negros e quilombolas. E vi tomar corpo um ato pela liberdade de Rafael Braga. Enquanto a ação se formava, alguns diziam que Rafael é só mais um, que as prisões estão lotadas de Rafaeis. Concordo, mas Rafael é emblemático. Ele é preso político, ele é preso pelo racismo, pelo preconceito. 
   Trabalhei por alguns anos na assessoria do governador Mario Covas, minhas áreas eram Segurança Pública e Administração Penitenciária, como sei que pouca coisa mudou, aliás, só piorou, porque Covas era um bom político, Alckmin é ladrão de merenda*, sei do que estou falando. Interessante ao Estado manter gente presa. Muitos serviços são terceirizados, cada detento vale dinheiro para o Estado. Muitos inocentes ficam esperando serem julgados dentro de celas, passam anos nessa situação. E quando (e se) libertos, já aprenderam tudo sobre vingança, ódio e injustiça. Não pensem que pagamos por cada detento. É o Estado que recebe por eles. 

Ato Histórico pela Liberdade

   Ontem peguei minha filha Miranda, na escola Teia Multicultural, e seguimos para o vão do MASP da avenida Paulista, na vigília pela libertação de Rafael Braga. Por redes sociais foi organizado um movimentoAlckmin é ladrão de merenda* que se estendeu por vários Estados do Brasil e alguns países da América do Sul. Quando chegamos, uma via da avenida já estava bloqueada. Um carro de som dava voz às lideranças de movimentos negros. Entre uma voz e outra, um rap de protesto. Alguns, como eu e Miranda, acendemos velas.
   Uma líder negra vociferou palavras contra brancos que prendem e matam,  que ali só deveria ter preto, que estavam aproveitando a ação por Rafael Braga para convocar a população para a Greve Geral do dia 28 de abril, para a Marcha da Maconha, dia 6 de maio. Não seria eu, a branquinha que sofre há 13 anos no Sistema Judiciário, a dizer que ali não era para libertar um preto pobre, era para libertar a todos do sistema judiciário corrupto, vendido, assassino. Não seria eu a dizer que, se maconha fosse legalizada, ninguém seria preso por portar 0,6 gramas de maconha. Nem pretos, nem brancos, nem amarelos.
   Mas eu entendia o discurso de ódio dela. É uma mulher e negra. Eu sofro por ser mulher, imagino o sofrimento em dobro, se fosse negra. Eu entendi quando ela disse que "Querem que nosso movimento seja pacífico? Alguém é pacífico com a gente?". Eu entendi o ódio dela, a vontade de gritar sua raiva. Também tenho vontade de vomitar a minha. Por coincidência ou não, após sua fala, chegou a Força Tática do Exército. Muitos carros da polícia já estavam lá quando chegamos. Ninguém teve medo, ninguém foi violento. A partir daí palavras de ordem contra a violência militar. Depois todos sentamos na avenida Paulista e fizemos um minuto de silêncio. Após o silêncio, uma líder gritava nomes como "Amarildo! Claudia! Luana! DG! Maria Eduarda!". Todos mortos por balas da Polícia Militar. Amarildo até hoje desaparecido. E todos respondíamos: Presente!
   Um grupo de atores negros fez uma encenação muito comovente por ser absolutamente verdadeira. Apenas retrataram o que vivem todos os dias. "Preto não tem medo de morrer, a gente sabe que pode morrer de bala perdida todos os dias". "A caneta da Justiça nos mata todos os dias. A caneta da Justiça nos mata todos os dias". Eu chorei. Porque fui morta várias vezes em Fóruns, fui desqualificada, fui desumanizada. Eu e tantas mães. Eu e tantos jovens negros. Eu e tanta gente pobre. Eu sou mais uma a ser morta pela caneta da Justiça. Rafael Braga não será mais um. 


 * O Governo de Geraldo Alckmin desviou dinheiro das merendas das escolas públicas do Estado de São Paulo. Até hoje, nada foi feito. A Justiça não é cega. É corrupta, elitista, patriarcal e branca.

sábado, 22 de abril de 2017

Kurt Cobain, Hannah Baker e o Tabu do Suicídio

   No último dia 20 de fevereiro eu estava vendo um vídeo do Nirvana. Minha filha Miranda, 8 anos, que adora a banda, mas nunca tinha visto "a cara dos caras", olhou para Kurt Cobain e disse: "- Que bonitinho! Ele já morreu?". A pergunta pode parecer estranha, mas é que desde a descoberta de que Tim Maia estava morto, ela percebeu que a maioria das pessoas que gosta de ouvir, já não está mais aqui. Depois perguntou se morreu novinho ou velhinho. Novinho. Como? De uma doença. Qual doença? Uma que deixa a pessoa muito triste, tão triste que ela não quer mais viver. "Tão novinho, tão lindinho, fazia cada música legal, não tinha ninguém para ficar com ele?".
   
   Depois disso, nem disfarcei minhas lágrimas. Me dei conta de que seria o aniversário de 50 anos de Kurt Cobain. Lembrei do dia da sua morte, quando eu estava no carro esperando minha prima Keila e ouvi a notícia na rádio. Quando ela entrou, sempre tão linda e falante, viu que eu estava meio em transe. Éramos fãs do Nirvana. Nós duas choramos. Ouvimos Nirvana a noite inteira. Não achei romântico, não achei bacana ser mais um se matando aos 27 anos. Senti muita raiva, principalmente porque não fui no show do Nirvana quando vieram ao Brasil e só porque tinha um jogo coletivo de pólo aquático. Eu era dessas que achava que teria outra oportunidade, porque estavam no auge e viriam muitas vezes ao Brasil. 
   O suicídio de Kurt Cobain acabou com muitos sonhos, inclusive o meu de vê-lo ao vivo, vivo. Quando ele morreu o mundo foi obrigado a falar sobre suicídio. Agradeço a ele por fazer as pessoas pensarem sobre isso, se importarem com a depressão. Seria imensamente melhor que continuasse fazendo músicas lindas, expressando os sentimentos juvenis de angústia, filosofando sobre dor, vida, amor, morte. Seria melhor ainda para a filha dele que cresceu sem pai. Mas, se houve algo de produtivo nisso, algum valor em sua morte precoce e trágica, foi trazer o assunto para a superfície.

   Cada religião tem um paradigma, uma doutrina, ou seja lá o que for, já que não tenho religião nenhuma e pouco sei sobre essas doutrinas. Quantas guerras santas a humanidade já viveu? Vejo muçulmanos e judeus se odiando, católicos contra protestantes, evangélicos contra espíritas, contra umbandistas, daimistas. Nunca chegam a acordo nenhum, porém, unanimemente, condenam o suicídio. Para muitos é pior ser um suicida do que um assassino. Homicidas tem perdão. Suicidas não. Talvez porquê se todas as pessoas que sofrem, que não encontram sentido na vida, que não suportam tanta desgraça, guerra e ódio, começarem a relevar o suicídio como saída, poucos sobrarão. E não terá mais igreja, dízimo, hereditariedade, herança, Governos.

   Tive uma depressão profunda em 2004. Pessoas próximas, que me conheciam desde que nasci, falaram que era falta de problemas, falta de tanque de roupa suja para lavar. Pessoas que me conheciam há pouco tempo passavam todo o tempo comigo, só para eu saber que tinha alguém do meu lado. Só para fazer algo que eu conseguisse comer. Estou falando de dois amigos que terão sempre um espaço gigante para tapar o buraco que às vezes surge no meu coração: Paula Gil e Marcel Santos. A Paulinha tinha histórico de depressão na família e sabia que era algo muito grave. Marcel não conseguia entender porque me sentia assim, nem eu entendia. Mas ia na minha casa cozinhar para mim e minha filha Dora, na época com 2 anos, cuidar do meu jardim, das minhas cachorras. Talvez nunca saibam (ou fiquem sabendo agora) a gratidão eterna que terei por eles. Outros também me ajudaram e posso estar sendo injusta em não citá-los. Mas esses dois fizeram por mim algo inesperado para o pouco tempo que me conheciam. Não havia motivos para me quererem tão bem.

  Quando finalmente venci a depressão, outras lutas maiores vieram. Lutas que já detalhei nesse blog. E claro que deprimi de novo e de novo e de novo. Só que mais calejada, identificava a melancolia, a tristeza que, se deixasse, me derrubaria outra vez, me deixando sem vontade de comer, sem vontade de dormir, sem vontade de ser, sem vontade de fazer. Ninguém fica assim porque acha bonito. Aliás, também ficava sem tomar banho, sem lavar os cabelos. E cheguei a pesar 45 kg. Não, isso não era bonito, inclusive, era muito horrível. Depois da crise, percebia o tempo perdido, a vida indo embora tão rápido, eu envelhecendo. E depois disso queria fazer tudo: encontrar amigos, viajar, fazer amor, nadar, ler, escrever, trabalhar, cuidar. Depois disso, teve um ano, 2013, que perdi duas pessoas que amava muito, no espaço de 6 meses, levadas pela mesma doença. Então me culpava porque elas eram cheias de vida e vontade de viver. E eu, cheia de saúde, tive vontade de morrer.

  Tem um motivo para a depressão? Sim, é a falta de serotonina, um neurotransmissor responsável pelo ânimo. E você luta para produzir serotonina e não consegue. Porque é difícil para quem tem depressão ir na praia, praticar esportes ou caminhar. Até levantar da cama pode ser um obstáculo imenso a superar. E então existem os remédios. Ah, como a indústria farmacêutica ama os deprimidos. E para quem nunca tomava remédio nem para gripe, como eu, é fácil viciar nesses remédios mágicos, que deixam as unhas da sua cachorra Nirvana, azuis. Sim, eu tive uma cadela pastor alemão chamada Nirvana, que surgiu na minha vida um mês após a morte de Kurt Cobain. E ela tentou muito me tirar da depressão. Tanto que até morreu de câncer. Não entendia o meu abandono. E eu queria me enfiar embaixo da terra cada vez que a veterinária me falava que eu não estava cuidando bem dela...

  Os tempos andam tenebrosos. Paira uma nuvem de guerra no ar. Os reacionários estão surgindo aos montes, as redes sociais dão vozes aos cheios de ódio, aos covardes, preconceituosos e tolos. A maioria das crianças fica entretida em celulares, tablets, notebooks. Vejo entristecida pessoas se comunicando apenas por aparelhos. Faltam abraços, faltam olhares, falta amor. Eu tenho medo do futuro, como nunca tive. Não por mim. Por minhas filhas. Por meus amigos, por meus amores. Eu sempre tive essa mania de sofrer pelos outros, pelo mundo. Queria ser mais ignorante, apenas ignorar os acontecimentos e seguir numa simplicidade burra, alienada, mas feliz. O conhecimento pode deprimir. Mas é tanta gente fazendo o mal que não podemos descansar. Temos de continuar lutando para tentar mudar esse panorama mundial catastrófico. Porque o que acontece na Síria também nos atinge aqui.

13 Reasons Why

   Então começa uma séria na Netflix sobre uma adolescente que comete o suicídio e deixa fitas cassetes sobre as suas razões, culpando alguns colegas e um conselheiro da escola. Eu vi no dia que começou, por acaso, sem saber bem o que era. Pensei até que fosse algo bem adolescente, bobinho. Mas não é, ao contrário. E leio várias matérias sobre as razões de não ver essa série. Psiquiatras dando mais de 13 razões para não ver. E muitas pessoas começaram a me marcar para não ver. Mas era tarde. Acompanhei cada crise de ansiedade do garoto Clay e queria dar uma adiantada para ouvir logo as fitas, já que ele não ouvia tudo de uma vez. Soube até que o livro que originou a série foi proibido no Brasil. E no livro ele ouvia tudo em uma noite.
   Li jornalistas falando que a série poderia causar o Efeito Werther, termo usado a partir da onda de suicídios que aconteceram na Europa após o lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), do autor Johan Wolfgang von Goethe, que eu considero uma uma obra-prima. Os suicídios foram relacionados à influência do personagem de Goethe. Porém esse impacto nunca foi confirmado. São apenas tentativas científicas de correlação. Acredito que seja o hábito humano de encontrar culpados para tudo. É mais fácil colocar a culpa numa série do que analisar os motivos do suicídio juvenil. É a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. 
   Na minha humilde análise, recomendar não ver a série é só um atrativo a mais para vê-la. Ao invés de criticá-la ou censurá-la deveriam debatê-la, ver como uma oportunidade de falar sobre o assunto com jovens. Foi o que eu fiz com minha filha adolescente. Com a amiga da minha filha, filha dos meus amigos. Não falar de suicídio não vai evitar  que ele aconteça, só vai trazer mais culpa para quem fica. Algumas razões da personagem Hannah Baker podem parecer banais, mas para quem está deprimido, sentindo-se isolado, ridicularizado e abandonado, qualquer olhar cínico pode ser um motivo. Fazer piada da tristeza alheia é desumano. Precisar ter uma série sobre como as pessoas se tratam mal para percebermos que precisamos ser mais gentis  uns com os outros já é um parâmetro de como a humanidade vai mal. Eu não quero mais nenhum jovem ou velho se matando porque se sente sozinho. Mas isso vai continuar acontecendo. E precisamos falar sobre isso. Da próxima vez que você ouvir alguém próximo ou nem tão próximo dizendo que "não aguenta mais viver" ou que "preferia estar morto", pode ser mais do que uma força de expressão. Pode ser um último pedido de socorro. 

Um pouco de música para os fortes, feita por alguém que nunca foi fraco:


  



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Miranda, 8 Anos de Resistência

   Na primeira semana de junho de 2008, Tamer Fadida, meu vizinho em Paraty, o melhor vizinho que alguém poderia ter, me chamou mais uma vez para participar do Temascal, dessa vez com seu irmão, que acabara de voltar do México, onde viveu com xamãs. O Temascal é um ritual que usa pedras quentes, numa cabana, com pessoas e cantos xamânicos. O lugar era lindo. Na montanha do Coriscão. Só não podiam participar mulheres menstruadas e grávidas no primeiro trimestre. Olhei para a querida e sempre presente em momentos decisivos, Flavia Vieira. Era a única que sabia do meu comportamento sexual de risco há 8 dias (fazer sexo sem camisinha e correr o risco de engravidar ou contrair uma doença sexualmente transmissível). Pensei que a possibilidade de estar grávida era remota, já que eu estava há alguns dias de completar 38 anos e a matéria, de capa de uma dessas revistas semanais era, justamente, sobre fertilidade. Dizia que após os 35, as chances de engravidar caiam para 15%. Além disso, eu tinha uns problemas no ovário esquerdo. Enfim, fui no Temascal.
  Era como uma sauna seca muito quente, com cantos xamânicos. Não tomamos nada, nada mesmo, além de água. Senti a pressão cair. Fiquei tão mal, que não conseguia falar. Fui desfalecendo e me deixando deitar na terra fria, sentia uma batida compassada no útero. Estava quente, batia forte, eram pontadas, mas que não doíam. Contei para Flavia, que na hora disse: "você está grávida". Era um coração. Ela era muito forte muito antes de nascer.
   Mas só faziam 8 dias. Era coisa da minha cabeça. Segui meus planos de ir para o Ceará de jipe, atravessando o sertão, com Flavia e Dora, que tinha 6 anos. A viagem foi maravilhosa, longa, cansativa, mas melhor do que eu esperava. Lá tudo correu muito bem, até o dia em que vomitei sem parar, fui parar no médico, que me deu parabéns pelo bebê! E o que se passou na gravidez não é muito diferente do que milhões de mulheres passam. Sozinha. Aliás, sozinha não, sempre contando com a presença de muitos amigos. Mas nenhum pai para o bebê. O genitor não quis saber. Até entrei com pedido de exame de paternidade, ainda grávida, só para constar nos autos, porque sabemos o quanto a Justiça patriarcal protege os machos. Fiquei chateada, mas nem tanto, vai que depois o cara quer a guarda do bebê. Olha, isso eu posso dizer, melhor criar um filho sozinha do que passar uma década querendo o filho de volta... e não ter.


    Mas com esse cenário, não curti a gravidez. Que não precisou de repouso. Eu estava linda, nunca me senti tão maravilhosa. Morava num paraíso, comia só comida saudável, nadava, fazia hidroginástica, caminhadas, viajava, cuidava da filha, trabalhava. Mas não fiz enxoval, não queria coisas de bebê, quis mudar de cidade, estava tão insegura. Só descobri o sexo aos 6 meses. O nome foi sugestão da irmã. Não consegui imaginar nome mais bonito e mais sonoro do que Miranda. Ela nasceu em Santos, sete dias após a irmã mais velha completar 7 anos. Assim que nasceu fui invadida de amor por aquele bebê grande, de covinhas, que dormia oito horas seguidas, mamava sem parar e acordava sorrindo.
    E engatinhou muito cedo, começou a andar aos 10 meses. Chutava tudo o que via pela frente, logo dei uma bola porque pensei que só poderia ser uma jogadora de futebol quando crescesse. Mas não, ela continuava chutando as pessoas. A bola era usada mais pelas mãos. Essa menina linda e saudável nasceu sem pai, como tantas outras. Isso não é assim tão dramático, tão único.
   Mas uma semana antes de fazer 2 anos, teve a única irmã levada, por busca e apreensão, para Ribeirão Preto. Nós nem sabíamos onde a irmã estava. Eu dizia que foi viajar, estava passeando. Por 15 dias corria ao portão quando ouvia buzina. Achava que era "sua Doinha" chegando da escola. Olhava fotos da irmã e dizia: "minha Doinha" e chorava... brincava com as bonecas da irmã, até que passou a detestar Barbies, só queria bonecas bebês. Eu evitava tudo que era dança, bailarinas... porque ela lembrava da irmã e chorava. 
   Isso aconteceu em fevereiro de 2011. Em dezembro do mesmo ano, o avô morreu. O velhinho que nunca a pegou no colo. Nem falava mais, porém, que ela idolatrava. Quando meu pai foi para uma clínica, Miranda foi visitá-lo muito mais do que eu que, egoísta, não suportava a dor de ver meu pai com 40 kg, com olhar perdido, sem lembrar de mim. Miranda não via nada disso. Ela ia lá e ficava fazendo carinho na cabeça dele, conversava com os outros velhinhos e comia um lanchinho. Ah, sim, ela é muito comilona, mas muito mesmo.
   Dos 2 aos 5 anos de idade ela me acompanhou em fóruns, buscas e apreensões, infinitas idas até Ribeirão Preto, na esperança de ver a irmã, e nada. Voltava chorando, triste, querendo chutar ainda mais as pessoas e esse sistema que ela não conhecia, mas já era vítima. Por que a Justiça a impedia de ver a irmã? Por que os avós e o pai da irmã não deixavam que ela visse a irmã? Por que sua irmã não a procurava? Por que não voltava? Então, ela passou a dizer que a irmã tinha morrido. Ela queria matar essa dor dentro dela. Foi o que pensei, foi o que uma amiga psicóloga, Kátia Chigres, observou. 
    Mas elas se reencontraram. Foi difícil, mas o amor é imensurável, é recíproco, é infinito. E passamos por tantas nesses 8 anos de vida da Miranda. Tantas viagens, tantas mudanças, tantos transtornos. Tem noites de insônia que fico olhando para ela e penso como esse tempo poderia ter sido melhor, como eu poderia ter me dedicado mais à ela do que ao processo, como esse processo minou minhas forças, quase me enlouqueceu (sim, é totalmente kafkaniano). Mas Miranda sempre esteve ali: forte, alegre, saudável.
     E, entre todas as nossas mudanças, por mais que ela sinta falta da praia e da vovó, São Paulo foi a mais acertada. Não que tudo esteja bem e dando certo, mas porque foi em São Paulo que encontramos uma escola, a Teia Multicultural, em que ela pode desenvolver suas habilidades, sem tantos padrões, onde não me chamam para dizer que ela pode ter "hiperatividade", que ela é "difícil", "terrível". E foi numa manhã de fevereiro, há pouco mais de um ano, indo para a Teia, que ela parou para ver um treino na Tat Wong Pacaembu. Eu, meio leiga em artes marciais, disse que era karatê. "Não, mãe, karatê não é". Era kung fu! Ela fez uma aula experimetal, amou, continuou, diz que será Ninja, que vai ser uma kung fu até ficar velhinha, já fala até 20 em chinês. E um dia, conversando com o Shing Guilherme, ouço, orgulhosa, que ela tem um chute muito forte e, que se continuar assim, até os 13 anos pode ser faixa preta. Então contei dos chutes que sempre dava e que agora não chuta mais. Só no kung fu. "Adriana, as crianças dão sinais pra gente o tempo todo, elas mostram suas aptidões". E eu, que só tinha olhos para o processo, não enxerguei algo tão evidente! 
    E agora, quando penso nesses 8 anos, sei que sem ela, muitas vezes não teria saído da cama. Foi ela que com sua energia fora do comum, me fazia fazer alguma coisa. Foi ela que me fez cozinhar com prazer. Sem ela eu não teria me cuidado para cuidar dela. Sem ela eu teria mais tempo, mais dinheiro, mais liberdade, mas seria mais triste, mais sozinha, sem esperança. Hoje ela completa 8 anos, acaba, oficialmente, a primeira infância. Só espero ter mais acertos do que erros daqui para frente. E que ela siga sendo minha companheira para tudo. E siga gostando das músicas que gosta. E para ela vai hoje uma música do "gordo", como ela chamava o genial Tim Maia, antes de saber seu nome. Sim, ela é fã de Tim Maia, assim como Nirvana. Ela anda pela rua cantando Que Beleza https://youtu.be/Nq_AOktdhts. Ela é minha fortaleza, com quem divido tudo e que ninguém divide comigo. Miranda é feliz. E é essa felicidade, essa vontade de "fazer coisas legais" é o que mais admiro nela. Além de todo o amor que ela me dá.


   

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hoje Faz 15 Anos


  Faz 15 anos eu estava na Maternidade Pro Mater, pertinho da avenida Paulista, para embarcar na aventura humana de ser mãe. A mãe humana é diferente das outras mães. Não é só instinto de preservação, o parir, lamber a cria, amamentar e nutrir. E depois que o mamífero cresce e se vira sozinho, “adeus meus bebês”. Mães humanas são animais racionais que pensam no “é pra vida toda”, porque a mãe humana continua mãe depois que o filho vai embora. A mãe humana tem até a Síndrome do Ninho Vazio quando o filho sai de casa. Isso deve seguir até uns 50 anos depois de ser mãe. O filho nunca sai do coração da mãe humana. Muitas vezes, nem da alma.

  Ah, mas isso estava tão longe dos meus pensamentos há 15 anos. Eu só conseguia olhar aquela menininha perfeita de 3.640 kg e 47 centímetros. Linda, apertava meu dedo enquanto mamava loucamente. Nossa, como meus seios, que já não eram pequenos, estavam imensamente enormes! Quando fui ao banheiro pela primeira vez constatei que minha barriga ainda parecia carregar um feto de 7 meses. Sangrava como nunca havia sangrado na vida, talvez precisasse usar uma fralda! E nada disso importava. Eu só conseguia olhar no espelho e ver uma mulher linda, de pele incrível, olhos brilhantes, sorriso encantador. Depois de 7 meses e meio de total repouso, estava cheia de energia para fazer de tudo.
  Nem tinha rede social, celulares fotográficos e mesmo a câmera digital, ainda começava. Era sábado de Carnaval em São Paulo, não esperava ver tanta gente no quarto. A gravidez foi cheia de histórias e tão delicada que pessoas muito queridas a acompanharam de perto e fizeram questão de estar lá na hora da chegada da aguardada Dora. Parecia uma festa, cheia de gente que falava alto e ria num ambiente repleto de endorfina. Eram amigos e familiares meus e do pai da minha filha, que chorava emocionado sempre que olhava o bebê. Eu, para ser bem sincera, não chorei na hora do parto, nem logo após. Estava mais aflita com os procedimentos cirúrgicos, com as agulhas e anestesia. Chorei mesmo quando cheguei no meu apartamento três dias depois e vi que dali em diante era eu e o bebezinho. Mas, para minha surpresa, foram meses de aleitamento, paz, conhecimento humano e estado de graça.
   Tem aquela história da mãe que sonha em ter filha bailarina. Nunca fui a mãe dessa história, aliás, antes de ser mãe, não me imaginava mãe de história nenhuma. Mas eis que minha linda filha, sempre tão delicada no toque das coisas e na descoberta das palavras (e que transbordava alegria nas risadas banguelas e nos abraços apertados) começou a andar na ponta dos pés. Logo soltei um “vai ser bailarina”, de forma meio irônica, porque sabia que minha filha sempre seria o que ela quisesse. Nunca estimulei protótipos, ao contrário. Mas a menina era louca por Barbies, 50 tons de rosa e bailarinas. Também cantava Roda Viva, do Chico Buarque, aos 3 anos. E sempre gostou de Mozart. Mas eu nem achava isso coisa de gênio, achava que era coisa de quem é minha filha mesmo. Também era o bebê simpatia que andava de carrinho pelas ruas dando oi e acenando para todos. Adorava uma estrada e arrumar mochila para viagem. Tanto que fizemos parte do Guia 4 Rodas Bebê a Bordo, em 2003, o que resultou numa matéria do lançamento do livro na TV Cultura. Conversava com a câmera, como se fosse minha filha!

   Hoje esse ser tão amado faz 15 anos. Ainda não lhe desejei feliz aniversário. Há alguns dias não acessa internet. Ela já deve ter acordado e ido para sua nova escola. Tento imaginar como é o quarto em que ela dorme, quem é a pessoa que a acorda ou se acorda sempre só. Penso como foi seu café da manhã dos 15 anos. Se comeu frutas. Enquanto tomo meu café amargo e puro, sozinha na cozinha, lembro nossas manhãs em São Paulo, quando começou a comer à mesa, sentada em seu cadeirão, experimentando todos os tipos de queijo que nosso querido amigo Clayton, trazia para salutar degustação. Lembro a casa que moramos em Boiçucanga, nossos cafés da manhã na varanda. Cheios de músicas de passarinhos.
  Tento imaginar seus novos amigos na nova escola. E também os antigos, que eu não conheço. Lembro de todos os amigos do jardim da infância, alguns com quem ainda tem contato. Também lembro o jeito que ela acordava, me dando bom dia, sentando no meu colo, me abraçando e me beijando. Sempre assim, carinhosa. Tento imaginar quem foi a primeira pessoa a lhe dar feliz aniversário hoje. Quem lhe escreveu a primeira mensagem a ser lida. Escrevo há alguns dias, mas não obtenho resposta. Sei que ela sabe que escrevo e sei que algum problema cibernético a impede de me responder. Não há fiações e conexões falhas que consigam cortar o elo telepático que existe entre nós. Mesmo não fazendo parte dos seus aniversários, suas festas, formaturas, seus ensaios, sei quem ela é. Ela sabe quem eu sou. Sou a mãe que nunca está no dia-a-dia. Não porque não queira, não porque não tente ou tenha tentado de todas as formas. Não imagino o que doeu nela. Sei da dor que isso causou e causa em mim.

   Não sou uma mãe do cotidiano. Sou mãe com hora marcada, mãe nas férias. E nem sempre o tempo marcado é o tempo certo, o necessário, o desejado. Mas é o melhor tempo, é o que temos. E os melhores momentos, os dias mais felizes são os dias com ela. Podem ser 5 ou 500. O que sempre vejo nela é beleza. Nas suas opiniões, indecisões e certezas. Além de que tudo ao redor dela se torna mais leve. Estilo A Insustentável Leveza do Ser.

A vida como um musical

   Assim que aprendeu a andar na ponta dos pés, saiu dançando. Antes dos 3 anos a professora Juliana Andrade veio me pedir para dar aula para Dora, “porque era bailarina nata”. No que eu concordava plenamente. Seguiu bailando por Santos, na Rosely Ballet e na Escola de Bailado Municipal de Santos. Quando saíamos para o supermercado, praia ou cinema, a menina começava a bailar, saltitar e cantar, dentro do contexto, como um musical. Eu achava lindo e dizia, com orgulho, “a vida da Dora é como um musical”. Ela continua dançando. Agora na Carla Petroni, em Ribeirão Preto. Tem verdadeira paixão pela dança. A Dani, coreógrafa do Municipal de Santos, já me dizia que Dora pegava coreografia muito rápido e que “inventava” passos durante os intervalos dos ensaios. E eu incentivava a música e a dança na vida dela. Porque dança é arte e esporte. Acho complexo.
   Então nas últimas férias fomos ver La La Land no Cine Belas Artes, o meu preferido em São Paulo. Só não foi perfeito porque não conseguimos ingressos para a sala Drive In, mas compramos adiantado e fomos curtir a Paulista sem carro no dia do aniversário da cidade. Antes do filme, ouvimos muita música dos artistas de rua que tocavam pelas esquinas e calçadas, dividindo espaço com exposição de quadros, posters, pinturas e artesanatos. Comemos no nosso tradicional local da Rua Augusta. E chegamos meia hora antes da sessão para tomar um café. Estávamos ansiosas para saber os motivos de tantas indicações ao Oscar, além de ser musical, o que significava ter muita dança e Dora estava saudosa das aulas, louca para sair bailando.
   Confesso que musical não é minha preferência de gênero cinematográfico. Mas o dia estava incrível e estar disposto já faz você gostar de algo antes de conhecer. Enfim o filme começa e tem duas cenas musicais seguidas, se só assim fosse, talvez eu não gostasse tanto. Mas começou ter um roteiro bom, apesar de comum. Pessoas que querem seguir sonhos. Pessoas que pensam em desistir dos sonhos. E tantas referências de musicais e homenagens. E casal carismático que filosofa sobre vocação, submissão ao sistema e rejeição. E muito jazz. E cenas incríveis. E alguma vontade de chorar, mas não sabia porquê. Às vezes uma sensação de estar vendo uma obra-prima à minha frente. Outras de estar com minha obra-prima ao lado.
   E quando a última estação do filme se aproximava do final, as lágrimas vieram e fui secá-las com a mão, que estava cheia de sal das pipocas. Não sei se chorava da cena do filme ou da cena real. Ao olhar para o lado, vejo Dora quase aos prantos. Não sei se vamos superar esse dia ou esse filme.

   Só espero que siga levando a vida como a dança, com leveza, com paixão, treinando, aprendendo, conhecendo, aprofundando, algumas vezes no chão, outras flutuando. Hoje ela faz 15 anos! E eu só desejo que o seu dia seja cheio de amigos e música e amor. Porque os amigos são nossa escolha. E a música dá sentido à vida. E o amor é o que nos protege do mal.