quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Sentença

    Nem esperava mais ver minha filha neste ano. Não por faltar esperança, mas por estar dentro da roda viva (ou morta) do sistema judiciário brasileiro. Explico: meu processo estava no gabinete do juiz desde 24 de abril para ser julgado, mas havia outros desde janeiro lá, que não foram "apreciados". Junte-se a isso ano de Copa do Mundo. Para quem não sabe em dia de jogo do Brasil os fóruns de todo o País só funcionaram até meio-dia. E juiz só trabalha a partir das 13h. Logo, por seis dias nenhum juiz do Brasil participou de audiências ou julgou qualquer coisa. Não, nenhum deles precisa repor esses dias. Depois tem eleição em outubro e novembro. As coisas também empacam mais ainda no Judiciário.
    Então preparei minha filha de que não nos veríamos neste ano. Ela ainda pediu para eu pedir visita de novo na sala do Fórum de Ribeirão Preto. Mas expliquei que, para isso, seria necessário tirar o processo do gabinete do juiz e depois voltava para o fim da fila. Então minha filha me escreveu:" daí demora mais, né? Sim, filha, daí nem em 2015". E parei de falar de processo porque ela não quer saber disso. Ninguém mais quer. Ninguém mais aguenta. 
    Daí dei sequência em um projeto em que passaria até o final do ano (ou até quando o juiz resolvesse dar uma sentença) no Assentamento Terra Vista, em Arataca- BA. Seria uma experiência incrível para mim e para Miranda morar em um assentamento do MST (Movimento Sem Terra)! E lá também iria escrevendo um outro projeto de livro, o qual detalharei em outro post.
     Mas eis que no dia 26 de junho, em plena Copa do Mundo, contrariando toda a falta de expectativas, tudo mudou. Saiu uma sentença! Nela o juiz decide que poderei ver minha filha em Ribeirão Preto de 15 em 15 dias. Aos sábados das 14h às 19h e aos domingos das 10h às 16h. Sempre assistidas por alguém que a outra parte indique. Sentenciou também que terei de fazer terapia (a louca) com psicólogo e apresentar relatório no final do ano. Se tudo correr bem, a partir de 2015 poderei pegar Dora aos sábados 14h e devolver domingo, 16h.
     Dessa forma estaremos sempre, invariavelmente, na casa da minha amada amiga Paola. Não sei se o juiz sabe que tenho essa amiga de infância lá, se pensa que fico em hotel ou espera que eu mude para Ribeirão Preto. Esperei longos 3 anos e 4 meses para ter essa sentença... me sinto muito derrotada em nunca mais poder trazer Dora para Santos, para ver os amigos... mas é melhor do que uma sala no fórum por 2h30, só na segunda-feira, com psicóloga monitorando.
      Fiquei sem saber o que fazer após essa sentença, essa é a verdade. Perguntei para Dora se soube sobre as visitas. Disse que sim, mas não quis prosseguir, imagino que não saiba muito ou que não tenha achado tão bom assim também. Enfim, aproveitei que já estava preparada para ir para a Bahia e fui para lá com Miranda e o que aconteceu em Arataca (onde fica o Terra Vista) e depois em Brasília, onde passei 4 dias, é assunto aí para mais uns dois posts.

     Como o juiz deu 15 dias para a outra parte dar o nome da pessoa indicada e já passou mais do que isso e nada foi colocado, imaginei que minha indicação, a amiga Paola Miorim, estaria valendo. Já que estava em Brasília, pensei em pegar um vôo de lá para Ribeirão Preto que é mais perto, imaginando que no próximo final de semana eu teria um passeio mais decente com Dora. Sei lá, um parque, ar livre, sol, almoço na casa de Paola, preparado por nós todas: eu, Paola, suas filhas Lívia e Giovana, eu, Miranda, Dora e a pessoa que seu pai indicasse, que com certeza acabaria simpatizando comigo e com minhas amigas. Mas nada de respostas, nem de minha advogada, que ficou doente.
     Resolvi perguntar direto para a fonte. Estava no facebook (meu contato mais frequente com minha filha) e lhe pedi para perguntar para seu pai se teria visita. Rapidamente me respondeu "meu pai disse que não vai ter visita nesse final de semana". Bom, ao mesmo tempo que a resposta definiu meu roteiro de viagem, me deixou numa angústia irritante. A impressão é que o processo é todo dominado pela outra parte. Ele meio que manda em tudo no processo. Deve pagar muito bem a advogada... já eu tenho até pena da minha, que fica até doente e não recebe nada de mim, só uma gratidão tosca. Acabo ficando tão estressada com tudo e quase todos e, como ela é a única pessoa que pode me ajudar, acho que atrapalho cobrando respostas.
     Mas enfim voltei e nada de data da visita, mesmo com sentença. E não sei se mudo para Ribeirão Preto logo de uma vez. E me sinto perdida. Daí fiquei ouvindo muitas músicas e parei nessa http://youtu.be/RQ-6BXsaDD0. Mas não posso me sentir como uma música dos Smiths. 
     Então pensei nos dias lindos que passei em lugares distantes da Bahia. Depois na ensolarada Brasília, com muita gente alternativa e linda e pensei que a vida é muito mais que um processo. Me resta esperar. Vou continuar esperando da forma mais suave possível.. E essa música linda de amor é para minha filha Dora, que amo tanto e que nem toda a distância, tempo, burocracia e gente escrota do mundo será capaz de diminuir ou estancar esse sentimento. Nada melhor do que um ataque de fofura com Fernanda Takai e Samuel Rosa para curar essa dor http://youtu.be/OprMsRlHFBE .

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mis Hermanos Argentinos

    Meu primeiro contato com argentinos foi aos 16 anos, quando fui para uma competição no Clube San Fernando. Não sabia falar nada de espanhol e fiquei uma semana na casa de atletas. Eram 3 nadadores: Pablo, 16 anos, Florência, 14, Natália, 10. Fui tratada como filha e irmã. Os pais me disseram que poderia abrir a geladeira quando quisesse e comi uma caixa inteira de alfajor (não conhecia essa delícia), depois me deram duas caixas para levar para o Brasil, uma para mim e outra para meus pais. Chorei na despedida de tanta saudade antecipada. Alguns meses depois recebi Florência em casa e também Gabriela, que era recordista sul-americana de 800m nado livre (um luxo e uma das minhas provas preferidas na época) e nada tinha de arrogante por isso, ao contrário, era muito divertida e incentivava outros nadadores sempre.
   Algum tempo depois minha prima e grande amiga Keila, uma "parabólica" de argentinos, namorou Max. Depois conheceu um argentino guitarrista gato e eu acabei namorando Diego, o baterista da banda, que era lindo, inteligente e apaixonado, tinha 21 anos e eu 23. Quando levei Diego para passar um final de semana em Paúba (litoral norte de SP), com amigos brasileiros, alguns falaram: "Pô, namorar argentino?". Depois de algumas horas, Diego já era amigo de todo mundo, muito divertido e cheio de charme. Um tempo depois Keila conheceu Guadalupe Bárcena e Ximena Spina, que se tornaram minhas grandes amigas.
      A primeira vez que fui para Búzios (RJ) fiquei na casa de Marcela Ferioli e ela nem estava em casa.  Fiquei lá com o pessoal da banda Nova Semente, e as filhas de Marcela que estavam com o pai e a boadrasta argentina Gabriela Klet (pessoa linda, de quem me tornei muito amiga). Dois anos depois morei em Paraty e Marcela, seu companheiro Sebastina e suas filhas Raiz e Alice mudaram para lá. Nos tornamos as melhores amigas. Seu caçula Leon foi gerado na mesma semana que Miranda e eles tem cinco dias de diferença! Com Marcela voltei a fazer yoga e fizemos vários programas de grávida juntas.

   Tudo isso para dizer que há quase três décadas convivo com hermanos, conheço sua cultura, seus talentos, suas características, seus defeitos. Admiro como são politizados, independentemente da classe social, como gostam de literatura e música. Assisti todos os jogos da Argentina na Copa do Mundo e vi uma equipe que ia se acertando e melhorando a cada jogo. Não escrevi durante a Copa porque não me envolvi muito, admito que torci para o Chile vencer o Brasil nos penaltys, e que assisti ao jogo com camiseta do Brasil e agasalho do Chile (um pedaço do meu coração mora lá). Sabia que se passasse do Chile e Colômbia, os "canarinhos" tomariam uma lavada da Alemanha. Tudo bem que a minha lavada era de 3x0, mesmo tão realista não esperava a goleada histórica. Mas no final os 7x1 foi pouco. Foi evidente que os alemães se controlaram para não fazer mais gol. Eu torcia mesmo era para Neymar e assim que ele foi lesionado perdi a vontade de ver jogo da Seleção. 
    Desde as oitavas de final eu pedia para ver jogo da Argentina na casa de Ximena e seu companheiro Sebastian Madruga, com os filhos Axé, Leon e Joakin. Mas nunca dava certo a combinação, até que fui lá na semifinal com Miranda (que se considera prima dos meninos e adora dizer que é Argentina). Ximena achava que eu não poderia ir porque só os que viram desde o começo juntos deveriam seguir assim até o final. Já "Sebá" observava que uma brasileira torcendo sinceramente para a Argentina só poderia trazer sorte. E foi assim que assisti o excelente e emocionante jogo Holanda e Argentina. Nos penaltys eu torci em pé e pulei abraçada com meus hermanos.
    Um dia antes da final minha mãe fez uma reunião para comemorar seus 79 anos. Fiquei muito feliz ao ver que vários primos iriam torcer para os hermanos. Assim como minha mãe, que gosta demais de Ximena e Guadalupe. Mas fiquei completamente irritada com outros parentes que só falavam mal dos argentinos como povo, chamando-os de racistas e arrogantes. Gente que não conhece argentino e nunca esteve no País. Gente que se deixa manipular pela mídia que incentiva esse quase ódio contra os argentinos. O que vi nas redes sociais foi um absurdo de torcida contra, de palavras de xenofobia. Chegaram a me mandar morar na Argentina já que gosto tanto deles! E olha que moraria em Buenos Aires fácil...
     Na derrota cheia de garra e luta para a Alemanha, fiquei tão triste que Ximena acabou me consolando: "Jogamos bem, fomos vencedores, nem esperava ir tão longe, é só um jogo". Mas com muita alegria viajei para a Bahia, fiquei no Assentamento Terra Vista, em Arataca, e lá os assentados torceram para a Argentina com fervor. Entendem que essa quase cultura de ódio é uma estratégia do império para que os latino-americanos não sejam unidos. Que nós da América Latina juntos seríamos tão fortes e independentes que nenhum país imperialista seria capaz de nos dominar. Mas essa é história para outro post.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Brilho Efêmero da Vida

   Fiquei muito tempo longe daqui, eu sei. Recebo emails perguntando se está tudo bem, que estão com saudades dos meus textos, querem minhas opiniões sobre o "vai ter Copa, não vai ter Copa" e tantos eventos importantes que acontecem em meu País. Não, não está tudo bem, mas de certa forma, muita coisa mudou para melhor. Surgiram mais pessoas incríveis na minha vida (que detalharei em outro post), voltaram grandes amizades, afastei algumas pessoas que não me faziam bem e perdi outras para sempre - sim, com a morte, mas não falarei de morte, porque o que eu quero é a vida. Muitas mães continuam me procurando para consultoria sobre guarda de filhos. Passei um tempo tão pessimista, que não conseguia responder. Mas coloquei as correspondências em dia.
    O mais curioso é esse exato momento. Estou em Ribeirão Preto, na casa da minha amada amiga Paola Miorim, sozinha, durante o jogo BrasilxMéxico, em plena Copa do Mundo. Não lembro de nenhum jogo de Copa na minha vida em que estivesse sozinha. Pensei que ia me concentrar no jogo, coisa que nunca acontece quando tem galera, mas o jogo está tão ruim, tão truncado, que comecei a ouvir música e bateu vontade de escrever, dar sinal de vida, ter respeito com as milhares de pessoas que acompanham o que escrevo. Estou aqui em Ribeirão Preto porque trouxe os presentes para Dora, que estão se juntando comigo desde o ano passado. Continua tudo na mesma e não vale mais gastar dedos digitando sobre isso, acho que só vale falar do processo quando algo mudar, talvez em 2016, nas Olimpíadas. Miranda está cada dia mais linda, forte e saudável e a deixei em São Carlos, aos cuidados de Adriana Abujanra e suas amadas filhas, Manu e Sofia.
    Sobre a Copa, infelizmente, nunca estive tão desanimada. Adoro esportes e já deixei claro que futebol também faz parte das minhas paixões. Estou vendo os jogos na medida do possível, mas nunca fiquei tão sem torcer, tão alheia. Torci para Portugal porque lembrei muito do meu pai e de sua indecisão nas Copas, mas acabava sempre torcendo mais para o Brasil, porque ia mais longe. 
    Estive em algumas cidades sede, fora do eixo Rio-São Paulo, e o que vi foram estádios inacabados (com estruturas provisórias) e canteiros de obras onde deveriam ser ruas, metrôs e aeroportos prontos. Mas isso não importa, o que importa é que tem jogo, que os turistas estão adorando o Brasil e nós somos mesmo um povo receptivo e simpático. E tomara que nada de ruim ou catastrófico aconteça até o final desse grande evento, que até agora tem tido ótimos jogos. É futebol e queremos ver gol. Só esse que estou vendo agora não sai do zero a zero.
    Sobre o xingamento direcionado a presidente do Brasil na abertura da Copa, não concordei, achei feio e ineficiente. Vaia é universal e o mundo inteiro entenderia, xingamento em português poucos entenderam na hora. Fora que é muito feio mesmo ficar xingando. Deixa pra xingar nas urnas, ora. Daí os governistas ficam culpando a elite branca que estava no estádio. A Copa foi feita para a elite (branca ou não branca) e não para o povo, basta ver os valores dos ingressos. Também já foi exaustivamente divulgado o quanto foi gasto de dinheiro público para essa Copa e até agora não temos legado nenhum, a não ser estádios. Agora me digam, para que um estádio "padrão FIFA" lá em Manaus, onde nem tem time? Numa região que falta até luz elétrica? Deveria ter reclamado antes? Reclamamos antes! O Deputado Romário reclama desde que entrou para a Comissão da Copa.
     No dia de escolher a sede das Olimpíadas 2016 eu não queria que fosse no Rio de Janeiro, mas quando foi escolhida, fiquei intimamente feliz, é minha chance de ver os melhores nadadores do mundo, na minha competição preferida do mundo. E se não correrem, vai ser outra demonstração de atrasos e desvios de verba e descaso.
   Esporte é uma paixão e estou muito feliz em estar entrando em um novo projeto e um novo mundo esportivo para mim, que é o Rugby e, novamente, escrever a história de um grande atleta. Mas isso também é assunto para outro post.
     Conheci novas crianças, todas carentes. Tão cheias de amor que vou passar meu aniversário com elas, daqui três dias. São carentes de família, mas excedem amor. Quanto mais eu dou, mais eu tenho. E em outro post, escreverei sobre elas.

    E a música que não consigo parar de ouvir é Hiding Song, de Rafael Aviz, o menino que conheci no dia em que nasceu. Sonhei com ele, antes de sua mãe ficar grávida. Assim que ele liberar, compartilho para todos vocês. Passaram quase 19 anos de seu nascimento, como foi rápido. O menino que uma vez dei banho quando tinha 4 meses, deixei entrar água no ouvido e, pela primeira vez, aquele anjinho, chorou sem parar. Ninguém sabia o que era. Sua mãe, minha querida Mariana, teve quer ir embora de Paúba até Santos, para levá-lo ao pediatra. Como passou rápido... hoje é um compositor de primeira, que faz músicas que me representam. Sou a fã número 2. A 1 é sempre a mãe!
   A vida passa rápido e todos nós nascemos para brilhar. Todos os dias  vejo pessoas brilhantes. Todos nós temos um talento, nem que seja descobrir o talento dos outros. Por mais que fatos tristes me acompanhem, que fatalidades me aconteçam, não consigo deixar de amar. E ficar feliz com a quantidade de pessoas lindas que cruzam e voltam no meu caminho. 

sábado, 10 de maio de 2014

Que Nossos Filhos Continuem Nos Amando

    Dizem que é apenas uma data comercial e que dia das mães é todo dia. Não, não é. Para uma mãe proibida pela Justiça de exercer a maternidade, nenhum dia é dia de ser mãe.  E essa data comercial passa a ser de uma dor incomensurável. Imagino que o mesmo aconteça para crianças sem a presença da mãe viva. O que pensam? Nem sei mais qual o valor desse dia (e dos outros dias) para minha filha.  Esse será o quarto ano consecutivo que ela passará sem mãe.
    Espero (só o que tenho feito é esperar) que no próximo ano esse quadro mais surreal que uma obra do Salvador Dalí, mude. Será que o juiz conseguirá decidir alguma coisa nos próximos 12 meses? Nem que seja uma negativa, para que eu possa recorrer?  Será que algum dia das mães terei minhas duas filhas juntas, comigo?
   Tento imaginar o que a família da minha filha tem falado para ela nesses anos. Não a vejo desde dezembro, numa visita pedida pela minha advogada, pela proximidade do Natal. Deixei de ir nas visitas em outubro, por um mês, e perdi o direito. Agora se quiser ver de novo, tenho que fazer novo pedido. E isso pode atrasar ainda mais o processo. Como em novembro fizemos vários pedidos, minha advogada concordou que seria melhor esperar e ter 10 dias de férias. Passaram as férias. Esperei o aniversário dela. Esperei o Carnaval, depois a Páscoa. Logo chegarão novas férias e se continuar assim, não a verei o ano inteiro. Ou então vou ter que pedir de novo visitas monitoradas no Fórum. 
   Quando eu tento explicar para ela, por mensagem, os trâmites legais, numa linguagem menos burocrata, diz que não quer saber desse papo. Resta deixar que falem o que quiserem falar.Espero que não falem que a esqueci, como sempre, só espero. Como explicar que visitas de 2h, numa segunda-feira, a 500km de distância, é algo muito complicado? Talvez eu deva mudar para lá. Miranda já me sugeriu isso. Miranda diz muitas coisas que me impressionam. Dia desses falou do nada: “Tenho certeza que quando a Dorinha fizer 18 anos vem morar com a gente”. Me deu vontade de chorar, mas não choro mais na frente dela. Apenas a abracei. Se Dorinha seguir meus passos estará morando em república e fazendo faculdade com essa idade. Morar de novo com a gente é um sonho que eu deixo Miranda continuar sonhando. Derrotista eu? Não, é só usar a lógica: se em 3 anos 4 meses não consegui nem um fim-de-semana... 
    Sei que todas as mães proibidas pela Justiça de estarem com seus filhos estão sofrendo mais neste mês. Falo com todas. Mais duas me procuraram na última semana. Uma delas tem o perfil tão parecido com o meu, respondi o primeiro email, mas nessa semana não consegui responder nada sobre o assunto. Não quero que percam antes de lutar. A outra tem um bebê de meses. Como dizer para ela que já vi uma mãe amamentando um bebê de meses em um visitário público? 
    Minhas amigas Adriana Botelho e Luciana Mendonça já escreveram sobre o dia das mães. Sei que outras irão escrever. Sei o quanto sofrem e o quanto sentem. Sei que pensam em desistir e muitas vezes tentam esquecer. Sei que não conseguem. Sei que as mães que tem outro filho tentam preencher o vazio e a falta daquele que foi levado. Sei que também não conseguem. Mas tenho uma certeza intuitiva que, de alguma forma, esses irmãos serão capazes de juntar os cacos e montar um mosaico muito lindo. Sinto que serão capazes de retomar o vínculo e contar as histórias que foram proibidos de viver juntos. 
    Nas minhas noites de insônia imagino minhas filhas encontrando-se com os filhos dessas mães minhas amigas, formando um grupo de apoio, contando suas experiências pessoais, fazendo um trabalho de reforma judiciária, mudando Leis. Porque nós, as mães, vivemos um lado da história. Tem a outra parte que conta o que quiser. Só eles, nossos filhos, quando crescerem, serão capazes de avaliar o estrago que seus pais e o sistema judiciário fizeram em suas vidas. O buraco que deixaram. Espero que superem tudo isso e façam muita diferença nesse mundo caótico. E que continuem amando muito suas mães. Cazuza, meu querido poeta, errou ao afirmar que “só as mães são felizes”, mas nós merecemos sim “todo o amor que houver nessa vida”. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Jornalismo de Internet: Linchamento e Idolatria

    Ontem assisti ao telejornal local e fiquei chocada com o linchamento de uma mulher aqui onde estou morando. No meu último post fiz um parágrafo inteiro de críticas ao Guarujá – descaso com saúde, educação, segurança pública - mas tirei porque poderiam me confundir com uma bairrista. Estou farta de confusões causadas na internet. E essa mulher sofreu um assassinato coletivo, causado por um boato. Não vou falar como o boato se propagou, pois posso ser leviana ao propagar mais erro e discórdia. Porém, mesmo que ela fosse uma sequestradora de crianças, para usá-las em magia negra, teria direito de defesa. 
    Há algum tempo uma corja de “jornalistas” dissemina discursos de ódio e intolerância. Só fico observando o tanto de “amigos” e parentes reacionários concordando com tudo isso, postando textos simpatizantes de Datenas e Sherazades da vida. Já me questionaram sobre liberdade de expressão, se proibir a tal Sherazade de incitar linchamento não seria coibir seu direito de expressão. Penso que nossa liberdade termina quando atinge a dos outros. E o outro tem o direito de defesa, sempre. Penso que toda história tem duas versões e é preciso sempre analisar profundamente as duas. 
    O mais assustador é que várias pessoas, vendo a selvageria, preferiram gravar no celular do que ligar para a polícia. Talvez a culpa, além do estado de barbárie e escuridão que a maioria da humanidade se encontra, seja também desse jornalismo de internet. Talvez porque essas pessoas sentem-se abandonadas a própria sorte, desacreditem do sistema judiciário e achem normal fazer justiça do olho por olho, dente por dente. 
   Acho ótima essa era digital. Quem me conhece sabe do meu interesse por todo tipo de inovação tecnológica, desde sempre. Lá nos anos 90 eu procurava em sites de revistas científicas, notas para colocar no jornal Diário do Grande ABC. As publicações eram em inglês, de mídias muito bem conceituadas, mesmo assim eu temia fazer tradução errada ou que a informação estivesse errada. Pedia para mais duas jornalistas conferirem o texto de, no máximo 10 linhas. Sempre tive horror de passar informação errada. Sempre tive total consciência do poder das palavras, ainda mais vindas de um jornalista. As pessoas tendem a acreditar nos jornalistas e achá-los muito inteligentes e bem informados. Por isso, os jornalistas de verdade fazem o impossível para manter a credibilidade. Quando um jornalista perde isso, perde tudo. E me causa náuseas ver o tipo de jornalismo que está sendo praticado. 
   Teve um tempo que trabalhei com uma equipe bem mais nova do que eu. Via jornalista esperando releases, mudando apenas palavras, não checando nada, buscando notícias na internet. Cadê o sangue nos olhos do repórter? Cadê a apuração dos fatos? Ainda tem gente que defende não ser necessário o diploma de jornalismo... se nem com diploma a galera está fazendo direito, imagina essa turminha que acredita em tudo o que se posta em facebook fazendo matéria de denúncia? 
    Há pouco tempo circulou uma falácia sobre um suposto jornalista dinamarquês que cobriria a Copa, mas decidiu ir embora por conta dos horrores que viu no Brasil. Alguns amigos meus compartilharam, li tudo e só consegui pensar: “que cara burro, fosse eu faria um monte de matérias além-Copa e virava correspondente do fim do mundo”. Não me dei ao trabalho (voluntário) de checar o perfil do tal dinamarquês, mas li comentários absurdos, de gente concordando com tudo, metendo o pau no Governo do Ceará. No fim era um perfil fake, um jornalista de verdade checou. 
    Assim como a maioria dos relacionamentos amorosos e sociais, o jornalismo também perdeu os olhos nos olhos.  E quem tem menos de 25 anos acredita que isso seja jornalismo. A notícia de que essa pobre mulher havia sido linchada já circulava há uns dias, mas não vi muito TV porque só se falava dos 20 anos de morte de Ayrton Senna e acho essa idolatria um porre. O melhor que li sobre o tema foi um texto do *epichurus.com (Santo Senna) http://epichurus.com/2013/11/25/santo-senna/, sobre a “tragédia” que foi isso para o Brasil vista por quem estava fora do País. A partir deste texto tentei formar um pensamento filosófico sobre como e porque Ayrton tornou-se esse herói nacional. Bem simplória e resumidamente acho que a grande maioria identificava-se com ele porque era um cara tímido, de poucas palavras, mas era só colocar as mãos no volante e transformava-se num audacioso que ultrapassa em curvas perigosas, um imprudente que corre mais em dia de chuva. Brasileiros se espelham em Ayrton, talvez por isso o Brasil seja campeão em acidentes de trânsito. 
    Piloto morrer em pista de corrida não é tragédia, é acidente de trabalho, todos sabem do risco. Tragédia mesmo é o que aconteceu com essa mulher, linchada **erroneamente por sanguinolentos. Ela não foi a primeira e, infelizmente, creio que não será a última a morrer por “engano”. Se Jesus voltasse hoje, como acreditam alguns fiéis, seria novamente apedrejado. Sem dó ou piedade.

*é um blog escrito por nadadores, bem específico, mas também fala de outros esportes e eu fico orgulhosa em perceber como nadadores sao coerentes. Talvez ficar várias horas por dia, durante anos, ouvindo o som de bolhas de água, faça pensar melhor, só acho...

** o linchamento, por si só, já é um grande erro

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ventos Fortes, Novos Ares, Amores Antigos

   Acordei com barulho de ventania. Depois de dois dias sem sair de casa fui andar ao sabor do vento. Um vento morno, que deixava meu cabelo do jeito que gosto: bagunçado. Depois vi que esse vendaval causou muita destruição e até incêndio na Baixada Santista. Impressionante como é envolvente e devastador o poder da natureza, mas mesmo trágico, parece que o vento levou o que havia de ruim embora.
   Mas a literatura, sempre ela e a música, ajudou também a clarear o horizonte. Nesses dias, sofríveis, li 1808, de Laurentino Gomes, e entendi um pouco mais sobre como sou e porque sou e de onde venho. Pensei na minha família portuguesa, atravessando o oceano para um lugar novo e desconhecido. Pensei na dualidade dos portugueses, tão desbravadores dos sete mares e, o mesmo tempo, o primo pobre da Europa. Destemidos e com baixa estima. Inovadores nas conquistas e sempre presos no passado de glórias, tipo eu (que nem tive lá tantas glórias assim).
   Uma coisa que meu pai sempre lembrava era o obscurantismo em que Portugal se meteu por ser um País completamente católico, portanto conservador e assassino (Santa Inquisição). Lembro bem da minha vozinha, Maria do Carmo Brites, do baixo de seus 1m45cm, devota de Nossa Senhora de Fátima, balançando a cabeça com seus lindos olhos azuis e cabelos platinados, no estilo Chanel, cada vez que meu pai maldizia a Igreja. Tipo “perdoe esse homem, senhor, ele não sabe o que diz”. Mas ele sabia, sim. Pensei muito nele no dia da canonização dos dois Papas, se vivo estivesse (e sem Alzheimer), faria comentários cheios de ironia sobre a nova regra de não precisar nem mais de dois milagres para virar santo.
   Talvez esteja no meu DNA essa vontade de sair viajando, conhecendo gente nova e seus costumes, assim como um pensamento melancólico e fúnebre, que vem de repente, como se eu não fosse capaz de nada, nem de ser amada. Em alguma parte do livro (1808) li que Portugal era como um marisco, entre o rochedo e o mar (quando pairava a dúvida entre render-se`a França ou resistir, junto da aliada Inglaterra). Muitas vezes me sinto como um marisco, apanhando das ondas, mas agarrada nas pedras, resistindo sempre. Além do que achei linda essa história de estar entre o rochedo e o mar. Pura poesia.
   Por falar em poesia, minha querida Raquel foi selecionada para o livro Novos Poetas, fiquei orgulhosa que só. Daí há algumas semanas fui com Miranda fazer visita para essa família que tanto amo. Raquel criou um blog para uma aula de empreendedorismo e começou a me dar dicas. Ela e também seu irmão gêmeo, Pedro, o príncipe. Os dois se revezavam entre brincar com Miranda e tentar dar um up no meu blog. Primeiro me fizeram colocar o número de leituras, porque “quanto mais lido, mais as pessoas irão ler”. Depois colocar os textos mais lidos, porque “serão mais lidos ainda”. E querem colocar anúncio e tem um outro lance que ganha sei lá quantos centavos por cada texto lido. Puxa, deixei de ganhar uns 100 mil reais nessa brincadeira... mas nunca é tarde para começar. 
   De repente eu ali, com os gêmeos de 12 anos me dando dicas de empreendedorismo. Sempre adorei a adolescência. É a fase de maiores mudanças na vida. Não posso acompanhar a adolescência da minha filha, mas posso acompanhar dos filhos da minha amiga, que já não pode. Que vida, né?
   
   Comecei receber uns chamados ruralistas há uma semana. Eu, que pensava agora mais seriamente do que nunca, exercer minha cidadania portuguesa e abusar do meu passaporte europeu, me vejo sendo sugada para o meio do mato. Para dentro da natureza selvagem, que tanto admiro e respeito. Com pessoas que acreditam nas mudanças pela educação e cidadania. Talvez meu tempo de ter “escritório na praia e estar sempre na área” esteja acabando. Santos ainda é a melhor cidade que já morei (e morei em várias) e sei que sempre irei voltar, como o filho pródigo.
   Como escreveu meu querido amigo Angel, algumas pessoas são como navios que passam, para me salvar do naufrágio. Tenho contado com alguns grandes amigos nesses tempos de tempestade: Angel Rodriguez e família; com o amor que, mesmo de longe, acalma minha alma perturbada. Geórgia Corrêa, que ressurgiu para ocupar o espaço que sempre foi seu em minha vida. Os sempre presentes Gustavo Liedtke e Fábio Diegues, meus companheiros desde a faculdade, do tipo que nunca preciso contar como me sinto. Eles já sabem só no olhar. São muitos navios que passam para socorrer essa náufraga. Muitas vezes fico cega pelas lágrimas e nem vejo quando me acenam.
   Estou assim meio poética porque hoje a menina Giovana, que nem imagina o quanto inspira a mim e tantos outros (ou talvez tenha certeza disso), escreveu “Se uma escritora se apaixonar por você, você pode nunca morrer”. Achei tão lindo. De certa forma tornei alguns dos meus amores imortais. Ao nomeá-los torno possível que sejam lembrados daqui umas décadas. Por outras pessoas, porque por mim jamais são esquecidos (a não ser que tenha Alzheimer).
   Juro que tento ter um novo amor. Mas dá uma preguiça alcançar aquele nível máximo de intimidade. De ter que lidar com insegurança, confusões mentais masculinas e sentir aquela queda infinita da paixão. Gosto muito de ser eu e minha(s) filha(s). Nunca apresento como namorado antes dos 3 meses, como nos empregos, período de experiência. Muitas vezes não chega nem nesse tempo.
   Queria esquecer meus amores do passado. Mas é um torpedo que chega do namorado de adolescência. Uma mensagem daquele que está em outro País... e tudo isso para ter a certeza de que tive namorados incríveis. Todos antes dos 30 anos. Depois disso ou fiquei muito exigente ou perdi a capacidade de amar e ser amada. Ou fico agarrada no rochedo, tipo o marisco...

  

terça-feira, 22 de abril de 2014

Os Algozes em Casa

     Nem iria escrever sobre o assassinato do menino Bernardo, de 11 anos, pela madrasta enfermeira, com a ajuda da amiga assistente social e conivência do pai médico, porque minha gastrite nervosa dói demais. Porém, é tanta gente me escrevendo e falando sobre esse crime anunciado, que sinto necessidade de me manifestar, talvez porque eu seja uma referência de indignação judiciária. 
    O que mais me revolta é a desculpa esfarrapada do juiz. Mesmo o menino implorando para morar com outras pessoas, o juiz convenceu a criança a dar outra chance ao pai e agora diz que o “menino decidiu dar outra chance”. Abominável a falta de hombridade, a arrogância e o desmazelo do judiciário com nossas crianças. Fico abestalhada em ver como a maioria dessa gente de toga, que se acha tão acima do bem e do mal, se deixa impressionar pelo título de “doutor”, afinal o pai do garoto era médico, né? Coincidência ou não, o avô da minha filha, mentor financeiro, intelectual e emocional da nossa separação, José Hércules Golfeto, é psiquiatra infantil. Daí imagino os quatro juízes do meu processo supondo que minha filha estará segura nas mãos de um médico. Lembrando sempre que de médico e monstro, todos tem um pouco.  O pai de Bernardo é muito mais monstro do que médico. 
    O juiz do caso de Bernardo tira o seu da reta ao afirmar que haviam indícios, não provas. Ora, ora, já os juízes do meu caso e de várias mães que conheço (hoje conheci mais uma) tinham apenas indícios, mas mesmo sem provas, tiraram a guarda e proibiram visitas, “até que nós, mães, provemos o contrário”. Eu já provei, mas nenhum juiz deve ter lido nada. Repito: a advogada da outra parte, Ana Maria Murari, escreveu que minha filha não tinha cama para dormir, passava fome e que eu morava de favor em casa de estranhos. Haviam indícios (ligações anônimas, segundo a brilhante advogada), provei o contrário, mas ninguém leu. O que se passa na cabeça desses juízes? E o que dizer de uma advogada como essa, que faz tudo por dinheiro? Pior é que o filho dessa advogada, Danilo Murari, é seu sócio...  é a falta de ética passando de mãe para filho. Pobre Danilo, mentiroso e obeso como a mãe, cheio de maus exemplos na própria casa. Esse tipo de advogados é o que defende assassinos de filhos. 
   Agora os algozes de Bernardo podem até ficar presos, mas em celas especiais, já que tem educação “nível superior”, logo estarão em liberdade e, tal qual Suzanne Von Richtofen , que planejou o assassinato dos próprios pais, podem encontrar Jesus, converterem-se e trabalhar na Seguridade Social. Ou pode acontecer como os assassinos da atriz e bailarina Daniela Perez, que em seis anos estavam livres por bom comportamento. O monstro, convertido, hoje é pastor, a “monstra” até fez faculdade de Direito e hoje advoga por aí. 
    Isso porque Daniela é filha da autora de novelas globais, Glória Perez, que conseguiu mais de um milhão de assinaturas (a minha estava lá) para aumentar a pena por crimes hediondos.  Nem com sua fama e credibilidade a admirável Glória conseguiu. Segue a vida com seu buraco no peito e com a sensação de que não existe justiça nesse País. 
   A mãe de Bernardo morreu há quatro anos. Segundo a perícia, cometeu suicídio no consultório do marido, três dias antes de assinar o divórcio e ficar com mais de um milhão de reais. Uma amiga minha do Rio Grande do Sul contou que, na época, houve rumores de que o marido era o assassino, mas haviam apenas indícios, não provas. Repercutiu no Estado, mas não em território nacional. Vai ver que o juiz também ficou impressionado com o título de “doutor”, afinal médicos existem para salvar vidas, não para matar mulher e filho. A Justiça errou duas vezes, tivesse o monstro sido preso, Bernardo estaria a salvo com a avó materna, que ficou mais de quatro anos sem ver o neto por proibição do pai. 
   Bernardo foi brutal e covardemente assassinado e não teve quem o defendesse. Muito inteligente e igualmente desesperado, procurou a Justiça, mas essa virou-lhe as costas. Cada dia que passa confio e acredito menos. Meu único desejo é o de vingança. Eu desisto da Justiça no Brasil, eu desisto de tentar em vão ter uma migalha da minha filha e só conseguir gastrite e úlcera. Eu desisto dessa imprensa parcial e manipuladora. Eu desisto deste País. E só não desisto da minha vida porque ainda tenho uma filha de 5 anos, que depende única e exclusivamente de mim. Ela ainda tem quem a defenda.