terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A Madrugada dos Canalhas e a União dos Aflitos


    Só fui perceber que fiquei muito tempo sem escrever por aqui porque já é dezembro e fui mostrar o último post para Dora. Todo cheio de amor, união e esperança, sobre o Show de Talentos da Teia. Custei a dormir, primeiro porque não canso de olhar Dora e Miranda dormindo juntas, abraçadas. Segundo porque pensei sobre o último mês e os acontecimentos pessoais e mundiais que me impulsionariam a escrever. Sorri ao lembrar um comentário de Dora: “Quando acabar 2016, vão colocar: dirigido por Quentin Tarantino”.
    Nesses dias elegeu-se Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. E eu já estava bastante abatida com a vitória esmagadora do retrocesso e imbecilidade nas cidades de todo o Brasil, principalmente na cidade de São Paulo, onde moro, e do Rio de Janeiro, onde tanta gente incrível que conheço, mora. Duas cidades símbolos do Brasil. Então vejo Trump ser eleito, ao mesmo tempo em que leio o que posso, o que me enviam, o que me indicam sobre Estado Islâmico, Nação Árabe, Grupos Terroristas e Crime Organizado. Tudo para o trabalho final de um curso que fiz sobre Geopolítica e Grupos Terroristas. Fiquei tão cheia de informações e ideias que não conseguia mais dormir.
   Indo para um Encontro de Nadadores, que ajudei a idealizar, onde encontraria os melhores amigos, os mais antigos, os que não vejo há décadas, os que vejo sempre, levei um tombo. Fraturei o nariz em duas partes. Sangrei até quase desmaiar, senti muita dor, fiquei inchada, não fui. Me neguei a escrever sobre mais um acidente no lugar de um encontro cheio de emoção, lembranças e abraços. O mundo não precisa disso. Nem eu precisava...
   E um dia eu acordo às 6h, como de costume, faço café, me preparo para escrever o tal artigo para o curso e ligo a TV para ver as notícias do dia. Um avião havia caído. “Nossa, lá vem mais uma tragédia mundial”. Estava toda a equipe do Chapecoense. Conforme fui ouvindo o desenrolar da história, fui me dando conta da importância do fato. Não era “apenas” um acidente de avião, que choca por ter mortes simultâneas e coletivas e, direta e indiretamente, afetar um grande número de pessoas, num efeito dominó. Era um acidente com duas equipes inteiras: de futebol e de jornalismo. Eram pessoas que iam para a final de um campeonato internacional, todas com o mesmo destino: fazer o melhor trabalho, trabalhando no que gosta. Quase o sonho de quase todos. Era um time pequeno que ficou grande. Eram jornalistas especializados, alguns tão grandes, tão generosos, que mostravam as melhores imagens para todos, sem distinção, e nunca se mostravam (assim são os cinegrafistas, ao menos, todos os que já conheci).
   Então, para sair do choque emocional que uma tragédia como essa causa, imediatamente comecei a ver o fato de forma jornalística. Não era só uma tragédia nacional, era também o maior acidente aéreo da história envolvendo atletas. E quando envolve atletas o choque é maior. Porque sabemos que atletas estão sempre juntos, na alegria e na tristeza, na explosão de raiva e na explosão de choro. Os atletas, na minha humilde opinião, são o maior símbolo de união. Porque são muitos e estão sempre juntos. Repórter com cinegrafista e fotógrafos também, mas em escala e tempo menores. Talvez por isso, em pouco tempo já eram mostrados, em retrospectiva, os acidentes com a equipe de futebol do Torino, da Itália, e da equipe de Rugby do Uruguai. Ou seja, o da Chapecoense será lembrado para todo o sempre. E ainda mais se outras tragédias acontecerem. Porque eram atletas e estavam voando atrás de seus sonhos e objetivos: ganhar o campeonato e disputar a Libertadores da América.
   A princípio o que vejo na mídia nacional é a exploração de lágrimas, imagens repetidas de avião destroçado. A TV Globo, enquanto não chegavam realmente notícias, ficava mostrando repórter entrevistando repórter esportivo que era amigo de algum repórter morto. Jogadores de futebol amigos dos jogadores mortos. Arrancavam lágrimas para tirar mais lágrimas.
   E no meio da comoção mundial, na madrugada seguinte a esse acidente tão trágico, os congressistas brasileiros trabalharam sem parar. Mas não foi com diplomacia, relações internacionais ou coisa parecida, já que o acidente aconteceu na Colômbia, com avião boliviano. Os congressistas nacionais passaram a noite votando em medidas que congelam salários, aumentam o tempo de aposentadoria, tiram vários direitos trabalhistas e dão vantagens a empresários. Também votam o fim da Operação Lava Jato, aquela mesma que era para acabar com a corrupção. Mas só com a corrupção do PT, porque PSDB, PMDB e demais partidos podem continuar roubando e corrompendo a vontade.
   Esses congressistas não são nada menos do que canalhas. E todas as pessoas que apoiam o Governo Michel Temer são imbecis ou canalhas. E a mídia do mundo inteiro sabe o quanto foram desumanos e canalhas ao votarem na calada da noite, enquanto pedaços de corpos de brasileiros mortos estavam sendo recolhidos. Espero que daqui a 50, 100 anos, essa madrugada seja lembrada como a madrugada dos canalhas.
   Mas 2016 também teve e ainda terá coisas boas, que escreverei depois, pois agora as estou vivendo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Show de Talentos da Teia

   A Escola Teia Multicultural, em São Paulo, onde Miranda estuda, é diferente em vários aspectos e não por acaso saiu recentemente numa publicação sobre escolas inovadoras. Bem, eu conheço a Teia muito antes dela existir. Lá no meio dos "anos 80", quando conheci Georgya Corrêa na sala de aula. A garota de 15 anos, que se tornou uma das melhores amigas do colégio, não cansava de falar da escola em que estudou quando morou na Índia. E como aquele método de ensino fazia muito mais sentido na vida prática do que como aprendíamos nas nossas escolas tradicionais.
  Mas falar do surgimento da Teia é material para tese de mestrado (aliás, coisa que a Georgya já está fazendo). O que tentarei reproduzir aqui é um dos momentos únicos que essa Teia de amor, solidariedade e conhecimento proporciona a todos e qualquer um que a conheça: o tradicional Show de Talentos da Teia.
   Miranda estava se preparando para o Show de Talentos há algumas semanas. Todo dia cantava a música Nem Uma Verdade Me Machuca, da Pitty. A letra é complexa e bem profunda. Mas ela diz ter dúvidas se canta ou se faz um cati do kung fu. Incentivei a apresentar o cati, "porque todo mundo vai achar diferente", "porque se errar, ninguém vai perceber". Mesmo sabendo cantar e acertando as notas, conheço minha caçulinha e sei que, caso errasse, poderia cair no choro. Ela é exigente demais com ela mesma. Talvez eu seja exigente demais. Enfim, decidiu apresentar o cati.
   Chegar na Teia em dia de festa é uma alegria. É dia de encontrar velhos e novos amigos. De cara encontrei o querido André, irmão da Geo, que tem uma filha também na Teia. Conversamos sobre muitas coisas da vida. E como nossos encontros são breves nunca temos tempo para banalidades. Nossas vidas podem ser tudo, menos banais. Em 15 minutos falamos de carreira, de filhas, de prazeres, de sonhos, de possibilidades, de vocações.
   Então começo a ver os shows com Cauã (filho mais novo da Geo) e sua legião de tietes. Antes mesmo de cantar, acompanhado de seu pai Tanã ao violão, já era ovacionado pelos amigos. E quando pegou o microfone  para cantar Pokemon, até eu acompanhei fazendo coral. 
   Foram tantas as apresentações marcantes, que não cabem todas aqui, mas vou pontuar algumas. Quando a pequena Sofia foi chamada para cantar ninguém esperava o que estava por vir. Antes da música começar, ela disse, em tom sério e emocionado: "Essa música eu dedico para o meu avô. Ele tem uma doença, que chama câncer". Então, com voz doce e um tanto embargada, começou a cantar Teresinha, de Ana Larousse https://youtu.be/5k4cCt__hWU. São poucas as pessoas que não tenham um caso próximo, ou mesmo distante, com o câncer. Eu chorei. Olhei ao lado e duas mães choravam. Muitas crianças choravam. Não sei se pelo avô de Sofia ou pela música linda, cantada de forma suave e, mesmo com lágrimas, até o fim. Muitos abraçavam crianças, que também choravam e já nem sabiam porque. Sabiam que ali alguém sentia dor e queriam dividir essa dor. Porque, de alguma forma, já sabem, que a dor dividida, diminui.
   Depois de Sofia, foi a vez de Tsu, um menino encantador. Percebi que ele não sabia bem como começar, como transformar aquele tanto de lágrimas em risos. Pegou o microfone com sua voz rouca e seu jeitinho charmoso e cantou Mais Ninguém, da Banda do Mar https://youtu.be/61jSSF3Vu54. E o ambiente foi tomado por um clima de amor e música, bem ao estilo Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. Muitos aplausos, ainda algumas lágrimas.
    Quando o menino Martin fez o seu tradicional show de mágicas, pediu assistentes. Todos levantaram as mãos, mas, claro, ele chamou essa que vos escreve para ser "hipnotizada". E lá estava eu, sendo hipnotizada, desaparecendo atrás de um lençol e, por mais que o outro assistente tenha me deixado aparecer, todos aplaudiram como se Martin fosse o mago dos mágicos.
   Algumas patinadoras, bailarinas, menina da fita, interpretações depois, vem o irmão de Tsu, o pequeno Petrus e mais três colegas, cantando cheio de malandragem e swing Nem Vem Que Não Tem, do Wilson Simonal https://youtu.be/ssHV0eTCeTc. As lágrimas passaram a ser de excesso de riso. Foi hilário!
   Algo transformador e, ao mesmo tempo, tão simples, nesse Show de Talentos, é que a palavra talento foi usada em sua forma mais esplêndida. Talento não é apenas um dom, algo que alguns nascem com e outros sem. O talento pode ser genético ou ser desenvolvido. Ter talento não é ser o melhor no que se faz. Mas é ter habilidade para algo, que pode ser artístico, físico ou mental. É gostar de fazer e fazer, mesmo não sendo um virtuose. Muitas vezes temos talento para alguma coisa, mas nunca descobrimos. A Teia desenvolve talentos natos e aflora talentos que nem imaginávamos existir. E o mais emocionante na apresentação dessas pequenas criaturas é o entusiasmo, a forma como um incentiva o outro, como um amiguinho torce pelo desempenho do outro. E aplaudem! E dão urros! E vibram! E sentimos a vida pulsando e uma tremenda esperança nessa geração que está crescendo com valores realmente humanos. 

   Ah, sim, Miranda apresentou seu cati, ficou chateada porque errou, mas eu disse que ninguém percebeu que ela errou, nem eu. E a menina Sofia, que emocionou a escola inteira cantando Teresinha, veio parabenizar Miranda:" Você arrasou!". E eu, como sempre, me emocionei.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Terror Generalizado


   Estou fazendo um curso no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo: Geopolítica e Grupos Terroristas. Quem me conhece sabe que desde muito nova já lia tudo que podia sobre IRA e Sendero Luminoso, sempre me interessaram os pequenos e grandes conflitos políticos e religiosos. Não que goste das guerras, mas porque elas existem desde que o mundo é mundo e o melhor jeito de não ter guerra é evitá-la. Sei o quanto esse pensamento é utópico também. Me resta estudar mais para entender e não sair por aí, falando aleatoriamente, sobre minhas teorias, que podem parecer bobagens.
   Na última aula tivemos uma interessante palestra com Abdul Nasser, da Aliança Nacional Islâmica. Tirando todo o machismo do pensamento muçulmano, que respeita suas mulheres de véus, mas acha que sair com blusa de alcinha e shorts rasgados é “não se dar ao respeito” e “desperta” os instintos do estuprador, que sexo antes do casamento é o que gera filhos sem pais (e não a irresponsabilidade e soberania masculina, que deixa os filhos a mercê dos cuidados e condições das mães “solteiras”, pois sabem que jamais serão punidos ou cobrados), o Islã prega igualdade e compaixão. Por isso, a partir de agora, denominarei o grupo terrorista Estado Islâmico de ISIS, para evitar essa confusão e esse ódio generalizado ao Islã. O ISIS se apoderou da bandeira do Islã, o que não significa que 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo sejam coniventes. Muito ao contrário. As comunidades islâmicas espalhadas pelo mundo tentam identificar e combater possíveis terroristas. Como? Combatendo a desigualdade e intolerância.
   Uma frase simples e marcante de Abdul (um homem inteligente, radical e sincero) foi: “A injustiça é o que gera o terrorismo”. Sim, terrorismo não é feito apenas de homens bomba. Antes disso eles foram crianças com casas bombardeadas, com famílias exterminadas, moraram em acampamentos, foram doutrinados por extremistas (com infância semelhante) e não conheceram outra vida que não fosse guiada pela destruição e fúria. Quantos terroristas não podem surgir a partir das crianças e jovens refugiados sírios?
   Fazendo uma analogia com o caso das mães que perderam a guarda de filhos. Após anos de batalha judicial em que perdemos também nossa saúde, dinheiro e sanidade mental, sofrendo todos os tipos de humilhações, penúrias e injustiças por parte do Poder Judiciário (aquele que deveria defender, principalmente, o direito das crianças), pensamos, algumas vezes em “tocar o terror” nos fóruns. Sim, pensamos, mas o Brasil não é de cultura extremista e nós, apesar dos pesares, pensamos nos inocentes que estão nos fóruns: o pessoal do cafezinho, da faxina e o cidadão comum que está lá tentando resolver seus problemas. Os demais envolvidos no sistema são tudo, menos inocentes.
 Por que existem feministas que odeiam os homens? Porque foram humilhadas, violentadas, estupradas, encarceradas por homens. Sou uma feminista que só quer igualdade de direitos. E me dói ver mulheres tirando sarro do movimento, que “feminista quer direito igual, mas não vai lá carregar um saco de cimento igual homem”, isso não é só infantil e raso, é também imbecil. Nunca a mulher vai ter força física igual a dos homens. Eu nado melhor e mais rápido do que muitos homens. Mas me coloque ao lado de um nadador que tenha o mesmo treinamento e ele será mais rápido do que eu. O feminicídio é nosso terrorismo diário. Toda mulher tem (ou deveria ter) medo do estupro. Pode ser evangélica, temente a deus, usar roupas que cubram todo o corpo, ser idosa. O estuprador não vê diferença. Não adianta castração química. O estupro está no cérebro, não no corpo.
   Não fugi do tema. No terrorismo do ISIS, da Al-Qaeda e em todos os conflitos de maiores ou menores proporções, mulheres são estupradas. Muitos filhos do estupro são novos terroristas em potencial. Muitos são levados para crescerem como terroristas. Muitos não conhecem outra forma de vida.
   Dia desses escrevi a frase de Abdul numa rede social. Foi na segunda-feira, quando as tropas iraquianas entraram em Mosul (dominada pelo ISIS desde setembro de 2014) para combater os terroristas. Perguntei quem mais lucra com mais essa guerra. Pensei, principalmente, nos EUA e sua indústria bélica e seu interesse no petróleo do Oriente Médio. Claro, existem mais países que fabricam armas. Mas essa mania do Governo dos EUA sempre se meter nas guerras dos outros e, desde o começo do ataque ao terror, estar sempre perdendo as guerras, parece até de propósito. Não seria interessante perder uma guerra para entrar em outra e assim continuar vendendo suas armas?
    Quando eu digo que os EUA estão sempre fabricando terroristas para serem combatidos depois, não é coisa que surgiu da minha cabeça. Ou melhor, surgiu, após muita leitura e análise. Desde que comecei esse curso, muitos amigos indicam livros, emprestam livros, e quanto mais leio, algumas certezas e muitas dúvidas aparecem. Num desses livros, do correspondente Patrick Cockburn, há o e-mail de uma amiga dele (síria, sunita), depois que seu bairro, em Mosul, foi bombardeado pela aviação iraquiana. O jornalista deixa claro que sua amiga tem todas as razões para não gostar do ISIS. Reescrevo a mensagem na íntegra, pois mostra como os sunitas iraquianos passarão a enxergar o governo de Bagdá:

   “O bombardeio foi executado pelo governo. Os ataques visaram bairros totalmente civis. Talvez desejassem atingir duas bases do ISIS, mas nenhuma das rodadas de bombas acertou os alvos. Um dele é uma casa, ligada a uma igreja, onde vivem homens do ISIS. Fica próxima ao gerador do bairro e distante 200 a 300 metros de nossa casa. O bombardeio apenas feriu civis e demoliu o gerador. Desde ontem à noite, não temos mais eletricidade. Escrevo de um aparelho na casa de minha irmã, que está vazia. O bombardeio do governo não atingiu nenhum homem do ISIS. Acabo de ouvir de um parente que nos visitou para saber que se estamos bem, depois daquela noite terrível, que, em razão do bombardeio, jovens estão juntando-se ao ISIS, às dezenas ou centenas, porque cresceu o ódio contra o governo, que não se preocupa com a morte de sunitas. As forças do governo foram para Amerli, uma vila xiita circundada por dezenas de vilas sunitas, embora Amerli jamais tenha sido tomada pelo ISIS. As milícias do governo atacaram as vilas sunitas que a circundavam, matando centenas, com auxílio dos ataques norte-americanos”.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Nobel de Bob Dylan


   Quando vi a notícia sobre o Prêmio Nobel de Literatura ser de Bob Dylan, minha primeira reação foi de desaprovação. Claro que é uma escolha polêmica dar um prêmio de literatura para um compositor. Sim, ele escreve letras, ele é um poeta, mas sua comunicação é pela escuta e não pela leitura. As pessoas não leem Bob Dylan, as pessoas o ouvem. E olha que estou deixando minha admiração pessoal pelo cantor/compositor bem de lado. Gosto tanto de Bob Dylan, que aos 11 anos, lá nos idos de 1982, meu primeiro cachorrinho foi batizado de Bob, em homenagem ao músico.
   É indiscutível sua importância musical e política. Suas letras pacifistas influenciaram uma geração contra guerras. Suas letras são simples e a simplicidade é a melhor forma de atingir pessoas. Os que escrevem cheios de metáforas, querendo mostrar o quanto seu vocabulário é vasto, acabam deixando os leitores inferiorizados, sentindo-se meio “burros” e, pior, muitas vezes não conseguem nem ser entendidos. Porém, esses livros rocambolescos, não deixam de ser literatura. Assim como as letras de Bob Dylan também são.
   Há acadêmicos dizendo que isso é sinal dos tempos, que mostra uma inovação no Nobel, que está acompanhando as mudanças na comunicação. Estou muito longe de ser conservadora, inclusive na linguagem, que muda conforme as gerações. Adoro palavras inventadas, que de tanto serem usadas, são incorporadas no português. Mas, se continuar assim, logo teremos “escritores de internet” ganhando prêmios literários. E por que não?
   Mesmo gostando tanto de Bob Dylan e reconhecendo todo o seu mérito e valor, esse Prêmio me incomodou bastante. E por que incomodou? Porque é praticamente um anúncio do fim da Literatura. Porque todas as pessoas leem menos. Eu leio muito menos. Antes eu lia um livro por semana. Agora não lembro qual foi o último livro que li inteiro. No momento estou lendo A Origem do Estado Islâmico, junto com mais dois, não consigo terminar nenhum, por mais interessante que sejam os temas, por mais que seja necessário para o curso que estou fazendo (tema para outro post, porque o assunto é vasto). Não sou conservadora, mas adoro Shakespeare, Saramago, James Joyce, Kafka, Adélia Prado, Cecília Meirelles, Edgard Alan Poe, Carlos Drummond e Fernando Pessoa. Gosto de quem escreve livros. Gosto de livro reportagem. Gosto de clássicos, assim como realismo fantástico.
    Talvez seja mesmo um prenúncio de que literatura em breve não existirá. E a brevidade do tempo, na história da humanidade, pode ser 100 ou 200 anos. A leitura de livros está escassa. Acho lindo minha filha de 14 anos me pedir livros de presentes, me dar dois livros de dia das mães (ainda não terminei nenhum), acho lindo quando vejo pessoas lendo no metrô ao invés de olhar para o celular. Estamos num momento em que ler é coisa de gente cool. Ainda há pessoas que ouvem, mas também é cada vez menor o número, porque a maioria só ouve o que lhe convém. Então, um Prêmio Nobel de Literatura para alguém que canta palavras tão contundentes não seja tão negativo. Seja um presságio para o que estar por vir. Seja um tapa na cara do mercado literário, como bem disse o querido Wilson Bispo, uma pessoa que lê e escreve muito. 
   Talvez seja uma abertura para que Bono Vox, Neil Young, Paul Mcartney, Chico Buarque, Gilberto Gil, Jorge Mautner e tantos outros compositores recebam prêmios por suas letras e não por seus livros.
     Talvez eu esteja ficando velha e muito cansada.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Mães contra o Estado

   Dia desses estava relendo o post Nem Puta Perde a Guarda de Filho, já que é por ele que dezenas de mães chegam até aqui. E relendo, além de achar que o texto deva ser melhorado, percebi que deve também ser reeditado. Lá conto como é torturante repetir a mesma história, quase todos os dias, para pessoas em geral e psicólogos, advogados e jornalistas, em particular. Que no início pensei que fosse única, mas já conhecia mais de 10 mães na mesma situação. Passados alguns anos, muitas procuram desesperadas algum tipo de auxílio e se encontram naquele texto. Cada julgamento, cada passagem por fórum, ficar presa na esquizofrenia do sistema judiciário, ficar afastada do filho judicialmente, perder saúde, dinheiro, emprego, terminar relacionamentos, não terminar projetos. Viver num looping surreal infinito. 
   A reedição seria que agora não são mais de 10. Conheço mais de 50 mães e tenho conhecimento de mais umas 50 que perderam a guarda do filho. Mas tudo parece ter piorado muito com o a instauração da Lei de Alienação Parental. Os homens estão se beneficiando desta Lei. E não é mais apenas por vingança ou para parar de pagar pensão. Também para continuar abusando sexualmente dos filhos. Resumirei tentando explicar o inexplicável: As mães, primeiro incrédulas, depois em desespero por perceber o abuso, afastam os pais pedófilos. Esses pais entram na Justiça rapidamente e conseguem a guarda dos filhos. E então as mães ficam meses, anos, sem ver os filhos. E o "Estado", aquele que deveria proteger, entrega o inocente para os monstros. Comecei a desconfiar de um tremendo esquema de pedofilia entre o Poder Judiciário e Parlamentar. Não tenho provas, mas tenho convicção.
   Outra mudança na minha saga é que não é mais torturante repetir a história. É muito desgastante, sim, mas já consigo rir até da passagem pelo Fantástico, com a voz assustadora de Cid Moreira dizendo que eu sofria de graves problemas mentais. Baseado em que mesmo? No que a outra parte disse. "Ah, Rede Globo, faz tempo que não acredito em nada do que você mostra ou defende".
    Agora estou naquele limiar entre minha história e as outras, praticando o distanciamento. Quero ouvir mais do que concordar. Me vejo trabalhando nisso. Com muito envolvimento, mas sem tanto sofrimento. Estou na fase em que sofro mais pelos outros do que por mim e minha filha. O que foi feito, foi feito. Não quero deixar que continuem fazendo. Apenas isso.

    A Rede Materna ficou tão grande, tão interligada, que a querida Flavia Werlang me falou de uma mãe que estava tão mal que nem conseguia visitar o filho. Descobrimos que era a mesma mãe que conheci há mais de um ano. Uma foi escrevendo para outra, que colocou outra da mesma cidade na história e de repente essa mãe no estado de negação, em que o próprio "psiquiatra" disse ser melhor não ver o filho (!), encheu-se de coragem, cercada de amor e foi. E conseguiu abraçar muito o filho. E não voltou tão vazia. Mais do que lastimar a perda, temos de valorizar os ganhos.
    Foi o que fez a doce Lívia Guimarães, que após quase 4 anos sem ver os filhos, passou uma noite com eles. Não parava de olhá-los dormir. Quantas noites passamos em branco pensando em como, onde e com quem eles estariam? E como é maravilhoso passar uma noite acordada vendo como eles dormem. E perceber que o tempo, a distância, a amargura, a luta inglória, nada foi capaz de diminuir o tamanho deste amor. 
     E cada mãe que conheço, cada nova voz, cada sotaque vindo de todas as partes de tantos brasis, me derruba e me levanta. Muitas noites não durmo por aflição. Este ano uma mãe se matou. Todas nós pensamos em morrer, em algum momento, porque se não é fácil seguir na luta pelo direito da maternidade, é mais difícil desistir dela. Não há como se conformar com um sistema judiciário que nos tira um direito. Então temos de lutar. Mas daí acaba a saúde, o dinheiro, a dignidade, a força. Não há como desistir de um filho. É como desistir da vida. E foi isso que aconteceu com uma mãe. Ela desistiu de lutar pelo filho, desistindo assim da própria vida.

    Parei um pouco antes de continuar a escrever. Não quero que a emoção me tire o sono de novo, me aperte o peito, me faça chorar. Quero ser prática. O que vejo nessas mulheres é uma força descomunal em continuar. E vejo tanta beleza. São todas muito lindas, com sorrisos que iluminam o olhar triste. Com olhares profundos que escondem sorrisos irônicos. Todas enlouqueceram um pouco. Todas tornaram-se seres mais desconfiados, com um tanto de amargura, com tantos altos e baixos, que levam a vida numa gangorra emocional e financeira, mas não perdem a ternura. Não deixam uma irmã sem resposta. Me incluo nisso tudo. Temos tanto em comum apesar de nossas distâncias geográficas, criações, sotaques, formações, DNA. Porque a vida que levamos após o início do processo é praticamente idêntica. 
    Cansamos de brigar com a outra parte. Isso é peixe pequeno. Nossa briga é coisa de cachorro grande. Pessoas são pessoas e algumas se transformam, todas decepcionam, casais brigam, uns são mais vingativos, outros são passivos e assim sempre será. O que não pode é um Sistema pago por nós, acabar com a nossa vida. Chego a pensar que esses processos infindáveis só servem para alimentar a máquina. Pagamos peritos, pagamos técnicos, pagamos advogados, alguns pagam juízes (não tenho provas, mas tenho convicção). E tudo isso para quê? A tal Lei de Alienação Parental existe, mas percebo que o Estado é o que mais aliena. Segue a Lei
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/...

  No Art. 2, parágrafo único, existem as seguintes cláusulas:

II - dificultar o exercício da autoridade parental; 
III - dificultar contato de criança ou adolescente com genitor; 
IV - dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; 



   Ora, o que fez o sistema judiciário esse tempo todo além de dificultar o exercício da minha autoridade parental e destas mães? Nos impedem de ver nossos filhos até que as perícias, que demoram meses e até anos para serem marcadas, fiquem prontas. Demora anos para marcar audiência para regulamentação de visitas. Para que perder nosso precioso tempo com inúteis audiências de conciliação, sendo que qualquer acordo entre as partes pode voltar atrás a qualquer tempo?

    Pois é Estado de Direito, somos muitas mães espalhadas pelo Brasil para provar com muita convicção que é você, Estado, seu sistema falido e seus profissionais mofados, o causador de nossos danos e de nossos filhos. E sabe, Estado, tem advogada que também não te aguenta mais e podemos mover uma ação conjunta contra você. Podemos até morrer antes do fim desta ação, mas vai ter muita matéria, muita audiência, muito barulho. E se um dia nossa indenização milionária chegar e estivermos mortas, nossos filhos, as maiores vítimas, poderão usufruir das suas migalhas.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nenhuma Crise Levará Embora

    Andei parada de escrever por motivos exteriores. Me acidentei novamente. Desta vez atravessando uma faixa de pedestre, tombei do nada. Não era bem do nada, havia uma espécie de lombada que já fez muita gente cair no mesmo lugar. Inclusive eu mesma ajudei um senhor a levantar-se, no local. Fui socorrida por várias pessoas. Trinquei um osso da mão direita. Desde então (isso ocorreu no dia 17 de junho), passei a usar o outro lado do cérebro, fazendo da mão esquerda minha principal aliada.
   É bem difícil fazer tudo ao contrário, me sentir limitada, não conseguir lavar os cabelos, não poder escrever com os 10 dedos. Por isso tenho pensado muito no Stephen Hawking* (físico teórico e cosmólogo britânico). Totalmente imóvel, está há mais de 30 anos sem nem poder usar a fala. E continua com aquele cérebro brilhante, fervilhando de ideias. 
   Apenas perdi por um tempo a mobilidade da mão direita, posso falar e gravar, tenho uma porcentagem bem menor de brilhantismo no cérebro e sinto-me parada no tempo. Então peguei Uma Breve História do Tempo** para ler novamente e me pareceu bem mais simples do que há quase 30 anos. Meu corpo já dobrou a curva da metade da vida, mas meu cérebro não parou de evoluir. Deve ser assim com todo mundo.
   Esse tempo parada me fez ter mais vontade de fazer tudo. Comemorei meu aniversário na Casa do Ernesto, com amigos queridos, com muito frio, música e vinho. O tempo é breve, passa tão rápido, temos tanto para fazer, tanto para aprender.
     

    Nesse mês e meio que não escrevo por aqui, conheci um grupo de psicanalistas que faz um lindo programa social em comunidade. Conheci ativistas que estão indo para o Mato Grosso do Sul, para tentar evitar o massacre dos guarani-kaiowá, mesmo correndo o risco de também serem massacrados. Estou cada vez mais envolvida com a cultura oriental (medicina chinesa, kung fu, budismo). Mais algumas mães que perderam a guarda de filhos entraram em contato comigo. Mal posso responder os emails com pedidos desesperados de apoio. Conheci uma dessas mães pessoalmente. Perdeu a guarda há pouco tempo e é sempre o mesmo. Ficam emocionadas ao saberem que não são as únicas, querem que outras mães e filhos não passem por isso, ficam reféns do sistema judiciário, gastam tudo que tem, vendem seus bens, pagam gordos honorários para advogados que "fazem o que podem".
      
    E com tantos problemas do mundo para resolver começo a achar os meus meramente circunstanciais. Com a União Europeia se desunindo, com circo de passagem de tocha olímpica matando onça pintada (em extinção) em Manaus, com a proximidade dos Jogos Olímpicos e o estado de calamidade pública do Rio de Janeiro, com moradores de rua morrendo de frio em São Paulo, com o governo ilegítimo no Brasil, com o desemprego crescendo, a aposentadoria chegando mais tarde, economia parada por essa bandalheira política, com o crescente fascismo no Brasil e no mundo, fica cada vez mais difícil ter esperança. Porém, historicamente, sempre nos momentos de crise surgem as melhores ideias e soluções. 
   Estou farta desse nacionalismo barato, dessas bancadas religiosas que colocam bíblia acima de leis. E, principalmente, desse atual desgoverno que veio com a velha máxima de "não fale em crise, trabalhe". Muito bem, senhor presidente interino, então nos dê emprego para trabalhar, nos dê trabalho remunerado. É tanto tema para escrever que me sinto perdida. É tanta crítica para fazer que me sinto inútil. 
   Não dá mais para acreditar em mídia nenhuma no Brasil. Para grandes emissoras de TV e jornais já ficou feio defender o golpe. Pessoal que saiu às ruas pedindo impeachment da presidente Dilma, agora percebe o papel de marionette. Serviram como patos, a la Fiesp. Então o que faço é falar com pessoas nas ruas, ver como estão os movimentos sociais. "Não fale em crise, estude", foi o que me disse um desses psicanalistas que conheci. Estude, leia, entenda o momento histórico que vive o mundo. E quando, e se a crise acabar, você saberá muito mais do que sabia. E o saber, o conhecimento, é o único bem que crise nenhuma levará embora.


* Hawking é portador de esclerose lateral amiotrófica, uma rara doença degenerativa que paralisa os músculos do corpo sem atingir as funções cerebrais. Ainda não possui cura. A doença foi detectada quando tinha 21 anos. Em 1985 Hawking teve que submeter-se a uma traqueostomia e, desde então, utiliza um sintetizador de voz para se comunicar. Gradualmente, foi perdendo o movimento dos seus braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, de modo que sua mobilidade é praticamente nula. Em 2005 Hawking usava os músculos da bochecha para controlar o sintetizador, e em 2009 já não podia mais controlar a cadeira de rodas elétrica. Desde então outros grupos de cientistas estudam formas de evitar que Hawking sofra de síndrome do encarceramento, cogitando traduzir os pensamentos ou expressões de Hawking em fala. A versão mais recente, desenvolvida pela Intel e cedida a Hawking em 2013, rastreia o movimento dos olhos do cientista para gerar palavras.

** Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros (título original, em inglês "A Brief History of Time:From the Big Bang to Black Holes", 1988), é um livro de divulgação científica, publicado pela primeira vez em 1988, inclui a Teoria do Big Bang, Buracos Negros, Cones de Luz e a Teoria das Supercordas ao leitor não especialista no tema. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A Cultura que Divide o Brasil

   A equipe de Aquarius, que concorre à Palma de Ouro de Cannes e dirigido por Kleber Mendonça Filho, protestou na última terça-feira contra o "golpe de Estado no Brasil", durante a estreia do filme no Festival. Eles tiraram das roupas cartazes com os seguintes dizeres: "Um golpe ocorreu no Brasil", "Resistiremos" e "Brasil não é mais uma democracia". E voltaram a se manifestar com gritos "Fora!" na sala do Grande Teatro Lumiere, minutos antes da projeção. Kleber Mendonça Filho já havia recebido vários prêmios e indicações por seu longa de estreia, O Som ao Redor, considerado pelo The New York Times, um dos 10 melhores filmes de 2012.
  Essa manifestação causou polêmica por aqui. Uma das decisões de retrocesso do presidente interino, Michel Temer, foi transformar o Ministério da Cultura em Secretaria, atrelada ao Ministério da Educação, como corte de gastos. Então a classe artística e todos os seus simpatizantes saíram às ruas para protestar. Mas não pensem que o apoio é geral e irrestrito. Muita gente tem chamado artista de vagabundo e dizendo que todos "mamam nas tetas do Governo". Kleber Mendonça Filho tem um cargo público em Recife, Pernambuco. Ou tinha, pois seu ato, segundo o atual governo opressor, é merecedor de demissão. E tem tanta gente apoiando essa demissão! Gente que não entende que esse homem faz uma campanha positiva do Brasil no exterior. 
  Muita gente não entende que trabalhar fazendo teatro, filmes, música, livros é trabalho. Talvez porque o trabalho esteja intrinsecamente relacionado ao tédio, ao mecânico e repetitivo, sem alegria. Então quando alguém trabalha em algo que parece divertido, diminui-se o valor do trabalho. Essa mentalidade é tão tacanha quanto preconceituosa. O artista tem prazos, ensaia e fica cansado, sente fome e quer ir para casa logo descansar. Muitos não recebem nada enquanto ensaiam, só após a estreia. A maioria dos artistas trabalha por amor e vocação. O dinheiro, quando vem, é consequência.
   Tenho lido e ouvido pessoas falando que tem que boicotar esse filme! Que tem que fazer uma "cruzada" contra "essa gente". Cultura não é só arte. É também preservação de patrimônio histórico, de festas populares, de línguas indígenas. Não é  tanto o fim do Ministério da Cultura o que me entristece, é  mais a reação de ódio das pessoas contra os artistas. O fascismo cresce diariamente no Brasil. É assustador. Amanhã fará uma semana que afastaram a presidente Dilma. Nesses dias o interino e sua equipe tomaram as seguintes medidas: 
- O Ministério da Educação vai apoiar a cobrança de mensalidade das universidades públicas para cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado.
- O novo Ministro da Saúde, Ricardo Barros (que é um engenheiro) analisa a possibilidade de privatizar o Sistema Único de Saúde. Disse que não há como manter os direitos constitucionais, como acesso à saúde, ou seja, quem não tiver plano de saúde, morre à míngua.
- O novo Ministro das Relações Exteriores, José Serra (que nunca termina mandato que começa), como sua primeira ação, deu um passaporte diplomático para um pastor de igreja evangélica e sua esposa. O casal poderá agora viajar pelo mundo sem pagar nada, representado o Brasil que, definitivamente, não é um Estado Laico.
-  O novo ministro da Justiça, Alexandre Moraes,  tem no currículo ataques policiais a estudantes e movimentos sociais e já foi advogado de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que está afastado, mas continua mandando em tudo, inclusive nas decisões do presidente interino.
- Foi revogada a construção de 11.250 moradias do Minha Casa, Minha Vida, projeto destinados às famílias com renda mensal de até 1.800 reais.
- O Ministério da Educação suspendeu novos contratos do Fundo de Investimentos Estudantes (Fies), suspendeu a seleção de oferta de bolsas dos programas Universidade para Todos (Prouni) e Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).
   E claro, enquanto escrevo aqui, mais medidas de cortes de direitos devem estar sendo tomadas.

    O Brasil está culturalmente divididos. Tem "jornalista" de revista de direita, ator pornô e deputado evangélico fazendo vídeos, pedindo às "pessoas de bem", que não assistam Aquarius. Aqui é assim, ator pornô e pastor deputado evangélico pensam a mesma coisa. Bancada evangélica do Congresso e pornografia se misturam.
     Pessoas que fizeram ensino superior, que tem emprego e profissão estão aí, defendendo o fim do Minc. Tem até artista defendendo também. E tem os que não sabem o que a Lei Rouanet significa e falam tanta asneira que me dá vergonha alheia. Nunca tive tanta vergonha de ser brasileira. Porque agora não é mais pelos governantes, pelas aberrações do Congresso Nacional e do Senado, mas pelos que me rodeiam. Pela ignorância fascista de pessoas que tiveram privilégios e oportunidades. Pelo ódio que se espalha contra as minorias. Pela diminuição dos direitos das mulheres. Por perceber pessoas próximas com discursos intolerantes que não tolero.
    Já começo a pensar em ir para outro País. Já conversei seriamente com amigos sobre a possibilidade de mudança. E já me mandaram para Venezuela e Cuba, porque para os ignorantes, ser contra a opressão que se instala no Brasil é ser comunista. E tanta ignorância e intolerância juntas estão me fazendo sofrer mais do que com esse Golpe dado no País. E antes que os ignorantes digam "ele é o vice, votou na Dilma, votou nele, então não é golpe", respondo que quem votou nela*, votou em um vice que estava de acordo com o Governo. Ninguém que votou nela esperava que o vice iria romper e tramar contra a presidente, descaradamente, com a conivência e ajuda absoluta das principais mídias.
    Vocês que lêem esse blog em outros países não imaginam o que está acontecendo aqui. É como uma tática de guerra, as medidas apresentadas são como pauladas e ficamos tão atordoados que não sabemos contra o que lutar.

*Não votei nas últimas eleições, não voto desde 2002. Mas aceito a decisão da maioria. E a maioria votou em Dilma Roussef. E fiquei aliviada que Aécio Neves não venceu. Porque o helicóptero do senador José Perrela pousou na fazenda do senador Aécio Neves com meia tonelada de cocaína pura e as investigações deram em nada. Ninguém sabe de nada e as pessoas que votaram nele parecem não se importar com o tráfico de drogas, mas são pessoas de bem, as mesmas que irão boicotar Aquarius.