terça-feira, 25 de abril de 2017

Ato pela Liberdade de Rafael Braga

   No dia 20 de junho de 2013, justamente dia do meu aniversário, o Brasil parou em manifestações motivadas pelo aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus e metrôs da cidade de São Paulo. Começou pelos 20 centavos, mas seguiu por várias reivindicações. O Brasil quase viveu um Estado de Sítio. O movimento já se alastrava há algumas semanas, mas o ápice foi no dia 20 de junho e alguns manifestantes foram presos. Apenas um continuou encarcerado: Rafael Braga, preto, pobre, catador de latinhas, sem nenhuma passagem pela polícia. Em sua mochila havia produtos de limpeza. A polícia disse que era para fazer bomba caseira. Tenho para mim que ele nem imaginava como se fazia bomba caseira. Certamente, agora já sabe.
  Ele seguiu preso por mais de três anos, teve liberdade condicional. A polícia novamente parou Rafael e o revistou. Desta vez encontrou 0,6 gramas de maconha em sua mochila, então, no dia 20 de abril de 2017 ele foi julgado e condenado há 11 anos de prisão. 
  Desde que Rafael Braga foi preso, essa história ficou na minha cabeça, que já estava cheia de erros judiciários. Desde a semana passada, quando saiu o seu julgamento, fui tomada por indignação. Apesar de branca, tenho contato com várias lideranças de movimentos negros e quilombolas. E vi tomar corpo um ato pela liberdade de Rafael Braga. Enquanto a ação se formava, alguns diziam que Rafael é só mais um, que as prisões estão lotadas de Rafaeis. Concordo, mas Rafael é emblemático. Ele é preso político, ele é preso pelo racismo, pelo preconceito. 
   Trabalhei por alguns anos na assessoria do governador Mario Covas, minhas áreas eram Segurança Pública e Administração Penitenciária, como sei que pouca coisa mudou, aliás, só piorou, porque Covas era um bom político, Alckmin é ladrão de merenda*, sei do que estou falando. Interessante ao Estado manter gente presa. Muitos serviços são terceirizados, cada detento vale dinheiro para o Estado. Muitos inocentes ficam esperando serem julgados dentro de celas, passam anos nessa situação. E quando (e se) libertos, já aprenderam tudo sobre vingança, ódio e injustiça. Não pensem que pagamos por cada detento. É o Estado que recebe por eles. 

Ato Histórico pela Liberdade

   Ontem peguei minha filha Miranda, na escola Teia Multicultural, e seguimos para o vão do MASP da avenida Paulista, na vigília pela libertação de Rafael Braga. Por redes sociais foi organizado um movimentoAlckmin é ladrão de merenda* que se estendeu por vários Estados do Brasil e alguns países da América do Sul. Quando chegamos, uma via da avenida já estava bloqueada. Um carro de som dava voz às lideranças de movimentos negros. Entre uma voz e outra, um rap de protesto. Alguns, como eu e Miranda, acendemos velas.
   Uma líder negra vociferou palavras contra brancos que prendem e matam,  que ali só deveria ter preto, que estavam aproveitando a ação por Rafael Braga para convocar a população para a Greve Geral do dia 28 de abril, para a Marcha da Maconha, dia 6 de maio. Não seria eu, a branquinha que sofre há 13 anos no Sistema Judiciário, a dizer que ali não era para libertar um preto pobre, era para libertar a todos do sistema judiciário corrupto, vendido, assassino. Não seria eu a dizer que, se maconha fosse legalizada, ninguém seria preso por portar 0,6 gramas de maconha. Nem pretos, nem brancos, nem amarelos.
   Mas eu entendia o discurso de ódio dela. É uma mulher e negra. Eu sofro por ser mulher, imagino o sofrimento em dobro, se fosse negra. Eu entendi quando ela disse que "Querem que nosso movimento seja pacífico? Alguém é pacífico com a gente?". Eu entendi o ódio dela, a vontade de gritar sua raiva. Também tenho vontade de vomitar a minha. Por coincidência ou não, após sua fala, chegou a Força Tática do Exército. Muitos carros da polícia já estavam lá quando chegamos. Ninguém teve medo, ninguém foi violento. A partir daí palavras de ordem contra a violência militar. Depois todos sentamos na avenida Paulista e fizemos um minuto de silêncio. Após o silêncio, uma líder gritava nomes como "Amarildo! Claudia! Luana! DG! Maria Eduarda!". Todos mortos por balas da Polícia Militar. Amarildo até hoje desaparecido. E todos respondíamos: Presente!
   Um grupo de atores negros fez uma encenação muito comovente por ser absolutamente verdadeira. Apenas retrataram o que vivem todos os dias. "Preto não tem medo de morrer, a gente sabe que pode morrer de bala perdida todos os dias". "A caneta da Justiça nos mata todos os dias. A caneta da Justiça nos mata todos os dias". Eu chorei. Porque fui morta várias vezes em Fóruns, fui desqualificada, fui desumanizada. Eu e tantas mães. Eu e tantos jovens negros. Eu e tanta gente pobre. Eu sou mais uma a ser morta pela caneta da Justiça. Rafael Braga não será mais um. 


 * O Governo de Geraldo Alckmin desviou dinheiro das merendas das escolas públicas do Estado de São Paulo. Até hoje, nada foi feito. A Justiça não é cega. É corrupta, elitista, patriarcal e branca.

sábado, 22 de abril de 2017

Kurt Cobain, Hannah Baker e o Tabu do Suicídio

   No último dia 20 de fevereiro eu estava vendo um vídeo do Nirvana. Minha filha Miranda, 8 anos, que adora a banda, mas nunca tinha visto "a cara dos caras", olhou para Kurt Cobain e disse: "- Que bonitinho! Ele já morreu?". A pergunta pode parecer estranha, mas é que desde a descoberta de que Tim Maia estava morto, ela percebeu que a maioria das pessoas que gosta de ouvir, já não está mais aqui. Depois perguntou se morreu novinho ou velhinho. Novinho. Como? De uma doença. Qual doença? Uma que deixa a pessoa muito triste, tão triste que ela não quer mais viver. "Tão novinho, tão lindinho, fazia cada música legal, não tinha ninguém para ficar com ele?".
   
   Depois disso, nem disfarcei minhas lágrimas. Me dei conta de que seria o aniversário de 50 anos de Kurt Cobain. Lembrei do dia da sua morte, quando eu estava no carro esperando minha prima Keila e ouvi a notícia na rádio. Quando ela entrou, sempre tão linda e falante, viu que eu estava meio em transe. Éramos fãs do Nirvana. Nós duas choramos. Ouvimos Nirvana a noite inteira. Não achei romântico, não achei bacana ser mais um se matando aos 27 anos. Senti muita raiva, principalmente porque não fui no show do Nirvana quando vieram ao Brasil e só porque tinha um jogo coletivo de pólo aquático. Eu era dessas que achava que teria outra oportunidade, porque estavam no auge e viriam muitas vezes ao Brasil. 
   O suicídio de Kurt Cobain acabou com muitos sonhos, inclusive o meu de vê-lo ao vivo, vivo. Quando ele morreu o mundo foi obrigado a falar sobre suicídio. Agradeço a ele por fazer as pessoas pensarem sobre isso, se importarem com a depressão. Seria imensamente melhor que continuasse fazendo músicas lindas, expressando os sentimentos juvenis de angústia, filosofando sobre dor, vida, amor, morte. Seria melhor ainda para a filha dele que cresceu sem pai. Mas, se houve algo de produtivo nisso, algum valor em sua morte precoce e trágica, foi trazer o assunto para a superfície.

   Cada religião tem um paradigma, uma doutrina, ou seja lá o que for, já que não tenho religião nenhuma e pouco sei sobre essas doutrinas. Quantas guerras santas a humanidade já viveu? Vejo muçulmanos e judeus se odiando, católicos contra protestantes, evangélicos contra espíritas, contra umbandistas, daimistas. Nunca chegam a acordo nenhum, porém, unanimemente, condenam o suicídio. Para muitos é pior ser um suicida do que um assassino. Homicidas tem perdão. Suicidas não. Talvez porquê se todas as pessoas que sofrem, que não encontram sentido na vida, que não suportam tanta desgraça, guerra e ódio, começarem a relevar o suicídio como saída, poucos sobrarão. E não terá mais igreja, dízimo, hereditariedade, herança, Governos.

   Tive uma depressão profunda em 2004. Pessoas próximas, que me conheciam desde que nasci, falaram que era falta de problemas, falta de tanque de roupa suja para lavar. Pessoas que me conheciam há pouco tempo passavam todo o tempo comigo, só para eu saber que tinha alguém do meu lado. Só para fazer algo que eu conseguisse comer. Estou falando de dois amigos que terão sempre um espaço gigante para tapar o buraco que às vezes surge no meu coração: Paula Gil e Marcel Santos. A Paulinha tinha histórico de depressão na família e sabia que era algo muito grave. Marcel não conseguia entender porque me sentia assim, nem eu entendia. Mas ia na minha casa cozinhar para mim e minha filha Dora, na época com 2 anos, cuidar do meu jardim, das minhas cachorras. Talvez nunca saibam (ou fiquem sabendo agora) a gratidão eterna que terei por eles. Outros também me ajudaram e posso estar sendo injusta em não citá-los. Mas esses dois fizeram por mim algo inesperado para o pouco tempo que me conheciam. Não havia motivos para me quererem tão bem.

  Quando finalmente venci a depressão, outras lutas maiores vieram. Lutas que já detalhei nesse blog. E claro que deprimi de novo e de novo e de novo. Só que mais calejada, identificava a melancolia, a tristeza que, se deixasse, me derrubaria outra vez, me deixando sem vontade de comer, sem vontade de dormir, sem vontade de ser, sem vontade de fazer. Ninguém fica assim porque acha bonito. Aliás, também ficava sem tomar banho, sem lavar os cabelos. E cheguei a pesar 45 kg. Não, isso não era bonito, inclusive, era muito horrível. Depois da crise, percebia o tempo perdido, a vida indo embora tão rápido, eu envelhecendo. E depois disso queria fazer tudo: encontrar amigos, viajar, fazer amor, nadar, ler, escrever, trabalhar, cuidar. Depois disso, teve um ano, 2013, que perdi duas pessoas que amava muito, no espaço de 6 meses, levadas pela mesma doença. Então me culpava porque elas eram cheias de vida e vontade de viver. E eu, cheia de saúde, tive vontade de morrer.

  Tem um motivo para a depressão? Sim, é a falta de serotonina, um neurotransmissor responsável pelo ânimo. E você luta para produzir serotonina e não consegue. Porque é difícil para quem tem depressão ir na praia, praticar esportes ou caminhar. Até levantar da cama pode ser um obstáculo imenso a superar. E então existem os remédios. Ah, como a indústria farmacêutica ama os deprimidos. E para quem nunca tomava remédio nem para gripe, como eu, é fácil viciar nesses remédios mágicos, que deixam as unhas da sua cachorra Nirvana, azuis. Sim, eu tive uma cadela pastor alemão chamada Nirvana, que surgiu na minha vida um mês após a morte de Kurt Cobain. E ela tentou muito me tirar da depressão. Tanto que até morreu de câncer. Não entendia o meu abandono. E eu queria me enfiar embaixo da terra cada vez que a veterinária me falava que eu não estava cuidando bem dela...

  Os tempos andam tenebrosos. Paira uma nuvem de guerra no ar. Os reacionários estão surgindo aos montes, as redes sociais dão vozes aos cheios de ódio, aos covardes, preconceituosos e tolos. A maioria das crianças fica entretida em celulares, tablets, notebooks. Vejo entristecida pessoas se comunicando apenas por aparelhos. Faltam abraços, faltam olhares, falta amor. Eu tenho medo do futuro, como nunca tive. Não por mim. Por minhas filhas. Por meus amigos, por meus amores. Eu sempre tive essa mania de sofrer pelos outros, pelo mundo. Queria ser mais ignorante, apenas ignorar os acontecimentos e seguir numa simplicidade burra, alienada, mas feliz. O conhecimento pode deprimir. Mas é tanta gente fazendo o mal que não podemos descansar. Temos de continuar lutando para tentar mudar esse panorama mundial catastrófico. Porque o que acontece na Síria também nos atinge aqui.

13 Reasons Why

   Então começa uma séria na Netflix sobre uma adolescente que comete o suicídio e deixa fitas cassetes sobre as suas razões, culpando alguns colegas e um conselheiro da escola. Eu vi no dia que começou, por acaso, sem saber bem o que era. Pensei até que fosse algo bem adolescente, bobinho. Mas não é, ao contrário. E leio várias matérias sobre as razões de não ver essa série. Psiquiatras dando mais de 13 razões para não ver. E muitas pessoas começaram a me marcar para não ver. Mas era tarde. Acompanhei cada crise de ansiedade do garoto Clay e queria dar uma adiantada para ouvir logo as fitas, já que ele não ouvia tudo de uma vez. Soube até que o livro que originou a série foi proibido no Brasil. E no livro ele ouvia tudo em uma noite.
   Li jornalistas falando que a série poderia causar o Efeito Werther, termo usado a partir da onda de suicídios que aconteceram na Europa após o lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), do autor Johan Wolfgang von Goethe, que eu considero uma uma obra-prima. Os suicídios foram relacionados à influência do personagem de Goethe. Porém esse impacto nunca foi confirmado. São apenas tentativas científicas de correlação. Acredito que seja o hábito humano de encontrar culpados para tudo. É mais fácil colocar a culpa numa série do que analisar os motivos do suicídio juvenil. É a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. 
   Na minha humilde análise, recomendar não ver a série é só um atrativo a mais para vê-la. Ao invés de criticá-la ou censurá-la deveriam debatê-la, ver como uma oportunidade de falar sobre o assunto com jovens. Foi o que eu fiz com minha filha adolescente. Com a amiga da minha filha, filha dos meus amigos. Não falar de suicídio não vai evitar  que ele aconteça, só vai trazer mais culpa para quem fica. Algumas razões da personagem Hannah Baker podem parecer banais, mas para quem está deprimido, sentindo-se isolado, ridicularizado e abandonado, qualquer olhar cínico pode ser um motivo. Fazer piada da tristeza alheia é desumano. Precisar ter uma série sobre como as pessoas se tratam mal para percebermos que precisamos ser mais gentis  uns com os outros já é um parâmetro de como a humanidade vai mal. Eu não quero mais nenhum jovem ou velho se matando porque se sente sozinho. Mas isso vai continuar acontecendo. E precisamos falar sobre isso. Da próxima vez que você ouvir alguém próximo ou nem tão próximo dizendo que "não aguenta mais viver" ou que "preferia estar morto", pode ser mais do que uma força de expressão. Pode ser um último pedido de socorro. 

Um pouco de música para os fortes, feita por alguém que nunca foi fraco:


  



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Miranda, 8 Anos de Resistência

   Na primeira semana de junho de 2008, Tamer Fadida, meu vizinho em Paraty, o melhor vizinho que alguém poderia ter, me chamou mais uma vez para participar do Temascal, dessa vez com seu irmão, que acabara de voltar do México, onde viveu com xamãs. O Temascal é um ritual que usa pedras quentes, numa cabana, com pessoas e cantos xamânicos. O lugar era lindo. Na montanha do Coriscão. Só não podiam participar mulheres menstruadas e grávidas no primeiro trimestre. Olhei para a querida e sempre presente em momentos decisivos, Flavia Vieira. Era a única que sabia do meu comportamento sexual de risco há 8 dias (fazer sexo sem camisinha e correr o risco de engravidar ou contrair uma doença sexualmente transmissível). Pensei que a possibilidade de estar grávida era remota, já que eu estava há alguns dias de completar 38 anos e a matéria, de capa de uma dessas revistas semanais era, justamente, sobre fertilidade. Dizia que após os 35, as chances de engravidar caiam para 15%. Além disso, eu tinha uns problemas no ovário esquerdo. Enfim, fui no Temascal.
  Era como uma sauna seca muito quente, com cantos xamânicos. Não tomamos nada, nada mesmo, além de água. Senti a pressão cair. Fiquei tão mal, que não conseguia falar. Fui desfalecendo e me deixando deitar na terra fria, sentia uma batida compassada no útero. Estava quente, batia forte, eram pontadas, mas que não doíam. Contei para Flavia, que na hora disse: "você está grávida". Era um coração. Ela era muito forte muito antes de nascer.
   Mas só faziam 8 dias. Era coisa da minha cabeça. Segui meus planos de ir para o Ceará de jipe, atravessando o sertão, com Flavia e Dora, que tinha 6 anos. A viagem foi maravilhosa, longa, cansativa, mas melhor do que eu esperava. Lá tudo correu muito bem, até o dia em que vomitei sem parar, fui parar no médico, que me deu parabéns pelo bebê! E o que se passou na gravidez não é muito diferente do que milhões de mulheres passam. Sozinha. Aliás, sozinha não, sempre contando com a presença de muitos amigos. Mas nenhum pai para o bebê. O genitor não quis saber. Até entrei com pedido de exame de paternidade, ainda grávida, só para constar nos autos, porque sabemos o quanto a Justiça patriarcal protege os machos. Fiquei chateada, mas nem tanto, vai que depois o cara quer a guarda do bebê. Olha, isso eu posso dizer, melhor criar um filho sozinha do que passar uma década querendo o filho de volta... e não ter.


    Mas com esse cenário, não curti a gravidez. Que não precisou de repouso. Eu estava linda, nunca me senti tão maravilhosa. Morava num paraíso, comia só comida saudável, nadava, fazia hidroginástica, caminhadas, viajava, cuidava da filha, trabalhava. Mas não fiz enxoval, não queria coisas de bebê, quis mudar de cidade, estava tão insegura. Só descobri o sexo aos 6 meses. O nome foi sugestão da irmã. Não consegui imaginar nome mais bonito e mais sonoro do que Miranda. Ela nasceu em Santos, sete dias após a irmã mais velha completar 7 anos. Assim que nasceu fui invadida de amor por aquele bebê grande, de covinhas, que dormia oito horas seguidas, mamava sem parar e acordava sorrindo.
    E engatinhou muito cedo, começou a andar aos 10 meses. Chutava tudo o que via pela frente, logo dei uma bola porque pensei que só poderia ser uma jogadora de futebol quando crescesse. Mas não, ela continuava chutando as pessoas. A bola era usada mais pelas mãos. Essa menina linda e saudável nasceu sem pai, como tantas outras. Isso não é assim tão dramático, tão único.
   Mas uma semana antes de fazer 2 anos, teve a única irmã levada, por busca e apreensão, para Ribeirão Preto. Nós nem sabíamos onde a irmã estava. Eu dizia que foi viajar, estava passeando. Por 15 dias corria ao portão quando ouvia buzina. Achava que era "sua Doinha" chegando da escola. Olhava fotos da irmã e dizia: "minha Doinha" e chorava... brincava com as bonecas da irmã, até que passou a detestar Barbies, só queria bonecas bebês. Eu evitava tudo que era dança, bailarinas... porque ela lembrava da irmã e chorava. 
   Isso aconteceu em fevereiro de 2011. Em dezembro do mesmo ano, o avô morreu. O velhinho que nunca a pegou no colo. Nem falava mais, porém, que ela idolatrava. Quando meu pai foi para uma clínica, Miranda foi visitá-lo muito mais do que eu que, egoísta, não suportava a dor de ver meu pai com 40 kg, com olhar perdido, sem lembrar de mim. Miranda não via nada disso. Ela ia lá e ficava fazendo carinho na cabeça dele, conversava com os outros velhinhos e comia um lanchinho. Ah, sim, ela é muito comilona, mas muito mesmo.
   Dos 2 aos 5 anos de idade ela me acompanhou em fóruns, buscas e apreensões, infinitas idas até Ribeirão Preto, na esperança de ver a irmã, e nada. Voltava chorando, triste, querendo chutar ainda mais as pessoas e esse sistema que ela não conhecia, mas já era vítima. Por que a Justiça a impedia de ver a irmã? Por que os avós e o pai da irmã não deixavam que ela visse a irmã? Por que sua irmã não a procurava? Por que não voltava? Então, ela passou a dizer que a irmã tinha morrido. Ela queria matar essa dor dentro dela. Foi o que pensei, foi o que uma amiga psicóloga, Kátia Chigres, observou. 
    Mas elas se reencontraram. Foi difícil, mas o amor é imensurável, é recíproco, é infinito. E passamos por tantas nesses 8 anos de vida da Miranda. Tantas viagens, tantas mudanças, tantos transtornos. Tem noites de insônia que fico olhando para ela e penso como esse tempo poderia ter sido melhor, como eu poderia ter me dedicado mais à ela do que ao processo, como esse processo minou minhas forças, quase me enlouqueceu (sim, é totalmente kafkaniano). Mas Miranda sempre esteve ali: forte, alegre, saudável.
     E, entre todas as nossas mudanças, por mais que ela sinta falta da praia e da vovó, São Paulo foi a mais acertada. Não que tudo esteja bem e dando certo, mas porque foi em São Paulo que encontramos uma escola, a Teia Multicultural, em que ela pode desenvolver suas habilidades, sem tantos padrões, onde não me chamam para dizer que ela pode ter "hiperatividade", que ela é "difícil", "terrível". E foi numa manhã de fevereiro, há pouco mais de um ano, indo para a Teia, que ela parou para ver um treino na Tat Wong Pacaembu. Eu, meio leiga em artes marciais, disse que era karatê. "Não, mãe, karatê não é". Era kung fu! Ela fez uma aula experimetal, amou, continuou, diz que será Ninja, que vai ser uma kung fu até ficar velhinha, já fala até 20 em chinês. E um dia, conversando com o Shing Guilherme, ouço, orgulhosa, que ela tem um chute muito forte e, que se continuar assim, até os 13 anos pode ser faixa preta. Então contei dos chutes que sempre dava e que agora não chuta mais. Só no kung fu. "Adriana, as crianças dão sinais pra gente o tempo todo, elas mostram suas aptidões". E eu, que só tinha olhos para o processo, não enxerguei algo tão evidente! 
    E agora, quando penso nesses 8 anos, sei que sem ela, muitas vezes não teria saído da cama. Foi ela que com sua energia fora do comum, me fazia fazer alguma coisa. Foi ela que me fez cozinhar com prazer. Sem ela eu não teria me cuidado para cuidar dela. Sem ela eu teria mais tempo, mais dinheiro, mais liberdade, mas seria mais triste, mais sozinha, sem esperança. Hoje ela completa 8 anos, acaba, oficialmente, a primeira infância. Só espero ter mais acertos do que erros daqui para frente. E que ela siga sendo minha companheira para tudo. E siga gostando das músicas que gosta. E para ela vai hoje uma música do "gordo", como ela chamava o genial Tim Maia, antes de saber seu nome. Sim, ela é fã de Tim Maia, assim como Nirvana. Ela anda pela rua cantando Que Beleza https://youtu.be/Nq_AOktdhts. Ela é minha fortaleza, com quem divido tudo e que ninguém divide comigo. Miranda é feliz. E é essa felicidade, essa vontade de "fazer coisas legais" é o que mais admiro nela. Além de todo o amor que ela me dá.


   

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Hoje Faz 15 Anos


  Faz 15 anos eu estava na Maternidade Pro Mater, pertinho da avenida Paulista, para embarcar na aventura humana de ser mãe. A mãe humana é diferente das outras mães. Não é só instinto de preservação, o parir, lamber a cria, amamentar e nutrir. E depois que o mamífero cresce e se vira sozinho, “adeus meus bebês”. Mães humanas são animais racionais que pensam no “é pra vida toda”, porque a mãe humana continua mãe depois que o filho vai embora. A mãe humana tem até a Síndrome do Ninho Vazio quando o filho sai de casa. Isso deve seguir até uns 50 anos depois de ser mãe. O filho nunca sai do coração da mãe humana. Muitas vezes, nem da alma.

  Ah, mas isso estava tão longe dos meus pensamentos há 15 anos. Eu só conseguia olhar aquela menininha perfeita de 3.640 kg e 47 centímetros. Linda, apertava meu dedo enquanto mamava loucamente. Nossa, como meus seios, que já não eram pequenos, estavam imensamente enormes! Quando fui ao banheiro pela primeira vez constatei que minha barriga ainda parecia carregar um feto de 7 meses. Sangrava como nunca havia sangrado na vida, talvez precisasse usar uma fralda! E nada disso importava. Eu só conseguia olhar no espelho e ver uma mulher linda, de pele incrível, olhos brilhantes, sorriso encantador. Depois de 7 meses e meio de total repouso, estava cheia de energia para fazer de tudo.
  Nem tinha rede social, celulares fotográficos e mesmo a câmera digital, ainda começava. Era sábado de Carnaval em São Paulo, não esperava ver tanta gente no quarto. A gravidez foi cheia de histórias e tão delicada que pessoas muito queridas a acompanharam de perto e fizeram questão de estar lá na hora da chegada da aguardada Dora. Parecia uma festa, cheia de gente que falava alto e ria num ambiente repleto de endorfina. Eram amigos e familiares meus e do pai da minha filha, que chorava emocionado sempre que olhava o bebê. Eu, para ser bem sincera, não chorei na hora do parto, nem logo após. Estava mais aflita com os procedimentos cirúrgicos, com as agulhas e anestesia. Chorei mesmo quando cheguei no meu apartamento três dias depois e vi que dali em diante era eu e o bebezinho. Mas, para minha surpresa, foram meses de aleitamento, paz, conhecimento humano e estado de graça.
   Tem aquela história da mãe que sonha em ter filha bailarina. Nunca fui a mãe dessa história, aliás, antes de ser mãe, não me imaginava mãe de história nenhuma. Mas eis que minha linda filha, sempre tão delicada no toque das coisas e na descoberta das palavras (e que transbordava alegria nas risadas banguelas e nos abraços apertados) começou a andar na ponta dos pés. Logo soltei um “vai ser bailarina”, de forma meio irônica, porque sabia que minha filha sempre seria o que ela quisesse. Nunca estimulei protótipos, ao contrário. Mas a menina era louca por Barbies, 50 tons de rosa e bailarinas. Também cantava Roda Viva, do Chico Buarque, aos 3 anos. E sempre gostou de Mozart. Mas eu nem achava isso coisa de gênio, achava que era coisa de quem é minha filha mesmo. Também era o bebê simpatia que andava de carrinho pelas ruas dando oi e acenando para todos. Adorava uma estrada e arrumar mochila para viagem. Tanto que fizemos parte do Guia 4 Rodas Bebê a Bordo, em 2003, o que resultou numa matéria do lançamento do livro na TV Cultura. Conversava com a câmera, como se fosse minha filha!

   Hoje esse ser tão amado faz 15 anos. Ainda não lhe desejei feliz aniversário. Há alguns dias não acessa internet. Ela já deve ter acordado e ido para sua nova escola. Tento imaginar como é o quarto em que ela dorme, quem é a pessoa que a acorda ou se acorda sempre só. Penso como foi seu café da manhã dos 15 anos. Se comeu frutas. Enquanto tomo meu café amargo e puro, sozinha na cozinha, lembro nossas manhãs em São Paulo, quando começou a comer à mesa, sentada em seu cadeirão, experimentando todos os tipos de queijo que nosso querido amigo Clayton, trazia para salutar degustação. Lembro a casa que moramos em Boiçucanga, nossos cafés da manhã na varanda. Cheios de músicas de passarinhos.
  Tento imaginar seus novos amigos na nova escola. E também os antigos, que eu não conheço. Lembro de todos os amigos do jardim da infância, alguns com quem ainda tem contato. Também lembro o jeito que ela acordava, me dando bom dia, sentando no meu colo, me abraçando e me beijando. Sempre assim, carinhosa. Tento imaginar quem foi a primeira pessoa a lhe dar feliz aniversário hoje. Quem lhe escreveu a primeira mensagem a ser lida. Escrevo há alguns dias, mas não obtenho resposta. Sei que ela sabe que escrevo e sei que algum problema cibernético a impede de me responder. Não há fiações e conexões falhas que consigam cortar o elo telepático que existe entre nós. Mesmo não fazendo parte dos seus aniversários, suas festas, formaturas, seus ensaios, sei quem ela é. Ela sabe quem eu sou. Sou a mãe que nunca está no dia-a-dia. Não porque não queira, não porque não tente ou tenha tentado de todas as formas. Não imagino o que doeu nela. Sei da dor que isso causou e causa em mim.

   Não sou uma mãe do cotidiano. Sou mãe com hora marcada, mãe nas férias. E nem sempre o tempo marcado é o tempo certo, o necessário, o desejado. Mas é o melhor tempo, é o que temos. E os melhores momentos, os dias mais felizes são os dias com ela. Podem ser 5 ou 500. O que sempre vejo nela é beleza. Nas suas opiniões, indecisões e certezas. Além de que tudo ao redor dela se torna mais leve. Estilo A Insustentável Leveza do Ser.

A vida como um musical

   Assim que aprendeu a andar na ponta dos pés, saiu dançando. Antes dos 3 anos a professora Juliana Andrade veio me pedir para dar aula para Dora, “porque era bailarina nata”. No que eu concordava plenamente. Seguiu bailando por Santos, na Rosely Ballet e na Escola de Bailado Municipal de Santos. Quando saíamos para o supermercado, praia ou cinema, a menina começava a bailar, saltitar e cantar, dentro do contexto, como um musical. Eu achava lindo e dizia, com orgulho, “a vida da Dora é como um musical”. Ela continua dançando. Agora na Carla Petroni, em Ribeirão Preto. Tem verdadeira paixão pela dança. A Dani, coreógrafa do Municipal de Santos, já me dizia que Dora pegava coreografia muito rápido e que “inventava” passos durante os intervalos dos ensaios. E eu incentivava a música e a dança na vida dela. Porque dança é arte e esporte. Acho complexo.
   Então nas últimas férias fomos ver La La Land no Cine Belas Artes, o meu preferido em São Paulo. Só não foi perfeito porque não conseguimos ingressos para a sala Drive In, mas compramos adiantado e fomos curtir a Paulista sem carro no dia do aniversário da cidade. Antes do filme, ouvimos muita música dos artistas de rua que tocavam pelas esquinas e calçadas, dividindo espaço com exposição de quadros, posters, pinturas e artesanatos. Comemos no nosso tradicional local da Rua Augusta. E chegamos meia hora antes da sessão para tomar um café. Estávamos ansiosas para saber os motivos de tantas indicações ao Oscar, além de ser musical, o que significava ter muita dança e Dora estava saudosa das aulas, louca para sair bailando.
   Confesso que musical não é minha preferência de gênero cinematográfico. Mas o dia estava incrível e estar disposto já faz você gostar de algo antes de conhecer. Enfim o filme começa e tem duas cenas musicais seguidas, se só assim fosse, talvez eu não gostasse tanto. Mas começou ter um roteiro bom, apesar de comum. Pessoas que querem seguir sonhos. Pessoas que pensam em desistir dos sonhos. E tantas referências de musicais e homenagens. E casal carismático que filosofa sobre vocação, submissão ao sistema e rejeição. E muito jazz. E cenas incríveis. E alguma vontade de chorar, mas não sabia porquê. Às vezes uma sensação de estar vendo uma obra-prima à minha frente. Outras de estar com minha obra-prima ao lado.
   E quando a última estação do filme se aproximava do final, as lágrimas vieram e fui secá-las com a mão, que estava cheia de sal das pipocas. Não sei se chorava da cena do filme ou da cena real. Ao olhar para o lado, vejo Dora quase aos prantos. Não sei se vamos superar esse dia ou esse filme.

   Só espero que siga levando a vida como a dança, com leveza, com paixão, treinando, aprendendo, conhecendo, aprofundando, algumas vezes no chão, outras flutuando. Hoje ela faz 15 anos! E eu só desejo que o seu dia seja cheio de amigos e música e amor. Porque os amigos são nossa escolha. E a música dá sentido à vida. E o amor é o que nos protege do mal.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A Madrugada dos Canalhas e a União dos Aflitos


    Só fui perceber que fiquei muito tempo sem escrever por aqui porque já é dezembro e fui mostrar o último post para Dora. Todo cheio de amor, união e esperança, sobre o Show de Talentos da Teia. Custei a dormir, primeiro porque não canso de olhar Dora e Miranda dormindo juntas, abraçadas. Segundo porque pensei sobre o último mês e os acontecimentos pessoais e mundiais que me impulsionariam a escrever. Sorri ao lembrar um comentário de Dora: “Quando acabar 2016, vão colocar: dirigido por Quentin Tarantino”.
    Nesses dias elegeu-se Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. E eu já estava bastante abatida com a vitória esmagadora do retrocesso e imbecilidade nas cidades de todo o Brasil, principalmente na cidade de São Paulo, onde moro, e do Rio de Janeiro, onde tanta gente incrível que conheço, mora. Duas cidades símbolos do Brasil. Então vejo Trump ser eleito, ao mesmo tempo em que leio o que posso, o que me enviam, o que me indicam sobre Estado Islâmico, Nação Árabe, Grupos Terroristas e Crime Organizado. Tudo para o trabalho final de um curso que fiz sobre Geopolítica e Grupos Terroristas. Fiquei tão cheia de informações e ideias que não conseguia mais dormir.
   Indo para um Encontro de Nadadores, que ajudei a idealizar, onde encontraria os melhores amigos, os mais antigos, os que não vejo há décadas, os que vejo sempre, levei um tombo. Fraturei o nariz em duas partes. Sangrei até quase desmaiar, senti muita dor, fiquei inchada, não fui. Me neguei a escrever sobre mais um acidente no lugar de um encontro cheio de emoção, lembranças e abraços. O mundo não precisa disso. Nem eu precisava...
   E um dia eu acordo às 6h, como de costume, faço café, me preparo para escrever o tal artigo para o curso e ligo a TV para ver as notícias do dia. Um avião havia caído. “Nossa, lá vem mais uma tragédia mundial”. Estava toda a equipe do Chapecoense. Conforme fui ouvindo o desenrolar da história, fui me dando conta da importância do fato. Não era “apenas” um acidente de avião, que choca por ter mortes simultâneas e coletivas e, direta e indiretamente, afetar um grande número de pessoas, num efeito dominó. Era um acidente com duas equipes inteiras: de futebol e de jornalismo. Eram pessoas que iam para a final de um campeonato internacional, todas com o mesmo destino: fazer o melhor trabalho, trabalhando no que gosta. Quase o sonho de quase todos. Era um time pequeno que ficou grande. Eram jornalistas especializados, alguns tão grandes, tão generosos, que mostravam as melhores imagens para todos, sem distinção, e nunca se mostravam (assim são os cinegrafistas, ao menos, todos os que já conheci).
   Então, para sair do choque emocional que uma tragédia como essa causa, imediatamente comecei a ver o fato de forma jornalística. Não era só uma tragédia nacional, era também o maior acidente aéreo da história envolvendo atletas. E quando envolve atletas o choque é maior. Porque sabemos que atletas estão sempre juntos, na alegria e na tristeza, na explosão de raiva e na explosão de choro. Os atletas, na minha humilde opinião, são o maior símbolo de união. Porque são muitos e estão sempre juntos. Repórter com cinegrafista e fotógrafos também, mas em escala e tempo menores. Talvez por isso, em pouco tempo já eram mostrados, em retrospectiva, os acidentes com a equipe de futebol do Torino, da Itália, e da equipe de Rugby do Uruguai. Ou seja, o da Chapecoense será lembrado para todo o sempre. E ainda mais se outras tragédias acontecerem. Porque eram atletas e estavam voando atrás de seus sonhos e objetivos: ganhar o campeonato e disputar a Libertadores da América.
   A princípio o que vejo na mídia nacional é a exploração de lágrimas, imagens repetidas de avião destroçado. A TV Globo, enquanto não chegavam realmente notícias, ficava mostrando repórter entrevistando repórter esportivo que era amigo de algum repórter morto. Jogadores de futebol amigos dos jogadores mortos. Arrancavam lágrimas para tirar mais lágrimas.
   E no meio da comoção mundial, na madrugada seguinte a esse acidente tão trágico, os congressistas brasileiros trabalharam sem parar. Mas não foi com diplomacia, relações internacionais ou coisa parecida, já que o acidente aconteceu na Colômbia, com avião boliviano. Os congressistas nacionais passaram a noite votando em medidas que congelam salários, aumentam o tempo de aposentadoria, tiram vários direitos trabalhistas e dão vantagens a empresários. Também votam o fim da Operação Lava Jato, aquela mesma que era para acabar com a corrupção. Mas só com a corrupção do PT, porque PSDB, PMDB e demais partidos podem continuar roubando e corrompendo a vontade.
   Esses congressistas não são nada menos do que canalhas. E todas as pessoas que apoiam o Governo Michel Temer são imbecis ou canalhas. E a mídia do mundo inteiro sabe o quanto foram desumanos e canalhas ao votarem na calada da noite, enquanto pedaços de corpos de brasileiros mortos estavam sendo recolhidos. Espero que daqui a 50, 100 anos, essa madrugada seja lembrada como a madrugada dos canalhas.
   Mas 2016 também teve e ainda terá coisas boas, que escreverei depois, pois agora as estou vivendo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Libertem Rafael Braga

  No dia 20 de junho de 2013, justamente dia do meu aniversário, o Brasil parou em manifestações motivadas pelo aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus e metrôs da cidade de São Paulo. Começou pelos 20 centavos, mas seguiu por várias reivindicações. O Brasil quase viveu um Estado de Sítio. O movimento já se alastrava há algumas semanas, mas o ápice foi no dia 20 de junho e alguns manifestantes foram presos. Apenas um continuou encarcerado: Rafael Braga, preto, pobre, catador de latinhas, sem nenhuma passagem pela polícia. Em sua mochila havia produtos de limpeza. A polícia disse que era para fazer bomba caseira. Tenho para mim que ele nem imaginava como se fazia bomba caseira. Certamente, agora já sabe.
  Ele seguiu preso por mais de três anos, teve liberdade condicional. A polícia novamente parou Rafael e o revistou. Desta vez encontrou 0,6 gramas de maconha em sua mochila, então, no dia 20 de abril de 2017 ele foi julgado e condenado há 11 anos de prisão. 
  Desde que Rafael Braga foi preso, essa história ficou na minha cabeça, que já estava cheia de erros judiciários. Desde a semana passada, quando saiu o seu julgamento, fui tomada por indignação. Apesar de branca, tenho contato com várias lideranças de movimentos negros e quilombolas. E vi tomar corpo um ato pela liberdade de Rafael Braga. Enquanto a ação se formava, alguns diziam que Rafael é só mais um, que as prisões estão lotadas de Rafaeis. Concordo, mas Rafael é emblemático. Ele é preso político, ele é preso pelo racismo, pelo preconceito. 
   Trabalhei por alguns anos na assessoria do governador Mario Covas, minhas áreas eram Segurança Pública e Administração Penitenciária, como sei que pouca coisa mudou, aliás, só piorou, porque Covas era um bom político, Alckmin é ladrão de merenda*, sei do que estou falando. Interessante ao Estado manter gente presa. Muitos serviços são terceirizados, cada detento vale dinheiro para o Estado. Muitos inocentes ficam esperando serem julgados dentro de celas, passam anos nessa situação. E quando (e se) libertos, já aprenderam tudo sobre vingança, ódio e injustiça. Não pensem que pagamos por cada detento. É o Estado que recebe por eles. 

Ato Histórico pela Liberdade

   Ontem peguei minha filha Miranda, na escola Teia Multicultural, e seguimos para o vão do MASP da avenida Paulista, na vigília pela libertação de Rafael Braga. Por redes sociais foi organizado um movimentoAlckmin é ladrão de merenda* que se estendeu por vários Estados do Brasil e alguns países da América do Sul. Quando chegamos, uma via da avenida já estava bloqueada. Um carro de som dava voz às lideranças de movimentos negros. Entre uma voz e outra, um rap de protesto. Alguns, como eu e Miranda, acendemos velas.
   Uma líder negra vociferou palavras contra brancos que prendem e matam,  que ali só deveria ter preto, que estavam aproveitando a ação por Rafael Braga para convocar a população para a Greve Geral do dia 28 de abril, para a Marcha da Maconha, dia 6 de maio. Não seria eu, a branquinha que sofre há 13 anos no Sistema Judiciário, a dizer que ali não era para libertar um preto pobre, era para libertar a todos do sistema judiciário corrupto, vendido, assassino. Não seria eu a dizer que, se maconha fosse legalizada, ninguém seria preso por portar 0,6 gramas de maconha. Nem pretos, nem brancos, nem amarelos.
   Mas eu entendia o discurso de ódio dela. É uma mulher e negra. Eu sofro por ser mulher, imagino o sofrimento em dobro, se fosse negra. Eu entendi quando ela disse que "Querem que nosso movimento seja pacífico? Alguém é pacífico com a gente?". Eu entendi o ódio dela, a vontade de gritar sua raiva. Também tenho vontade de vomitar a minha. Por coincidência ou não, após sua fala, chegou a Força Tática do Exército. Muitos carros da polícia já estavam lá quando chegamos. Ninguém teve medo, ninguém foi violento. A partir daí palavras de ordem contra a violência militar. Depois todos sentamos na avenida Paulista e fizemos um minuto de silêncio. Após o silêncio, uma líder gritava nomes como "Amarildo! Claudia! Luana! DG! Maria Eduarda!". Todos mortos por balas da Polícia Militar. Amarildo até hoje desaparecido. E todos respondíamos: Presente!
   Um grupo de atores negros fez uma encenação muito comovente por ser absolutamente verdadeira. Apenas retrataram o que vivem todos os dias. "Preto não tem medo de morrer, a gente sabe que pode morrer de bala perdida todos os dias". "A caneta da Justiça nos mata todos os dias. A caneta da Justiça nos mata todos os dias". Eu chorei. Porque fui morta várias vezes em Fóruns, fui desqualificada, fui desumanizada. Eu e tantas mães. Eu e tantos jovens negros. Eu e tanta gente pobre. Eu sou mais uma a ser morta pela caneta da Justiça. Rafael Braga não será mais um. 


 * O Governo de Geraldo Alckmin desviou dinheiro das merendas das escolas públicas do Estado de São Paulo. Até hoje, nada foi feito. A Justiça não é cega. É corrupta, elitista, patriarcal e branca.
  

O Show de Talentos da Teia

   A Escola Teia Multicultural, em São Paulo, onde Miranda estuda, é diferente em vários aspectos e não por acaso saiu recentemente numa publicação sobre escolas inovadoras. Bem, eu conheço a Teia muito antes dela existir. Lá no meio dos "anos 80", quando conheci Georgya Corrêa na sala de aula. A garota de 15 anos, que se tornou uma das melhores amigas do colégio, não cansava de falar da escola em que estudou quando morou na Índia. E como aquele método de ensino fazia muito mais sentido na vida prática do que como aprendíamos nas nossas escolas tradicionais.
  Mas falar do surgimento da Teia é material para tese de mestrado (aliás, coisa que a Georgya já está fazendo). O que tentarei reproduzir aqui é um dos momentos únicos que essa Teia de amor, solidariedade e conhecimento proporciona a todos e qualquer um que a conheça: o tradicional Show de Talentos da Teia.
   Miranda estava se preparando para o Show de Talentos há algumas semanas. Todo dia cantava a música Nem Uma Verdade Me Machuca, da Pitty. A letra é complexa e bem profunda. Mas ela diz ter dúvidas se canta ou se faz um cati do kung fu. Incentivei a apresentar o cati, "porque todo mundo vai achar diferente", "porque se errar, ninguém vai perceber". Mesmo sabendo cantar e acertando as notas, conheço minha caçulinha e sei que, caso errasse, poderia cair no choro. Ela é exigente demais com ela mesma. Talvez eu seja exigente demais. Enfim, decidiu apresentar o cati.
   Chegar na Teia em dia de festa é uma alegria. É dia de encontrar velhos e novos amigos. De cara encontrei o querido André, irmão da Geo, que tem uma filha também na Teia. Conversamos sobre muitas coisas da vida. E como nossos encontros são breves nunca temos tempo para banalidades. Nossas vidas podem ser tudo, menos banais. Em 15 minutos falamos de carreira, de filhas, de prazeres, de sonhos, de possibilidades, de vocações.
   Então começo a ver os shows com Cauã (filho mais novo da Geo) e sua legião de tietes. Antes mesmo de cantar, acompanhado de seu pai Tanã ao violão, já era ovacionado pelos amigos. E quando pegou o microfone  para cantar Pokemon, até eu acompanhei fazendo coral. 
   Foram tantas as apresentações marcantes, que não cabem todas aqui, mas vou pontuar algumas. Quando a pequena Sofia foi chamada para cantar ninguém esperava o que estava por vir. Antes da música começar, ela disse, em tom sério e emocionado: "Essa música eu dedico para o meu avô. Ele tem uma doença, que chama câncer". Então, com voz doce e um tanto embargada, começou a cantar Teresinha, de Ana Larousse https://youtu.be/5k4cCt__hWU. São poucas as pessoas que não tenham um caso próximo, ou mesmo distante, com o câncer. Eu chorei. Olhei ao lado e duas mães choravam. Muitas crianças choravam. Não sei se pelo avô de Sofia ou pela música linda, cantada de forma suave e, mesmo com lágrimas, até o fim. Muitos abraçavam crianças, que também choravam e já nem sabiam porque. Sabiam que ali alguém sentia dor e queriam dividir essa dor. Porque, de alguma forma, já sabem, que a dor dividida, diminui.
   Depois de Sofia, foi a vez de Tsu, um menino encantador. Percebi que ele não sabia bem como começar, como transformar aquele tanto de lágrimas em risos. Pegou o microfone com sua voz rouca e seu jeitinho charmoso e cantou Mais Ninguém, da Banda do Mar https://youtu.be/61jSSF3Vu54. E o ambiente foi tomado por um clima de amor e música, bem ao estilo Mallu Magalhães e Marcelo Camelo. Muitos aplausos, ainda algumas lágrimas.
    Quando o menino Martin fez o seu tradicional show de mágicas, pediu assistentes. Todos levantaram as mãos, mas, claro, ele chamou essa que vos escreve para ser "hipnotizada". E lá estava eu, sendo hipnotizada, desaparecendo atrás de um lençol e, por mais que o outro assistente tenha me deixado aparecer, todos aplaudiram como se Martin fosse o mago dos mágicos.
   Algumas patinadoras, bailarinas, menina da fita, interpretações depois, vem o irmão de Tsu, o pequeno Petrus e mais três colegas, cantando cheio de malandragem e swing Nem Vem Que Não Tem, do Wilson Simonal https://youtu.be/ssHV0eTCeTc. As lágrimas passaram a ser de excesso de riso. Foi hilário!
   Algo transformador e, ao mesmo tempo, tão simples, nesse Show de Talentos, é que a palavra talento foi usada em sua forma mais esplêndida. Talento não é apenas um dom, algo que alguns nascem com e outros sem. O talento pode ser genético ou ser desenvolvido. Ter talento não é ser o melhor no que se faz. Mas é ter habilidade para algo, que pode ser artístico, físico ou mental. É gostar de fazer e fazer, mesmo não sendo um virtuose. Muitas vezes temos talento para alguma coisa, mas nunca descobrimos. A Teia desenvolve talentos natos e aflora talentos que nem imaginávamos existir. E o mais emocionante na apresentação dessas pequenas criaturas é o entusiasmo, a forma como um incentiva o outro, como um amiguinho torce pelo desempenho do outro. E aplaudem! E dão urros! E vibram! E sentimos a vida pulsando e uma tremenda esperança nessa geração que está crescendo com valores realmente humanos. 

   Ah, sim, Miranda apresentou seu cati, ficou chateada porque errou, mas eu disse que ninguém percebeu que ela errou, nem eu. E a menina Sofia, que emocionou a escola inteira cantando Teresinha, veio parabenizar Miranda:" Você arrasou!". E eu, como sempre, me emocionei.