quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Espera de Miranda


   Quando sua irmã foi levada, faltava uma semana para Miranda completar 2 anos. Durante os primeiros 15 dias ela corria para o portão cada vez que ouvia uma buzina. Pensava que era a perua da escola trazendo a irmã para casa. Por alguns meses ficava olhando fotos das duas juntas, abraçava a foto e repetia, quase chorando: “Cadê minha Doinha?”. Nem eu sabia onde estava a irmã dela, mas dizia que estava viajando e logo voltaria. Passado mais de um ano, Miranda percebeu que a irmã não iria voltar. Uma das vezes que mais me doeu foi quando Lucas Chigres, um amiguinho de Paraty, que veio com a mãe Kátia, minha amiga, passar uns dias em Santos, perguntou sobre Dora. A resposta: “minha irmã morreu”.
    De certa forma, Miranda tinha razão. O que é a morte? É ter alguém e esse alguém desaparecer da sua vida, nunca mais ouvir a voz, sentir o cheiro ou ter qualquer notícia. Por mais de dois anos foi o que aconteceu na vida de Miranda. Ela tinha uma irmã e de repente, não tinha mais.
   O meu bebê fofo e meigo, que até hoje prefere bonecas bebês e não barbies, tornou-se combativa e agressiva. Talvez porque tenha passado a ser filha única ao mesmo tempo que o fantasma da irmã era sempre presente. Parei de contabilizar as vezes em que Miranda me acompanhou em Fóruns, delegacias para fazer Bos, viagens até Ribeirão Preto para ver a irmã que não davam certo.
    A primeira vez que encontram-se, no consultório do psquiatra infantil José Hércules Golfeto (avô de Dora), a cena foi estarrecedora. Miranda tremia e chorava, como se realmente tivesse visto um fantasma. As duas irmãs ficaram abraçadas no chão, chorando. Dora pensava que Miranda não lembrasse mais dela. Miranda pensava que Dora não existisse mais. Fiquei emocionada, chorei, mas também fiquei feliz, pois de alguma forma, o vínculo entre elas era forte e não fora rompido.
   Porém foi uma ilusão pensar que a partir daquele momento as coisas melhorariam. Foram mais 1 ano e nove meses para que um encontro decente acontecesse. Após a perícia da psicóloga forense, ficou claro que o vínculo havia sido quebrado. Não sou eu quem está dizendo, foi a própria psicóloga que escreveu isso, no laudo que está no processo.
    O primeiro encontro em liberdade ocorreu de forma inesperada. Eu estava em Ribeirão para resolver outras pendências. Com toda a morosidade do judiciário, após não conseguir ver Dora nem com ordem judicial (e mais uma vez Miranda aguardou em vão e seguiu comigo para uma delegacia), imaginei que os trâmites legais se arrastariam por mais alguns meses. E de repente estava andando na luz do Sol com Dora, sem psicóloga, sem paredes, sem policiais na porta. Mas Miranda não estava.
    Contei que vi sua irmã, que passeamos e que ela iria junto da próxima vez. Miranda contava os dias. Perguntava: “Vamos poder tomar sorvete? Vamos passear pelas ruas?”. Parece algo tão banal (e é), mas absolutamente novo no mundinho dela. Então eu disse que nossa amiga Adriana Abujanra e suas filhas, Sofia e Manu, iriam nos encontrar também. Elas viriam de São Carlos passar o Dia das Crianças com a gente. “Mas mãe, nós vamos encontrar a Dorinha!”. Expliquei que ficaríamos todas juntas, nós, a Dri e suas filhas, a Paola e suas filhas. Miranda dava pulos de alegria! A cada manhã acordava perguntando quantos dias faltavam para ver a irmã. Doía em mim o tanto de ansiedade desta criança.
     E quando novamente paramos em frente a casa da família Golfeto, seus lindos olhos negros brilhavam e seu sorriso de covinhas era ensolarado. Queria andar abraçada, de mãos dadas e quando entrou no shopping disse que não ia largar a Dorinha, “pra todo mundo ver que ela é minha irmã”.
   Mas agora, quando tudo parece que vai melhorar, me encontro em outro dilema. Miranda tem ciúme da irmã, afinal, ela nunca está e toma conta do meu tempo, mesmo nunca estando. Miranda era feliz em Santos e agora terá de mudar para Ribeirão Preto por conta da irmã. Ela tem uma mãe só pra ela, mas que não é só dela, porque tem essa irmã distante, que nunca está.
   E Dora não tem o amor que tinha porque o amor é construído na convivência, nos pequenos momentos, nos grandes, nas viagens, nas festinhas, no levar e trazer para ballet, natação, escola. E Miranda sofre e, apesar de ser brilhante e inteligente demais, não consegue entender o porquê destas coisas todas. E eu tento explicar da forma mais sincera. Falo da Justiça, falo de guarda, falo da outra parte, falo de advogados. Não há forma lúdica para falar sobre isso. E agora eu sofro porque nada é, nem será como antes. Sei que não podemos viver no passado, nem no futuro. Mas o presente não está bom, faz tempo que não está.
   O que escuto de advogada, psicopedagoga e profissionais dessa categoria de psicos (categoria essa que por motivos muito pessoais, tenho sempre os dois pés atrás) é que isso é natural. É natural que elas tenham perdido o vínculo. É natural que se estranhem depois de quase 4 anos. Natural? Não vejo nada de natural nisso. Não foi natural a separação brusca, tantos juízes no processo que não decidiam nada, os advogados da outra parte usando todas as brechas da Justiça para procrastinar ainda mais esse encontro. Não foi natural o promotor ler um monte de acusações sem provas e dar um veredito me proibindo de ver minha filha.
   Agora dizem que preciso procurar uma psicóloga para Miranda. Quem vai pagar isso? O promotor que foi assinando sentença sem me ouvir? O juiz que não leu minhas contra provas? Jonas Golfeto que, ardilosamente, fez essa separação durar 4 anos? Antes eu tinha duas filhas e sabia tudo sobre elas e nenhuma apresentava qualquer problema físico ou psíquico. Agora eu tenho uma filha que não sei nem os nomes dos médicos (alergologista, oftalmologista e psicanalista) que tratam de suas alergias a quase tudo e olhos constantemente inchados e vermelhos, e outra que é mais forte que um touro, mas precisa de terapia. Quem paga pelo trauma de Miranda? Quem é o responsável por toda essa espera e ansiedade?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Nós e Eles

   Estava em Ribeirão Preto para resolver umas pendências de mudança ou não mudança para lá. Não esperava nada, sem expectativa nenhuma de processo. Então saiu um despacho do juiz, entendendo o esforço da outra parte em não deixar mãe e filha se encontrarem, achando que passava dos limites recorrer tanto, entrar com apelação e tudo que a Justiça, afinal, permite. Depois de ver que nem com ordem judicial eu pude ver minha filha, o juiz determinou, em um despacho relâmpago, que haverá multa de 1 mil reais cada vez que a outra parte não cumprir a determinação judicial. Infelizmente, há pessoas que só sentem dor no bolso ou na conta bancária. Essa multa já deveria ter sido estipulada há muito tempo. Mas antes tarde do que em 2020!
   Já estava com a passagem comprada para voltar na sexta, mas com todo o prazer e ansiedade do mundo fiquei na casa da Paola Miorim, a pessoa que indiquei para acompanhar as visitas, que agora devem acontecer, impreterivelmente, de 15 em 15 dias, sábado das 14h às 19h e domingo, das 10h às 16h. 
   No sábado acordei muito cedo, de tanta ansiedade. Comecei a arrumar a casa. Logo Paola chegou dos seus 30 km de corrida (está treinando para uma maratona), colocou o DVD de um show do Pink FLoyd num volume bem alto e faxinamos a casa. Enquanto organizávamos íamos lembrando nossa fase Pink Floyd, entre 13 e 15 anos. Falamos muito do Marcelo Miorim, o irmão mais velho da Paola e que, por muitos anos, foi também meu irmão mais velho e mais querido. Do caçula Rodrigo Miorim, que se foi tão precocemente dessa vida, tão lindo e tão amado. Algumas vezes me dava vontade de chorar. Pela música, pela saudade, pela emoção de estar ali na espera de ter liberdade. Nada poderia ser mais simbólico do que ouvir Pink Floyd.
   Fomos buscar minha filha, pontualmente, às 14h. O abraço não foi tão apertado como eu queria, o sorriso não foi tão largo quanto eu esperava. Nada mais será como antes. Não dá para comensurar o tamanho do buraco que ficou em nossas histórias. Não vou contar detalhes de como foram nossos dois encontros. Só posso dizer que nunca foi tão bom sentar num sofá e ver um filme de mãos dadas. Almoçar a comida deliciosa da Paola, numa mesa de família, uma família de verdade e harmoniosa. Nunca foi tão bom tomar um café expresso em um shopping, enquanto Dora e Giovana (a caçula da Paola) tomavam um milkshake. 

    Acho que a outra parte e sua família nunca imaginariam que eu teria uma tão grande amiga em Ribeirão Preto, capaz de passar seus finais de semana comigo e minhas filhas, com "muito orgulho e com muito amor" e que suas filhas ficariam amigas de Dora. E tenho certeza que Dora e Giovana terão a mesma irmandade que tenho com Paola.
   Nesse tempo tão breve, mas tão importante que passamos juntas, falamos de quando éramos adolescentes, de nossos treinos de 10 km nadando, de nossos paqueras, primeiros namorados, estudos e parte de algumas situações hilariantes que já vivemos. Nossas filhas riam de tudo. Lívia, a mais velha da Paola, sempre dando suas pitadas divertidas de ironia.
  Também acho que é muito emblemático a Paola me acompanhar nesses encontros. Depois de quase 4 anos acompanhando mais de perto do que qualquer um essa saga, não poderia existir pessoa melhor para tal missão (ela assinou um termo de responsabilidade no Fórum, é uma missão, um compromisso com a Lei). E não digo isso só por ser equilibrada, inteligente, divertida e linda (e ainda muito mais por dentro do que por fora, acreditem). Mas porque tem aquela sensibilidade que falta na maioria dos seres humanos, porque tem paciência e sabedoria. E tem perseverança e determinação.
    
    Sempre foi o avô quem levou e buscou minha filha no portão. Na "entrega" me estendeu a mão e disse: "Não precisa ter tanto ódio, Adriana". Apertei sua mão, que estava meio trêmula, e respondi: "No meu coraçãozinho não há espaço para ódio e rancor". Imediatamente lembrei de uma das músicas que ouvi pela manhã, Us and Them. No final somos todos iguais e continuamos com os mesmos desafios e desavenças desde que o mundo é mundo. Mas é sempre "nós e eles". É muito difícil combater a injustiça. E nossas vidas muitas vezes está nas mãos de quem não nos conhece. E vejo tantas brigas por guarda de filho em todas as partes. Depois a criança cresce e vai embora. E o que fica são buracos, vazios e uma sensação de vida perdida.

    Pensei muito em todas as mães* e filhos que passam ou passaram por isso, todas que conheci nesses anos duros. Em especial na Natália Nogueira, que me preparou para esse estágio do estranhamento inicial. E porque ela ama Pink Floyd tanto ou mais do que eu e Paola. E a sensação de liberdade, mesmo momentânea, que senti, talvez possa ser traduzida nesse vídeo e nessa música. A vida é muito curta para ser perdida em processos, fóruns e cartórios.

* Não consigo pensar nos pais que disputam guarda porque os que fazem isso é por vingança. E sempre, sempre mesmo, as crianças ficam aos cuidados de terceiros (avós, tias, madrastas, babás). Pai que tem guarda é porque a mãe morreu, ficou doente demais ou presa. E esses pais torcem para que as mães melhorem e retomem a guarda. Ou procuram uma mulher bacana para ajudar com os filhos.
    Mas penso em pais que lutam pelo direito de ter finais de semana com seus filhos. Porque também existem muitas mulheres vingativas, que usam os filhos para machucar seus ex... não é uma questão sexista, é uma questão humanitária. E há humanos de todos os tipos, até os sem nenhuma humanidade.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Carta Aberta ao Jornalista Caco Barcellos e Equipe

    No dia 1 de junho de 2011 escrevi um texto chamado Profissão Repórter: Novela ou Jornalismo, logo após a veiculação da matéria que expunha minha filha durante sua busca e apreensão na escola, na cidade de Santos. A tal matéria foi feita de forma muito esquisita. A repórter Eliane Scardovelli fazia a minha parte e Gabriela Liam do pai, Jonas Golfeto. Fique claro que a equipe foi chamada pelo próprio pai, que não hesitou em gravar o momento traumático na vida da filha. E a equipe assim o fez, seguindo um roteiro, como se fosse novela ou cinema.
   O que eu pergunto ao jornalista Caco Barcellos é qual a motivação para tal matéria? Nela não mostrou a entrevista com minha amiga Claudia (falecida há 1 ano e 8 meses), nem a entrevista com a filha dela, Raquel, que era a melhor amiga da minha filha e sofreu muito com a separação. No mesmo programa mostraram um pai boliviano, que fugiu com a filha brasileira para a Bolívia. Mostraram vizinhos e familiares dizendo o quanto era ótimo pai e amoroso. A mãe? Foi tirada até de garota de programa. Gabriela Liam agora está na equipe de Encontros, com Fátima Bernardes. Ora, adoraria ser chamada para esse programa com minha filha. Gabriela Liam, jornalista imparcial, deveria propor tal pauta: Encontro entre mães e filhos separados pela Justiça.
   Mas o que quero dizer para Caco Barcellos é que sua irresponsabilidade em editar de forma torpe tal matéria causou imensos danos morais, financeiros e físicos em mim e, muito provavelmente, na mãe que teve sua filha levada para a Bolívia. Quero que saiba que esse programa fez com que muitas pessoas que admiravam seu trabalho, passassem a desprezá-lo. Soube por amigos que trabalham na Rede Globo que esse programa fez muita gente olhar torto para seu trabalho. Colegas da emissora, inclusive.
   Gostaria de pedir que faça um jornalismo verdadeiro e mostre como está tudo agora, 3 anos e 7 meses após a busca e apreensão da minha filha. Nesse tempo só pude vê-la em dezembro de 2012, no consultório do avô psiquiatra infantil José Hércules Golfeto, com advogadas e segurança na porta. E com Jonas Golfeto do lado de fora. Isso porque foi um acordo. A única audiência deste processo aconteceu no dia 2 de agosto de 2011 e todas as propostas aceitas por mim, não foram cumpridas por Jonas Golfeto, o mesmo que vocês seguiram até Ribeirão Preto, para onde levaram e mantém até hoje minha filha. Depois o pai mudou de ideia e não pude ver mais, só 4 meses depois, dentro de uma sala de fórum, por 2 horas e meia, com psicóloga monitorando.
    Com muitos agravos, recursos e apelações depois, consegui uma sentença para vê-la, há dois finais de semana. Mas o advogado de Jonas Golfeto, Danilo Murari Finestres, o orientou (e também aos avós, donos da casa onde minha filha mora e mentores mentais e financeiros disso tudo) a não estar na casa no horário combinado. Fui lá e a casa estava vazia. Nem pude chamar a polícia para efetuar a ordem judicial. Não vejo minha filha desde dezembro!
    Seria imensamente produtivo e esclarecedor que o jornalista Caco Barcellos e sua equipe retomassem essa história e mostrassem como age por vingança a outra parte, como os entraves judiciais mantém uma filha órfã de mãe viva por quase 4 anos. Isso seria de grande utilidade pública, ao contrário do que vocês exibiram em 2011.
    Assim como no caso da Escola Base, muitas vidas estão sendo destruídas pela afobação, falta de sensibilidade e falta de apuração jornalística. Ainda lembro de Eliane Scardovelli dizendo que eu estava desesperada por não saber da minha filha e você, Caco Barcelllos, disse um não cuspindo de ódio. Não sei de onde vem esse seu ódio por mulheres (a outra mãe foi tratada como garota de programa enquanto o pai fugitivo era só um pobre desesperado em ficar longe da filha). Talvez, uma suposição de quem vive esse tormento há anos, você tenha sido afastado de algum filho e pensa que todas as mulheres são iguais. Talvez tenha um ódio crônico das mães. Não sei o que o motivou fazer um programa que só mostrou briga e minha filha chorando. Talvez fosse interessante mostrar como funciona a Vara de Família e todos os casos de mães e filhos afastados por burocracia. O mal intencionado sempre leva vantagem no judiciário. 
     Que tal procurar a mãe de Santa Catarina e saber se tem notícias de sua filha? Que tal procurar Jonas Golfeto e seus pais e perguntar o que eles pretendem com tudo isso? 
      Sei que nunca terei respostas de um jornalista que se considera referência e que não deve explicação a alguém como eu. Afinal, Caco Barcellos, quando um amigo em comum, perguntou em um jantar na sua casa, sobre o programa (não disse que me conhecia, apenas queria saber mais sobre o que você pensava) e sobre mim, sua resposta cruel foi: É uma drogada que perdeu a guarda da filha! Depois disso até essa pessoa perdeu qualquer admiração por você (nunca direi o nome porque o bom jornalista jamais revela suas fontes). Primeiro, sr Caco Barcellos, nunca fui drogada, o mais perto que cheguei de drogas, foi assistir ao seu programa. Segundo, sr Caco Barcellos, toda a criança tem direito a ter pai e mãe, mesmo que sejam drogados ou presidiários. 
     Enfim, ficam aqui minhas singelas sugestões de pauta. Para Gabriela em Encontros e para sua equipe fazer a coisa certa, ao menos desta vez.
     
    

sábado, 13 de setembro de 2014

"Sabe que isso não vai dar em nada"

    Hoje era dia de visita. Minha advogada conversou ontem longamente com o advogado da outra parte, Danilo Murari Finestres. Mesmo já tendo recorrido, entrado com agravo e apelação, provavelmente tendo lido de trás para frente e de frente para trás a sentença, disse que entendeu outra coisa. Que essa visitas deveriam ser monitoradas por psicóloga e só ocorreriam no ano que vem. Enfim, o advogado ajuda o cliente em seus interesses, como deve ser, já que é pago para isso. 
   Minha advogada disse para eu nem ir porque ou não estariam ou não deixariam, teria de chamar polícia e tudo isso. Ela é do tipo que pensa na criança, não na cliente. Sei o quanto minha filha ficaria irada ou envergonhada ou sei lá porque não sei mais nada dela.
   O advogado da outra parte só pensa no vil metal. Tanto que até desistiu de me cobrar judicialmente a dívida que só aumenta e sua maior preocupação no papo com minha advogada foi sobre negociar o que devo para ele. O cara está sendo "legal", disse que nem quer cobrar juros, só os 15 mil, porque eu tinha dividido em 16 parcelas de mil, paguei a primeira, lá nos idos de 2011, quando pensei que minha filha estaria em São Paulo com o pai (afinal Jonas Golfeto morava desde 1994 em São Paulo e sempre odiou Ribeirão Preto, costumava dizer que era uma província com mania de megalópole). Mas mandei um email para ele, me desculpando, porque os outros 15 mil seria o que eu gastaria viajando toda hora para Ribeirão Preto. A verdade é que ninguém vai preso por dívida nesse País, muitas vezes nem por crimes hediondos.
     Enfim, eu, Paola, que havia acordado 5h para fazer seu treino e correu "só" 20km (o total era 30km, mas o calor aqui está muito insuportável), descansou um pouco, tomou um banho e nem almoçou para poder estar comigo lá, às 14h. E lá estávamos nós e Miranda na frente da casa dos avós, José Hércules Golfeto (o tal psiquiatra infantil de metodologia duvidosa) e Ed Melo Golfeto (psicóloga, finalmente aposentada). Não havia sinal de vida, nem carro na garagem. Suponho que Danilo Murari Finestres tenha orientado a família a sair de casa antes do almoço e só voltar à noite.
     Fomos na delegacia fazer um Boletim de Ocorrência. O escrivão disse: "Você veio até aqui para ver sua filha e sumiram?". Sim e coloquei lá que o cara é ator, nome dos avós, data de nascimento do genitor e endereço. Mostrei a ordem judicial. Perguntei se isso é motivo de ordem de prisão. Ele me olhou sorrindo: "sim, mas sabe que isso não vai dar em nada, nesse País você pode matar e se não for pego em flagrante e se entregar em três dias, responde em liberdade". Sim, senhor escrivão, eu sei bem como NÃO funciona o sistema judicial brasileiro.
     O que faço agora? Levo esse BO para encher ainda mais os 10 volumes de processo. Não vai dar em nada. Amanhã eles vão sair de casa antes das 9h e voltar depois das 19h. Agora vai ser assim, a cada 15 dias desaparecem. Como vive com tamanha infelicidade essa família? 
     Tem uma tia avó, a única irmã do avô que é evangélica, ela diz que quando eu aceitar Jesus no meu coração tudo vai mudar. Olha, tia, quem tem que aceitar Jesus é essa família Golfeto. Temo muito que minha filha fique igual a eles. O DNA ela já tem, a convivência também...
      E assim continua a saga sem fim. Sem fim? Acho que já deu pra mim.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Alienação Parental Concluída

   Então eu decido mudar de cidade, mudar a vida e mudar tudo, só porque saiu uma sentença em junho, de que eu poderia pegar minha filha Dora em finais de semanas alternados, sábados das 14h às 19h e domingos das 10h às 16h. Se tudo der certo, se eu não surtar ou coisa parecida, a partir do próximo ano posso então passsar a noite com minha filha. A outra parte, Jonas Golfeto, claro, achou isso uma ofensa. Então seus advogados Danilo Murari e sua mãe Ana Maria Murari, recorreram dessa sentença. O juiz respondeu antes do que eu pudesse imaginar. Daí os ávidos advogados, especialistas em separar mãe e filha, recorreram. O juiz respondeu a meu favor. Mas eles entraram com agravo. Depois apelação. Mesmo assim não houve jeito.
    O juiz, talvez começando a entender que alienação parental existe e que está sendo executada por essa família de advogados e seu cliente, determinou que as visitas fossem feitas, com pessoa indicada por mim, já que a outra parte exige uma psicóloga e não indicou ninguém no tempo determinado. Então, eu aqui em Ribeirão Preto, estive ontem no Fórum com minha amiga Paola Miorim, indicada por mim. Ela assinou o termo de responsabilidade e será a pessoa que acompanhará as tais visitas. A sentença é clara: se o autor (Jonas Golfeto) não indicar alguém no prazo de 15 dias, a pessoa que eu indicar estará valendo. Mais de 70 dias depois, vou ao Fórum com Paola, para assinar o termo de responsabilidade. Ela irá comigo buscar e entregar Dora (assim mesmo que a Justiça trata, como se fosse um objeto).
    Então Giovana, filha de Paola, amiga virtual de Dora (já que o pai não deixa elas se encontrarem porque essa menina adorável de 12 anos é filha de minha amiga, portanto perigosa), manda uma mensagem feliz, pois as duas iriam se encontrar nesse final de semana. Mas Dora reluta, diz que não será possível porque o pai não está sabendo de nada, que não é assim e que ela tem outros planos para o final de semana. Há quase um ano sem ver a mãe, a mãe nem importa tanto. Sei como é, não fazemos mais parte uma da vida da outra. Nem faz falta, nem tanta diferença...
    Não quero colocar crianças nas brigas dos adultos. Não quero falar de termos judiciais com minha filha que não vejo desde dezembro. Mas é a única forma de explicar o que está acontecendo. Minha vontade é mandar a sentença pra minha filha. Mas teria de traduzir o juridiquês, isso só seria possível pessoalmente. E esse encontro parece nunca acontecer.
      Minha advogada, Lucélia Nunes, fala por telefone com Danilo Murari. Ele quer saber quem é Paola, diz que não posso encontrar nesse final de semana (nem com ordem judicial), que talvez no próximo, e exige que Paola busque minha filha e que fiquemos na casa dela, mais que isso, diz que Jonas é quem irá buscar e levar e que nós iremos ficar na casa, sem sair. Caramba! Mas o juiz deixa claro que eu vou para onde eu quiser, só tenho que respeitar os horários, nada mais. Como assim vou obrigar minha amiga a passar os finais de semana com suas filhas, presa em casa?
    Então o "doutor" (só considero doutor quem tem doutorado) Danilo Murari diz que separou-se e agora tem uma namorada que leu meu blog e o questionou sobre esse seu esforço em separar mãe e filha. Que pena que ao dar "um google" em seu nome é no meu blog que vai parar.  Que pena que sua única explicação seja "tenho que defender o interesse do meu cliente, mesmo que isso seja separar por 4 anos mãe e filha e irmãs". Que bom que essa namorada leu meu blog. Tomara que ela pense 1.574 vezes antes de ter um filho com esse homem. Se ele faz isso, não será diferente com seus próprios filhos. Tomara que essa gente não procrie. Ghega de Muraris no mundo!
    Ah, sim, ainda devo 15 mil reais para esse "doutor". É o fim ter de pagar para quem só me ferra, para quem acaba com minha vida e saúde. Tenho muitas dívidas a serem pagas na frente.  Pega uma senha e espera "doutor". Até perguntei para minha advogada se no caso da minha morte a dívida fica para outra parte. Não, a dívida morre comigo. Então, doutor Danilo Murari, torça para que eu tenha uma vida longa e próspera, e pare de ajudar seu cliente na alienação parental, quem sabe assim eu consiga viver e trabalhar em paz e ter 15 mil para te pagar. E que todas as suas atuais e próximas namoradas leiam esse blog e questionem seu caráter. E que nenhuma mulher em sã consciência tenha um filho seu. Ela perderia a guarda do filho no caso de separação, certamente.
    Amanhã é meu dia de visita. Mas sei que não vão deixar. Estarei lá com minha amiga Paola Miorim, que já passou por tantas nessa vida, que nem se importará se tiver que ligar 190 para realizar a visita. Não tive irmãos, mas a vida me presenteou com amigos que são mais que irmãos. Daria a vida por eles porque eles dão a cara, o nome, o tempo,  o currículo por mim.  

   Aluguei um apartamento em Ribeirão Preto, mas se essa visita não acontecer nesse final de semana eu desisto de tudo. Posso escrever de qualquer lugar e vou ser feliz em Paraty, um lugar que é pura inspiração literária.
  Não queria desistir da minha filha, mas gente como Jonas Golfeto, Danilo Murari e sua mãe Ana Maria Murari, tão nefastos e aplicados em separar mãe e filha e irmãs, me fazem desacreditar da humanidade. Uma pessoa nefasta é capaz de fazer um estrago que nem mil pessoas boas conseguem consertar. Cansei de sofrer, de tentar e não conseguir. Tem muita criança órfã louca para ter uma mãe como eu. E meu amor é tão grande que não precisa ser filha biológica. Minha filha vive bem sem mim. Não fazemos mais parte uma da vida da outra. Parabéns advogados do mal, vocês são excelentes, a alienação parental foi concluída.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Os irmãos Leplus

   Um amigo meu, Paulo Ornelas, me chamou para o projeto de um livro: a biografia de Alain Leplus, um francês, ex-jogador de rugby, grande divulgador do esporte no Centro-Oeste e conhecido por várias gerações de rugbiers. O problema era que eu nada sabia sobre esse esporte. Paulo é ex-jogador, tem a revista Rugbier e seus dois filhos também jogam. Teria quem me ensinasse. Assim aceitei mesmo sem saber as regras do jogo, porque gosto de biografias e de atletas. Como disse meu grande amigo e quase irmão Angel, estou me tornando uma biógrafa de atletas.
    Então fui para Cuiabá no final de maio conhecer Alain. Mas antes fico sabendo que outra jornalista escreverá comigo, por sugestão do próprio biografado, já que está na mesma cidade e tem muita amizade com os irmãos Leplus. Alain mora com o irmão Michel, fotógrafo e apaixonado por rugby. Não conhecia a jornalista Flavia Salem e mesmo que tivesse idealizado uma parceira perfeita, não teria tanto sucesso. Quando bati os olhos em Flavia, em sua sala, no jornal Circuito Matogrossense, a empatia foi imediata. Nos identificamos em praticamente todas as coisas, no envolvimento cultural, preocupação social, adrenalina jornalística, nas músicas, nas escritas.
   Para começar a entender um pouco de rugby fiz um intensivo assistindo a final da Liga Europeia na casa dos irmãos Leplus e com Paulo. Sem vergonha de ser uma leiga no assunto perguntava tudo e mais um pouco. Por sorte estava no time francês o ícone Sebastien Shabal. Daí comecei a entender o espírito do jogo. Impossível não comparar ao futebol, que me envolveu por um ano e meio, no projeto da biografia de Djalma Santos. No futebol cavam-se faltas. No rugby os caras jogam sangrando e fazem seus próprios curativos. No começo achei confuso, depois comecei a torcer. Sou torcedora, não consigo apenas assistir.
   Após esse jogo na TV fiquei entrevistando Alain e me apaixonando por sua personalidade meio porra-loca, divertido, que destila ironia e simpatia. Me deixou super a vontade para perguntar qualquer coisa. Depois fui assistir um jogo entre Cuiabá e Campo Grande. Após o jogo houve o famoso terceiro tempo, uma festa entre os times. Entre titulares e reservas, mais de 50 jogadores na casa dos irmãos Arruda (quatro irmãos enormes que jogam no mesmo time). Perguntei para a mãe deles se era sempre assim. "Hoje são só dois times, imagina quando são quatro". Nossa, como é bom esse clima de confraternização entre atletas. Havia algumas jogadoras também, mas o feminino ainda está começando por lá. O treino é forte, exige muito. O patrocínio é pouco, como para a maioria dos atletas brasileiros.
   Os irmãos Leplus foram uma viagem até a França sem sair do Brasil. Seu modo de encarar a vida, a visão política, seus vinhos, seus sucos de uva (produzem o suco Melina, uma delícia, diga-se de passagem) me fizeram ter mais vontade de conhecer a França. Conversar com os dois também foi um exercício e tanto, tamanha discrepância das personalidades. Alain é o relaxado (no bom sentido), sorridente, tirador de sarro e Michel é sério, meio emburrado, pontualíssimo e parece estar sempre apressado. Ambos são muito inteligentes, simples e hospitaleiros. 
    Claro que ao falar da infância emocionaram-se e quase me tiraram lágrimas. Tento muito ser profissional o tempo todo, mas em biografia chega a ser impossível, não há como não me envolver nas histórias, se assim fosse, talvez o trabalho não ficasse bom. Sou uma contadora de histórias e quando a história é boa, quero deixá-la ainda melhor.

   

Os presentes de Cuiabá

    
     Alguns capítulos prontos e voltei para Cuiabá semana passada. Na primeira noite fui ao bistrot Casa do Parque, da Flavia. Um lugar lindo, elegante e direcionado para eventos culturais: exposições, shows, lançamentos de CDs, livros. Era um jantar fechado para jornalistas e Lucinha Araújo, a mesma que me fez chorar lendo as Mães São Felizes. Mas conhecer Lucinha não foi a grande surpresa da noite, pois quando Flavia me convidou, já sabia que a conheceria. Lá também estava o agitador cultural e visagista Celinho, como se fosse um amigo de infância que reencontrei por acaso. Acho que temos muitos irmãos espalhados pelo mundo esperando o reencontro.
   Livro elaborado, fotos escolhidas, novas fotos feitas, entrevistas complementadas, passamos a falar de um novo projeto. Por algum motivo místico e óbvio, sabia que nossa dupla não ficaria "apenas" em um livro.
       No almoço do dia seguinte fomos ao restaurante de um amigo de Flavia, no final, fui apresentada como jornalista de São Paulo e escritora. Então Renato de Paiva Pereira, o proprietário, me deu um livro seu, o primeiro de ficção. Adorei o presente, disse que leria no aeroporto e no avião. O Diabo Vai ao Céu me fez rir alto, são crônicas curtas, cheias de deboche sobre a sociedade moderna, histórias hilárias de um caipira. Quero muito que Renato saiba o quanto gostei de seus escritos. Em um dos textos ele se dirige ao leitor, como "meu único leitor ou leitora". Achei isso genial. Alguém com uma narrativa tão envolvente quanto simples, assim tão desprovido de qualquer vaidade intelectual. Alguém que se diz um caipira da terceira idade, mas que tem um texto absolutamente contemporâneo.
    
    E agora fico assistindo videos de rugby, escolho fotos de Alain nas várias fases da vida, penso em aprender francês. Tento selecionar com Flavia as melhores de tantas histórias de vida, já que o livro não passará muito de 200 páginas de texto, com muitas fotos. Mania que eu tenho de escrever tanto. Se eu perguntasse menos não teria a dor de excluir texto que considero bom e relevante. Queria contar todas as histórias de todas as pessoas que conheço. Mas ainda tenho a sorte (não sei se a palavra é essa) de encontrar figuras tão inusitadas como os irmãos Leplus, com uma vida tão rica.
    Antes e depois de Cuiabá estive em Brasília. Fui com Miranda para o aniversário de Rudá, filho de seus padrinhos Angel e Gab. Mas essa é outra linda e grande história.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Embargos Declaratórios

   Tento, tento muito não escrever mais sobre o processo, mas daí é tanto email, tanta mãe pedindo auxílio que me sinto no dever de elucidar mistérios do judiciário brasileiro. Queria escrever mais sobre todas as coisas porque fico um tempo sem entrar aqui e vejo que tenho mais e mais gente de todos os cantos lendo o que escrevo (certo ou não, concordando ou não). A vida tem me dado muitas surpresas boas e deveria escrever todos os dias sobre isso. Mais do que vaidade intelectual, escrever é um ato meio desesperado, quando não aguento mais guardar comigo tanta informação e sentimento, preciso mesmo escrever.
   Minha advogada, que parece minha irmã mais velha porque briga comigo, me conforta, me ajuda, briga de novo, não quer que eu escreva sobre o processo e sei que está certa, diz que não ganho nada com isso e sei que pode estar certa. Já perdi tanto e não quero que outros também percam. No que puder evitar que ex casais acabem com a infância de seus filhos, evitarei. 
   Na sentença de 32 laudas o juiz me vê como uma pessoa vingativa e a outra parte como traumatizada, o juiz entende o trauma da outra parte, mas não concorda que duas vítimas continuem sofrendo. As vítimas são as irmãs separadas, Dora e Miranda. Isso me confortou muito. O juiz sabe que Miranda existe e é a que menos culpa tem em tudo isso e talvez seja quem mais sofre. O amor que ela tem pela irmã chega a me doer. O que uma perde da outra dói demais em mim. E acreditem, mesmo com a sentença publicada em 26 de junho, ainda não vi minha filha. É que os advogados da outra parte entraram com um recurso chamado Embargos Declaratórios. Traduzindo o "juridiquês", pedem para o juiz explicar melhor, pois não entenderam o sistema de visitas e ainda o chamam de omisso. Ninguém gosta de ser chamado de omisso, muito menos alguém com plenos poderes sobre a vida dos outros.
   Não sei quanto tempo isso ainda vai durar, mas sinto que será pouco tempo. Sinto estar cada vez mais próxima da minha filha, apesar de todo o tempo e distância. Talvez esse meu jeito meio adolescente de ser me aproxime mais dela. Talvez a música, a literatura, nossas bandas preferidas, os amigos em comum. 

    Daí eu tinha escrito isso aí em cima e o juiz, que poderia demorar, no mínimo, 2 meses para responder aos Embargos Declaratórios, respondeu em menos de um. Talvez agora esteja percebendo que "o vingador" está do outro e o trauma também é meu. Mesmo assim a outra parte agora entrou com agravo de liminar, no Ministério Público.
    Sei lá, deve ser muito triste viver uma vida procurando brechas da Justiça, achando que está ganhando quando todos estão perdendo. Deve ser muito vazia e sem amor a vida de pessoas que agem assim. Nem sinto mais raiva, chego a sentir pena. E nem sinto pena das minhas filhas porque continuam sãs, inteligentes e lindas. Tenho pena da pequenez humana, da falta de respeito com a efemeridade da vida. Prometo que escreverei mais vezes e vou buscar inspiração no que há de bom e construtivo. Mas continuo desejando que haja uma reforma judiciária com a máxima urgência nesse País. Continuo desejando um mundo melhor e sem guerra, mesmo sabendo que não sou capaz nem de resolver um conflito pessoal. A guerra dos outros sempre parece menos bélica que a nossa. Nunca é.