quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Descaso com Dengue deu em Zika

  Começar o primeiro post do ano falando de epidemia não era minha intenção. Pessoas que não conheço me escrevem para saber se está tudo bem, que sentem falta desses textos aqui, aparece gente nova lendo tudo. Digo que muitas coisas boas aconteceram nesses quase dois meses de ausência. As férias com minhas meninas foram simples e ótimas, muitas mudanças - inclusive geográficas e físicas - aconteceram na minha vida. Leitores me escrevendo por empatia, mais mães querendo desabafar, ouvir conselhos. Mas minha cidadania e essa mania de ter e passar informação me obrigam a falar do zika vírus. Não dá para falar apenas do meu cotidiano às vezes normal, outras surreal. Ainda mais porque este blog é lido em todos os Continentes (humildemente me orgulho muito sobre esse fato) e com tanta tecnologia e informação, é difícil crer que um mosquito possa causar tanto estrago, mas causa. 
   Segundo informações do Ministério da Saúde foram registrados 40 mil casos de dengue em 1990. Os números foram crescendo até atingir 1,5 milhões de pessoas em 2015. E sabemos que muitas pessoas passam pela dengue sem registro. Tenho um caso na minha casa. Há uns 4 anos minha mãe, que não gosta de ir ao médico, que mal fica doente, teve o que chamou de "uma gripe muito forte", passou uma semana "derrubada", por insistência minha foi fazer exame e, bingo, era dengue. Então podemos dizer que esse número pode ser maior que o dobro.
   O zika vírus foi isolado pela primeira vez em 1947, em Uganda, na África. É sempre assim, enquanto a doença mata nossos irmãos africanos, sem poder de consumo, que já "nascem para morrer de fome", ninguém liga muito. Mas depois o vírus se espalhou para Ásia e Oceania. Pior quando chega na Europa e América do Norte! 
   Como o maior transmissor do zika vírus é o mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue, não causa estranhamento a proliferação no Brasil. Mais de 4 mil casos de bebês nascidos com microcefalia nos últimos meses é assustador. Já soube de mulheres grávidas abortando sem nem ao menos ter contraído o vírus, apenas por medo. Mas é para ter medo mesmo. Já não é fácil criar uma criança saudável, imaginemos como seria saber da possibilidade de ter um filho com problemas neurológicos irreversíveis, num País onde a saúde vive em coma.
   Para piorar o quadro, os cientistas ainda não tem tanto conhecimento quanto ao vírus, nem se uma pessoa uma vez infectada estará imune. É assim com a gripe, que precisa de nova vacina a cada ano. Como o Brasil é um País tropical (sei lá se abençoado por Deus), a proliferação é maior. Até acho que o nosso Governo está informando a população e contabilizando os casos de forma eficiente. Mas teremos Olimpíadas em breve e sim, será uma situação de risco, que poderá levar o vírus para lugares onde ainda não existe.

    O que podemos fazer? Mulheres, não engravidem! Pessoas, passem repelente o tempo todo! Mas, por favor, nada disso será eficaz se continuarmos deixando a água parada acumular... estamos em guerra e não podemos perder várias batalhas para um mosquito.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Estudantes: Assim Nascem os Anarquistas

  No final de 2013 recebi um email de Mayara Queiroz, uma estudante que precisava defender o Anarquismo numa aula. Me disse que não sabia nada sobre o tema, estava perdida e chegou até minha pessoa por meio desse blog. A defesa seria como um tribunal, cada grupo defendendo um sistema político (presidencialismo, monarquia, parlamentarismo, socialismo, comunismo, capitalismo). Ela queria respostas minhas, o que achei interessante, já que não se contentava com googles e wikipedias da vida. Respondi o que pude, indiquei livros, autores e passei o contato de um amigo anarquista, Jonatas Nunes, que passou ainda mais informações.
   Eu disse ser um prazer disseminar ideais anarquistas. Mayara agradeceu: "Muito obrigada, o tribunal já acontecerá semana que vem e eu ando vendo uns filmes para me informar e tals, tudo o que souber e lembrar e puder me ajudar avise aqui, por favor". Uma semana depois recebi uma linda resposta:
  "Venho agradecê-los por toda a ajuda que me deram, a base e os ensinamentos. Sou muito grata e graças a vocês vencemos no tribunal! Arrasamos! Acabei com a vida daqueles que eram contra o anarquismo. Critiquei tão bem o capitalismo que não tinha como eles vencerem. Convenci muito bem o júri, me desconheci rsrs. Então, muito obrigada, gente!
 
  Fiquei muito emocionada, mais ainda quando soube que era uma garota de 16 anos, ainda no colegial. Nem tinha perguntado nada, pois "deduzi" que era estudante de Direito, pelas perguntas, por como escrevia bem. Me deu muita esperança porque ela disse que todo o grupo virou anarquista e os outros grupos se interessaram pelos livros e filmes que viram.
  Estava há 2 anos para escrever sobre esse acontecido, mas fui deixando, deixando e agora parece ser muito pertinente o assunto. A maioria das pessoas pensa que anarquia é bagunça, é vandalismo e em momentos como o que vivemos, com a ocupação dos estudantes nas escolas paulistas, o que mais escuto é que estão fazendo uma anarquia, mas no sentido pejorativo. Sim, esses jovens estudantes estão em um sistema anárquico ocupando as escolas. Eles estão dividindo tarefas, cozinhando, limpando, fazendo leituras, dormindo, acordando de forma anárquica, organizada.
   Pacificamente estão lutando contra o opressor, no caso o Governo do Estado de São Paulo, que impôs uma "reorganização" fechando quase 100 escolas. O Governo pensava que essa garotada era alienada e iria aceitar facilmente ser transferida para escolas geograficamente distantes, causando transtorno diário na família toda e até causando o abandono escolar. É muito antagonismo querer reorganizar fechando escolas ao invés de construir escolas novas. Os alunos conseguiram em um mês o que a APEOSP (Sindicato dos Professores de Ensino Oficial do Estado de São Paulo) não conseguiu em 20 anos: negociar e vencer a negociação com o Estado. E ainda tem gente que chama esse movimento estudantil, a mais revolucionária manifestação no Brasil neste início de século, de baderneia anarquista. Sendo que uma coisa nada tem a ver com outra.
    O mais sensato a fazer é mandar quem não entende nada de anarquia estudar um pouco de história. Seria capaz de escrever um tratado sobre anarquismo, mas vou apenas em um ponto, deste sistema que chegou ao Brasil no final do século XIX, pelos imigrantes europeus, principalmente os italianos. Primeiro uma definição simples sobre o que significa anarquia, que é a"ausência de governo". Representa o estado da sociedade ideal em que o bem comum resultaria da coerência entre os interesses de cada um. A anarquia é contra a divisão em classes e toda a espécie de opressão de uns sobre os outros. O anarquismo rejeita o poder estatal e acredita que a convivência entre os seres humanos pode ser determinada pela vontade e razão de cada um. E o ponto que quero chegar é sobre a Educação Libertária proposta pelos anarquistas, que consideram a educação uma maneira de emancipação do indivíduo e dessa forma pode nascer a base de uma nova sociedade. E é justamente essa emancipação que não interessa aos políticos e governos. Quanto mais sabemos, mais questionamos.
   Parece utopia? Sim, parece. Mas esses estudantes paulistas estão provando que não. Eles podem ser os donos das suas escolas, lutar contra o Estado opressor, que não media balas de chumbo e spray de pimenta contra esses meninos. A coisa estava ficando tão violenta que logo haveria um mártir assassinado por algum policial militar do Governo paulista. Ainda bem que o apoio dos pais, sociedade e Jornalistas Livres mostraram o que estava realmente acontecendo. Minha esperança nasceu em Mayara e continua agora nos milhares de jovens nas escolas.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Corpo é Meu

   Há algum tempo vem circulando nas redes sociais do Brasil coisas do tipo #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto. Para quem não entendeu: é uma forma da mulher liberar um assunto muitas vezes sufocado, engasgado e esquecido em algum lugar sombrio da mente. Sempre houve assédio forte e precoce e o tal "amigo secreto" é alguém que teve confiança das mulheres e traiu essa confiança, usando-a.
   Tenho incontáveis amigos homens que são muito participativos na causa do feminismo. Mas jamais poderão ser feministas, pois não são mulheres. Assim como sou partidária contra a homofobia e racismo, mas jamais poderei lutar verdadeiramente pela causa, já que não sou homossexual, nem negra. Sinto o racismo de outra forma, como senti ao ter um namorado negro. Sinto a homofobia quando percebo olhares que recriminam meus amigos gays. Então só as mulheres sabem o que é andar na rua e ouvir todos os tipos de "gracinhas", como se fossemos feitas para isso, como se fôssemos objeto de prazer. Só nós sabemos o que é ter que puxar a saia para baixo ou diminuir o decote para não sentir-se um pedaço de carne suculenta perto de ser devorada.
   Fiquei peituda e cheia de formas muito cedo. No ambiente aquático que frequentava sempre me senti completamente feliz e a vontade com meu corpo. Acredito que os meninos que nadavam, cresceram com a gente, viam tantas garotas (claro que o número masculino era bem maior), que nunca me senti devorada. Sempre me senti respeitada. E hoje percebo a sorte que tive. Às vezes penso quantas mulheres já foram estupradas e quantas vezes voltei sozinha para casa tarde da noite e nunca passei perto disso. Nem com pessoas próximas, que é como acontece o maior número de estupros infantis. É triste pensar que tive sorte, até porque tenho duas filhas e temo muito por elas também. E ainda temo por mim. E por todas as mulheres.
    Meu primeiro assédio, que me lembro, assédio pesado, veio do pai de uma amiga, uma grande amiga. Eu tinha 13 anos, um corpo de 18 e estava no quarto dela. O pai se aproximou da cama onde eu lia um livro. Passou a mão nos meus cabelos. Não senti nada de diferente, pois meu pai me tratava assim, com muito carinho, com afagos. Mas o pai da minha amiga me puxou para beijá-lo na boca. Fiquei tão confusa que só consegui gritar pelo nome dela, que em pouco tempo veio da cozinha. Ele saiu. Não contei nada a ninguém e nunca mais dormi na casa dela. Esta é a primeira vez que comento o assunto. Nunca esqueci, mas não se tornou um trauma. Foi um jeito de me tornar mais esperta quanto à maldade e covardia de certos homens.
     Não sei se foi a partir desse dia que fortaleci ainda mais meu desejo de ser reconhecida por minhas ideias e histórias e não por meu corpo e pele macia de nadadora (o cloro diário tira toda a camada de células mortas da pele, por isso, ao contrário do que se pensa, atletas aquáticos não tem pele detonada e sim, muito macia). Usava óculos e nunca pensei em colocar lente de contato, nunca tratei meu cabelo mais do que com shampoo e condicionador. Eu mesma faço as unhas e muitas vezes corto o próprio cabelo, um jeito punk de ser, do tipo "faça você mesmo". Também cortava o cabelo das minhas amigas da natação. Corto cabelo de amigas até hoje. Ontem mesmo cortei o cabelo de uma amiga.
     Tive alguns namorados muito ciumentos, que não aceitavam eu ter amizade com outros rapazes ou mesmo com ex-namorados. Acontecia que o namoro sempre acabava. Não sou de provocar ciúmes. Mas ninguém pode ser meu dono, a não ser que eu queira ser de alguém. E já quis e quis muito. Mas, geralmente quando eu quero ser só de alguém, esse alguém não quer.
    Enfim, tentei ao máximo ser reconhecida pelo que sou e não pelo que tenho ou tive. Mas nunca teve jeito. Os garotos e os homens sempre falavam dos meus seios fartos, da pele, do cheiro... aceitei. Hoje meus seios são pequenos, "murchos". E me intriga que ainda, aos 45 anos, me sentindo bem acabada fisicamente, continue atraindo pelo corpo.
     Aceitei que o interesse começa pelo corpo, pelo que é visto por fora. Mas só dura e vale muito mais o que cresce com os sorrisos, a intimidade, as histórias de vida, as caminhadas pelas ruas, as idas ao cinema, os mergulhos no mar, a amizade que fica quando o amor romântico acaba. Então decidi que o corpo era meu e que eu faria o que quisesse com ele. Sexo casual, quando você não espera, mas dá vontade e acontece. Sexo com amor, aquela coisa sublime e rara, que é maravilhosa e depois te faz sofrer. Sexo por compaixão, quando você nem está com muita vontade, mas sente tanto a vontade do outro que cede e acaba sendo muito bom também. O corpo é tão meu que digo não, mesmo com muito desejo, porque penso e sei que o depois vai ser um vazio de abismo. Não quero ser só um pedaço de carne. Não sou, nunca fui e nem serei.
      E o dia mais feliz para mim será quando todas as mulheres tiverem poder absoluto sobre o próprio corpo, sem medo de serem atacadas pela roupa que estão usando (embora muçulmanas de burca também sejam estupradas), sem agradecer por nunca ter sido violentada fisicamente. E também sei que, se esse dia chegar, não estarei mais aqui.

sábado, 14 de novembro de 2015

O Mar de Lama


    Desde o rompimento das barragens em Mariana (MG), no último dia 5, tento escrever sobre essa catástrofe ambiental, a maior da história do País. Mas eu esperava mais notícias e meu instinto curioso e investigativo não cansou de procurar fora das grandes mídias nacionais. Porque se fosse depender de Rede Globo ou Folha de São Paulo para manter-me bem informada, só saberia como o brasileiro é solidário, como foi o resgate da cadelinha após 3 dias soterrada. O sofrível apelo ao sentimentalismo, sempre. Não que os desabrigados de Mariana não mereçam receber doações de todos os cantos do Brasil. Mas se a barragem rompida pertence à Samarco/Vale do Rio Doce, essas deveriam enviar todos os donativos, providenciar hospedagem às vítimas, tratar dos funerais.
   O que eu previa, no meu não acadêmico conhecimento ambiental, é que a contaminação seria grande e inevitável e o curso do rio Doce seguiria levando a tabela periódica inteira até desaguar no mar. Alguns dias depois, lendo mídias locais, soube que Governador Valadares estava sem água e a previsão é que esse cenário caótico se estenderia por um mês. Um mês sem água! O que acontece em uma cidade sem água nos hospitais, escolas, casas e ruas? Vi imagens de pessoas recolhendo água de esgoto.
    No dia 12 de novembro, enfim, saiu o resultado de análises laboratoriais de amostras da água do rio Doce, encomendadas pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), de Baixo Guandu. Foi detectada a presença de metais pesados como chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio. O Rio Doce está morto! É aterrador, não serve mais para nada (irrigação, animais e pessoas). Fora o tanto de animais e plantas mortos pelo caminho. O mar de lama foi devastando todo o ecossistema que encontrava pela frente. Só no dia 12 de novembro o Governo Estadual solicitou ao Federal o apoio do Ministério da Integração Nacional e do Exército Brasileiro para “amenizar” os problemas que serão enfrentados pela passagem da lama pelo território do Espírito Santo. A principal preocupação é com o abastecimento de água. Alguém sabe o que acontecerá quando essa lama chegar ao mar? Já estão sendo tomadas providencias quanto a isso?
   E tem mais: o rompimento dessas barragens não foi acidente! Não é possível tratar como tal. Há mais de dois anos foi feita uma perícia e o resultado é que as barragens estavam condenadas. Foi uma tragédia anunciada, como tantas no Brasil. Não foi abalo sísmico! E a imprensa não cobre como deve cobrir um acontecimento desses. Seria porque a Vale do Rio Doce é grande anunciante? Será porque esqueceram de fiscalizar tudo o que foi privatizado nesse País desde os anos 90 e as grandes corporações de comunicação se negam a denunciar mazelas do PSDB?
   E onde estava esse Governo desgovernado que nem para sobrevoar de helicóptero o local? Onde estavam presidente Dilma, ministros do Meio Ambiente e Minas e Energia? Estavam tentado limpar e encobrir a própria sujeira? Reunião de cúpula para decidir qual a melhor desculpa a ser dada?
   Esse mar de lama dá menção a várias metáforas. Eu mesma tenho vivido num mar de lama, tenho me sentido um lixo físico, mental e moral. E não é possível nadar na lama, nem enxergar nada. É uma cegueira absurda, que faz com que eu conheça o pior de mim, porque não vejo horizontes, porque fecho meus olhos e sinto o que há no meu coração. Há indignação e dores da alma. E a dor é bem maior do que as dores do corpo. Porque Justiça aqui tarda e falha. Porque a Direita quer nos ver de novo nas trevas. Perde tempo em retrocessos como criminalizar o aborto para estuprada! Isso na mesma semana em que considera família apenas um lar com homem, mulher e uma criança. Então o que dizer para o filho do estupro? Porque há pouco tempo queria a Cura Gay. Isso nada mais é que desviar a atenção do que realmente importa. Porque não temos mais esquerda.
   Sei que ainda há muito para investigar sobre a tragédia que começou em Mariana e segue até o mar. Quanto mais procuro, mais acho. E quando começava a escrever esse texto aconteceu o atentado em Paris. Prato cheio para a grande mídia brasileira, que jogou os holofotes para lá, desviando a atenção como se desviam nossos milhões para bancos suíços. Tenho amigos em Paris. Falei com um por longo tempo ontem mesmo, Jamiro Oliveira. Ele está bem e contou um pouco do caos de lá. Mas isso eu escreverei em outro post. Porque o mar de lama aqui é grande, é um reflexo do nosso desgoverno. Como bem escreveu meu colega jornalista e poeta, André Argolo:

Toda barragem tenta conter
o que não se quer contido
e quando vaza, é enlouquecidamente

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Precisamos Falar Sobre Suicídio

    O que tem de gente se matando não pode mais ser ignorado. No último mês soube de cinco suicídios cometidos na Baixada Santista, mais precisamente em Santos e Guarujá, três deles na última semana, de pessoas entre 20 e 50 anos. Duas mulheres, um garoto lindo. Amigos de amigos meus. Penso que não exista uma pessoa que não conheça alguém que se matou. Se for falar em conhecer quem já tentou se matar, esse número quadriplica.
  Acontece que esse assunto é um dos maiores tabus que persiste na humanidade. Talvez o maior. As famílias não falam sobre isso, evitam dizer a verdade sobre a morte do ente querido. A mídia não divulga, pois há uma "estatística" de que quando alguém "famoso" se mata ou quando se publica, aumenta o número de suicídio. Quando trabalhei no Governo do Estado de São Paulo fiquei estarrecida com o número de suicídios cometidos nos metrôs paulistanos. Não era divulgado.
   Dói falar nisso? Sim, dói bastante, é triste saber que alguém com saúde física, com família, amigos, se mata. Li em algum lugar que o desespero é o amor desgovernado. Então penso que as pessoas que cometem suicídio estão desesperadas, sem esperança de nada. Elas tem amor dentro delas, tem o amor dos outros, mas não sabem governá-lo. 
   A depressão é algo que se instala aos poucos e as pessoas próximas precisam estar atentas, muito atentas. Pode começar com falta de apetite, falta ou excesso de sono, desleixo com tudo. A depressão é uma falta que não tem explicação. Há culpa, medo de pedir ajuda e não ser ajudado, paúra de se tornar um estorvo para os outros. Quem tem depressão pensa que ninguém o quer por perto, pois realmente é muito difícil ficar perto de quem está longe de si mesmo. Como disse Gustavo Liedtke, um amado amigo meu: "quando você fala em suicídio, eu morro um pouco também". Acredito nisso e penso que todos os deprimidos também, por isso não falam.
   Muitas vezes o deprimido não quer morrer, quer mudar de vida. Muitas vezes acredita que há algo melhor depois da morte. Muitas vezes é só um ato alucinado, onde não há real intenção de morrer, mas de chamar a atenção para sua dor. 
   Quando alguém que parece ter tudo (amor, família, dinheiro, profissão, carreira) se mata, fica uma indignação em volta, uma certa frustração dos que ficaram, não tem nada disso, mas seguem alegres. Mas é preciso pensar que pode haver um buraco tão grande dentro dessa pessoa que a mesma se perde dentro dele e não consegue sair. Não consegue olhar em volta e ver todas as coisas lindas que existem nesse mundo. Também há guerra, ganância, capitalismo selvagem, destruição. Para haver o bem é preciso haver o mal, senão, como saberíamos diferenciá-los? 
    Sempre fui do tipo que sofre pelos outros, que sente a dor do outro, sou de uma compaixão exagerada. Na maioria das vezes em que me machucaram, guardei para mim a dor, evitando sempre a briga, o conflito. Guardar tanto machuca ainda mais. Então fico parecendo aquela pessoa tão boa e abnegada que aceita tudo. Mas não sou assim e decidi mudar. Não quero partir para brigas inúteis, mas não quero mais deixar parecer que está tudo bem. Porque não está bem. Resolvi mudar e apagar tudo do passado que possa me deixar triste. Quando lembranças ruins chegam, eu parto. Quando lembranças boas chegam para lembrar que são só lembranças, mudo a estação. Quando fico sabendo que alguém jovem, com uma vida inteira pela frente, matou-se, sinto compaixão. Sei que tentou até onde conseguiu. Sei que será julgado. 
    Os que tentam se matar e não conseguem são, da mesma forma, muito julgados. Como se as pessoas próximas não o deixassem esquecer de tal desatino. Isso machuca demais. Deixem que a pessoa fale quando quiser falar. Digam que estarão sempre quando ela precisar, mesmo que não consigam estar. Talvez por ter essa compaixão com suicidas, me chegam sempre pensamentos autodestrutivos um dia antes de alguém próximo se matar. Parece que os pensamentos das pessoas chegam até mim. Sinto como se os pensamentos não fossem meus. É um dom de presságio que eu não gostaria de ter. Preferiria que viesse a imagem da pessoa, para que eu pudesse ligar para ela, correr até ela e abraçá-la. 
     Aconteceu isso no ano passado. Eu estava com uns pensamentos mórbidos, pensei que era pelo período de mudança, de tentativa de mudança que eu passava. Tive insônia. E no dia seguinte veio uma trágica notícia. Nesta semana também me senti muito mal, sem dormir, sem comer. Dias depois, trágica notícia. Seguida de julgamentos, apontamentos, injúrias. E a pobre moça, linda, cantante e cheia de vida pela frente, não poderá nem se explicar. Há explicação?
     As religiões abominam o suicídio. Pregam o inferno para quem os comete. Há culpa o tempo todo, arrependimento. É uma decisão tão pessoal, como julgar o que o outro sentia para fazer isso? Não pensou nos filhos? Não pensou nos pais? Nos amigos? Óbvio que não! A pessoa não pensa nem nela mesma, como pensar nos outros?
    A pessoa está em desespero, que é o tal do amor desgovernado. Só não entendo porque esse medo em falar sobre suicídio. Admiro quem conta suas experiências, as torna públicas. Admiro quem tem coragem de falar a verdade, a sua verdade, pois sabemos que a verdade tem dois lados.
     Se você, que lê essas linhas confusas agora, conhece alguém com os sintomas acima citados (falta de fome, de sono, desleixo, apatia), não pense que é preguiça, falta de vontade, desânimo. Quando é passageiro, pode ser apenas uma melancolia sobre coisas da vida, mas quando o estado de paralisação não passa, ajude quem você ama. Talvez só precise colocar o seu amor nos trilhos.
   

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Cientista

   Em alguns momentos da vida consigo sentir a força de algo maior, não sei se posso chamar de Deus, mas é uma satisfação e certeza de  que estou no lugar certo, fazendo a coisa certa ou com a pessoa certa. No meu último relacionamento senti isso, uma alegria tão grande durante a união física que só poderia ser decorrente da vibração da alma. Sentia algo sublime, uma felicidade imensa em estar manifestando o meu amor. Esse êxtase espiritual superava a alegria do encontro físico. Sabia que vivia a pior fase da minha vida, sabia que era difícil colocar alguém na montanha russa em que me encontrava, mas não conseguia evitar um sentimento tão puro. Comecei a pensar que o amor verdadeiro só pode ser uma manifestação de Deus. Uma forma de atingir a perfeição por meio da união com o outro. Todos os meus momentos com ele foram perfeitos.
    Mas ele rompeu comigo. Primeiro disse que era um afastamento, um tempo para que eu me estruturasse, resolvesse meus problemas maiores, filhas, contas, trabalho. Ao terminar disse que me amava, mas eu era uma repetição das mulheres do seu passado e precisava mudar isso em sua vida. Chorei por seis horas seguidas, assim que ele se foi. Por semanas não conseguia dormir. Porém, ele não sumiu da minha vida, teria sido muito mais fácil esquecer, cheguei a pedir para que me dissesse que estava em outra, mas negou, chegou a jurar por Deus. Me escrevia diariamente falando do tamanho da sua saudade, que sofria, que me amava. Por três meses agiu assim. Só quando escrevi de forma um pouco mais dura, porque não aguentava mais tanta enrolação, admitiu que me deixou porque conheceu uma mulher como ele queria. Nas palavras dele: “bonita, chefe de cozinha, sem filhos, “trilhardária”, nunca terá problemas de dinheiro na vida”. Disse que não se apaixonou, mas achou interessante. E decidiu me deixar para aprender “coisas” com ela. Talvez já tivesse aprendido o que precisava comigo. A vida e o amor são aprendizados.
     Isso foi uma apunhalada no meu peito, das mais profundas. Eu pensava que era alguém cheio de amor e espiritualidade, mas não passava de um materialista. Isso lá é forma de descrever uma mulher com a qual se relacionou? Cadê características mais profundas, menos superficiais? Nos três meses em que me cozinhou (deve ter tomado gosto pela culinária) estava com ela. Viajou para outro País, inclusive, numa espécie de lua-de-mel, em lugares paradisíacos, comida excepcional (segundo as próprias palavras dele) e de lá me escrevia diariamente. Garantiu que ela sempre soube. Da minha parte, duvido. Nem eu, na pior fase da minha baixa estima, me sujeitaria a tal humilhação. .E eu nunca soube, nunca me contou Mas disse que havia terminado, porque o amor com ela não vinha e que todo o sentimento dele era por mim. Sei que o amor supera tudo e eu teria superado. Mas a verdade é que o amor puro e verdadeiro só existia da minha parte. Não tenho raiva. Ao contrário, continuo sentindo amor. Porque amor é isso, quanto mais você tem, mais você recebe.
   Sofri demais, porém desejo que ele tenha encontrado o amor puro e verdadeiro, sobre o qual ele tanto fala e escreve, nessa mulher. Porque é deveras triste passar a vida em busca de algo e nunca encontrar. Depois de uma certa idade, parece que algumas pessoas se desesperam nessa busca. Encontrar o amor numa pessoa “trilhardária” deve ser algo mágico, porque une o sublime ao vil metal, essenciais para se ter uma vida plena e feliz.

Mas onde entra o cientista nessa história?

   Há cerca de 4 anos conheci um rapaz, um bioquímico que trabalha em pesquisa. Tem perfil de nerd, mas conhece muito bem cultura pop, esportes e é capaz de conversar sobre todos os assuntos. É de uma inteligência e pragmatismo ímpares. Não fosse uma década e meia mais jovem, seria um par perfeito. Embora algo que aprendi na minha última desilusão é que idade nada tem a ver com maturidade ou estrutura emocional.
   Enfim, esse jovem cientista, apesar do trabalho pesado, do compromisso com a ciência, está sempre disposto a conversar com os amigos e, provavelmente, só não tem uma vida social mais intensa porque a distância entre moradia e trabalho não permite. E nos falamos, ora esporadicamente, ora constantemente. Há pouco tempo me perguntou se eu estava com alguém. Respondi que não e resumi o ocorrido, perguntei: “Dá para acreditar no amor?”. “Não, não dá”, foi a resposta direta e objetiva, do jeito que eu gosto.
    Então, há cerca de uma semana, soube que aquele a quem tanto me entreguei, está numa “união estável” com a tal “trilhardária” - gosto de repetir essa palavra, pois nem acho que exista e é como um motivo para lembrar o porque da desilusão. É um superlativo desnecessário. Sim, o cara que tanto amei casou-se com uma mulher que pode oferecer tudo o que não posso. Talvez eu fosse mesmo só uma migalha. Fiquei surpresa e triste, tanto que não conseguia nem chorar. Então fui nadar, porque já estava de mochila pronta para ir. Antes mandei uma mensagem para o tal cientista: “Tudo o que eu queria agora era estar com alguém como você”. E gravei mensagem de voz sobre a notícia bombástica.
   No treino encontrei meu querido e grande amigo Marcelo Santos, resumi a história. “Olha, o bom de nadar é que você pode chorar bastante, encher o oclinhos de lágrimas e ninguém vai perceber. Além do mais, o amor é uma flor roxa que só nasce no coração dos trouxas”. Não tive como não rir.
   Algumas horas depois chega a resposta daquele que, apesar de distante, diferente e tão jovem, eu sabia que poderia me dar uma luz de forma didática:
    “Desculpa meu bem, só parei agora. Vamos aos fatos: Ele não merece um pensamento seu. E uma coisa desse tipo aí é o sinal que ele está no relacionamento errado e vai acabar se fodendo. Então, somando mortos e feridos, você venceu a guerra”.
      Como não abrir um sorriso, mesmo que amarelo, com um resumo tão conciso? Adoro a objetividade nas pessoas. Talvez ele só quisesse me animar, mas sei de sua sinceridade e admiro muito essa qualidade no ser humano. É cada vez mais difícil de encontrar. Não acho que venci guerra, pois nunca fui adepta de lutar pelo amor. A gente já luta por tanta coisa na vida. O amor deve ser algo natural, simples e sem sofrimento. Sofrer de amor é um luxo que não me dava há 10 anos. E não me darei nunca mais nessa vida. Contei toda essa história para minha filha Dora. E passei a resposta desse cientista para ela. Disse que devemos levar essas palavras como mantra para o resto da vida. Assim, quando ela tiver sua primeira decepção amorosa, já saberá como pensar. “Mãe, esse cara aí é simplesmente genial!”.

domingo, 25 de outubro de 2015

Dora e a Dança

  Quando minha filha aprendeu a andar, aos 11 meses, foi na ponta dos pés. Na hora pensei: “Vai ser bailarina!”. Não foi uma viagem de mãe que adora dança, que escrevia sobre dança em caderno de cultura, viu vários espetáculos dos melhores grupos do Brasil e do mundo (como eu gostava desse trabalho e ainda ser paga por isso!), que foi jurada por duas vezes no Prêmio Imprensa de Dança. Não era delírio, era apenas a identificação de uma vocação do espírito.
   Durante a gestação eu ouvia muito Mozart, para me acalmar quando sentia medo de perdê-la (tive uma gravidez de risco, com repouso absoluto), mas também porque li sobre inteligência intrauterina, que música clássica desenvolve o aprendizado do feto. Verdade ou não, Dora tem uma inteligência acima da média. E ouvir música clássica, certamente, não faz mal algum.
    Quando morávamos em Boiçucanga (litoral norte de SP), Dora começou a educação infantil na Escola Raízes. Pouco antes de fazer 3 anos, a bailarina Juliana Andrade, que acabara de sair do Ballet Stagium (de São Paulo) para viver uma vida simples na praia, me chamou pedindo para que colocasse Dora no ballet. “Ela corre na ponta dos pés. É uma bailarina nata!”. Concordei, mas disse que assim como eu também iria nadar, porque assim como meu pai, considero saber nadar uma questão de sobrevivência, ainda mais para quem vive na praia. “Isso é ótimo, futuramente poderá fazer nado sincronizado”, profetizou Juliana, já que Dora, posteriormente, fez nado sincronizado na Unimes, em Santos, e mandava muito bem!
     No período em que moramos em Paraty, coloquei numa aula de dança, mas era uma professora tão ruim, que mais brincava com as meninas do que ensinava. Então a tirei de lá, pois dança é como esporte, precisa de disciplina, treino e muito suor. Foi quando Dorinha aprendeu a nadar. Gostava muito das aulas, não faltava e pegou o jeito fácil, mas via nela a suavidade da bailarina clássica, não a força aliada à técnica e a competitividade de uma nadadora.
    Em Santos me pediu para fazer ballet novamente, queria dançar no Municipal, mas já havia passado o processo seletivo. Fomos tentar uma bolsa na Rosely Ballet. No dia do teste, Miranda tinha apenas 15 dias! Enquanto Dora ficava na sala com outras várias meninas fazendo a aula, eu amamentava minha pequena gigante. Então as mães foram chamadas ao tablado, todas no canto e as meninas ao centro. Rosely, a dona da escola de dança, perguntou: “Quem é a mãe dessa menina?”, apontando para Dora. Levantei a mão. “Parabéns! Ela será uma grande bailarina!”. Precisei soltar o ar para não flutuar de orgulho. E então Dora e Raquel, sua melhor amiga da classe, ingressaram juntas na mesma escola de dança. A junção dessa dupla fez crescer uma grande amizade entre as mães também, eu e Cláudia.
    Passaram um ano bailando com muita dedicação, a apresentação do final do ano foi linda. E então inscrevi Dora para o teste no Ballet Municipal de Santos. Passou! Ficou radiante, mas não tanto quanto eu. Eram mais de 400 meninas para 40 vagas! Aos 7 anos, Dora não tinha dimensão do que isso significava. Em menos de 2 meses no Municipal, recebo a ligação da coreografa, me pedindo para deixar Dora fazer parte do Corpo de Baile Infantil. Das 40 novatas, apenas duas foram  chamadas para o CBI. A maioria termina os 9 anos de Ballet sem nunca integrar o Corpo de Baile.
    No dia 10 de fevereiro de 2011, fomos ao Municipal, fazer a inscrição para o segundo ano. E ver que sua melhor amiga Raquel também tinha passado de primeira no teste. Foi tanta alegria. Mas nesse mesmo dia Dora foi levada para Ribeirão Preto (narro essa história no primeiro texto desse blog).
      O que me alivia é que em Ribeirão Preto, Dora continuou dando vazão à sua grande paixão. No ano passado ficou meio desmotivada, pois não participava de todos os festivais que desejava, já que muitas vezes não havia elenco. Mas no início deste ano, Dora, além de fazer clássico, sapateado e jazz, entrou para a dança contemporânea. Então formaram um quinteto lindo. Numa seletiva de um Festival em Ribeirão Preto, classificaram-se para o de Salto, ficaram em décimo oitavo lugar, entre 40 coreografias. Em julho fez um curso intensivo de dança em São Paulo. Isso mudou seu conceito e a fez querer dançar mais e mais.
   Quando estávamos de férias em julho, em Boiçucanga, chegou a chorar porque pensava que não dançariam bem em Salto. Disse para não pensar negativo, que era para dedicarem-se mais, limpar a coreografia, melhorar. “Nossa mãe, como você está otimista!”. “Não, minha filha, o otimista diria: imagina, vai dar tudo certo. O pessimista diria: não vamos conseguir. O realista analisa o que foi dito e faz o que tem de fazer”. Daí ela se acalmou. E as cinco meninas ensaiaram e melhoraram muito. No Festival de Salto eram quase 500 coreografias, as três primeiras coreografias classificadas estariam automaticamente selecionadas para o Festival de Los Angeles, no ano que vem. Dora também dançou o sapateado, uma coreografia linda, chamada Chaplin. Teve pouco mais de um mês para ensaiar. Resumindo a ópera, minha talentosa filha está no quinteto de contemporânea, no clássico e no sapateado. Estará no palco de Los Angeles por três vezes, dançando, que é sua grande vocação desde sempre! Como é lindo saber do que mais gosta tão nova.
    No dia do resultado me ligou exultante, radiante. Talvez eu não tenha conseguido expressar o tamanho da minha satisfação. Agora, essas meninas lindas e dedicadas, além de aulas e ensaios seis vezes por semana, também estão atrás de dinheiro para a viagem, inscrição e estadia. Sei que irão conseguir, porque a motivação é grande. Do meu lado, ajudarei no que puder e até no que não puder. Felizmente, as coisas estão melhorando para mim no lado financeiro. Dizem que o dinheiro não compra felicidade, mas acho que manda trazer. Como me disse Miranda dia desses: “Mãe, nada é impossível”. Começo a acreditar que nada mesmo é. Somos nós que criamos no pensamento o nosso destino. E tenho certeza que daqui para frente o meu destino e das minhas filhas será de muita união, realização e felicidade.