quarta-feira, 17 de junho de 2015

De Doer os Olhos

   Será que a vida de todo mundo é um looping infinito? Ou será só a minha? Por que aqueles que estavam lá no meu passado, num lugar guardado com carinho, com lembranças que só causam suspiro leve, voltam para embaralhar tudo? Por que continua sendo tão presente e tão real? Talvez seja o medo de me entregar para o novo, já que o antigo conheço bem, sei como lidar, o tamanho do que pode ser essa dor. Ou melhor, a esperança de um recomeço, sem dor nenhuma.
   Minha vontade era não ser eu por um dia. Ser um pássaro que voe bem alto, um condor sobre os Andes, sobrevoando a Cordilheira, no branco das montanhas de doer os olhos, em direção ao céu de azul infinito. E quem sabe com a visão ampliada, pudesse compreender os mistérios dos sentimentos. Porque tem vezes que o que sinto é tão forte que arde. E é tanta coisa que penso o tempo todo, que queima.
    Para parar essa ebulição eu mergulho e nado. Nadar é minha única forma de meditação, o modus aquático, como diz a grande amiga Paola, aquele que você não ouve ninguém, não fala nada, apenas roda os braços, bate as pernas, respira e expira.
    Quando penso que a vida está pesada demais, sempre tem um mar salgado ou uma piscina clorada para deixar tudo, literalmente, mais leve. Nosso corpo fica tão leve que flutua. Da água viemos. Somos 70% líquido. Como é bom poder nadar nua. Lembro de uma noite de verão na praia de Paúba (litoral norte de São Paulo), vazia, deserta. Eu e duas amigas, Flavia e Ana Paula, tiramos a roupa e nadamos nas águas calmas e sem ondas. Em cada braçada a iluminação vinha com os planctons. Parecia um filme de aventura com efeitos especiais. Me senti mais iluminada. Me tornei mais luz.
    Não sei bem o que estraga quando tudo parece perfeição. Pensar demais estraga. Minha mãe me dizia desde criança que eu tenho resposta para tudo. Não, eu sempre tenho pergunta para tudo. Procuro respostas. E talvez questionar demais também estrague. A perfeição existe, a virtude absoluta, na arte, na natureza, no esporte e em pessoas. Conheço pessoas virtuosas e magnânimas. Aprendo com elas, tento agir como tal. Tento buscar a perfeição, mas buscá-la nem sempre é alcançá-la, porém não consigo desejar menos que a perfeição. Me conformar com o que sou e faço é me sentir medíocre. E se há algo que me apavora, é a mediocridade.
    Queria uma trégua nessa batalha que tenho travado. Queria mais tempo para mais abraços apertados. Queria uma luta que não fosse inglória. Eu deprimo, mas nunca por romances fracassados. Eu deprimo pela impossibilidade de mudar as coisas, por esse mundo que evolui de forma caótica. Por ter cinco acontecimentos ruins para cada acontecimento bom. Pelas pessoas que vão e não voltam mais. 


 Submersa

A paz que procuro
muitas vezes encontro no quarto escuro
Ainda acordo com falta de ar e choro
não ignoro esse sentimento imenso
nem mesmo quando racionalizo e penso
que rompi o pacto que fiz comigo
de em outros braços não procurar abrigo 

porque sozinha estarei segura
sem anseios, sobressaltos, devaneios

a estrada é longa, a alma é pura
sou parte da poeira cósmica do universo
estou perto do estado inerte e submerso

dentro de mim vive a espera
vai e traz de volta o que já era

A paz dos teus olhos tão vermelhos
meu amor, minha vida, meu espelho
Esse vazio que ficou porque nunca mais voltou
em mim tudo mudou
já nem sei mais quem sou
porque nada será como antes foi
e não quero deixar mais nada pra depois



  

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A Dor e a Flexibilidade

   Fazia tempo que não sentia tanta dor, daquelas de acordar com falta de ar no meio da noite, com dor forte no peito, sensação de abandono. Mas não era infarto, era amor. Há 10 anos não me apaixonava de verdade, desta forma física e metafísica. Sempre mantenho no racional, ou tento. Queria parar de sentir essa dor que não me habituo. Me disseram que amor sem sofrimento é capricho, penso justamente o contrário: sofrer de amor é um capricho, um luxo que não tenho, nem me permito.
  Então me deu vontade de sentir uma dor muscular, uma dor real. Então fui nadar, depois de três anos parada. Afinal nadadores são todos uns masoquistas, que gostam de sentir dor, de ficar cansados e olhar para aquele monte de azulejo o tempo todo. Nadar é repetitivo. É muito técnico, é silencioso. É introspectivo demais.
  No primeiro dia foram 1.800 metros que pareceram 18 km. Mas voltei no dia seguinte para uma equipe que me recebeu com palmas e sorrisos. Os braços pareciam que não rodavam, não puxavam água. E quando o técnico falou 3 séries de 3 de 200 metros progressivo, achei que era três demais e que nadaria do jeito que desse, porque não poderia progredir naquele momento.
    Á noite estava tão esgotada que adormeci às 21h30, junto de Miranda. Acordamos a tempo de ver o sol nascer na praia de Santos. Foi lindo. E a dor nos braços, que pareciam inchados, era muito maior que a dor no peito. Passei parte da manhã que começou tão cedo, me alongando. Lembrei dos tempos de treino pesado mesmo, 4 horas por dia, 7 dias por semana. Nos alongávamos longamente antes de entrar na piscina. Constatei que a flexibilidade alcançada na força é  importante para toda a vida. No alongamento forçamos ao máximo os músculos e articulações e paramos o maior tempo possível na mesma posição. Pensamos que atingimos o limite. Mas na segunda vez o corpo estica mais. E mais ainda na terceira. O limite é uma questão de treino. Passar do limite é questão de paciência. 
    Dói alongar, mas depois que acostuma, a dor cessa e é quando podemos esticar ainda mais. E no terceiro dia de piscina os braços doíam menos. Ser flexível é saber parar no seu limite, respeitar o limite do seu corpo. Depois perceber que pode ir mais longe. É poder virar para todos os lados. Uma pessoa flexível aceita o limite do outro. Aceita suas dificuldades, divergências e limitações. Entende que é preciso saber a hora de parar e ceder.
      Muitas vezes fui questionada, por quem nunca foi nadador ou atleta, o que eu ganhava nadando tanto, já que eram só medalhas e não tinha salário. Eu ganhava  e continuo ganhando viagens, novos lugares, força, flexibilidade, disposição e, o melhor e mais importante de tudo, amigos.
    Hoje a série principal foi 1 de 500m, depois 400m, 200m e 100m, progressivo, pegando a frequência cardíaca. Consegui fazer, apesar da frequência ter chegado 190 por minuto. Meus braços acostumaram ou tiveram a tal memória celular, que um dia me explicou a querida nadadora Cyntia Higa, e já conseguiram puxar mais água. Como sempre digo, melhor que doam os braços do que o coração. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O que Ouvem, O que Pensam, O que Sentem

    Ainda criança, quando já voltava da escola sozinha de ônibus, naquela  paisagem que nunca mudava, comecei a prestar atenção nas pessoas sentadas, em seus rostos, imaginava suas histórias, criava acontecimentos. Conforme fui crescendo e passei a ter minha própria trilha sonora nos ouvidos, comecei a tentar adivinhar o que está no ouvido dos outros. 
     Dos ônibus passei a exercitar essa adivinhação nos metrôs, nas filas, nos hospitais. Eu mudo (e creio que todos mudem) o estado de espírito conforme a música. Tem dias que a gente está mal e parece que quer ficar pior, daí ouve aquela canção triste, melancólica e nostálgica para ir até o fundo do poço. Quando minha amiga Márcia Abad passou músicas para o meu celular, ainda brincou: "Coloquei Love Hurts também, porque nunca se sabe quando vai precisar". Acabei escutando essa música nas minhas várias subidas de Serra do Mar, achando divertida... mas não é que comecei a lembrar dos amores que me machucaram e até chorei! E não é que o amor continua machucando!
    Uma vez estava atravessando de barca, uma tarde linda, com aquele céu colorido, uns navios no Porto de Santos e na minha frente uma garota mais linda que a tarde, bem gorda, de seios fartos apertados na blusa, moreníssima, de olhos verdes, mareados por uma dor que parecia profunda. Ela suspirava, prendia o ar e tentava disfarçar as lágrimas. Me deu vontade de colocar The White Stripe para ela ouvir, só para mudar as batidas daquele coração que estava sofrendo. Mas quando ela percebeu que eu percebi, só consegui levantar as sobrancelhas com aquele olhar de Everybody hurt, everybody cry, sometimes...
      Sempre que ando pela avenida Paulista ouço essa música https://youtu.be/NuSbELCNloc do Arcade Fire. A melodia é incrivelmente alegre, tenho vontade de sair dançando e cantando como a vocalista, mas a letra... ah, que letra mais profunda! Fala dos dias em que nossas vidas parecem sem propósito, mas que na noite os sentimentos nadam até a superfície, porque é lá que encontra luzes. Fala das luzes e prédios da cidade que surgem como montanhas atrás de montanhas e se é impressão ou se o mundo é mesmo tão pequeno, que nunca alcançará a expansão desejada. É muita poesia numa música só. Pede para apagar as luzes e ficar na escuridão, porque os beijos acontecem na escuridão (penso que dos olhos). E eu passo pela avenida mais movimentada do Brasil com vontade de cantar essa canção e dançar essa melodia. Na verdade muitas vezes canto, coloco no repeat até chegar ao lugar combinado. Músicas inspiram. Ouço tão alto que o celular avisa que posso danificar meus ouvidos. Ora, já é tanta coisa danificada mesmo...
      E de uns tempos pra cá, coisa de um mês, está acontecendo uma nostalgia louca musical, eu que sempre fui tão "novidadeira", não sei se é coisa da Lua, das constelações, dos planetas, do inverno e do frio que já chegaram, ou saudade das pessoas que prematuramente partiram. Aceito sugestões de músicas que alegrem minha alma, que mudem meu dia, que ampliem minha percepção da realidade. Aceito poesias musicais e sorrisos mesmo que com lágrimas.
      
      

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Das Coisas do Amor - Que não Explica Coisa Nenhuma

   Sempre penso na explicação das coisas, uma razão de ser para o tal fato bizarro que aconteceu ou porque não ter evitado algo que estava na cara que iria acontecer. E quase tudo tem explicação física, química, matemática ou alguma ciência específica. Procuro lógica para o que parece irracional ou incompreensível. Sei que tudo começa e acontece e muitas vezes acaba, antes mesmo de acontecer, ou do parece que aconteceria. Quase sempre. Ou sempre. 
   Ainda não achei sentimento, leis, opiniões, ideias que sejam imutáveis ou infinitos. Talvez o amor. Mas penso que o amor muda, ele cresce, é mutante, mas não se nunca acaba. E só posso crer no amor infinito se deixar de acreditar na finitude do ser. É preciso ser para amar ou basta estar?
    Tudo que somos e sentimos começa na questão filosófica. Até o amor. Mas é muito mais do que isso, é tão complexo racionalizar o amor, quanto destrutivo. Escolhemos a quem amar na maioria das vezes. Porque amamos o que somos no outro ou para o outro. E de tanto pensar no amor, ele acaba porque não era amor, era o reflexo do que queríamos ser e que vemos quando estamos com o outro. Porque o amor não pode ser tão simplesmente filosofia e literatura. O amor é muito maior e ancestral nisso tudo. Nisso tudo que é a vida e o Universo.

  Se somos todos iguais por que só algumas pessoas causam ebulição nas outras? Há o coração que acelera não pelo movimento do corpo, odores que causam náuseas ou sons que estouram os ouvidos. Apenas pela lembrança o coração já vibra diferente. E o corpo estremece, de calor ou de frio. Um rosto que parece a junção de todos os rostos que já passaram. A sinergia de todos os músculos e órgãos no mesmo objetivo, na mesma dança, tão lúdica quanto primitiva, tão suave, quanto intensa.
  Isso não deve ser apenas química, física quântica e biologia. Teria algo de muito mais espiritual no amor  do que químico, muito mais inexplicável do que plausível. Seria espiritualmente tão forte que passaria do metafísico para o físico. Assim como os laços químicos e biológicos que unem mãe e filho. Esse amor também tão visceral.

   Há quem diga que ninguém morre de amor. Penso ao contrário, que todos morremos de amor. O amor mata sempre uma parte de nós que precisa ir embora, ou porque o tempo acabou ou para nos deixar mais livres, mais leves. Com mais espaço para o amor. E talvez por isso eu pense que o amor pode mesmo ser infinito, porque nos mata, nos leva embora do que somos, mas nos deixando vivos, nunca morre em nós. 
   O amor traz todas as questões de todas as áreas, em todas as vidas. O tanto que a gente pensa e sente quando o filho nasce, o tanto que a gente pensa e sente quando percebe que está mesmo apaixonado. As mudanças químicas transformam o corpo, alteram percepções, ludibriam sentidos. Eu perco a fome, o sono, o foco, mas de alguma forma, ganho o que não costumo ter, fé. Acredito em cada abraço que dou, faço apertado e prolongado. Sincronizar a respiração e as batidas cardíacas, sentir o cheiro, afagar os cabelos. Demonstrar o amor.
  Não há nada que expresse mais amor do que o abraço. Não precisa de palavra nenhuma, nem falada, nem escrita, sem verbalizações ou questões que nos roubam o agora. Nas vezes que me senti próxima de algo divino, que pode ser deus, estava envolvida por braços. Os delas e os dele.

terça-feira, 28 de abril de 2015

O Amigo do Menino João

    Quem acompanha esse blog sabe que presenciei uma tragédia pessoal no início do ano. Estava com minhas filhas em Boiçucanga (litoral norte de São Paulo), em férias esperadas há mais de 4 anos. Conheci numa manhã um garoto fora do comum, em vários sentidos. Em menos de uma hora ele me conquistou absurdamente. E no mesmo dia sofreu um acidente fatal na cachoeira de Boiçucanga. Desde esse momento não há um dia em que eu não pense em João.
   Ele tinha 14 anos e era lindo. Não era só o físico, o sorriso e os olhos brilhantes, tinha uma beleza cheia de vivacidade e vontade de saber sobre todas as coisas. Uma inteligência espetacular. Eu tinha a certeza de que esse menino faria parte da minha vida, mas nem deu tempo de trocarmos o número do celular, faríamos isso na noite de fogueira e violão, que nunca aconteceu.
   Mas o que mais me faz lembrar dele não é a fatalidade, não é me sentir de certa forma culpada por indicar o caminho em que o levaria à morte. Penso nele todas as vezes que vejo adolescentes enredados no computador, que não olham para os lados nas ruas porque preferem olhar o virtual do celular. João olhava nos olhos, perguntava sem medo e tinha uma admiração pela mãe, sem a menor vergonha de dizer que era sua "ídola", que a amava e seguia seu exemplo. Um amor nos olhos quando olhava para ela que não vejo na minha filha adolescente. Uma energia e vontade de fazer tanta coisa que não vejo em quase ninguém.
     E mais estranho ainda é que muitas vezes escuto alguma música e penso se João gostava ou conhecia tal banda. Muitas vezes eu ainda choro pensando nele. Na noite seguinte do acidente, fiquei horas conversando com Dora, que chorou falando dele. Sensível que é me disse com voz engasgada: "Se nós, que conhecemos o menino em um único dia estamos assim, imagine os amigos da escola, do esporte, da música e toda a família". Não, eu não conseguia mensurar isso.

      Mas numa tarde em que eu estava particularmente triste, quando perdi a confiança em mais pessoas e em mim mesma, vi um comentário no blog, justamente no post sobre o menino João. Era um amigo dele, que não imagina o quanto me confortou e como me fez de novo acreditar no amor e na bondade das pessoas. Talvez seja uma prova que João não era mesmo deste mundo, talvez fosse um anjo mostrando que a vida é o agora e só o agora é realmente importante. Ele cantou "que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se parar pra pensar, na verdade não há". E não houve amanhã para nós, não houve nem a noite combinada. Mas ele demonstrou o amor no tempo em que esteve comigo. Um amor que tenho a certeza que espalhou nos seus 14 anos de vida. E acho que não só ele era um anjo, mas fazia parte de uma legião angelical e fez seu amigo Arthur Henrique chegar até mim e me tocar com as palavras, que dividirei com vocês. Porque só o amor e a morte são capazes de modificar tudo.
    


Adriana, Não sei se acredita em Deus ou em destino, mas temos diversas coisas em comum:

.Sou estudante de jornalismo e amo esses "relatos do cotidiano"
.E conheço João, sou vizinho e amigo bem próximo dele.

Pulando de blog em blog acabei achando o seu e não acreditei no que vi: "Um texto sobre o João", pensei. Me recusei a acreditar até lê-lo...

Sabe, conheci João na escola. Não estudávamos na mesma classe, mas sempre nos "esbarravamos". Uma partida de futebol foi o suficiente para começar uma efêmera, porém significativa amizade. Sempre conversávamos sobre Fórmula 1, Rock e Guerra Mundial (assunto que ele entendia muito bem, por sinal).

Quando me formei em Dezembro de 2013, ele me perguntou se eu o abandonaria quando fosse à faculdade. Disse para ele parar de falar besteira e falei que nunca abandonaria meu irmãozinho (ele sempre me chamou de manão). No decorrer do ano passado, sempre nos falávamos e nos encontrávamos quando dava, nossa amizade foi crescendo muito e sempre o considerei demais, se tornando inclusive meu confidente (e vice-versa).

No dia 8 de janeiro, estava comemorando o aniversário da minha irmã quando recebi a ligação do acontecido. Nunca chorei e fiquei triste na minha vida como naquele momento: "Deus tirou meu maninho de mim", dizia.

Adriana, Não sei se acredita em Deus ou em destino, mas eu ter encontrado este texto "por acaso" não foi para mim coincidência! E não sabe o quão estou agradecido... Você, em pouquíssimo tempo que o viu, o descreveu perfeitamente. O menino que nunca tirava o sorriso do rosto, sempre tentando alegrar. Falante (demais kk) e no meu ver uma das almas mais puras que o Mundo teve...

Estou tentando agradecer, mas acho que estou escrevendo demais... é que amava tanto meu amigo que quero que saiba que o ocorrido não foi sua culpa ou de ninguém...Era pra acontecer e poderia ter ocorrido comigo, com suas filhas, com qualquer um...

Acredito em Deus e agradeço muito por ter chegado aqui e ler seu maravilhoso texto...Quero que saiba que deixou um amigo do menino que descreveu muito feliz e relaxado. E quero que saiba que Joãozinho foi um menino espetacular e ele está eternizado em minhas lembranças e em meu coração...

Muito Obrigado, Adriana

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Confiança

   Lá no começo da década de 1990 conheci a obra de Hal Hartley. Entre seus curtas e longas, me encantei com o filme Confiança (Trust, 1990), se fosse cineasta, roteirista ou escritora, queria ter feito algo parecido. Seus filmes são perfeitos na estética, na montagem, nos personagens filosóficos, desajustados e apaixonantes que cria. E nas trilhas sonora que escolhe, com todas as bandas dos anos 90 que gosto (Pavement, Sonic, P.J. Harvey). Nesse filme conheci o ator Martin Donovan, por quem arrastei uma paixão platônica anos a fio. Confiança é uma história de amor improvável. Uma adolescente é abandonada grávida pelas pessoas mais próximas e que mais confiava. Encontra estrutura e amor no homem mais velho (Donovan) que o acaso coloca em seu caminho. Toda essa introdução para falar que confiança é a base de tudo. Sem confiança não há amor, não há amizade e poucas chances de haver vida.
   A primeira vez que perdi a confiança foi aos 13 anos. Tinha um diário onde colocava os fatos da minha vida, as relações, as aspirações, os sentimentos e treinava a escrita. Um dia, numa discussão banal entre mãe e filha, minha mãe disse que mesmo eu não contando nada, sabia tudo o que eu fazia e pensava, pois lia meu diário (que eu guardava numa gaveta, bem escondidinho). Rasguei todas as páginas, indignada, fato que lamento muito, porque lá haviam muitas pérolas e histórias incríveis. Depois perdi a confiança em alguns namorados que não me contavam a verdade, mesmo eu sendo tão sincera. Então tive uma filha com alguém que eu não amava, mas que tinha amizade e carinho. Esperava ter uma relação saudável para criar uma filha saudável. Daí essa pessoa acabou de vez com minha confiança, inclusive em mim mesma. Porque uma mãe pode esperar até o abandono do pai do filho, mas jamais que invente calúnias para tirar o filho. Jamais que afaste indeterminadamente o filho.
   Talvez depois disso eu tenha me tornado uma pessoa que não se apega, que aceita tudo, não exige nada. Mas que não aprende. Ainda esse ano fui enganada por uma suposta amiga, que também era minha advogada. Agora eu sei porque minha ação demorou tanto. E outras ações estão em meu nome, sem eu nem sequer ter assinado nada.  Mas a justiça é feita, de um jeito ou de outro.
    
   Incêndio - Santos está pegando fogo há quase uma semana e não há previsão para conter as chamas. A imprensa não deu muita importância ao fato nos primeiros dias, afinal era feriado e morreu o filho do Governador (não diminuo a dor de seu luto, até porque conheci dona Lu e seus filhos e, mesmo se não tivesse conhecido, respeito a dor de qualquer família nessa situação). Mas foram três dias para criar uma equipe para administrar essa crise. No começo nem se falava em desastre ambiental, mesmo com o mar recebendo dezenas de milhares de peixes mortos. As partículas de gases poluentes se espalham pela Baixada Santista, haverá chuva ácida. Há risco para a população sim e o que está sendo feito é resfriar os barris ao lado dos que pegam fogo, para não haver uma explosão em cadeia. Já se fala sim em evacuar a área dos bairros próximos.
    O Governador está em luto, mas há uma equipe inteira no Governo que deixou a cidade, que tem o porto mais movimentado da América Latina, como um nau sem direção, uma pequena embarcação perdida no meio do oceano sujo de petróleo. O prefeito fez selfie entregando ovo de Páscoa para os bombeiros!
   Não confio na imprensa, não confio nos administradores da crise, nem no Governo. Confio no trabalho incessante dos bombeiros e na boa vontade das pessoas que acreditam que tudo vai dar certo. Mas eu, infelizmente, não sou uma dessas pessoas. Perdi a confiança em quase tudo. E acho justo que as pessoas também não confiem em mim.

Trailer de Trust https://youtu.be/pIgv4Tvx3V0 
   
  

terça-feira, 7 de abril de 2015

Caronas Perfeitas, Explosões, Reencontros e Rock

   No último feriado de Páscoa os planos não saíram como desejado, mas deu tudo certo no final. Para começar saí de Santos rumo a Ribeirão Preto de carona com um cara muito legal, advogado, que conheci por um grupo de Santos-Ribeirão. No carro estavam também três universitárias que estudam em Santos e tem família em Ribeirão Preto. A viagem foi longa, porém cheia de descobertas e confissões íntimas. Não lembro se foi Bruna ou Isabella quem viu primeiro a imagem das chamas e fumaça dos barris de combustível que explodiram em Santos. Uma faz Engenharia do Petróleo, a outra Ciências do Mar. E a outra moça, que passava mal de enjôo, Biologia. Todas sabíamos, ou pelo menos imaginávamos, a tragédia ambiental que se formava. Esse acidente já colocou abaixo meu plano de almoçar, após tantos anos, com minha mãe (avó de Dora) e Miranda (a irmã sempre saudosa).

   Após 5 horas de estrada cheguei para almoçar com as duas adoráveis filhas da minha amiga Paola (que estava viajando em alguma trilha ou montanha), tomei um banho e fui buscar Dora no ballet. A volta foi com outra carona ligeira de Ribeirão para a Capital. Em São Paulo ficamos na casa do amigo Gustavo Liedtke. Cinema e gastronomia, tipicamente paulistanos, foram os programas. Passeios com William Tagata, um adorável professor universitário. Foi bom Dora conhecer e rever meus amigos. Da trajetória cinematográfica, um filme em particular, foi emblemático: A Terceira Pessoa tem como tema pais e filhos e uma mãe que perde a guarda do menino e não o vê há tempos e o pai a proíbe de vê-lo. Não era nada disso a sinopse. Se soubesse não teria entrado. Chorei menos do que tive vontade, porque precisava me controlar. Foi difícil. Depois lembrei que Gustavo tinha me falado deste filme, porém não liguei nome a roteiro.
  Inesperadamente, uma derradeira festa no Aeroanta (sim, ele ainda existia, porém não funcionava), com show de seis bandas, antes da demolição para construir uma nova casa noturna. Eu e Dora, dançando ao lado do pessoal bongando, junto ao querido Fábio Diegues, como nos velhos e bons anos 90. Mas engana-se quem pensa que lá haviam apenas saudosistas. Sim, não teve como não lembrar das btandas que vi nascendo e crescendo por lá, mas a maioria dos presentes, tinha menos de 30 anos, logo, não deve ter participado de nenhum show, imagino.

   A volta foi ainda mais maluca (fisicamente falando). Saímos domingo 15h30 de São Paulo, e deixei minha filha na casa dos avós às 19h15. Menos de uma hora depois já estava em outro carro de volta para São Paulo, com um advogado muito bem humorado na direção, um jovem estudante de de Ciências Sociais ao lado e um casal de arquitetos comigo atrás. Apesar da chuva e do trânsito de fim de feriado, a viagem foi muito bacana, com assuntos dos mais variados e muito politizado, assim como foi a ida, com um estudante de Direito da USP de Ribeirão. Vítor é um garoto muito inteligente, que vai terminar o curso porque é bom ter um diploma de Direito, porém, não vai exercer, porque já está enojado com o sistema judiciário. Eu disse para não fazer isso, porque é de pessoas como ele que esse sistema precisa. Mas depois de me despedir, olhando-o afastar-se, pensei que talvez nunca mais o veja e ele precisa ser feliz e não fazer o que a sociedade precisa que ele faça. Infelizmente, nossa missão poucas vezes está relacionada com felicidade. Mas nunca é tarde para mudar o rumo dessa missão.
    Cheguei em São Paulo de madrugada, cansada, exausta, caindo diretamente nos braços do amor.  Porque como diz o título do filme O amor não tira férias e eu não me canso de amar. Mal me recuperei da quilometragem percorrida, mas já me preparo para a próxima viagem de surpresas e novas pessoas.