terça-feira, 24 de março de 2015

Por um Mundo com Mais Beijos

   Não vi nenhum capítulo da novela global Babilônia, mas sei do beijo entre as personagens das brilhantes atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Thimberg, logo no primeiro capítulo. Impossível não saber. Meus amigos gays adoraram. E alguns parentes de parentes postaram coisas em redes sociais do tipo: "que nojo, que decadência essas duas grandes atrizes se submeterem a isso". Não sou do tipo de excluir ninguém em facebooks, twitter ou coisa que o valha. Acho sempre bom saber o que pensam os radicalmente diferentes de mim. Mas continua sendo incompreensível o que motiva tamanha aversão a beijos. Afinal beijo é beijo, entre homens, mulheres ou homens e mulheres. Se não gosta de beijo, não beija. O que tanto incomoda o beijo alheio?

   Daí hoje estava numa loja no Gonzaga, em Santos. Enquanto escolhia o produto ouvi o diálogo entre as vendedoras: " - Meu sobrinho foi na casa de uma tia e quando voltou perguntou para a mãe se duas mulheres podiam se beijar!". "Nossa, mas a tia beijou a namorada na frente dele?". "Já pensou como vai ficar a cabeça desse menino? Só tem 3 anos!". " E o que a sua irmã fez?". "Ah, agora nunca mais vai dormir na casa da tia". Depois dessa conversa de me embrulhar o estômago, uma delas virou-se e perguntou: "Precisa de alguma coisa?". "Me viro sozinha, mas preciso de menos preconceito, por favor". E saí andando sem ouvir o que as homofóbicas tinham a dizer.
   Infelizmente, mulheres também são homofóbicas. Minha vontade foi perguntar se elas também achavam que o tal garoto deveria parar de brincar com armas de brinquedo, parar de ver filmes e desenhos violentos e assistir lixo televisivo. Também senti vontade de dizer que a tara de 9 em cada 10 homens é ver duas mulheres se beijando (e muito mais). Que ele cresceria achando isso normal e não se tornaria um daqueles namorados escrotos que fica o tempo todo perguntando para a parceira se aceita uma segunda mulher na cama (porque homens adoram pedir uma segunda mulher na cama, mas ficam deveras ofendidos quando a resposta é: por que não um outro homem na cama?).

    Daí numa tarde de Carnaval, também em Santos, dia do aniversário de 6 anos de Miranda, dois rapazes beijavam-se com paixão, às 15h, em um ponto de ônibus. O beijo era tão ardente que chegou a ser constrangedor. Mas não porque eram dois homens, se fosse um casal heterossexual também acharia exagero, porque ali haviam crianças e idosos e cachorros. Enfim, não sou beata (bem longe disso), mas considero haver lugares apropriados para beijos tão intensos, tipo balada, calçadão da praia à noite, quarto, casa...
   Entramos no ônibus e uma outra garotinha, também com a mãe, seguindo para uma matinê, falou para Miranda: - "Nunca tinha visto dois homens se beijando". Respondi que era melhor ver dois homens se beijando do que brigando. Ela refletiu um pouco e completou: "Ou se matando". A mãe da menina me deu um sorriso de agradecimento, porque acho que não saberia o que responder para a filha. Imagino que essa criança já deva ter visto filmes em que as pessoas se matam com tiros, facadas ou requintes de crueldade, porque os filmes mostram isso o tempo todo.
    
    Já é comum ver casais homossexuais andando de mãos dadas e abraçados pelas ruas. Isso não deve chocar. O que me choca é ver casais se agredindo e xingando na rua, como presenciei no último domingo. Uma garota veio enfurecida para cima de um garoto e começou a socá-lo, repetindo "viu o que você fez?". Não sei o que o rapaz fez, mas tive pena de vê-lo levar tanto soco, com cara de perplexidade e vergonha. Só olhava incrédulo e dizia "pára, o que foi?". O detalhe é que a garota era bem mais forte do que ele, um magrelinha vestido de preto. Vai ver era emo e gosta de sofrer. Mas não deixa de ser uma cena chocante. Ainda bem que minha filha não estava junto, seria muito mais difícil explicar isso do que um beijo gay. 

   Beijo gay? Não, beijo é beijo e dizer que o beijo é gay só aumenta o preconceito. Eu quero um mundo com muitos beijos. Entre homens, mulheres, pais e filhos, mães e filhas, avós, tios, primos e amigos. Eu quero um mundo em que as pessoas fiquem chocadas com violência e não com beijos. Mesmo que só ao meu redor eu possa criar esse mundo de muitos e amorosos beijos e sem violência.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Me Abstenho Porque Eles não Valem Nada

    Apesar da crise irreversível que o País vive, da última eleição tão disputada e do meu histórico de participação política e ativismo ambiental, me abstive de escrever sobre tudo isso. Mas me sinto compelida a discorrer sobre as causas que me levaram à desilusão total, pragmatismo político absoluto e desesperança por um mundo melhor e mais justo. 
    Aos 12 anos me juntei à turma do Greenpeace para impedir a construção de três prédios de 30 andares, no Costão das Tartarugas, no canto da praia da Enseada, Guarujá. Cheguei a ver tartaruguinhas correndo para o mar na minha infância feliz e a aberração desses prédios iria fazê-las migrar e continuar migrando até não haver mais mar para migrarem. Não teve jeito. A Prefeitura do Guarujá, duvidosa desde sempre, liberou a construção em troca de milhões. Chorei muito por isso. Um ano depois tive minha primeira grande briga com meu pai, que trabalhava na construção civil e vendeu todo o cimento e cal para a obra abominável. "Se eu não vender, outros irão vender, é assim que acontece", me explicava, sem paciência para tanta ideologia juvenil. Hoje entendo o quanto tinha razão. Esse dinheiro todo talvez fosse para alguém mercenário e explorador de trabalhadores, coisa que meu pai não era.
   Na minha primeira eleição, em 1989, após os anos da ditadura, votei em Mario Covas e iria me abster no segundo turno, não conhecia Collor, não acreditava em Lula. Mas amigos petistas me convenceram que Lula seria menos pior. Votei nele. Quando o presidente caçador de marajá, Fernando Collor de Melo, convocou a população para apoiá-lo vestindo verde e amarelo, fiz carreata na avenida da praia de Santos, com carro preto e vestida de preto. Tinha esperança de mudar, tinha o frescor das ideias da juventude. Tinha endorfina e sangue nos olhos.
   
   A última vez que votei foi em 2002, no próprio Lula. Tinha esperança que o Partido dos Trabalhadores no poder daria também poder ao proletariado, que o MST, movimento que sempre admirei e apoie, ganharia força, que o desmatamento na Amazônia diminuiria, que haveria mais igualdade nos direitos civis. Eu não era proletária, graças ao capitalismo do meu pai tive muitas oportunidades e queria que os menos favorecidos também tivessem.
    Em 2003, com minha primeira filha prestes a completar 2 anos, sem apoio nenhum do pai dela (nem físico, emocional ou financeiro), fiquei realmente preocupada com seu futuro. Infelizmente não tenho o tato para vendas e negócios como meu pai e sinto muito por não ter seguido seus passos e decidido ser jornalista, uma carreira difícil, cansativa, para poucos. Na época eu tinha 20 mil reais sobrando (sim, já houve um tempo na minha vida, quando não havia processo, nem advogados, nem juízes, nem outras partes, que dinheiro me sobrava) resolvi fazer um investimento. Em novembro de 2003 procurei o gerente do meu banco para escolher uma aplicação que rendesse, nos próximos 16 anos, o suficiente para pagar a faculdade da minha filha ou comprar um pequeno apartamento, caso ela entrasse em Federal. Concluímos que o melhor seria investir na Previdência Privada, porque Lula havia sancionado uma lei que não descontava em imposto para bancos nesse investimento. Achei ótimo, até porquê sei, há décadas, que na minha velhice não poderei contar com aposentadoria. O País não tem como sustentar uma população que cresce e envelhece cada vez mais. Só pago INSS quando sou obrigada pelo holerite.  Não pago há mais de 10 anos porque jornalista contratado, com carteira de trabalho assinada, é bicho em extinção.
   Então em janeiro de 2004 recebo um documento em que meus 20 mil se transformaram em 17! O gracinha do presidente revogou a Lei, justamente entre Natal e Ano Novo, quando ninguém presta muita atenção em mudanças políticas. Pode parecer muito individualismo e talvez seja, afinal, nem o Partido dos Trabalhadores pensa no coletivo, porque eu iria pensar? Passei a ter muita raiva de Lula e sua corja.
    Em julho de 2005 estava no Chile e acompanhando as notícias do Brasil, ao lado de Francisco Javier Cabezas, meu querido Chico, vimos estarrecidos a notícia dos dólares na cueca de José Genoíno. Mandei um email na hora para Carla Stoicov, porque isso não poderia ser real, ela poderia me esclarecer melhor, talvez. Mas era! Carla, que foi petista e é uma das pessoas mais politizadas que conheço, estava em choque. Chico, que veio para o Brasil aos 6 anos, com a família, fugindo da ditadura de Pinochet, diretamente para Santo André, no ABC paulista, berço do PT e dos movimentos sindicais, quase chorou de desgosto.
      Lula não parou de me surpreender com sua soberba e egocentrismo. Houve outro caso, que poucos se lembram, mas eu, enquanto jornalista de memória privilegiada, não consigo esquecer. O correspondente norte-americano do Washignton Post escreveu que o então presidente Lula estava sempre alcoolizado em todos os eventos que participava. Lula simplesmente deportou o trabalhador para seu País, numa atitude ditatorial e que acaba com a liberdade de expressão. Se fosse uma pessoa justa levaria o caso aos tribunais, exigiria indenização. Mas não, agiu como agem pessoas sem razão e com poder ilimitado.
     Tive uma depressão arrasadora em 2004 e muitos foram os motivos que me levaram a isso. Nenhum deles foi desilusão amorosa, embora seja a pergunta que todos os homens (arrogantes) me façam. Não! Existem bilhões de homens no mundo e se um me magoar e me ferir posso chorar algumas noites, sentir dores no peito, mas sei que sempre haverá alguém melhor para mim. Como há hoje. Mas foi difícil demais ver minhas ideologias afundarem-se, não ter esperança em nada, ver meu pai morrendo em vida, cuidar sozinha de uma criança e ser desdenhada pelo pai dela, ouvindo coisas como "você quis ter, que cuide sozinha!". Foi muito difícil tudo isso, mas eu superei. Meu pai morreu e eu o enterrei. O pai da minha filha me tirou a filha e eu, finalmente, aceitei. E nunca mais votei!
     Em 2014 quase mudei de ideia, votaria na Luciana Genro no primeiro turno, mas não deu tempo de chegar na minha zona eleitoral (acho que não é coincidência o lugar onde votamos ser chamado de zona). Não votaria em Dilma para dar aval em continuar fazendo o que fazem. Não votaria em Aécio, pois parece que todos se esqueceram da tonelada de cocaína em sua propriedade. Já teve até uma ex-amiga que me disse que não acredita que ele trafique, "é para consumo próprio". Nossa, mas é cocaína para consumo próprio e para consumo de todas as futuras gerações de familiares e familiares de amigos!

    Aproxima-se 15 de março e rumores sobre impeachment. Seria o primeiro País da história a derrubar dois presidentes por clamor popular. Não estarei lá, não participo, não quero mais Dilma, mas vocês sabem quem é o vice? Michel Temer, o temerário! Seja quem for que assuma, não se iludam, nada irá mudar. Sou egoísta? Posso ser, posso ter me tornado essa pessoa amargurada e descrente, não quero mais resolver os problemas dos outros, porque muitos outros me encheram de problemas porque apenas quis ajudar. Estou onde estou e como estou porque eu escolhi ser quem sou. Não consigo nem me ajudar, nem resolver meus problemas pessoais. Como posso defender os direitos iguais se lá no Planalto está cheio de Bolsanaros dizendo que mulher tem que ganhar menos, que homossexualismo é doença? Eles não valem nada! Nem essas palavras gastas e desgastadas que vocês acabaram de ler valem alguma coisa.

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Sarro que Fortalece e o Bullying Destruidor

   Quando eu era adolescente também existia bullying. Eu usava óculos e me chamavam de "quatro olho", mas eu nem ligava porque desde a tenra infância gostava de óculos. Depois começaram a me chamar de Velma, do Scooby Do, porque eu era metida a saber tudo e parecia mesmo com ela. Adorei tanto o apelido que nem pegou. Na natação começaram a me chamar de Fanta por causa da cor do meu cabelo. Fiz até pulseirinha com o nome, não pegou. O que eu detestava mesmo era o apelido de "mosquitinho" dado pelo meu primeiro professor de natação. Detestei tanto que nadei muito para ficar forte e grande e não fazer mais sentido o tal apelido. Aliás, o professor Roberto dava apelido antes que qualquer engraçadinho pensasse em dar. Nos ensinou cedo que o sarro viria e teríamos de ser fortes para encará-lo de frente e sem medo nem de chorar.
    Mas quando eu via que o sarro chegava na cor, no peso ou na falta de dinheiro ou habilidade dos meus amigos, eu partia para cima, literalmente. Cresci e fiquei grande cedo, então até os meninos respeitavam meus braços e tamanho. Na escola, eu levantava o punho e ameaçava, caso não parassem de tirar sarro de quem já estava chorando. Depois me tornei um pouco mais diplomática...
     Então penso que o bullying sempre existiu e talvez tenha tornado muitas pessoas mais fortes. Os nerds de ontem são os vencedores de hoje. E as bonitonas e bonitões de ontem podem ter sofrido mudanças drásticas com a perversidade do tempo. Se não há nada de muito sólido no coração ou não se tem cérebro privilegiado, sinto dizer, caso não saibam, beleza acaba. E nem sempre as cirurgias plásticas dão certo.

   No final dos anos 80, quando estava no terceiro colegial e era popular entre atletas e nerds, bonitões e magrelinhos, via com tristeza um grupo ser chamado de "bicharada", porque eram visivelmente afeminados. Um outro garoto, dos mais ricos, que já tinha carro aos 16 anos e, para mim, muito bonito e inteligente, começou a passar o intervalo com eles, indo junto comer pastel. Perguntei se não se importava de ficar com os meninos na frente de todos. "Não, pelo contrário, combinei de irmos estudar lá em casa, porque vão me tirar umas dúvidas de química e física". Sim, os meninos da "bicharada" eram ótimos alunos. Passados quase 30 anos, conversei sobre isso com o tal amigo rico. Nunca imaginei, mas ele também sofria bullying, justamente por ser tão rico e sempre chamado de playboyzinho. Se achava fraco e franzino e que as garotas se aproximavam dele pelo dinheiro, não pelo que era realmente. Me disse também saber que eu não era uma dessas garotas e também por isso nunca me esqueceu. Acredito que nunca esqueceremos quem nos defendeu ou nos defenestrou.

   O que vejo hoje é tão pior. Porque existe internet! Não é só o sarro que nos fortalece. É o sarro que humilha, rejeita, coloca abaixo do cocô do cavalo do bandido! Deixa adolescentes deprimidos sem sair da cama. Fiquei muito mal quando vi uma garota linda, que era pura doçura e gratidão, me mostrar na internet fotos da "menina mais feia do colégio", rindo. Fizeram até página com fotos dela, só para todos comentarem e "zuar". Não consegui disfarçar meu repúdio. Quis parar de ver e cada vez mais fotos que a pobre menina mesma faz e coloca no facebook. "Mas ela pede para ser zuada". Não, ela não pede, ela não se acha feia e tem pais que a amam muito e a aprovam. Ainda tentei persuadir a parar com aquilo, dizendo que ela poderia se tornar a garota mais linda e popular em um futuro próximo, dando exemplos da minha adolescência. "Mas você viu como os pais dela também são feios?". Fui dormir triste pensando em como os jovens são cruéis.

    Nessa semana, uma moça passou mal, teve diarreia no meio de uma balada em um dos lugares mais badalados de Ribeirão Preto. Não procurei saber quem é essa coitada, mas já deve esta mudando de cidade, porque a história espalhou-se viralmente pela internet. Nem eu sei o que quero dizer com esse texto. Só sei que dói em mim ver isso o tempo todo de forma arrasadora. Não é mais uma brincadeira de mau gosto, entre amigos, como há 20 anos. Hoje é uma maldade generalizada com quem não se conhece. É uma inconsequência tão grande que pode acabar com a vida de um jovem para sempre, com traumas que nunca serão superados. Tenho medo e pena, ao mesmo tempo, de quem trata o outro dessa maneira. Pode me faltar tudo, mas nunca me faltará humanidade. Nessas pessoas, falta.

   Essa é uma canção (Sounds of Silence) que ouvia muito na adolescência, quando aprendia inglês sozinha, traduzindo músicas. Sempre me ajudou muito nos momentos de solidão. Aprendi também que estar sozinho é bom e que os outros são só os outros, nunca saberão o que somos realmente, o que temos por dentro. Nosso lado mais sombrio ou mais amoroso só nós mesmos conhecemos profundamente e mais ninguém. E se algum adolescente que sofre estiver lendo esse texto, saiba que isso também vai passar. Você será sempre você o os outros, apenas os outros.

* Coloquei a música traduzida porque não quero causar bulliyng em quem não sabe inglês.

http://youtu.be/-BO_6luBp34
    

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Foco, Disciplina e Propósito

     Aqui estou para dar notícias, pois pessoas que não conheço, mas que conhecem minha história, me escrevem preocupadas. Pouca coisa mudou, entre  elas, as idades de minhas filhas. A mais velha completou 13 anos no dia 9 de  fevereiro. Era um final de semana para passarmos juntas, mas tanta coisa aconteceu e não pude ir. Mas sei que passou um dia feliz, no lançamento do livro de um vlogueiro que é fã, com direito a abraço apertado e vários amigos na livraria. Ela feliz, me sinto feliz.
    Minha caçula completou 6 anos no dia 16 de fevereiro. Nesse dia fomos numa tenda de Carnaval em Santos. Depois encontramos Zenilde Carmo, que foi minha professora de matemática na 7ª série, e fomos em sua casa. Miranda ganhou uma camiseta do Barcelona, assinada por Neymar e esse já foi seu grande presente, seu grande dia. Comemos pizza de brócolis (Mi adora) e estava tudo tão bom que ela chorou porque não queria ir embora, queria dormir lá, saímos já passava da 1h da manhã. Zenilde é daquelas pessoas que fala sobre todos os assuntos, viajou para vários lugares, tem um jeito tranquilo e a certeza de que tudo vai dar certo. Sempre foi minha professora de matemática preferida, mesmo tendo me deixado de recuperação, coisa inimaginável quando eu tinha 12 anos. Nosso papo sobre viajar e conhecer lugares ser uma das melhores coisas da vida deu vontade de fazer as malas e pegar um avião. 
    Fiz festinha na quarta-feira de cinzas. Essa data carnalesca não é das melhores para comemorar aniversário, mas ela ficou feliz, divertiu-se muito em sua fantasia de odalisca. Miranda feliz, trabalho cumprido, dormi feliz.
      No setor em que nada mudou, a vida de estrada, sempre indo e vindo para algum lugar, geralmente a saga Santos/Ribeirão Preto, Ribeirão Preto/Santos. Este é meu primeiro final de semana com Dora após as férias e está sendo ótimo. Viajei de São Paulo para Ribeirão de carona, foi a viagem mais rápida dos últimos 4 anos. Com um cara que não conhecia, mas que, comprovando a teoria de que o mundo é mesmo uma ervilha dividida ao meio, já trabalhou com a Paola Miorim, o que tornou tudo muito familiar.
    Fomos numa palestra ministrada por Paola e mais dois atletas, um de Iron Man. O tema era Esporte e Empreendedorismo. Dei opção para Dora escolher o programa, ela quis ir na palestra. Mais do que nunca vi a necessidade de voltar a nadar e ter foco, disciplina e propósito. Esses últimos dias estão sendo estranhos, parecem aquele filme dos anos 80 O Feitiço do Tempo. Muitas conversas estão se repetindo, como se para fixar definitivamente o óbvio na minha cabeça. Enquanto Paola, Cleber Campos Barreira e Renato Rodrigues se revezavam nas palavras de motivação e objetivos, lembrava das palavras da noite anterior, com Paola e Lívia. É claro e cristalino que enquanto alguém corre ou nada por horas, dá tempo de pensar em todos os problemas, até esvaziar a mente. É claro e cristalino que cansar os músculos, acelerar os batimentos cardíacos e terminar um objetivo (seja nadar mil metros ou correr uma maratona) nos faz dormir melhor e sentir uma realização que nos acompanha por dias. E por que não faço isso? Mesmo sabendo, empiricamente, todo o bem que me faz?
      No meio da palestra chegaram Ana Luiza Feres e seu filho Giácomo, de 11 anos. Depois fomos todos comer uma pizza a céu aberto, com aquele céu lindo do anoitecer em Ribeirão. Muitas risadas, muito assunto sério falado de forma divertida. Impressionante como as almas afins se atraem e se reencontram e continuam sempre evoluindo nas ideias e sentimentos, passando por momentos tão parecidos. Como é bom ter tantos amigos e pessoas tão bacanas aparecendo no meu caminho.
      
      Nem eu, nem você, nem ninguém deve conceder que uma pessoa má destrua tudo que uma vida inteira de pessoas boas construiu. Isso na vida pessoal, pública e política. Não devemos deixar de ser quem somos na essência, por mais que tudo pareça acabado ou perdido. Me sinto exausta de tanta estrada para o mesmo lugar, fico "descapitalizada" com viagens que não planejo, que não são de férias. Mas mesmo assim aprendo e vejo o novo, indo e vindo pelas mesmas paisagens, porque as nuvens não são mais as mesmas, nem o ar, nem os carros, nem as pessoas. 
   Ontem ficamos até de madrugada falando sobre astrologia e planetas. Enquanto Lívia e Dora, aquarianas típicas, vivem no futuro, parecendo até alheias ao que está acontecendo agora, eu fico no passado e ainda me vanglorio sobre minha memória prodigiosa, que não esquece fatos de décadas atrás. Nada disso é certo. O agora é o que temos e é a partir daqui que podemos mudar tudo. Não posso mais continuar vivendo lembrando do que aconteceu e mudou tudo, tentando encontrar o momento crucial em que tudo desmoronou. É a partir de hoje que começa e só o daqui para frente deve fazer algum sentido.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Aqui Dentro


    Cheguei 20 minutos adiantada, logo eu que costumo me atrasar. Tomei um café, enquanto lia sobre várias coisas, aleatoriamente, tentando mudar o foco. Pensava que já devíamos ter nos encontrado antes, tantas as coincidências, lugares e pessoas comuns. Tentava despertar para outras imagens, outros assuntos, mas era ele, o meu interesse. “Deve ser fumante!”, desejava, conscientemente, por ser uma forma de afastar qualquer possibilidade de beijo.
    Quando finalmente me concentrei numa matéria de cultura, percebo uma pessoa postada ao meu lado. Era ele e nem o vi chegar. Nenhum vestígio de fumaça. Deu até para sentir o hálito doce quando me deu um abraço. Os lugares e as pessoas ficaram ainda mais comuns. Já nem sabia mais quais eram as minhas histórias ou quais eram as dele. E fui tão ingênua que dei minha data de nascimento assim, de supetão, com horário e tudo. Sabia do meu mapa astral antes de me conhecer. Parecia saber bastante sobre mim. Tudo que eu queria esconder percebia só de olhar. E talvez por isso eu falasse sem parar, tentando ocupar os silêncios carregados de poesia.
    Há algum tempo fujo de romantismo. O amor romântico e idealizado nos decepciona com ilusões criadas por nós mesmos. Por isso não esperava, nem idealizava mais nada, com ninguém. Não neste momento, neste período, nesta fase, neste ano, nesta vida. Estava sempre evitando o novo, o desconhecido, o inédito. Mas era um novo antigo, como se fosse um reencontro, um desses chavões “parece que te conheço há tanto tempo”. Pegou minhas mãos, que costumam ser frias, e estavam suadas. Até ele estranhou, como se soubesse sobre minha pressão baixa. Isso não era normal e eu não entendia o que estava acontecendo. Me sentia bem, mas meu corpo reagia estranho.
    A noite passou tão rápida e não queria me despedir, não estava preparada para o fim de nada. Minha incerteza precisava congelar aquele momento, até eu decidir dar boa noite ou dizer continua comigo. Nem lembro como foi, se vacilei no convite, se ele queria mesmo seguir comigo, apesar da madrugada que invadia a noite. Sei que fomos, foi o suficiente .
   Estávamos numa sacada, cheia de vasos com plantas, numa noite fresca do fim da primavera. Não havia palavra que bastasse por minha parte. As ouvidas e as faladas, também as escritas. Tomava alguns goles de vinho branco para continuar falando e aguçar os ouvidos. Queria também ouvi-lo, mas evitava tocá-lo. Evitava também o silêncio e os olhos nos olhos. Em algum instante ficamos tão próximos, que nada impediu nossos lábios de se juntarem. A primeira vez que o beijei foi por muito tempo. De um jeito familiar e prolongado. Na segunda foi mais longo ainda o mesmo beijo, cheio de doçura e desejo, como se aquele cheiro sempre estivesse dentro de mim. Na terceira noite de tantos beijos me habituei de uma forma a só ficar beijando-o, na esperança de que ele também não pudesse mais viver sem aquele beijo.
     Nos dias que seguiram me vi tomando menos café, comendo mais e pensando menos. Tentei ser mais intuitiva. Mas continuei não querendo o amor romântico e idealizado. Estou sempre tentando encontrar impedimentos para concretizar qualquer sonho, para não ter desilusão. Quando dormi duas noites seguidas com ele, entendi que era grave. Não tive vontade de sair correndo, inventar uma viagem de última hora ou dizer que estava muito melancólica e não gostava de mim assim. Ao contrário, quis ficar ao seu lado até me atrasar em efeito dominó. Quis ficar mesmo que em silêncio.
    Quanto mais ficar, é mais provável que eu sofra. Por estar praticando a intuição, sei do meu apego, sei que irei sofrer na separação que virá. Seja eterna, por um dia, um período, a separação vem, sempre vem.
    Me emociono demais, apesar de dizerem por aí que não demonstro ou falo sobre o que sinto. Podem não aparecer, mas os sentimentos estão comigo o tempo todo, se manifestando de outras formas, que não com palavras. Não sou apenas uma mente em ebulição, tenho um corpo que se expressa pelo amor e um coração que dói de tanto esperar e se despedir. Aprendi a disfarçar.
   Mas em momentos de entrega não existem disfarces. Certa noite senti novamente o que nunca pensei ser possível. Uma emoção tão grande que precisava ser extravasada além do gozo. Mas não sou dada a gritos, nem de ira, nem de prazer. Já não falava ou mesmo pensava ou articulava. Apenas sentia. E assim senti lágrimas que não eram de tristeza ou alegria. Era o amor que transbordava. Não havia nada que pudesse ser falado. Por segundos fui nada, sem me sentir vazia. Estava tão cheia de vida que tudo bastava. O corpo dele terminava no meu, sem saber qual coração era o mais cansado. E então consegui dormir como há muito tempo eu não dormia.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Menino João


    Escrevi o texto abaixo no dia 9 de janeiro, não sabia se queria que fosse o primeiro do ano, mas foi. Para quem quer saber sobre minhas férias com Dora, já adianto que ela pediu para voltar uma semana antes. Como eu a amo, deixo-a livre. O avô foi buscá-la. Mas viajei no mesmo carro, com ela e Miranda juntas. Estava dormindo quando descemos, nem nos despedimos. Ela teve muita alergia e queria o pai, desesperadamente. Ribeirão Preto é seu lar, sua casa, onde está sua família. Não há porque seguir o que o juiz manda. Não iria obrigá-la a ficar onde não queria, revendo amigos que não via há 4 anos, enquanto desejava estar com os amigos de Ribeirão Preto. Sua vida é outra vida. A irmã Miranda enche sua paciência. Não há vínculos de irmãs. A alergia é forte, mas o pai não quer eu saiba nem o nome do médico. Não vou insistir com o avô que, em princípio, mostrou-se solícito e disse para juntos ajudarmos Dora a se curar, já que seu filho era irredutível. Tudo dissimulação, era só para não me contrariar, já que sou tão louca. Que 2015 seja um ano bom, com anjos em cachoeiras.




   Chegamos em Boiçucanga com céu azul, final de tarde. Não sabia onde ficaria com minhas filhas. Foram 4 anos sem férias juntas e queria um lugar legal, mas não estava querendo rodar, nem gastar muito e parei no primeiro quarto com banheiro perto da praia. Um chalé simpático, um lugar organizado, com gramado, espaço comunitário para o café da manhã. Gostei de Fran, a dona, decidi ficar lá com Dora e Miranda.
     Antes de dormir ouvi um som suave de violão. “Esse é o lugar certo”, pensei contente. Quando acordei as meninas continuavam dormindo pesado e voltei a ouvir o som de violão, saí do quarto e uma mulher me ofereceu um café sorrindo. Manhã de sol, café, vizinha simpática e um garoto lindo dedilhando com carinho uma viola, perfeito. A mãe, Shirley, toda comunicativa, contou dos acampamentos na Praia Brava na sua adolescência, da singularidade em ser rockeira numa família de negros sambistas, da dificuldade que foi convencer os pais de que, “apesar de ser mulher”, queria fazer faculdade.
    Mas eu não conseguia tirar os olhos do filho João, tão lindo, parecia o Ben Harper jovem. E logo me perguntou sobre as tatuagens de notas musicais, reconhecendo a clave de Dó e o Mi maior e passando os dedos longos sobre elas. O garoto de 14 anos era alto, jogava vôlei, já tinha feito natação, sabia ler partitura e era muito falante, de sorriso largo. Conversamos sobre música, viagens, esportes e tatuagens. Ele disse que com tanta música boa no mundo, não se conformava como tinha gente que ouvia funk. “Mas funk do ruim, não do James Brown”. “Já me disseram na igreja que rock é música do diabo, mas não acho que o diabo seria capaz de fazer algo tão lindo”, filosofou o menino. Também falou do fusca que era do seu avô e que seria seu, que já cuidava do carro. Achei lindo um garoto ter orgulho de andar no fusca do avô.
    Me deu muita esperança conhecer um jovem como João. Quando me disse que nunca tinha ido numa cachoeira logo indiquei a de Boiçu, uma das mais lindas que já conheci. Expliquei o caminho para o pai, avisei que a trilha não era fácil, mas quando se chega ao poço vale cada gota de suor. Disse também que iria lá com minhas filhas, para evitar o horário do Sol forte na praia, porque sei que crianças não ficam no mar o tempo inteiro.
   João tocou Tempo Perdido do Legião Urbana e eu contei dos shows que fui da banda. “Mãe escuta isso! Ela foi em vários shows do Legião!” E cantarolamos “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria”. Combinamos uma cantoria na noite de Lua cheia linda que viria. Miranda acordou e João, que tinha uma irmã de 4 anos, logo puxou assunto e espantou-se com o tamanho da criança. Cheio de ternura com a irmãzinha, Sofia, disse que encontou uma amiguinha para brincar. Então Dora levantou e apresentei os dois. João abriu o sorriso lindo. Percebi que ficou feliz em ver que eu tinha uma filha adolescente tão bonita. Não senti ciúmes, confesso que viajei longe e pensei que adoraria ter João como genro.
     Então a família saiu de carro. Disseram que iriam na praia e seguiriam para a cachoeira. Respondi que iria em seguida e nos encontraríamos lá. Mas pensei que deveríamos ter seguido todos juntos, já que eles não conheciam o lugar e que seria perfeito Miranda com Sofia, Dora com João e eu com a mãe rockeira, mochileira e falante. O pai? Bem, era um tanto calado, mas é sempre bom ter um homem quando se faz uma trilha.
    Fomos eu, Dora e Miranda. Há uns 7 anos não fazia aquele caminho árduo e fiquei satisfeita com minha capacidade pulmonar e muscular. Nada doeu. Miranda aguentou firme e forte. Dora só cansou no final. A cachoeira continuava linda e selvagem. E lá ficamos por um bom tempo. Mas muitas pessoas começaram a pular das pedras e senti uma dor no peito, como se uma tragédia fosse acontecer. Contei para Dora que o irmão de um amigo meu do colegial morreu mergulhando ali e que Marcelo Rubens Paiva acidentou-se ali também. Me deu vontade de sair.
   A volta, como sempre, foi mais rápida. Só não foi em tempo recorde porque uma mulher andava devagar e com medo até nas retas. Chegou a ser engraçado. Prudência nunca é demais, mas parar o trânsito é exagero. Por algum motivo, talvez para fazer Miranda ter cautela, falamos sobre escorregar e morrer na trilha. Mas depois eu e Dora concluímos que seria um bom lugar para a alma ficar, no meio da Mata Atlântica, com barulho de água corrente constante. Quando chegamos na estradinha de terra vimos uma equipe de resgate. “Estão vendo meninas? Alguém deve ter se acidentado”.
    Depois fomos até a casa de Nicole, amiga de Dora dos tempos do maternal. Ficamos no mar calmo, límpido e refrescante de Boiçucanga. Achei fantástico ver Dora e Nicole, que tanto se adoravam aos 2 anos, continuarem cheias de afinidade e assuntos. Miranda ficou enciumada, mas em pouco tempo perguntou por que Nicole ria de tudo. “Porque sou feliz”. “Você é muito fofa”, foi a definição instantânea de Miranda para a amiga da irmã.
    Voltamos todas para o chalé para pegar umas coisas e seguir para a piscina na casa de Nicole, duas quadras de distância. Assim que entrei no quarto, Shirley me chamou. Saí sorrindo e perguntei: - Foram à cachoeira?
- Sim. E meu menino morreu.
- Como?
- Ele morreu na cachoeira.
     Então me veio à mente a imagem do resgate chegando. Era para João.
    Abracei-a forte e comecei a chorar e ela me consolou. Disse que ele gritava de alegria por ver um lugar tão lindo, que corria e seguiu numa trilha, mas não voltou. Foi encontrado pelo pai, já sem vida. Provavelmente escorregou e bateu a cabeça numa pedra. Caiu na água. Desacordado, morreu por afogamento. Fiquei sem chão. Não caiu a ficha da mãe, não é possível estar assim tão conformada. Como ela não está me odiando por ter indicado o caminho da morte? Por que eu não estava junto para guiar aquele menino por uma trilha segura? Por que alguém tão iluminado morre tão jovem?
     Pedi para Dora e Miranda irem com Nicole, iria na sequência. Fiquei ali com Shirley e sua filha, esperando o marido voltar do IML, com Fran. Logo o casal dono dos chalés chegou. Estavam desolados, o marido não se conformava por não ter ido junto com eles. “Se tivesse me falado... sempre acompanho os hóspedes na cachoeira, é muito perigoso para quem não conhece”. Eu me sentia cada vez mais culpada. A irmãzinha não sabia muito bem o que tinha acontecido, apesar de ver o irmão desfalecido na sua frente. Quando o pai voltou aos prantos sem o irmão, ela perguntou por ele. E então chorou dizendo que queria o irmão. Lembrei de Miranda querendo a irmã por anos. Sofia não terá mais o irmão...
    Fui buscar minhas filhas. Mas fiquei um bom tempo com a mãe da Nicole, Telminha, que não via há 7 anos. Jantamos lá, as meninas se divertiram muito. Dora queria dormir na casa da amiga e eu deixaria, mas hoje não. Quantas noites passei sem minha filha? Quantas vezes pensei que algo horrível poderia acontecer a ela sem minha presença?
   Dora chorou quando voltamos para o chalé, pensando no menino que não estava mais lá. Estou aqui escrevendo e olhando minhas duas filhas dormindo juntas, na mesma cama de casal. Nosso tempo é estipulado, determinado, sei que será breve nosso encontro. Mas quero estar presente em cada minuto desse tempo. Quero sentir o cheiro delas, a pele, ouvir a voz, o canto. A família seguiu há pouco para São Paulo. Meu coração foi um pedaço junto do menino anjo. Me senti o anjo da morte. Assim que bati os olhos em João senti que jamais o esqueceria. Agora tenho a certeza.

  

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dentro e Fora D`água

   Não lembro se a conheci dentro da piscina, na borda ou no vestiário. Mas foi no Vasco da Gama, em Santos, e tínhamos 11 anos. Apesar de ser apenas um mês mais nova do que eu, parecia uma criança e eu já era toda adolescente. Era uma garota linda que parecia a Branca de Neve. Trocamos papéis de carta e depois escrevemos algumas quando mudou-se com a família para Cuiabá.
    Dois anos depois Paola Miorim retornou maior do que eu e ainda mais bonita. Voltamos a dividir a mesma piscina, depois a mesma sala de aula de nerds no colegial e também ouvíamos os mesmos discos. Dormíamos uma na casa da outra e nunca nos faltava assunto ou vontade de fazer tudo: teatro, inglês, computação, canto. Estávamos juntas no show do Camisa de Vênus, no lendário Caiçara Clube, quando foi gravado o disco ao vivo. Cansadas do treino de sábado, ficamos sentadas na escadaria, sentindo o piso tremer.
    Chamava sua mãe de "mãe Lúcia" de tanto que dormia na casa dela e recebia as mesmas broncas e carinho. Seus irmãos, Marcelo e Rodrigo, também nadadores, tornaram-se meus irmãos. Meu pai ficou muito amigo do pai dela, Paulo, também nadador, como meu pai. Dancei valsa com Marcelo no seu aniversário de 15 anos. Precisei comprar um vestido novo, pois tinha engordado 5kg em 18 dias passados nos Estados Unidos. Me senti horrorosa, mas não perderia a festa por nada, nem ninguém! Quando Paola mudou-se para Ribeirão Preto, para fazer faculdade. acabei indo também, pois não queria amargar um ano de cursinho. Mas não aguentei o calor escaldante por mais de um ano e meio e voltei.
      Sempre me impressionou a estima elevada dela. Demorei a entender que precisamos nos amar acima de tudo, que somos nossos leais companheiros até o fim e se houver algo além do fim. Logo eu que nunca me amei muito e cheguei mesmo a me odiar certas vezes, tinha uma amiga que se amava acima de todas as coisas. E tão certa sempre esteve!
      Por trilhar caminhos diferentes e ter vidas tão corridas, passamos um tempo afastadas. Mas Paola foi uma das primeiras pessoas a me ligar quando passou uma matéria no Fantástico, com a sinistra voz de Cid Moreira dizendo: "Adriana Mendes tem graves problemas mentais". Me ofereceu toda a solidariedade, dizendo não acreditar em nada daquilo, mesmo sem me ver há alguns anos.
    Quando minha filha foi levada para Ribeirão Preto não pensei duas vezes em ligar para Paola e pedir para ficar em sua casa quando precisasse. A verdade é que eu não imaginava que precisaria por longos quatro anos. Nos dois primeiros eram só lágrimas, porque nada dava certo e eu não podia ver minha filha. Se eu consegui suportar tudo isso, Paola e suas adoráveis filhas, Lívia e Giovana, merecem todos os louros. Sempre que eu voltava arrasada de fóruns e delegacias era na casa delas que eu encontrava abraços, sorrisos e leveza para seguir.

    Existem pessoas que passam por algum momento de grande tristeza e levam o sofrimento para o resto da vida. Outras vivem grandes tragédias, perdas irreparáveis e fazem disso um aprendizado, uma superação. Paola faz parte do segundo grupo. E tomei isso como lição. 
   Mesmo tendo amigos muito queridos em Ribeirão Preto custei a querer encontrá-los. Não queria que me vissem tão magra, de olhos fundos, aparência abatida e doente. Preferia que lembrassem de mim como eu era, sempre sorridente e cheia de saúde. Paola podia me ver assim destruída, porque me viu nas piores fases da adolescência, quando ficava cheia de espinhas, peitos enormes e usava roupas e cabelos que não favoreciam em nada meus ombros e braços grandes. 
    Ela já me viu chorando tudo o que eu tinha para chorar de tristeza. Quando tentou falar delicadamente com a outra parte recebeu o telefone na cara. Respirou fundo e ligou de novo. Outro telefonema na cara. Não acreditou em tanta intolerância. Fomos criadas de uma forma a tolerar e aceitar diferenças. Fomos criadas de forma muito parecida.
     Quando finalmente pude ver minha filha fora do fórum, precisei indicar um "monitor". Como pedir o favor de buscar, acompanhar e levar, a cada 15 dias, com horário rígido e pré determinado, a alguém que não seja incrivelmente generoso e comprometido? Quem aceitaria tal responsabilidade? Quem assinaria um termo no  cartório do fórum? Talvez se eu tivesse um irmão, não fizesse isso por mim.
     Todas as idas e vindas na estrada eu pensava nisso. Em toda a trajetória de amizade que levou a esse ponto e reencontro tão forte na vida. Em todas as pessoas que agreguei por conta de Paola, como Patrícia Zorzenon, Marcos Papa, Sônia Gravine, Tetéu, Zeca Ferreira. A delícia de saber que Beto Wagner, Ana Luiza Feres e João Paulo também são amigos dela, mais recentes, de outras histórias que se cruzam nesse emaranhado de laços afetivos.
      Não é uma coincidência eu estar aqui no apartamento de Paola, escrevendo do note dela (sem ela estar em casa) o que provavelmente é o último texto do ano e o primeiro texto de liberdade. Amanhã, ou logo mais, considerando que já é madrugada, pego Dora, às 14h, para seguirmos juntas pela estrada, ver os amigos que há anos ela não vê, voltar nos mesmos lugares, mergulhar no mar, dormir finalmente e novamente embaixo do mesmo teto. Sem monitores, sem psicólogos, sem advogados. Apenas com amigos que escolhemos ter. É tão simbólico estar aqui nessa sala e ter essa pessoa na minha vida por 34 anos, de forma intensa e absoluta. Uma amizade que passa de geração para geração e que se perpetuará em projetos literários que agora também temos juntas. Esse foi um ano bom. Pela primeira vez em muito tempo sinto esperança. Sei que o próximo ano será libertário. Eu só posso agradecer e oferecer meu amor eterno.