domingo, 22 de fevereiro de 2015

Foco, Disciplina e Propósito

     Aqui estou para dar notícias, pois pessoas que não conheço, mas que conhecem minha história, me escrevem preocupadas. Pouca coisa mudou, entre  elas, as idades de minhas filhas. A mais velha completou 13 anos no dia 9 de  fevereiro. Era um final de semana para passarmos juntas, mas tanta coisa aconteceu e não pude ir. Mas sei que passou um dia feliz, no lançamento do livro de um vlogueiro que é fã, com direito a abraço apertado e vários amigos na livraria. Ela feliz, me sinto feliz.
    Minha caçula completou 6 anos no dia 16 de fevereiro. Nesse dia fomos numa tenda de Carnaval em Santos. Depois encontramos Zenilde Carmo, que foi minha professora de matemática na 7ª série, e fomos em sua casa. Miranda ganhou uma camiseta do Barcelona, assinada por Neymar e esse já foi seu grande presente, seu grande dia. Comemos pizza de brócolis (Mi adora) e estava tudo tão bom que ela chorou porque não queria ir embora, queria dormir lá, saímos já passava da 1h da manhã. Zenilde é daquelas pessoas que fala sobre todos os assuntos, viajou para vários lugares, tem um jeito tranquilo e a certeza de que tudo vai dar certo. Sempre foi minha professora de matemática preferida, mesmo tendo me deixado de recuperação, coisa inimaginável quando eu tinha 12 anos. Nosso papo sobre viajar e conhecer lugares ser uma das melhores coisas da vida deu vontade de fazer as malas e pegar um avião. 
    Fiz festinha na quarta-feira de cinzas. Essa data carnalesca não é das melhores para comemorar aniversário, mas ela ficou feliz, divertiu-se muito em sua fantasia de odalisca. Miranda feliz, trabalho cumprido, dormi feliz.
      No setor em que nada mudou, a vida de estrada, sempre indo e vindo para algum lugar, geralmente a saga Santos/Ribeirão Preto, Ribeirão Preto/Santos. Este é meu primeiro final de semana com Dora após as férias e está sendo ótimo. Viajei de São Paulo para Ribeirão de carona, foi a viagem mais rápida dos últimos 4 anos. Com um cara que não conhecia, mas que, comprovando a teoria de que o mundo é mesmo uma ervilha dividida ao meio, já trabalhou com a Paola Miorim, o que tornou tudo muito familiar.
    Fomos numa palestra ministrada por Paola e mais dois atletas, um de Iron Man. O tema era Esporte e Empreendedorismo. Dei opção para Dora escolher o programa, ela quis ir na palestra. Mais do que nunca vi a necessidade de voltar a nadar e ter foco, disciplina e propósito. Esses últimos dias estão sendo estranhos, parecem aquele filme dos anos 80 O Feitiço do Tempo. Muitas conversas estão se repetindo, como se para fixar definitivamente o óbvio na minha cabeça. Enquanto Paola, Cleber Campos Barreira e Renato Rodrigues se revezavam nas palavras de motivação e objetivos, lembrava das palavras da noite anterior, com Paola e Lívia. É claro e cristalino que enquanto alguém corre ou nada por horas, dá tempo de pensar em todos os problemas, até esvaziar a mente. É claro e cristalino que cansar os músculos, acelerar os batimentos cardíacos e terminar um objetivo (seja nadar mil metros ou correr uma maratona) nos faz dormir melhor e sentir uma realização que nos acompanha por dias. E por que não faço isso? Mesmo sabendo, empiricamente, todo o bem que me faz?
      No meio da palestra chegaram Ana Luiza Feres e seu filho Giácomo, de 11 anos. Depois fomos todos comer uma pizza a céu aberto, com aquele céu lindo do anoitecer em Ribeirão. Muitas risadas, muito assunto sério falado de forma divertida. Impressionante como as almas afins se atraem e se reencontram e continuam sempre evoluindo nas ideias e sentimentos, passando por momentos tão parecidos. Como é bom ter tantos amigos e pessoas tão bacanas aparecendo no meu caminho.
      
      Nem eu, nem você, nem ninguém deve conceder que uma pessoa má destrua tudo que uma vida inteira de pessoas boas construiu. Isso na vida pessoal, pública e política. Não devemos deixar de ser quem somos na essência, por mais que tudo pareça acabado ou perdido. Me sinto exausta de tanta estrada para o mesmo lugar, fico "descapitalizada" com viagens que não planejo, que não são de férias. Mas mesmo assim aprendo e vejo o novo, indo e vindo pelas mesmas paisagens, porque as nuvens não são mais as mesmas, nem o ar, nem os carros, nem as pessoas. 
   Ontem ficamos até de madrugada falando sobre astrologia e planetas. Enquanto Lívia e Dora, aquarianas típicas, vivem no futuro, parecendo até alheias ao que está acontecendo agora, eu fico no passado e ainda me vanglorio sobre minha memória prodigiosa, que não esquece fatos de décadas atrás. Nada disso é certo. O agora é o que temos e é a partir daqui que podemos mudar tudo. Não posso mais continuar vivendo lembrando do que aconteceu e mudou tudo, tentando encontrar o momento crucial em que tudo desmoronou. É a partir de hoje que começa e só o daqui para frente deve fazer algum sentido.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Aqui Dentro


    Cheguei 20 minutos adiantada, logo eu que costumo me atrasar. Tomei um café, enquanto lia sobre várias coisas, aleatoriamente, tentando mudar o foco. Pensava que já devíamos ter nos encontrado antes, tantas as coincidências, lugares e pessoas comuns. Tentava despertar para outras imagens, outros assuntos, mas era ele, o meu interesse. “Deve ser fumante!”, desejava, conscientemente, por ser uma forma de afastar qualquer possibilidade de beijo.
    Quando finalmente me concentrei numa matéria de cultura, percebo uma pessoa postada ao meu lado. Era ele e nem o vi chegar. Nenhum vestígio de fumaça. Deu até para sentir o hálito doce quando me deu um abraço. Os lugares e as pessoas ficaram ainda mais comuns. Já nem sabia mais quais eram as minhas histórias ou quais eram as dele. E fui tão ingênua que dei minha data de nascimento assim, de supetão, com horário e tudo. Sabia do meu mapa astral antes de me conhecer. Parecia saber bastante sobre mim. Tudo que eu queria esconder percebia só de olhar. E talvez por isso eu falasse sem parar, tentando ocupar os silêncios carregados de poesia.
    Há algum tempo fujo de romantismo. O amor romântico e idealizado nos decepciona com ilusões criadas por nós mesmos. Por isso não esperava, nem idealizava mais nada, com ninguém. Não neste momento, neste período, nesta fase, neste ano, nesta vida. Estava sempre evitando o novo, o desconhecido, o inédito. Mas era um novo antigo, como se fosse um reencontro, um desses chavões “parece que te conheço há tanto tempo”. Pegou minhas mãos, que costumam ser frias, e estavam suadas. Até ele estranhou, como se soubesse sobre minha pressão baixa. Isso não era normal e eu não entendia o que estava acontecendo. Me sentia bem, mas meu corpo reagia estranho.
    A noite passou tão rápida e não queria me despedir, não estava preparada para o fim de nada. Minha incerteza precisava congelar aquele momento, até eu decidir dar boa noite ou dizer continua comigo. Nem lembro como foi, se vacilei no convite, se ele queria mesmo seguir comigo, apesar da madrugada que invadia a noite. Sei que fomos, foi o suficiente .
   Estávamos numa sacada, cheia de vasos com plantas, numa noite fresca do fim da primavera. Não havia palavra que bastasse por minha parte. As ouvidas e as faladas, também as escritas. Tomava alguns goles de vinho branco para continuar falando e aguçar os ouvidos. Queria também ouvi-lo, mas evitava tocá-lo. Evitava também o silêncio e os olhos nos olhos. Em algum instante ficamos tão próximos, que nada impediu nossos lábios de se juntarem. A primeira vez que o beijei foi por muito tempo. De um jeito familiar e prolongado. Na segunda foi mais longo ainda o mesmo beijo, cheio de doçura e desejo, como se aquele cheiro sempre estivesse dentro de mim. Na terceira noite de tantos beijos me habituei de uma forma a só ficar beijando-o, na esperança de que ele também não pudesse mais viver sem aquele beijo.
     Nos dias que seguiram me vi tomando menos café, comendo mais e pensando menos. Tentei ser mais intuitiva. Mas continuei não querendo o amor romântico e idealizado. Estou sempre tentando encontrar impedimentos para concretizar qualquer sonho, para não ter desilusão. Quando dormi duas noites seguidas com ele, entendi que era grave. Não tive vontade de sair correndo, inventar uma viagem de última hora ou dizer que estava muito melancólica e não gostava de mim assim. Ao contrário, quis ficar ao seu lado até me atrasar em efeito dominó. Quis ficar mesmo que em silêncio.
    Quanto mais ficar, é mais provável que eu sofra. Por estar praticando a intuição, sei do meu apego, sei que irei sofrer na separação que virá. Seja eterna, por um dia, um período, a separação vem, sempre vem.
    Me emociono demais, apesar de dizerem por aí que não demonstro ou falo sobre o que sinto. Podem não aparecer, mas os sentimentos estão comigo o tempo todo, se manifestando de outras formas, que não com palavras. Não sou apenas uma mente em ebulição, tenho um corpo que se expressa pelo amor e um coração que dói de tanto esperar e se despedir. Aprendi a disfarçar.
   Mas em momentos de entrega não existem disfarces. Certa noite senti novamente o que nunca pensei ser possível. Uma emoção tão grande que precisava ser extravasada além do gozo. Mas não sou dada a gritos, nem de ira, nem de prazer. Já não falava ou mesmo pensava ou articulava. Apenas sentia. E assim senti lágrimas que não eram de tristeza ou alegria. Era o amor que transbordava. Não havia nada que pudesse ser falado. Por segundos fui nada, sem me sentir vazia. Estava tão cheia de vida que tudo bastava. O corpo dele terminava no meu, sem saber qual coração era o mais cansado. E então consegui dormir como há muito tempo eu não dormia.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Menino João


    Escrevi o texto abaixo no dia 9 de janeiro, não sabia se queria que fosse o primeiro do ano, mas foi. Para quem quer saber sobre minhas férias com Dora, já adianto que ela pediu para voltar uma semana antes. Como eu a amo, deixo-a livre. O avô foi buscá-la. Mas viajei no mesmo carro, com ela e Miranda juntas. Estava dormindo quando descemos, nem nos despedimos. Ela teve muita alergia e queria o pai, desesperadamente. Ribeirão Preto é seu lar, sua casa, onde está sua família. Não há porque seguir o que o juiz manda. Não iria obrigá-la a ficar onde não queria, revendo amigos que não via há 4 anos, enquanto desejava estar com os amigos de Ribeirão Preto. Sua vida é outra vida. A irmã Miranda enche sua paciência. Não há vínculos de irmãs. A alergia é forte, mas o pai não quer eu saiba nem o nome do médico. Não vou insistir com o avô que, em princípio, mostrou-se solícito e disse para juntos ajudarmos Dora a se curar, já que seu filho era irredutível. Tudo dissimulação, era só para não me contrariar, já que sou tão louca. Que 2015 seja um ano bom, com anjos em cachoeiras.




   Chegamos em Boiçucanga com céu azul, final de tarde. Não sabia onde ficaria com minhas filhas. Foram 4 anos sem férias juntas e queria um lugar legal, mas não estava querendo rodar, nem gastar muito e parei no primeiro quarto com banheiro perto da praia. Um chalé simpático, um lugar organizado, com gramado, espaço comunitário para o café da manhã. Gostei de Fran, a dona, decidi ficar lá com Dora e Miranda.
     Antes de dormir ouvi um som suave de violão. “Esse é o lugar certo”, pensei contente. Quando acordei as meninas continuavam dormindo pesado e voltei a ouvir o som de violão, saí do quarto e uma mulher me ofereceu um café sorrindo. Manhã de sol, café, vizinha simpática e um garoto lindo dedilhando com carinho uma viola, perfeito. A mãe, Shirley, toda comunicativa, contou dos acampamentos na Praia Brava na sua adolescência, da singularidade em ser rockeira numa família de negros sambistas, da dificuldade que foi convencer os pais de que, “apesar de ser mulher”, queria fazer faculdade.
    Mas eu não conseguia tirar os olhos do filho João, tão lindo, parecia o Ben Harper jovem. E logo me perguntou sobre as tatuagens de notas musicais, reconhecendo a clave de Dó e o Mi maior e passando os dedos longos sobre elas. O garoto de 14 anos era alto, jogava vôlei, já tinha feito natação, sabia ler partitura e era muito falante, de sorriso largo. Conversamos sobre música, viagens, esportes e tatuagens. Ele disse que com tanta música boa no mundo, não se conformava como tinha gente que ouvia funk. “Mas funk do ruim, não do James Brown”. “Já me disseram na igreja que rock é música do diabo, mas não acho que o diabo seria capaz de fazer algo tão lindo”, filosofou o menino. Também falou do fusca que era do seu avô e que seria seu, que já cuidava do carro. Achei lindo um garoto ter orgulho de andar no fusca do avô.
    Me deu muita esperança conhecer um jovem como João. Quando me disse que nunca tinha ido numa cachoeira logo indiquei a de Boiçu, uma das mais lindas que já conheci. Expliquei o caminho para o pai, avisei que a trilha não era fácil, mas quando se chega ao poço vale cada gota de suor. Disse também que iria lá com minhas filhas, para evitar o horário do Sol forte na praia, porque sei que crianças não ficam no mar o tempo inteiro.
   João tocou Tempo Perdido do Legião Urbana e eu contei dos shows que fui da banda. “Mãe escuta isso! Ela foi em vários shows do Legião!” E cantarolamos “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria”. Combinamos uma cantoria na noite de Lua cheia linda que viria. Miranda acordou e João, que tinha uma irmã de 4 anos, logo puxou assunto e espantou-se com o tamanho da criança. Cheio de ternura com a irmãzinha, Sofia, disse que encontou uma amiguinha para brincar. Então Dora levantou e apresentei os dois. João abriu o sorriso lindo. Percebi que ficou feliz em ver que eu tinha uma filha adolescente tão bonita. Não senti ciúmes, confesso que viajei longe e pensei que adoraria ter João como genro.
     Então a família saiu de carro. Disseram que iriam na praia e seguiriam para a cachoeira. Respondi que iria em seguida e nos encontraríamos lá. Mas pensei que deveríamos ter seguido todos juntos, já que eles não conheciam o lugar e que seria perfeito Miranda com Sofia, Dora com João e eu com a mãe rockeira, mochileira e falante. O pai? Bem, era um tanto calado, mas é sempre bom ter um homem quando se faz uma trilha.
    Fomos eu, Dora e Miranda. Há uns 7 anos não fazia aquele caminho árduo e fiquei satisfeita com minha capacidade pulmonar e muscular. Nada doeu. Miranda aguentou firme e forte. Dora só cansou no final. A cachoeira continuava linda e selvagem. E lá ficamos por um bom tempo. Mas muitas pessoas começaram a pular das pedras e senti uma dor no peito, como se uma tragédia fosse acontecer. Contei para Dora que o irmão de um amigo meu do colegial morreu mergulhando ali e que Marcelo Rubens Paiva acidentou-se ali também. Me deu vontade de sair.
   A volta, como sempre, foi mais rápida. Só não foi em tempo recorde porque uma mulher andava devagar e com medo até nas retas. Chegou a ser engraçado. Prudência nunca é demais, mas parar o trânsito é exagero. Por algum motivo, talvez para fazer Miranda ter cautela, falamos sobre escorregar e morrer na trilha. Mas depois eu e Dora concluímos que seria um bom lugar para a alma ficar, no meio da Mata Atlântica, com barulho de água corrente constante. Quando chegamos na estradinha de terra vimos uma equipe de resgate. “Estão vendo meninas? Alguém deve ter se acidentado”.
    Depois fomos até a casa de Nicole, amiga de Dora dos tempos do maternal. Ficamos no mar calmo, límpido e refrescante de Boiçucanga. Achei fantástico ver Dora e Nicole, que tanto se adoravam aos 2 anos, continuarem cheias de afinidade e assuntos. Miranda ficou enciumada, mas em pouco tempo perguntou por que Nicole ria de tudo. “Porque sou feliz”. “Você é muito fofa”, foi a definição instantânea de Miranda para a amiga da irmã.
    Voltamos todas para o chalé para pegar umas coisas e seguir para a piscina na casa de Nicole, duas quadras de distância. Assim que entrei no quarto, Shirley me chamou. Saí sorrindo e perguntei: - Foram à cachoeira?
- Sim. E meu menino morreu.
- Como?
- Ele morreu na cachoeira.
     Então me veio à mente a imagem do resgate chegando. Era para João.
    Abracei-a forte e comecei a chorar e ela me consolou. Disse que ele gritava de alegria por ver um lugar tão lindo, que corria e seguiu numa trilha, mas não voltou. Foi encontrado pelo pai, já sem vida. Provavelmente escorregou e bateu a cabeça numa pedra. Caiu na água. Desacordado, morreu por afogamento. Fiquei sem chão. Não caiu a ficha da mãe, não é possível estar assim tão conformada. Como ela não está me odiando por ter indicado o caminho da morte? Por que eu não estava junto para guiar aquele menino por uma trilha segura? Por que alguém tão iluminado morre tão jovem?
     Pedi para Dora e Miranda irem com Nicole, iria na sequência. Fiquei ali com Shirley e sua filha, esperando o marido voltar do IML, com Fran. Logo o casal dono dos chalés chegou. Estavam desolados, o marido não se conformava por não ter ido junto com eles. “Se tivesse me falado... sempre acompanho os hóspedes na cachoeira, é muito perigoso para quem não conhece”. Eu me sentia cada vez mais culpada. A irmãzinha não sabia muito bem o que tinha acontecido, apesar de ver o irmão desfalecido na sua frente. Quando o pai voltou aos prantos sem o irmão, ela perguntou por ele. E então chorou dizendo que queria o irmão. Lembrei de Miranda querendo a irmã por anos. Sofia não terá mais o irmão...
    Fui buscar minhas filhas. Mas fiquei um bom tempo com a mãe da Nicole, Telminha, que não via há 7 anos. Jantamos lá, as meninas se divertiram muito. Dora queria dormir na casa da amiga e eu deixaria, mas hoje não. Quantas noites passei sem minha filha? Quantas vezes pensei que algo horrível poderia acontecer a ela sem minha presença?
   Dora chorou quando voltamos para o chalé, pensando no menino que não estava mais lá. Estou aqui escrevendo e olhando minhas duas filhas dormindo juntas, na mesma cama de casal. Nosso tempo é estipulado, determinado, sei que será breve nosso encontro. Mas quero estar presente em cada minuto desse tempo. Quero sentir o cheiro delas, a pele, ouvir a voz, o canto. A família seguiu há pouco para São Paulo. Meu coração foi um pedaço junto do menino anjo. Me senti o anjo da morte. Assim que bati os olhos em João senti que jamais o esqueceria. Agora tenho a certeza.

  

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dentro e Fora D`água

   Não lembro se a conheci dentro da piscina, na borda ou no vestiário. Mas foi no Vasco da Gama, em Santos, e tínhamos 11 anos. Apesar de ser apenas um mês mais nova do que eu, parecia uma criança e eu já era toda adolescente. Era uma garota linda que parecia a Branca de Neve. Trocamos papéis de carta e depois escrevemos algumas quando mudou-se com a família para Cuiabá.
    Dois anos depois Paola Miorim retornou maior do que eu e ainda mais bonita. Voltamos a dividir a mesma piscina, depois a mesma sala de aula de nerds no colegial e também ouvíamos os mesmos discos. Dormíamos uma na casa da outra e nunca nos faltava assunto ou vontade de fazer tudo: teatro, inglês, computação, canto. Estávamos juntas no show do Camisa de Vênus, no lendário Caiçara Clube, quando foi gravado o disco ao vivo. Cansadas do treino de sábado, ficamos sentadas na escadaria, sentindo o piso tremer.
    Chamava sua mãe de "mãe Lúcia" de tanto que dormia na casa dela e recebia as mesmas broncas e carinho. Seus irmãos, Marcelo e Rodrigo, também nadadores, tornaram-se meus irmãos. Meu pai ficou muito amigo do pai dela, Paulo, também nadador, como meu pai. Dancei valsa com Marcelo no seu aniversário de 15 anos. Precisei comprar um vestido novo, pois tinha engordado 5kg em 18 dias passados nos Estados Unidos. Me senti horrorosa, mas não perderia a festa por nada, nem ninguém! Quando Paola mudou-se para Ribeirão Preto, para fazer faculdade. acabei indo também, pois não queria amargar um ano de cursinho. Mas não aguentei o calor escaldante por mais de um ano e meio e voltei.
      Sempre me impressionou a estima elevada dela. Demorei a entender que precisamos nos amar acima de tudo, que somos nossos leais companheiros até o fim e se houver algo além do fim. Logo eu que nunca me amei muito e cheguei mesmo a me odiar certas vezes, tinha uma amiga que se amava acima de todas as coisas. E tão certa sempre esteve!
      Por trilhar caminhos diferentes e ter vidas tão corridas, passamos um tempo afastadas. Mas Paola foi uma das primeiras pessoas a me ligar quando passou uma matéria no Fantástico, com a sinistra voz de Cid Moreira dizendo: "Adriana Mendes tem graves problemas mentais". Me ofereceu toda a solidariedade, dizendo não acreditar em nada daquilo, mesmo sem me ver há alguns anos.
    Quando minha filha foi levada para Ribeirão Preto não pensei duas vezes em ligar para Paola e pedir para ficar em sua casa quando precisasse. A verdade é que eu não imaginava que precisaria por longos quatro anos. Nos dois primeiros eram só lágrimas, porque nada dava certo e eu não podia ver minha filha. Se eu consegui suportar tudo isso, Paola e suas adoráveis filhas, Lívia e Giovana, merecem todos os louros. Sempre que eu voltava arrasada de fóruns e delegacias era na casa delas que eu encontrava abraços, sorrisos e leveza para seguir.

    Existem pessoas que passam por algum momento de grande tristeza e levam o sofrimento para o resto da vida. Outras vivem grandes tragédias, perdas irreparáveis e fazem disso um aprendizado, uma superação. Paola faz parte do segundo grupo. E tomei isso como lição. 
   Mesmo tendo amigos muito queridos em Ribeirão Preto custei a querer encontrá-los. Não queria que me vissem tão magra, de olhos fundos, aparência abatida e doente. Preferia que lembrassem de mim como eu era, sempre sorridente e cheia de saúde. Paola podia me ver assim destruída, porque me viu nas piores fases da adolescência, quando ficava cheia de espinhas, peitos enormes e usava roupas e cabelos que não favoreciam em nada meus ombros e braços grandes. 
    Ela já me viu chorando tudo o que eu tinha para chorar de tristeza. Quando tentou falar delicadamente com a outra parte recebeu o telefone na cara. Respirou fundo e ligou de novo. Outro telefonema na cara. Não acreditou em tanta intolerância. Fomos criadas de uma forma a tolerar e aceitar diferenças. Fomos criadas de forma muito parecida.
     Quando finalmente pude ver minha filha fora do fórum, precisei indicar um "monitor". Como pedir o favor de buscar, acompanhar e levar, a cada 15 dias, com horário rígido e pré determinado, a alguém que não seja incrivelmente generoso e comprometido? Quem aceitaria tal responsabilidade? Quem assinaria um termo no  cartório do fórum? Talvez se eu tivesse um irmão, não fizesse isso por mim.
     Todas as idas e vindas na estrada eu pensava nisso. Em toda a trajetória de amizade que levou a esse ponto e reencontro tão forte na vida. Em todas as pessoas que agreguei por conta de Paola, como Patrícia Zorzenon, Marcos Papa, Sônia Gravine, Tetéu, Zeca Ferreira. A delícia de saber que Beto Wagner, Ana Luiza Feres e João Paulo também são amigos dela, mais recentes, de outras histórias que se cruzam nesse emaranhado de laços afetivos.
      Não é uma coincidência eu estar aqui no apartamento de Paola, escrevendo do note dela (sem ela estar em casa) o que provavelmente é o último texto do ano e o primeiro texto de liberdade. Amanhã, ou logo mais, considerando que já é madrugada, pego Dora, às 14h, para seguirmos juntas pela estrada, ver os amigos que há anos ela não vê, voltar nos mesmos lugares, mergulhar no mar, dormir finalmente e novamente embaixo do mesmo teto. Sem monitores, sem psicólogos, sem advogados. Apenas com amigos que escolhemos ter. É tão simbólico estar aqui nessa sala e ter essa pessoa na minha vida por 34 anos, de forma intensa e absoluta. Uma amizade que passa de geração para geração e que se perpetuará em projetos literários que agora também temos juntas. Esse foi um ano bom. Pela primeira vez em muito tempo sinto esperança. Sei que o próximo ano será libertário. Eu só posso agradecer e oferecer meu amor eterno.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Olhando Azulejos na Piscina

   Não me falta assunto, nem ideias. Mas falta mesmo um tempo para sentar com calma e escrever. Nada de escrever só por exercício, porque isso já faço com matérias e livros reportagem. Escrever sobre o que me importa, que nem sempre pode importar aos outros, mas que se for o suficiente para inspirar uma pessoa, já é uma missão cumprida. Adoro ter missões e cumpri-las.
  Um dia tive a feliz ideia de perguntar para a querida Tico Gil, por esse tal facebook, como eu faria para dar um mergulhão na piscina do Napoleão Laureano. "Segunda, quarta e sexta, das 9h às 11h, será muito bem vinda". Fui com Miranda, que adora natação. 
   De repente olhar Tico e Paulino, irmãos inseparáveis, de corpo e alma,  na borda da piscina, dando treino para crianças de 4 a sei lá quantos anos, me encheu de emoção quase incontrolável. Há 20 anos não nos víamos e parecia que nossa última despedida aconteceu no vestiário, no dia anterior.
   Então eu nadei. E lembrei de mim aos 6 anos, na mesma piscina, com medo de colocar a cabeça dentro da água, com medo de mergulhar, engolindo água pelo nariz e chorando como uma filha única mimada. Querendo desesperadamente fazer amigos, além dos imaginários e das bonecas no meu quarto. Lembrei de como era difícil aprender a nadar, como foi glorioso o dia em que atravessei a piscina que não me dava pé. E olhei Miranda nadando tão destemida, saltando da  baliza sem medo algum, conversando com todos os meninos ao lado.
    Paulino, uma das figuras mais lendárias da escola, tornou-se professor de Miranda. A admiração dela por ele foi imediata. Ele brinca, mas tem autoridade. O equilíbrio entre o mestre e o amigo. Na hora do aquecimento fora da água sempre a lembrança de colocar um menino e uma menina intercalando o círculo. Nada de clube da Luluzinha ou Bolinha, são todos amigos, todos irmãos. Menino não é mais forte, menina não é mais chorona. Cada indivíduo é único em sua singularidade e todos são iguais no coletivo. Um resumo tosco do que representa ser nadador.
   E sempre que me dava tempo ou meu pescoço travado permitia, nadava. Mais Costas do que qualquer outro estilo, porque a  cabeça tem que ficar parada mesmo. E então olhava o céu azul. Pensei que talvez tenha me dedicado mais a esse nado, já aos 13 anos, porque percebi que poderia olhar mais do que azulejos. Uma máxima antes das provas é: "Agora sou só eu e os azulejos". Natação é um esporte muito solitário, sempre você mesmo com seus pensamentos e contando azulejos. Ao mesmo tempo é um esporte tão coletivo e cúmplice, porque só quem passa horas contando azulejo sabe o que o outro sente. Como bem definiu Paulino Neto, "é como se todos nós tivessemos compartilhado o mesmo útero de 470 mil litros de água".
   Posso dizer que voltei às raízes. Num churrasco na cada da Tico reencontrei Claudinha, Silvinha Araújo "Sorriso", Rosana e a querida mestra de matemática, Zenilde Carmo. Uma alegria ver Miranda fazendo amizade com Antônio, um garoto de 19 anos, que ela viu como um menino de 10. Também nadador, filho de Tico, E a doce Bruna, a filha mais velha. E não ficamos todos vivendo de nostalgia de como era bom "o nosso tempo". Falamos do presente, do futuro, de amor e amizade. Sim, lembramos daquele que nos ensinou a nadar, professor Roberto Silva, também nosso amigo, psicólogo e pai. Que sorte foi a nossa, que grande equipe ele formou, não só de atletas, mas de cidadãos e amigos. 
   Lembramos também que não havia essa de bullying. Eu era a Mosquitinho, Rosane Mendes a Palitinho, Paulino era Chupeta, Tico era Ticolé e nem sabe mais seu próprio nome, virou Tico e pronto. Todos tinham um apelido, como a Regina Pimentinha, que vivia brincando na rua até descobrir a piscina. 
  No último dia de aula, Miranda levou um desenho para o seu professor. Um nadador sorridente, na borda da piscina, com oclinhos, sozinho no meio do azul. Um professor verde porque ele disse que adora o Hulk. Disse também que não queria presentes de fim de ano, seu maior presente seria receber uma menção honrosa no TCC das crianças, que se olharam sem saber o que era TCC. "Pode ser desenho também, adoro desenhos". E foi esse desenho caprichado e cheio de amor que Miranda fez.
   Na hora decisiva somos só nos e os azulejos. Mas antes tem toda uma história de superação, aprendizado e incentivo. Depois tem muitos abraços, sorrisos e lágrimas. E a amizade eterna entre os que dividiram um útero gigante.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Na Quebrada de Ribeirão Preto

     Fomos buscar Dora. Eu e Paola. Queríamos ver Tim Maia, mas não daria tempo de estar de volta às 19h. Lembrei de Na Quebrada, outro nacional que tinha gostado do trailer. Eu ao lado de Dora, numa sala escura, vendo pela primeira vez um filme que não é infantil. Não consigo lembrar a última vez que isso tinha acontecido. Nós juntas em um cinema!
     O filme mostra a vida de alguns jovens na favela de Brasilândia, baseado em histórias reais. Tem tiro, assassinato, presídio, órfãos e lágrimas. Mas as cenas que mais me emocionaram (e emocionaram Dora também) foram as cenas de fantasia e sonho, quando as crianças arregalam olhos e abrem bocas assistindo um filme na tela grande pela primeira vez. Quando adolescentes sem perspectivas fazem curso de cinema e conseguem vislumbrar algo além de tráfico de drogas, armas e corpos ensanguentados.
     No final ainda ficamos sentadas por algum tempo, esperando os créditos, as músicas. Dora é tão musical! Giovana soltou uma pérola: "Não gostei. Não gosto de vocabulário restrito", referindo-se ao excessivo uso de gírias da favela. É um mundo que, provavelmente, nunca conhecerão. Eu mesma só conheci fazendo reportagens policiais ou sociais.
     Dando continuidade ao nosso hábito de ver filmes, no dia seguinte sentamos no sofá e vimos Remember Me, um romance dramático. Giovana e Dora suspiraram com a fofura do casal traumatizado, que descobre o amor. O protagonista é Robert Pattinson, que eu conhecia como o vampiro anêmico de Crepúsculo. Me convenceu tanto como o jovem poeta atormentado que esqueci completamente do vampiro. No final sobrou eu e Dora na sala. A trilha sonora indicava que algo muito ruim iria acontecer. E aconteceu. E choramos muito, novamente. E falamos de muitas coisas, mas muito pouco do que queria falar. É tão difícil não conseguir falar. Até abraçar é difícil... logo eu que sempre fui tão "abracenta e beijenta".
     Quinze dias depois nos reencontramos. Não é tão fácil retomar um vínculo com intervalos quinzenais. Não levei Miranda nos últimos encontros. Queria um tempo só nosso. Mas esse tempo ainda não chegou. Queria pensar menos e dormir mais. Será que ela sabe o quanto é maravilhosa e o quanto a amo? Tenho vontade de apertar e beijar suas bochechas, mas, às vezes, sou afastada. Não é mais uma criança. Ainda tenho as bochechas de Miranda, como isso me alivia.
    As presenças da Paola, Lívia e Giovana amenizam um pouco tudo e nada fica pesado. Desta vez vimos um outro filme Ele não está tão afim de você. Dora queria ver comédia romântica e um clima muito romântico pairava no ar. Somos todas apaixonadas. É como voltar no tempo ver Dora e Giovana em segredinhos, como era comigo e Paola na mesma idade.
     Quando tentávamos convencer Lívia, de 18 anos, a dar uma chance para um moço de 21, que "faz USP", que "é lindo, um príncipe" e está muito "interessado sinceramente" nela, Giovana, na sabedoria dos seus 13 anos, solta outra pérola: "Pensa, ele escreve direito, você sabe como isso é difícil hoje em dia?". Como não rir de chorar com esses diálogos juvenis? Eu mesma não sou boa conselheira para coisas do coração. No geral aconselho a falar a verdade e o que sente, mas só os mais puros fazem isso e, geralmente, ficam machucados. Rafinha que o diga, mas essa é outra história. Mas por algum motivo místico, os adolescentes me procuram para desabafar e saber o que fazer. Isso acontecia muito quando eu tinha 25 anos e dava aula de filosofia no colegial. Mas essa também é outra história. Talvez seja porque tenho ainda uma certa fúria juvenil e uma mania de me encantar pelo novo.
   Queria que, de alguma forma, isso me ajudasse na aproximação. Talvez eu não seja mais uma referência materna. Mas posso ser uma amiga. Por fazer muitas coisas posso parecer (ou mesmo ser) superficial, por não me aprofundar em nada, por achar que já sei o suficiente e tem muito mais para saber.
   Sou uma canastrona na maioria dos papéis. Ser amiga é meu melhor papel, sou a melhor amiga que alguém poderia ter. Qualquer um pode me chamar de madrugada porque, provavelmente, estarei acordada. De dia também. Queria que minha vida fosse como um filme com Adam Sandler. Com a mesma trilha sonora. Só por um dia. Só por hoje.

http://youtu.be/G6Kspj3OO0s

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Incêndios


    Estava em Brasília, com meus amados amigos Angel Luís e Gabriela Cunha. Nossas crianças (minha filha Miranda e seus filhos Inaê e Rudá) dormiam tranquilos. Então abrimos um vinho tinto e resolvemos ver um filme. Gabriela escolhe Incêndios. Eu nunca tinha visto, nem ouvido falar. Gab afirma que vou adorar, “é um filme impactante, daqueles que precisam ser vistos duas vezes”. Gab e Angel são aquele tipo de gente que vê filmes perturbadores para dormir, justamente para afastar o sono, coisa que não lhes falta. Adoro esse tipo de gente.
   Só sei que é uma produção canadense, dirigida por Dennis Villeneuve e que foi adaptado de peça homônima. O autor libanês, Wajdi Mouawad, não achava possível sua obra ser transformada em filme. Mas Villeneuve mostrou apenas a primeira cena, que não tem palavras, só olhares e gestos, com música de Radiohead. Isso bastou para Mouawad perceber que todo o resto seria possível. Parei de saber por aí. Ao contrário de mim, Gabriela não gosta de contar as histórias, nem os finais. Melhor assim!
   Começa com tanta intolerância seguida de violência, que paro com o vinho para não doer também o estômago. Namorado refugiado assassinado na frente da moça que o ama. Bebê arrancado de mãe e levado para orfanato. Mãe desesperada atrás do filho, fruto de muito amor, tomado de seus braços na hora do parto. Crianças aprendendo a atirar, tendo como alvo outras crianças. Menino com ódio no olhar e lábios trêmulos, controlando a vontade de chorar. Radiohead arrebentando meu coração. Aliás, a trilha sonora inteira do filme é brilhante. Não exagera, nem exclui, só aumenta a dramaticidade de todos os incêndios, reais ou metafóricos.
   Uma mulher está em estado de choque e há 5 anos parou de falar. Após sua morte, um grande amigo e advogado, chama o casal de filhos gêmeos e entrega uma carta para cada. Pede para um procurar o pai. E o outro procurar o irmão. Os gêmeos olham-se confusos. O pai estava morto e não tinham conhecimento de nenhum irmão. Assim começa a busca pelo desconhecido. Desvendam toda a verdade sobre o passado de sua mãe. Prisioneira, torturada, sobrevivente. Nada disso sabiam. E a cada nova pista, algo mais estarrecedor. Sinto que o final será surpreendente. E foi...

   Volto a tomar vinho e conversamos sobre o filme. Nossas impressões sobre como a falta de amor pode transformar uma criança indefesa em um assassino cruel são as mesmas. Tudo é terrivelmente triste. Só consegui chorar deitada, esperando o sono que nunca vem, com as cenas se repetindo em minha mente, um roteiro tão bem amarrado, montagem perfeita, interpretações tão realistas. E esse tema que sempre me intrigou, sobre a razão em tanta guerra (religiosa, política, social, pessoal). Queria tanto ter um cérebro capaz de entender e de explicar.
   No dia seguinte falamos muito sobre Incêndios. E na outra semana. Também no mês seguinte. É uma película apenas para quem tem estômago e ao mesmo tempo sensibilidade de ver beleza em escombros. Mas considero um filme fundamental. E como gosto de trilogias, segue mais uma dica de um que me tirou o sono. Se é para ficar acordada, que seja por algo que realmente me afete.