segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nenhuma Crise Levará Embora

    Andei parada de escrever por motivos exteriores. Me acidentei novamente. Desta vez atravessando uma faixa de pedestre, tombei do nada. Não era bem do nada, havia uma espécie de lombada que já fez muita gente cair no mesmo lugar. Inclusive eu mesma ajudei um senhor a levantar-se, no local. Fui socorrida por várias pessoas. Trinquei um osso da mão direita. Desde então (isso ocorreu no dia 17 de junho), passei a usar o outro lado do cérebro, fazendo da mão esquerda minha principal aliada.
   É bem difícil fazer tudo ao contrário, me sentir limitada, não conseguir lavar os cabelos, não poder escrever com os 10 dedos. Por isso tenho pensado muito no Stephen Hawking* (físico teórico e cosmólogo britânico). Totalmente imóvel, está há mais de 30 anos sem nem poder usar a fala. E continua com aquele cérebro brilhante, fervilhando de ideias. 
   Apenas perdi por um tempo a mobilidade da mão direita, posso falar e gravar, tenho uma porcentagem bem menor de brilhantismo no cérebro e sinto-me parada no tempo. Então peguei Uma Breve História do Tempo** para ler novamente e me pareceu bem mais simples do que há quase 30 anos. Meu corpo já dobrou a curva da metade da vida, mas meu cérebro não parou de evoluir. Deve ser assim com todo mundo.
   Esse tempo parada me fez ter mais vontade de fazer tudo. Comemorei meu aniversário na Casa do Ernesto, com amigos queridos, com muito frio, música e vinho. O tempo é breve, passa tão rápido, temos tanto para fazer, tanto para aprender.
     

    Nesse mês e meio que não escrevo por aqui, conheci um grupo de psicanalistas que faz um lindo programa social em comunidade. Conheci ativistas que estão indo para o Mato Grosso do Sul, para tentar evitar o massacre dos guarani-kaiowá, mesmo correndo o risco de também serem massacrados. Estou cada vez mais envolvida com a cultura oriental (medicina chinesa, kung fu, budismo). Mais algumas mães que perderam a guarda de filhos entraram em contato comigo. Mal posso responder os emails com pedidos desesperados de apoio. Conheci uma dessas mães pessoalmente. Perdeu a guarda há pouco tempo e é sempre o mesmo. Ficam emocionadas ao saberem que não são as únicas, querem que outras mães e filhos não passem por isso, ficam reféns do sistema judiciário, gastam tudo que tem, vendem seus bens, pagam gordos honorários para advogados que "fazem o que podem".
      
    E com tantos problemas do mundo para resolver começo a achar os meus meramente circunstanciais. Com a União Europeia se desunindo, com circo de passagem de tocha olímpica matando onça pintada (em extinção) em Manaus, com a proximidade dos Jogos Olímpicos e o estado de calamidade pública do Rio de Janeiro, com moradores de rua morrendo de frio em São Paulo, com o governo ilegítimo no Brasil, com o desemprego crescendo, a aposentadoria chegando mais tarde, economia parada por essa bandalheira política, com o crescente fascismo no Brasil e no mundo, fica cada vez mais difícil ter esperança. Porém, historicamente, sempre nos momentos de crise surgem as melhores ideias e soluções. 
   Estou farta desse nacionalismo barato, dessas bancadas religiosas que colocam bíblia acima de leis. E, principalmente, desse atual desgoverno que veio com a velha máxima de "não fale em crise, trabalhe". Muito bem, senhor presidente interino, então nos dê emprego para trabalhar, nos dê trabalho remunerado. É tanto tema para escrever que me sinto perdida. É tanta crítica para fazer que me sinto inútil. 
   Não dá mais para acreditar em mídia nenhuma no Brasil. Para grandes emissoras de TV e jornais já ficou feio defender o golpe. Pessoal que saiu às ruas pedindo impeachment da presidente Dilma, agora percebe o papel de marionette. Serviram como patos, a la Fiesp. Então o que faço é falar com pessoas nas ruas, ver como estão os movimentos sociais. "Não fale em crise, estude", foi o que me disse um desses psicanalistas que conheci. Estude, leia, entenda o momento histórico que vive o mundo. E quando, e se a crise acabar, você saberá muito mais do que sabia. E o saber, o conhecimento, é o único bem que crise nenhuma levará embora.


* Hawking é portador de esclerose lateral amiotrófica, uma rara doença degenerativa que paralisa os músculos do corpo sem atingir as funções cerebrais. Ainda não possui cura. A doença foi detectada quando tinha 21 anos. Em 1985 Hawking teve que submeter-se a uma traqueostomia e, desde então, utiliza um sintetizador de voz para se comunicar. Gradualmente, foi perdendo o movimento dos seus braços e pernas, assim como do resto da musculatura voluntária, incluindo a força para manter a cabeça erguida, de modo que sua mobilidade é praticamente nula. Em 2005 Hawking usava os músculos da bochecha para controlar o sintetizador, e em 2009 já não podia mais controlar a cadeira de rodas elétrica. Desde então outros grupos de cientistas estudam formas de evitar que Hawking sofra de síndrome do encarceramento, cogitando traduzir os pensamentos ou expressões de Hawking em fala. A versão mais recente, desenvolvida pela Intel e cedida a Hawking em 2013, rastreia o movimento dos olhos do cientista para gerar palavras.

** Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros (título original, em inglês "A Brief History of Time:From the Big Bang to Black Holes", 1988), é um livro de divulgação científica, publicado pela primeira vez em 1988, inclui a Teoria do Big Bang, Buracos Negros, Cones de Luz e a Teoria das Supercordas ao leitor não especialista no tema. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A Cultura que Divide o Brasil

   A equipe de Aquarius, que concorre à Palma de Ouro de Cannes e dirigido por Kleber Mendonça Filho, protestou na última terça-feira contra o "golpe de Estado no Brasil", durante a estreia do filme no Festival. Eles tiraram das roupas cartazes com os seguintes dizeres: "Um golpe ocorreu no Brasil", "Resistiremos" e "Brasil não é mais uma democracia". E voltaram a se manifestar com gritos "Fora!" na sala do Grande Teatro Lumiere, minutos antes da projeção. Kleber Mendonça Filho já havia recebido vários prêmios e indicações por seu longa de estreia, O Som ao Redor, considerado pelo The New York Times, um dos 10 melhores filmes de 2012.
  Essa manifestação causou polêmica por aqui. Uma das decisões de retrocesso do presidente interino, Michel Temer, foi transformar o Ministério da Cultura em Secretaria, atrelada ao Ministério da Educação, como corte de gastos. Então a classe artística e todos os seus simpatizantes saíram às ruas para protestar. Mas não pensem que o apoio é geral e irrestrito. Muita gente tem chamado artista de vagabundo e dizendo que todos "mamam nas tetas do Governo". Kleber Mendonça Filho tem um cargo público em Recife, Pernambuco. Ou tinha, pois seu ato, segundo o atual governo opressor, é merecedor de demissão. E tem tanta gente apoiando essa demissão! Gente que não entende que esse homem faz uma campanha positiva do Brasil no exterior. 
  Muita gente não entende que trabalhar fazendo teatro, filmes, música, livros é trabalho. Talvez porque o trabalho esteja intrinsecamente relacionado ao tédio, ao mecânico e repetitivo, sem alegria. Então quando alguém trabalha em algo que parece divertido, diminui-se o valor do trabalho. Essa mentalidade é tão tacanha quanto preconceituosa. O artista tem prazos, ensaia e fica cansado, sente fome e quer ir para casa logo descansar. Muitos não recebem nada enquanto ensaiam, só após a estreia. A maioria dos artistas trabalha por amor e vocação. O dinheiro, quando vem, é consequência.
   Tenho lido e ouvido pessoas falando que tem que boicotar esse filme! Que tem que fazer uma "cruzada" contra "essa gente". Cultura não é só arte. É também preservação de patrimônio histórico, de festas populares, de línguas indígenas. Não é  tanto o fim do Ministério da Cultura o que me entristece, é  mais a reação de ódio das pessoas contra os artistas. O fascismo cresce diariamente no Brasil. É assustador. Amanhã fará uma semana que afastaram a presidente Dilma. Nesses dias o interino e sua equipe tomaram as seguintes medidas: 
- O Ministério da Educação vai apoiar a cobrança de mensalidade das universidades públicas para cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado.
- O novo Ministro da Saúde, Ricardo Barros (que é um engenheiro) analisa a possibilidade de privatizar o Sistema Único de Saúde. Disse que não há como manter os direitos constitucionais, como acesso à saúde, ou seja, quem não tiver plano de saúde, morre à míngua.
- O novo Ministro das Relações Exteriores, José Serra (que nunca termina mandato que começa), como sua primeira ação, deu um passaporte diplomático para um pastor de igreja evangélica e sua esposa. O casal poderá agora viajar pelo mundo sem pagar nada, representado o Brasil que, definitivamente, não é um Estado Laico.
-  O novo ministro da Justiça, Alexandre Moraes,  tem no currículo ataques policiais a estudantes e movimentos sociais e já foi advogado de Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que está afastado, mas continua mandando em tudo, inclusive nas decisões do presidente interino.
- Foi revogada a construção de 11.250 moradias do Minha Casa, Minha Vida, projeto destinados às famílias com renda mensal de até 1.800 reais.
- O Ministério da Educação suspendeu novos contratos do Fundo de Investimentos Estudantes (Fies), suspendeu a seleção de oferta de bolsas dos programas Universidade para Todos (Prouni) e Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).
   E claro, enquanto escrevo aqui, mais medidas de cortes de direitos devem estar sendo tomadas.

    O Brasil está culturalmente divididos. Tem "jornalista" de revista de direita, ator pornô e deputado evangélico fazendo vídeos, pedindo às "pessoas de bem", que não assistam Aquarius. Aqui é assim, ator pornô e pastor deputado evangélico pensam a mesma coisa. Bancada evangélica do Congresso e pornografia se misturam.
     Pessoas que fizeram ensino superior, que tem emprego e profissão estão aí, defendendo o fim do Minc. Tem até artista defendendo também. E tem os que não sabem o que a Lei Rouanet significa e falam tanta asneira que me dá vergonha alheia. Nunca tive tanta vergonha de ser brasileira. Porque agora não é mais pelos governantes, pelas aberrações do Congresso Nacional e do Senado, mas pelos que me rodeiam. Pela ignorância fascista de pessoas que tiveram privilégios e oportunidades. Pelo ódio que se espalha contra as minorias. Pela diminuição dos direitos das mulheres. Por perceber pessoas próximas com discursos intolerantes que não tolero.
    Já começo a pensar em ir para outro País. Já conversei seriamente com amigos sobre a possibilidade de mudança. E já me mandaram para Venezuela e Cuba, porque para os ignorantes, ser contra a opressão que se instala no Brasil é ser comunista. E tanta ignorância e intolerância juntas estão me fazendo sofrer mais do que com esse Golpe dado no País. E antes que os ignorantes digam "ele é o vice, votou na Dilma, votou nele, então não é golpe", respondo que quem votou nela*, votou em um vice que estava de acordo com o Governo. Ninguém que votou nela esperava que o vice iria romper e tramar contra a presidente, descaradamente, com a conivência e ajuda absoluta das principais mídias.
    Vocês que lêem esse blog em outros países não imaginam o que está acontecendo aqui. É como uma tática de guerra, as medidas apresentadas são como pauladas e ficamos tão atordoados que não sabemos contra o que lutar.

*Não votei nas últimas eleições, não voto desde 2002. Mas aceito a decisão da maioria. E a maioria votou em Dilma Roussef. E fiquei aliviada que Aécio Neves não venceu. Porque o helicóptero do senador José Perrela pousou na fazenda do senador Aécio Neves com meia tonelada de cocaína pura e as investigações deram em nada. Ninguém sabe de nada e as pessoas que votaram nele parecem não se importar com o tráfico de drogas, mas são pessoas de bem, as mesmas que irão boicotar Aquarius.


terça-feira, 17 de maio de 2016

De Cara Desfigurada e Atendida pelo SUS (que vai acabar)

  Na última quinta-feira tudo amanheceu estranho. Liguei a TV às 6h30 e vi que o presidente interino era Michel Temer. O dia foi todo muito esquisito. Não entendia os que comemoravam. Qual o motivo da alegria? A saída de Dilma? Sim, só pode, porque o fim da corrupção nesse País está muito, mas muito longe.
   O dia seguiu triste e no final dele, chegando ao Terminal Princesa Isabel, em São Paulo, louca para tomar um banho e ver as notícias do dia, levanto do banco e o motorista, que corria alucinado para chegar em casa logo, brecou bruscamente e fui de cara no ferro. Caí na hora e não enxergava nada. Os cortes na cabeça cobriram meu olho de sangue e o cabelo grudou no rosto. Também não conseguia falar, pois a pancada me deixou atordoada. Fazia sinal com a mão para dizer que estava consciente. Miranda, minha filha de 7 anos, chorava e não queria me ver, pois achou que eu tinha perdido um olho.
    Das pessoas que estavam no ônibus, três anjos me ajudaram. Uma garota de 14 anos brincou e tranquilizou Miranda. Seu irmão, de 17, ligou três vezes para o resgate. Só quando ele disse que eu continuava sangrando e minha pressão estava caindo, é que vieram. Entendo que uma cidade do tamanho de São Paulo tenha muitos chamados. E que alguns deles sejam desnecessários. Mas bati a cabeça, poderia ter um coágulo.
    O terceiro anjo foi Eliene, que ligou para a filha de 11 anos, explicou o ocorrido e que seguiria para o hospital comigo, já que eu estava com uma criança. O paramédico foi excelente e tranquilizador, a ambulância corria com sirene ligada e para Miranda foi mais uma história de aventura para contar.
     Fomos para o Hospital do Servidor Público, já que não tenho plano de saúde, afinal o SUS de Santos (que eu usava) é bem diferenciado (tem parceria com a Prefeitura) e não tenho doenças crônicas. E dificilmente contamos com acidentes, apesar de acontecerem o tempo todo.
     Me deram soro, quase desmaiei com as agulhas. Minha pressão não subia mais do que 9 por 5. A médica residente, cheia de boa vontade, me atendeu e me encaminhou para o Raio X. Aguardei imobilizada na maca, no corredor que, segundo as enfermeiras, nem estava cheio. Então chegou o médico chefe do plantão e disse que eu precisava de uma tomografia, já que a pancada foi na cabeça. Juro que pensei em pedir isso para a primeira médica, mas a cabeça doía tanto, que nem quis discutir a questão. E fiquei mais uma hora na maca aguardando, olhando para o teto e pensando em todas as séries médicas que já vi.
   Passava das 23 horas e após tentar falar com três enfermeiras para me ajudar ir ao banheiro, saí da maca em rebeldia e fui sozinha. O que mais me revoltou é que haviam três ambulâncias esperando macas para sair em socorro e eu repeti várias vezes que poderia ficar sentada, que levassem minha maca. Quando voltei do banheiro um enfermeiro veio ver o que aconteceu, o porquê de sair da maca e o porquê de não ter feito ainda a tomografia. Ora, esqueceram de encaminhar o papel!!
   Quando finalmente cheguei para fazer o exame, três profissionais aguardavam sem paciente nenhum, ou seja, fiquei mais de uma hora ocupando uma maca inutilmente! Percebi que o problema era mais organizacional do que propriamente falta de profissionais ou equipamentos.
   Quase fui embora sem os resultados, fui grossa com o médico, estava faminta, com dores no corpo todo e não achava minha filha, que já tinha sido devidamente alimentada e dormia no colo da mulher maravilhosa que me ajudou. Saímos de lá já era madrugada. O motorista do ônibus, o cobrador e o fiscal aguardavam no veículo para nos levar de volta. Não quis fazer B.O., não dava para ir numa delegacia àquele horário. Só disse para o motorista, triste de me ver desfigurada, que sua pressa em chegar acabou atrasando a vida de muita gente.
   Ainda tenho hematomas, não sinto mais dores e desinchei. Mas todos esses dias percebo como as pessoas me olham. Primeiro disfarçam, depois olham com piedade. Agora sei como sentem-se mulheres que são espancadas, que sofrem violência física. Domingo deu para passar maquiagem. Então me senti disfarçando, como mulheres que apanham fazem. Algumas vezes até expliquei o acontecido. Na escola da minha filha até pensaram que fiz cirurgia plástica!


O possível fim do SUS (Sistema Único de Saúde)

   Desde que o presidente interino assumiu são muitos os absurdos propostos. A cada dia fico mais estupefata, quando penso que não pode piorar, piora. Sobre o novo ministério não conter mulheres ou negros, ouço e leio por aí que não há importância. O importante é ter competência. Ora, num País onde mais de 50% da população é feminina e mais de 50% negro ou pardo, é uma chacota não achar nenhum representante negro ou feminino com competência. É dizer que mulheres e negros são inferiores. Que homens brancos são os mais competentes.
   Acabar com o Ministério da Cultura é uma afronta! Mas a mobilização já é grande e essa bomba relógio que transformou-se o Brasil está prestes a estourar. Vários artistas em vários Estados estão se mobilizando contra mais esse absurdo no governo interino.
   Mas com a experiência que passei ao quebrar a cara e parar no SUS de um grande hospital paulistano, saber que o recém-nomeado ministro da Saúde (um engenheiro, diga-se de passagem), Ricardo Barros (PP-PR), expôs a preocupação de que o País não sustente o acesso universal à saúde, me deixou ainda mais estarrecida. Barros disse também que terá de repactuar, como aconteceu na Grécia, onde cortaram as aposentadorias. Desolador saber que seguiremos o exemplo da Grécia. 
   A celeuma é a segunite: a União é obrigada a aplicar na saúde ao menos o mesmo valor do ano anterior, mais o percentual de variação do PIB (Produto Interno Bruto). Estados e municípios precisam investir 12% e 15%, respectivamente. Na educação, o governo federal deve gastar 18% do arrecadado e as outras esferas, 25%. Em seus tempos de vice, o presidente interino defendeu publicamente o fim dessa regra. 
   Mas se você pensa que é uma ideia absurda que nem vai vingar, saiba que já tramita uma proposta de emenda à Constituição de número 143/2015, aprovada em primeira votação no Senado. A PEC pretende estender aos Estados e municípios um direito que o Governo Federal já exerce com a DRU (Desvinculação de Receitas da União): o que permite que as gestões usem livremente 25% dos valores que teriam de aplicar compulsoriamente em saúde.

   Durante a hora na maca olhando para o teto, pratiquei a paciência. Não pude deixar de pensar que meu estado era transitório, mas que todas as pessoas ali, a maior parte de idosos, precisavam passar por aquela rotina de corredores, enfermeiras mal humoradas e rabugentas, médicos iniciantes que comem mosca, quase que diariamente. E agora penso que sem assistência médica gratuita, essas pessoas morrerão à míngua em seus pobres lares. Como pagar planos privados de saúde com um salário mínimo ou aposentadoria?
   Quando haverá uma revolta coletiva contra os altos salários de deputados e senadores, além de todos os benefícios? Como essa gente recebe auxílio moradia se já possui casa própria (mais de uma, claro)? Como um aposentado ou qualquer um que receba um salário mínimo consegue pagar aluguel?
    Eu tenho vontade de chorar e nem é porque quebrei a cara. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Ativismo por Igualdade - Amor por Direito

    O cinema sempre foi um refúgio. Onde entro em outra história que não as minhas. Uma espécie de meditação, em que fico no presente por duas horas ou mais, parada, mas acompanhando um movimento exterior que não está acontecendo. Foi montado para acontecer daquele jeito.
   Cinema é programa que dá para fazer sozinho. Mas companhias de amigos cinéfilos (tanto ou mais do que eu), namorados (é um requisito) são sempre boas. Gosto de falar e escrever sobre filmes e ouvir outras opiniões. Decidindo com um grande companheiro de cinema (e de tantas outras maravilhas e desventuras da vida), Gustavo Liedtke, um entre tantos para ver, optamos por Amor por Direito (Freeheld). Um amor lésbico, mesmo sabendo que uma das mulheres tem câncer, parecia leve e condizente com esse momento de lutar para manter direitos adquiridos. 
    Baseado em uma história real, o filme conta a história de Laurel Hester (Julianne Moore), uma policial diagnosticada com uma doença terminal, que luta para assegurar à companheira, Stacie Andree (Ellen Page) os benefícios de sua pensão. Mesmo morrendo, a policial ia em reuniões do Condado da cidade, para pedir que aprovem esse direito. A Comissão do Condado era responsável pela votação, já que as duas não eram casadas, tinham "apenas" união estável, não havia casamento gay. O fato, ocorrido em New Jersey, no começo deste século, foi uma bola de neve que mudou a Lei sobre casamento homossexual nos Estados Unidos.
   A obra já vale pela sempre maravilhosa Julianne Moore e por Ellen Page, atriz ativista e ícone  da causa GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Trans). Ambas estão incríveis. Mas este filme deveria ser visto por todos os homofóbicos e para os que não tem opinião formada sobre união gay. Também por ativistas de causas diversas. 
    Pense numa mulher policial. Sua luta contra o machismo é diária. Ela precisa ser muito melhor do que a média para ser reconhecida. Pense que essa mulher é homossexual e esconde isso de todos. Na maturidade encontra o grande amor numa jovem mecânica. Temos aí mais um ingrediente para o preconceito: a diferença de idade.
    Se for duro demais ver beijo entre mulheres, ultrapasse as poucas cenas de olhos fechados e veja apenas duas pessoas que amam ficar e viver juntas. E que projetam e realizam sonhos. E que uma dessas duas pessoas está morrendo e quer deixar sua pensão para a outra, com quem está, de fato (mas não de direito) casada, como todos os funcionários públicos fazem. Mas precisa de votos e de Lei. E essa mulher nem era ativista e nem queria que o mundo soubesse que era gay.
    Então entram no filme personagens secundários que poderiam ser qualquer um de nós:
 - O policial hetero, branco e ateu, apoiador da causa, que nunca havia imaginado que sua parceira fosse gay e que não muda em nada a amizade e admiração que sempre nutriu por ela. 
 - O jornalista judeu e ativista gay, que convence o casal a levantar a bandeira da causa e mostra o quanto isso é muito maior do que uma pensão. Pode ser a mudança de um sistema.
- O político que sente-se envergonhado em votar contra e mal pode olhar na cara da filha, enojada pela postura do pai. A mudança que esse provoca lentamente nos demais.
- O jovem policial gay que resolve sair do armário para apoiar a colega.
- O chefe que tenta ser imparcial.
     Foi bastante emblemático ter visto esse filme com Gustavo, um ativista gay. Nesse País assumir ser homossexual já é ativismo. Mostrar em redes sociais, denunciar homofobia, falar abertamente sobre homossexualidade, querer direitos iguais e respeito é considerado petulância, arrogância. Um filme sobre direitos conquistados que não podem ser tirados é essencial em tempos de retrocesso político e avanço conservador.

   Sobretudo é um convite ao ativismo. As cenas que mais emocionaram foram as que personagens tomaram posição. Mostra a importância de lutarmos pelos direitos civis e humanos. Você não precisa ser gay para apoiar o casamento gay. Você só precisa ser justo.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Carta Aberta ao Deputado Jair Bolsonaro

    Primeiramente, deputado, gostaria de agradecer. Os absurdos proferidos pela sua boca no domingo, durante a votação na Câmara, me fizeram deixar de ser tolerante. Tenho familiares que o apoiam, via também apoio de desconhecidos na minha página de facebook. Mas quando ouvi que o seu voto é pela ditadura e torturadores, resolvi não tolerar mais os intolerantes. Tolerar não é aceitar. Nunca aceitei, mas tolerava. Hoje não tolero mais. Também agradeço porque muitos dos que estavam apenas no "oba oba" do  Fora Dilma, ficaram chocados com as declarações dos parlamentares e, principalmente, a sua. E começaram a pensar. E só agora parecem entender o que nos espera com a saída da presidente Dilma.
   Imagino que o senhor deva ter sido muito castrado na sua família, foi obrigado por seu pai a continuar no militarismo, senão apanhava, como declarou certa vez.  Talvez tivesse profundo interesse nos corpos dos soldados, mas conteve-se pela família, tradição e propriedade. 
   Em uma das suas declarações cheias de ódio, disse que gastaram bala demais com Lamarca, que ele deveria ter sido assassinado a coronhadas. Isso já mostra seu apreço pela tortura. Não basta matar com tiro não é mesmo? Seu prazer está na dor do outro, no sofrimento físico e mental alheio. Lamarca é o meu grande ídolo revolucionário, pois sendo um capitão do Exército, viu as atrocidades que estavam sendo feitas e se rebelou. Ele é muito mais revolucionário que Che Guevara, mas o Brasil ainda prefere reverenciar ídolos de outros Países. Ou fascistas como o senhor.
    Infelizmente o senhor não é um verme ou lixo, como muitos o chamam. Se assim fosse não estaria na Câmara. É um cidadão comum, que pode se eleger e está aí, indo contra os Direitos Humanos, contra a Constituição. O que me estarrece é que comete diariamente crimes de homofobia e racismo, além de incitar ao ódio, mas ainda está livre. Espero que com o desequilíbrio mental apresentado no último domingo, a OAB entre com algum pedido de cassação do seu mandato. 
     Entre algumas de suas declarações "polêmicas" (para não dizer escrotas, nojentas, asquerosas), mandou índio comer capim, negros para o zoológico e que mulher deve receber menos do que homem, já que tem filhos. Ora, deveria era ganhar o dobro, já que tem dupla jornada de trabalho. O senhor não deve ter lá muito respeito por sua mãe, não é mesmo? Ou então foi criado num ambiente tão machista que acha mesmo que mulher que usa saia curta está pedindo para ser estuprada.
      O senhor deputado não representa o Brasil. Representa a escória da política brasileira, o preconceito, racismo, homofobia, misoginia e todos os sentimentos de ódio que destroem a humanidade. Penso até que o senhor não tenha humanidade nenhuma. 
     Não desejo nada que não seja sua casssação e exclusão da vida pública. E que seus descendentes não sejam gays ou feministas, pois sofrerão muito em suas mãos sanguinárias e torturantes. 
      Aos que o apoiam e o admiram, dedico minha compaixão. São pessoas ignorantes (no sentido de ignorar), que certamente não tiveram mãe, mulheres ou filhas. Ou se tem, não as respeitam também. São pessoas, provavelmente, cheias de amargura e recalque. Pessoas que apoiam tortura e violência, segregação e insultos.
    Também tenho pensado muito em religião após o famigerado domingo. Primeiro porque não a tenho. Como não acredito em deus, também não acredito no diabo. Mas vendo-o vociferar aquelas palavras, sua ode ao militarismo, pensei diferente. O senhor parecia a encarnação do mal. O diabo. No fim, é sempre a velha luta do bem contra o mal. Deus é o bem, diabo é o mal. Essa arbitrariedade que se tornou normal na política brasileira, que confunde voto de impeachment com família e deus, tem no senhor muita representatividade. A cusparada que o deputado Jean Wyllys lhe deu está sendo muito contestada. Já os absurdos que o senhor fala no Congresso Nacional parece normal. 
     Talvez essas pessoas estejam cegas de ódio, o mesmo ódio que o senhor é mestre em disseminar. E se esses cegos não tirarem logo o véu da ignorância, em breve não haverão mais cartas abertas aos políticos. Nem eleições diretas.
  

quinta-feira, 24 de março de 2016

Juízes Mandam, Globo Edita, Fascistas Ganham

   Fazer análise política no Brasil não é tarefa fácil. A coisa é tão rápida que cientista político e jornalistas ficam tontos por aqui. Tinha escrito sobre a indicação de Lula como chefe da Casa Civil. Sobre como essa decisão iria inflamar mais os ânimos dos Fora Dilma e que não havia problema nenhum querer escapar do juiz salvador da pátria, Sérgio Moro. Eu mesma, que não sou tão esperta e apenas uma mãe que perdeu a guarda da filha e ficou anos sem vê-la pela morosidade da inJustiça brasileira, discuti com o juiz e ele saiu do processo. Coincidência ou não, o processo andou mais rápido sem Ricardo Braga Monte Serrat, um juiz que não fazia nada, não decidia nada e quando decidia era algo bem duvidoso. O que dizer sobre Moro? Que é implacável contra petistas e todo rabo preso com psdebistas? É tão óbvio que só o PT é investigado. Faria o mesmo para sair da parcialidade brutal desse Moro.
    Não ia escrever mais nada sobre política nenhuma. Mas lendo um artigo do colega Alceu Castilho, sobre o fascismo crescente no País, me identifiquei com o que ele chama de "esquerda blasé". Isso mexeu com minha dignidade, com meu instinto mais esquerdista. Sim, sou blasé em várias coisas. Falo baixo, não gosto de brigas, sou pelo diálogo, até faço o que não quero fazer por não saber dizer não, não querer decepcionar e ainda gosto de filme iraniano e dinamarquês. Mas contra o fascismo não dá para ser blasé! Não dá mais para tolerar gente que odeia pelo ódio, que é "contra tudo isso que está aí", que detesta pobre (e não pobreza, que eu também detesto), que detesta negro, detesta gay, detesta petista, mas não sabe nem quem sucederá Dilma, caso ela saia da presidência, por renúncia ou impeachment.
     Quando ela foi reeleita eu estava em Ribeirão Preto. O que ouvimos (eu e Miranda, minha filha de 7 anos, que gosta muito da Dilma e acha o máximo uma mulher presidente) foi xingamentos dos prédios, de todos os tipos. Miranda perguntou porque xingavam a presidente. Respondi que essas pessoas, apesar do acesso à educação e informação, não souberam aproveitar sua sorte. Não voto desde 2002, mas sempre torço para que o eleito democraticamente pela maioria, dê conta do recado. Torço por Alckmin também! Torço para que ele perceba que a truculência que usa hoje contra manifestantes e estudantes pode se voltar contra ele um dia, seria extermínio na certa.

    Mas quando pensei em reler sobre a posse de Lula para publicar o texto, eis que uma liminar, assinada em tempo recorde (28 segundos!) pelo juiz Catta Preta, proíbe Lula de assumir. Puxa vida, fiquei impressionada com os dois pesos e duas medidas da Justiça brasileira. Uma vez pedi uma liminar para ver minha filha, já estava acordado e tudo. O pai não deixou ver. Fui até o Fórum e achei que bastava o juiz assinar e mandar um Oficial de Justiça cumprir a Lei. Mas não, ele pediu vistas para o Ministério Público, porque era difícil um juiz decidir sozinho se uma filha tem o direito ou não de ver a mãe. E lá se foram mais 5 meses sem ver ou falar com minha filha. Agora quando é com Lula, tudo é tão rápido, porque Lula vale mais do que eu? Porque não dei a sorte de pegar um juiz tão ágil? Claro que isso é ironia, caros leitores, claro que vocês já devem saber que esse juiz é um dos Fora Dilma. Todos nós temos opiniões formadas, mas levá-las a público tendo um cargo público tão elevado é, no mínimo, leviano.

    Então o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, está sendo investigado por milhões desviados e depositados em contas no exterior. E ele continua presidindo a Câmara! Ele já é réu! Pior, ele faz parte da Comissão de Impeachment!! Mas qual o problema do seu desvio? Vamos concentrar nossos esforços nos pedalinhos de Lula e no sítio em Atibaia. É muito mais amador, mais tupiniquim do que dinheiro em contas na Suíça. É a cara do Brasil. E o Paulo Maluf também está na Comissão! Aquele mesmo que eu pensei estar, finalmente, no ostracismo. As investigações contra Cunha estão paradas há mais de 5 meses. E o que dizer do senador Aécio Neves, que aparece mais no Lava Jato do que no Senado? O que dizer da meia tonelada de cocaína encontrada em sua propriedade? E o helicóptero que transportava a droga era da empresa de Zezé Parrela, amigo de Aécio, que fez três contratos sem licitação para o brother, mas isso é matéria do passado. Para que investigar? Afinal, as pessoas que querem depor Dilma são todas de bem e contra a corrupção, não é verdade?

  
    Quando a extrema direita e a Rede Globo perceberam que Lula poderia assumir a Casa Civil, o justiceiro Sérgio Moro não hesitou em passar todas as gravações sigilosas para a Rede Globo, que em edição profissional, fez de Lula um arrogante, grosseiro e que desdenha do povo. Ele pode ser tudo isso, mas ele não é só isso. A gravação inteira mostra muito mais. Alguns dos odiadores poderiam parar para ouvir na íntegra. Mas o ódio cega e ensurdece. Sei bem disso. Daí mais uma vez penso nos pesos e medidas da Justiça brasileira. Em 2011, a juíza carioca, Patrícia Accioli, foi executada com mais de 20 tiros, por policias que estavam sendo julgados por ela. Ninguém foi preso. Num País onde juiz é assassinado por ter coragem em enfrentar o tráfico, considerei, no mínimo estranho, um juiz vazar todas as gravações de Lula, inclusive, conversas com a presidente. Ele não tem medo? Claro que não! Todos os políticos corruptos de todos os partidos estão ao seu lado. Dilma caindo, Moro ganha um cargo daqueles, acima do bem e do mal, querem apostar?

    Mas os "rebosteios" midiáticos e políticos no Brasil não param por aí. Saiu enfim uma lista da Odebrecht, com mais de 300 políticos envolvidos no Lava Jato. William Bonner, o apresentador do Jornal Nacional, explicou com sua cara lavada de bom moço e voz linda, que a lista não seria divulgada. O mesmo juiz Moro decretou sigilo nessa lista. Por que? Porque o nome da Dilma não está. Nem o meu. Acho que nem o de Lula. Mas todos os outros estão e não é conveniente dar os nomes de políticos que chamaram às ruas para manifestação contra  a corrupção. Sendo que TODOS são corruptos. Inclusive você que compra DVD pirata, que passa ponto para a carteira de habilitação do amigo, que sonega...
   
   Você que está lendo esse texto em outro País e não entendeu nada, não fique constrangido. Estou aqui há 45 anos e não consigo entender até hoje. Você que está aqui e é contra "tudo isso que está aí", reflita um pouco e pense quem você quer no lugar de Dilma. Não concordo com muita coisa desse atual desgoverno. Na minha análise parca, Dilma quis ser legal com banqueiros e empresários, mas não conseguiu. E foi péssima com as classes que a elegeram. Há genocídio indígena, MST (Movimento Sem Terra) sendo desrespeitado, desmatamento recorde na Amazônia. Mas pensem que nunca antes houve tanta investigação de políticos nesse País.
   Corrupção existia, e muita, na Ditadura Militar, mas ninguém podia falar sobre isso. Os fascistas estão mostrando sua cara. E é muito feia. Na manifestação nacionalista dos verde e amarelo, dia 13 de março, estava em Ribeirão Preto, de vestido vermelho (coincidência e não provocação). Gritaram para mim, de um carro: Fora Dilma. Cheguei a fazer piada sobre o acontecido. Mas agora vejo que não tem graça. Tem mãe com bebê de colo sendo agredida por usar vermelho. Ciclista com bicicleta vermelha tomando pedrada. Sei o quanto é pequeno burguês pensar na cor da roupa por medo de represálias. Penso nos negros que acordam todos os dias e temem represálias pela cor da pele. Os valores desse mundo estão muito errados, mas ainda acho que vale tentar acertar os erros.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Culinária Intuitiva na Casa do Ernesto

   A Casa do Ernesto é um espaço de trabalho e convivência coletivo. Foi inaugurada em dezembro do ano passado. Os ocupantes são profissionais que atuam em diversas áreas, principalmente nas sociais, socioambientais e de comunicação. Há engenheiro, há jornalista. Dividimos tudo: contas, espaço, ideias, desejos, projetos (de vida e trabalho). Só para situar como fui parar nesse grupo, voltarei uns meses no tempo. 
   Em agosto do ano passado decidi mudar para São Paulo, uma cidade que adoro, apesar das coisas que se tem para odiar. Então comecei a falar com os melhores amigos que moravam por lá. Entre eles a santista Carla Stoicov. A Casa do Ernesto era uma ideia que já vingava em três cabeças (das mais pensantes): Carla, Wilson Bispo e Flora Cytrynowicz.
   Para dissipar a maior dúvida: Ernesto não é uma pessoa, é um cachorro. E a proprietária da casa, a jornalista Gisele Paulino, é  também a "dona" do Ernesto. Só que a Gi viaja muito e acabou mudando para o Rio de Janeiro, por conta de um mestrado. O Ernesto ficou. Quem alugasse a casa, hospedaria o Ernesto. Embora ele tenha uma "cuidadora", que já morou na casa com o Ernesto. Enfim, em menos de 4 meses já tem muita história nessa Casa. Isso tudo foi apenas um lead bagunçado, como disse, para situar os leitores. Essa Casa vale um post só sobre os ocupantes. Outro só sobre a inauguração. Outro sobre a primeira reunião, que estipulou "as regras" da Casa.
     Mas vamos à culinária. De pouco tempo para cá começamos a cozinhar um "resto de tudo" o que tivesse na geladeira com os que estivessem no horário de almoço (que pode ser qualquer um entre 12h e 15h). E os que estivessem vindo, trariam o que faltasse. Quem me conhece, minimamente, sabe do meu pouco potencial nas manobras do forno e fogão. Por isso sempre fui a pessoa que lava a louça e faz o café. Na semana passada, Carla perguntou/intimou: "- Amanhã você faz o almoço?". "- Pode ser macarrão?". " - Fazer o que, né? A gente come". Paralelamente, há mais de um mês, eu combinava um almoço ou café com o querido Norian Segatto. Eis que ele aceita almoçar na Casa, assim aproveitaria para conhecer o espaço. Fiquei tensa.
     No dia seguinte deixei Miranda na escola e fui ao supermercado. Lembrei da minha musa Jout Jout* e do primeiro vídeo dela que vi (apresentado há um bom tempo por Dora, claro, minha assessora para assuntos de vlog), justamente sobre culinária intuitiva
      Fui no corredor dos legumes e saladas. "Alface não ofende ninguém e tomate é um coringa", pensei e peguei. Daí acrescentei algo que dá graça em tudo: gorgonzola! Segui confiante e avistei um lindo pacote de shitake, que adoro e combina com shoyo, que dá gosto em chuchu. Para completar batatas. Quem não gosta de batata? Com salsinha e azeite não deve ter erro.
    Cheguei na Casa e só estava Carla, numa reunião por skype. Fui para a cozinha e parti para intuição. Norian chegou pontualmente, em tempo de sentir o cheiro do shitake queimando no azeite (a intuição nem sempre leva à perfeição). Então Flora e Wil ligaram para dizer que chegariam para o almoço. "Nossa! Era para ser eu e Carla e agora somos cinco!" Ainda bem que tinha um arroz integral na geladeira, que abrilhantou a salada. Mesmo assim fiquei um pouco mais tensa. Os dois chegaram com uma quirche e ingredientes para fazer brigadeiro de sobremesa. "Ufa! Brigadeiro eu mando bem".
      Para evitar mal entendido, avisei que a culinária era intuitiva. Mas no final, não sobrou grão de nada para contar história. Foi um sucesso de público e crítica. A Casa do Ernesto realmente opera milagres! E me inspirei para escrever porque quem manobrou as panelas hoje foram Carla e Beto Gomes. Fiz de novo o tal brigadeiro. Apenas repetirei aqui o comentário do Wil após provar minha especiaria: "- Dri, larga o jornalismo!".

*Cozinhando intuitivamente com Jout Jout https://youtu.be/iDMdlihU9Dw