Lendo, novamente, o blog de Elaine César, sobre sua audiência da semana passada, me vi na cena. Ela espera um resultado rápido, porque o amor de mãe e filho tem urgência, espera perdão, espera trégua. Mas sentando-se naquelas cadeiras sóbrias, sala fria, olhando pela primeira vez uma pessoa (juiz) que irá determinar sua vida e de seu filho, entre advogados falando termos jurídicos e tratando crianças como objetos: "porque no ato da busca e apreensão do menor" ou "o local onde estaria mais seguro o enfante". Ninguém fala em lar, em amor, em compaixão, em perdão. Mas o pior mesmo é ver a outra parte impassível, sem emoção, como se nunca tivesse vivido uma vida em comum, olhar a outra parte e desejar que tente esquecer o desejo doentio de vingança e lembrar algum momento, por mais efêmero que tenha sido, bom.
Mas isso não existe no inimigo: perdão, compaixão. O que mais choca em audiência de Vara de Família é a terrível constatação de que você tem um inimigo. A primeira vez que passei por isso foi bastante simbólico e estarrecedor. Fisicamente doloroso. Até então sempre tive adversários na vida, jamais um inimigo.
Era a primeira, e até hoje única, audiência entre a outra parte e eu. Após ter fugido do Visitário Público com Dora e nos ver no Fantástico 1 mês depois, com narração de Cid Moreira, voltei e realizei "a devolução da incapaz", com passagem por peritos. Fiquei sem ver ou falar com Dora por um mês após a "devolução" (o termo jurídico é esse). Pensei que se já era obrigada a ver minha filha no Visitário Público, imagina agora a penalidade que nos seria imposta. Chego lá com meu advogado (já outro depois de descobrir que Muruy de Oliveira não tinha nem inscrição na OAB), a outra parte com sua advogada.
Momento tenso, ao olhar a advogada da outra parte fico assustada, não sei se já estava sugestionada, mas senti uma vibração de ódio vinda dali. O pai da minha filha nem me olhava nos olhos. Eu estava com infecção urinária braba. Tive febres a semana toda. O juiz se mostrava propenso a acordos e disse que mãe e filha precisavam ter contato. Que eu não causei mal algum, ao contrário, Dora voltou com mais peso, mais saudável, bronzeada e feliz das férias forçadas com a mãe! Feliz, muito feliz ficou Dora livre comigo. Sim, finalmente tinha sua vida de volta com sua mãe!
Sei que agi errado levando-a do Visitário, mas o próprio policial acenou para mim, achando que era uma mãe levando sua filha para o lar. E Dora pediu tanto para tirá-la de lá. E aquele lugar era tão sórdido! E minha amada filha não merecia aquilo. Nenhuma daquelas pobres crianças mereciam. Não pensei em consequências jurídica, agi com amor de quem não pode mais ficar vendo sua filha sofrer e esperando um sistema moroso funcionar. Justiça pelas próprias mãos pode ser o nome disso. Não julgo crime ter minha filha comigo, sendo capaz, responsável e podendo cuidar tão bem dela, ao contrário de tantos que deixam seus filhos aos cuidados de terceiros, de avós. Pessoas sem estrutura para cuidar dos filhos deixam com outros. Pessoas como eu cuidam dos filhos.
Fui com Dora sim, me arrependi e não sabia como voltar, voltei ao ver a imagem da minha filha exposta no Fantástico. Ainda bem que a mídia tem sempre outra notícia para apagar as marcas da anterior. Ainda bem que 15 minutos de má fama passam rápido. Voltei e estava ali, naquele tribunal, disposta a apagar tudo. Minha meta era ter Dora morando de novo comigo como sempre foi. Mas não sendo possível queria vê-la em qualquer lugar que não fosse a tortura do Visitário Público. Era um direito meu não querer mais encontrar minha filha num cárcere, afinal fui eu mesma, que isso seja lembrado sempre, por meio de um advogado inexperiente e incompetente, que pleiteei a visita! Assim que pisei naquele lugar e vi o inóspito da situação, me arrependi, mas a outra parte, o inimigo, aproveitou-se para agravar o problema, distorcendo os fatos, como se eu tivesse sido "obrigada" a ver minha filha lá. Não importava que a filha também sofresse. Meu sofrimento era a meta maior do inimigo. Isso sim é um inimigo quase invencível. Alguém que não se importa com a dor da filha porque isso atinge a mãe, no caso eu, a inimiga.
Nenhum lugar ele queria para a visita. Sua ideia já era dali me destituir do poder familiar e formar com Dora uma nova família, com outra "mãe". O pai de Dora insistia para que nossos encontros se realizassem no Visitário. O juiz ponderava que o lugar não era saudável para ninguém, muito menos para a criança. Mas o pai de Dora queria o visitário, porque eu poderia fugir. O juiz ainda alegou que fugi com polícia militar, monitoramento, que não adiantava visitário para mim. Eu jamais aceitaria encontrar Dora de novo num visitário. Não era só eu e o inimigo. Minha amada e desejada filha estava no meio disso. E pensava nela, acima de tudo.
Após 4 horas (sim, 4 infinitas e dolorosas horas, em que tive de me retirar para ir ao banheiro por causa da tal infecção urinária), nenhum acordo foi feito. O juiz nos dispensou sem dar sentença.
Sempre em Frente
Desci a Serra do Mar chorando. Lembrando cada ato que me fez chegar até ali. E lembrei de muitos saudáveis adversários da minha vida. Na escola eu disputava sempre a liderança de classe. Ganhei os quatro anos que disputei, mas meu adversário, o segundo lugar, me fazia ser cada ano mais ativa nos eventos da escola. Meu adversário, Marcelo, muitas vezes tirava notas maiores do que eu. Ele era nota 10 em tudo. Eu raspava em 8 e 9. Marcelo, adversário que dividia comigo a mesma fascinação por literatura e gramática,trazia novos livros, autores, me fazia estudar mais. Querer ser me melhor.
Nas piscinas impossível quantificar o número de adversárias. Mas em algumas provas encontrava as mesmas nadadoras, que por vezes vencia, outras perdia. Os mesmos braços que disputavam braçada a braçada em raias diferentes, se abraçavam na chegada. Adversárias que me faziam treinar mais.. Querer me superar.
No trabalho tem sempre um repórter que consegue a melhor matéria, busca as mais seguras fontes (pessoas que passam informações) e se destacam. Com esses quero aprender, dividir e conseguir uma notícia melhor, uma visão diferente do mesmo fato. Conheci tantos assim.
Entre os mais generosos está Sérgio Duran, com quem tive a honra e o prazer de trabalhar no jornal Diário do Grande ABC, no caderno de Cultura. Eu cobria preferencialmente Dança e Artes Plásticas, Duran era o fera das Artes Cênicas e não se importava de me passar todas as suas fontes. Até o telefone pessoal da atriz Malu Mader ele me deu. Primeiro porque sabia que usaria todos com responsabilidade. Depois porque queria me ajudar a crescer como profissional. E, principalmente, por nossa afinidade imediata. Santista, ex-jogador de vôlei, casado com uma maquiadora supermoderna, pai de 3 filhos e ligado em todos os acontecimentos culturais, Sérgio Duran era o amigo perfeito, além de jornalista brilhante. Melhor adversário não há! Com esse, a meta é a perfeição!
Mas o inimigo nunca te ajuda a melhorar. Ao contrário, os sentimentos despertados por ele só te derrubam. O inimigo usa armas fraudulentas para te aniquilar. Nunca é transparente, só age por ódio e vingança.
E no fim de uma pequena batalha, a tal audiência, fui divagando na Serra do Mar, sobre meus adversários e inimigo. Como queria continuar aprendendo com meus adversários. E passar uma borracha em qualquer história com inimigo. Mas o inimigo é pai da minha filha, que paradoxo. Como apagar...
E no dia seguinte, após uma noite de lágrimas, angústia e solidão, o juiz dá a sentença. Ganhei o direito de pegar minha filha sábado, 10h da manhã e devolvê-la domingo, 16h. Uma pequena vitória sobre o inimigo! Isso foi em abril de 2006...
Histórias reais do meu cotidiano, das pessoas ao meu redor, longe de mim e comigo sempre.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
A Mãe que Amamentava o Filho
No período mais doentio da minha vida presenciei uma das cenas mais tristes, dolorosas e humilhantes impostas a um ser humano. Falo de quando me obriguei a ver minha filha no Visitário Público de São Paulo, caso contrário ficaria sem vê-la até concluir uma perícia psicológica, o que pode significar um semestre nesse sistema tão burocrático. Eu via Dora todos os sábados, das 10h às 16h, no cárcere infantil já citado em outra postagem.
Não lembro o motivo, mas troquei o sábado pelo domingo, ou foi a outra parte que trocou, minha memória não é exata nesse momento, porque esse domingo eu gostaria de esquecer, mas não consigo. Jamais esqueci e quando se aproxima o Dia das Mães lembro ainda mais.
Era um dia abafado de novembro e no domingo aquela caixa de cimento ficava ainda mais cheia de crianças. Muitos pais trabalhavam no sábado e preferiam o domingo. Todos estavam muito agitados e suados, afinal os dois ventiladores de teto nem funcionavam. Eram só pais e eu de mãe e mais uma moça. Em um canto eu vi uma figura frágil, pequena e magrinha, com longos cabelos loiros e lisos. Ela estava deitada em um dos colchonetes daquele lugar insalúbre, devidamente coberto com um lençol de motivos infantis. Estava deitada com um bebezinho, que mamava vorazmente enquanto apertava o outro seio e olhava em seus olhos tristes e úmidos.
Em um dos momentos que Dora ficou distraída brincando com a menina Vitória, me aproximei da moça. Precisava conhecer aquela história, como mãe e jornalista. Dei oi e ela me sorriu com lágrimas nos olhos, o filhinho já dormia, com aquela carinha de bebê satisfeito que foi bem nutrido pela mãe. O motivo de estar ali era tão cruel que me senti privilegiada por Dora já ter 3 anos!
Separada logo após o nascimento do filho (nem fiz questão de saber o porquê), a jovem mãe entrou em depressão, talvez por se sentir sozinha com o bebê numa nova fase da vida onde é preciso 100% de dedicação física e emocional. Também estava desempregada e sua família não tinha muitas condições de ajudá-la. Numa tarde de sábado o pai do menino foi buscá-lo para passear. Ela ainda agradeceu, pois se sentia tão fraca que nem tinha vontade de sair de casa com o bebê. Anoiteceu e eles não voltaram. Ela entrou em desespero, ligou para todos os lugares possíveis e ninguém sabia o paradeiro do pai ou do filho. Ligaram para polícia e IML, nada. Isso fez com que ela comesse menos ainda e chorasse até desidratar. Alguns dias depois ela foi citada pela Justiça: o pai entrou com ação falando sobre a depressão dela e que poderia matar o filho e cometer suicídio! Mais uma vez um juiz decide separar mãe e filho baseado em suposições. O bebê estava com a mãe, mas ninguém tinha a guarda no papel, esse papel que vale tanto, vale mais que o amor. Esse juiz simplesmente passou a guarda para o pai, que pegou o bebê e mudou-se para São Paulo. Ah, um detalhe, a moça triste e bonita era de Curitiba.
Essa mudança dificultou ainda mais o processo para ela, que aconteceria por meio de cartas precatórias, ou seja, qualquer ação que na mesma cidade demoraria uma semana, em outro Estado significaria 2 meses. Desesperada ela também recorreu ao Visitário Público! Como os custos de viagens seriam altos, via seu bebê a cada 15 dias. Junto com pessoas estranhas, observada por psicólogos, policiais militares e assistentes sociais. E amamentava o filho! Para continuar produzindo o alimento tão essencial, ordenhava-se e doava para bancos de leite.
Só consegui abraçá-la e chorar. Dora veio correndo para saber se estava tudo bem com a "mamãe". Por que minha filha tinha que ver tudo aquilo? Talvez para já saber que no mundo tem muita gente boa, mas que os ruins são péssimos...
Há mais de 5 anos a imagem dessa mãe me enche de emoção. Imagine uma mulher ser impedida de amamentar seu filho e pior, um pai cortar esse vínculo com a mãe. Mas essa mulher frágil era muito mais forte do que poderia supor. Mantinha seu leite para, de 15 em 15 dias, poder amamentar seu filho, afinal era o único momento que ele sabia o que era ter mãe. Nenhuma outra mulher faria isso por ele, só uma mãe com muito amor e coragem seria capaz de tanto sacrifício. E eu me perguntava onde estava o juiz que setenciou isso? Minha vontade era ir atrás desse homem tão justo, agarrá-lo pelo colarinho branco e levá-lo até o cárcere. Fazê-lo ver aquela cena. Uma mãe suicida que poderia matar o filho ordenha o leite para poder alimentar seu bebê quinzenalmente. "Olhe o que foi feito dessa vida". Mas vale lembrar que a Excelência só decretou a sentença porque houve uma outra parte pedindo. Não precisei perguntar o porquê da separação. Sem conhecer o pai só podia considerá-lo um ser desprovido de qualquer sentimento. E também entendi sua depressão.
O bebê de 7 meses acordou e sorriu para a mãe. "Não era sonho meu anjo, você mamou, dormiu e vai poder mamar de novo". E foi o que ele fez. E me afastei para deixá-los naquele momento tão raro, tão íntimo e de tanto amor.
Também tive depressão, também fui acusada de poder matar minha filha e me matar. E agora também tive minha filha levada para longe para dificultar ainda mais o processo. Pessoas cruéis existem em todos os lugares. Mães amorosas, que amamentam seus filhos, também. Nunca mais ousei ir naquele lugar no domingo. Passei a semana toda chorando ao lembrar dessa doce mãe e do bebê impedido de ser amamentado. Só espero que hoje estejam juntos e felizes e que, diferente de mim, essa bela moça consiga esquecer.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
O Nadador Exemplar
A natação entrou na minha vida aos 6 anos porque meu pai nadador quis que eu estudasse numa nova escola do Guarujá, com piscina de 25 metros. Eu engolia água, meus olhos ardiam, achava muito difícil rodar os braços, flutuar, bater as pernas e respirar ao mesmo tempo que meu corpo adaptava-se ao ambiente novo das águas geladas (nos anos 70 não existia piscina aquecida). Era um sofrimento tudo aquilo, mas meu pai dizia que morar no Litoral e não saber nadar era o mesmo que ter um restaurante e não poder comer - ou coisa parecida. E disse mais: quando eu atravessasse a piscina poderia parar de nadar! Então me esforcei para superar logo esse obstáculo. Mas no dia que atingi essa meta, me senti tão vitoriosa e feliz que busquei muito mais. Minha maior dificuldade foi aprender a mergulhar. Como em tudo na minha vida, não consigo entrar de cabeça, analiso o movimento, a situação, até hoje é muito difícil me entregar. Mas um dia, depois de provocar muitas risadas em técnicos e amigos, aprendi a mergulhar e minha largada tornou-se um dos meus maiores trunfos.
Depois de ter destaque em campeonatos estudantis estaduais fui nadar no Centro Esportivo do Guarujá e comemorei 11 anos em Jacareí, nos Jogos Regionais de 1981! Como era nadadora reserva pensei que seria só festa, participar em espírito, mas não em corpo. Era a mais nova da delegação da minha cidade, os atletas de outros esportes me enchiam de mimos e brincadeiras fofas, até que me colocaram para nadar 200 metros de peito! Fim de junho, a água muito gelada, arquibancada lotada e muitos gritos de incentivo para minha prova. Nunca meus braços e pernas doeram tanto, me faltou o ar, dei meu melhor tempo e cheguei em último lugar... mas isso não me abateu. A natação não é só uma disputa com o adversário, é uma disputa com você mesmo. E essa eu venci! Tive mais confiança de tudo que era capaz de conseguir.
Como o Guarujá ainda não inscrevia atletas na Federação Paulista, eu nadava também campeonatos de Aprenda a Nadar. Claro que ganhava todos, pois já alcançava marcas para campeonatos oficiais. Com esse panorama, assistentes técnicos de clubes santistas convidaram a mim e minha inseparável amiga Rosane Mendes (com a mesma trajetória) para nadar em Santos. Sim, queríamos ir, com pesar nos separaríamos de nossos colegas de braçadas, mas iríamos juntas para algo mais desafiador. Rosane queria ir para o Clube Vasco da Gama, que tinha a melhor equipe de Juvenil, sua categoria. Eu preferia o Saldanha da Gama, pois ainda tinha 2 longos anos como Infantil e a equipe deles era a melhor de Santos nessa categoria. Entramos em um acordo: depois de assistir o Campeonato Santista Absoluto, decididíramos. A mãe de "Zaninha" e meu pai davam carta branca e apoio incondicional. Eram muito participativos.
Noite quente no Vasco, a prova era 1.500 metros livre masculino. Não sabia quem estava nadando, mas dois atletas disputavam braçada a braçada. Até que um deles foi aumentando o ritmo, seu estilo era imperfeito, mas quanta força! Na chegada, com mais de meia piscina na frente, esse nadador tira os oclinhos, vê que quebrou o recorde da prova e abre o sorriso mais lindo do meu universo. Quem era? Onde nadava? José Ricardo Carvalho de Oliveira, então com 16 anos, era atleta do Clube de Regatas Vasco da Gama. Essa prova e esse sorriso nortearam meu destino a partir de então.
Nadar no Vasco formou parte do que é minha personalidade hoje. Trago de lá alguns dos meus melhores momentos, amigos que até hoje acompanham minhas aventuras e desventuras, fiz viagens inesquecíveis, incríveis, conheci pessoas fantásticas, participei de competições acirradas, venci, perdi, aprendi. Fazer parte de uma equipe como aquela era mais que praticar um esporte, era integrar uma enorme família, sofrer junto, vibrar junto. Minha paixão pelo Zé Ricardo foi só mais um capítulo dessa história. Mais que o sorriso encantador, tinha o coração valente, humor sagaz e muito charme. O garoto moreno ainda tinha voz rouca... como não me apaixonaria? Mas eu era uma criança e ele quase um adulto! Com 13 eu já era fisicamente o que sou - quer dizer, muito melhor do que sou hoje - e ele viu com outros olhos a minha pessoa. Durante 2 anos demos muitos beijos escondidos (ele sentia vergonha por eu ser tão novinha, essa é a verdade), tive a minha primeira paixão semi-correspondida, meu primeiro coração na boca e pernas bambas. Minhas primeiras lágrimas de amor!
Depois de dois anos ele começou a namorar uma bailarina, com quem ficou por mais de 10 anos até se casar. Eu tão cabelo com cloro, ela tão coque e rabo de cavalo. Eu tão abrutalhada, ela tão delicada. Demorei longos 6 meses para superar isso. Ora, 6 meses soa como eternidade para uma adolescente de coração partido. Ainda nos econtramos nos treinos de pólo aquático, esporte que pratiquei, assim como o Zé Ricardo, depois de parar com a natação. Ele continuava com o sorriso lindo!
Aos 30 anos, o meu inesquecível primeiro amor, morreu num trágico acidente de carro, quando subia pela Imigrantes, numa noite de muita chuva, para pilotar um avião - sim, ele virou piloto. Era casado com a bailarina e tinha uma filhinha de 2 meses. Na missa de sétimo dia encontrei nadadores do Brasil inteiro. Encontrei sua irmã Ana Claudia, uma querida amiga, que igualmente encantadora, me abraçou sorrindo: "- Só o Zé pra me fazer te encontrar de novo". E com muitas lágrimas tentei consolar aquela irmã caçula e coruja, com um buraco imensurável no peito.
Eu tinha 25 anos e vivia outra vida, como jornalista boêmia, ficava acordada até tarde, fazia plantões de madrugada, dormia pouco, me alimentava mal, com pressa, tive ácido úrico que detonou meus pés aos 23 anos, por estresse! Ver todos aqueles bons e velhos amigos, naquela celebração mórbida, foi um tapa na cara. "Quem sou eu agora? O que me tornei?"
Após sua partida, tive muitos sonhos com o Zé Ricardo, ele estava sempre no meio de uma piscina enorme, num dia ensolarado, me chamando para mergulhar. E eu mergulhava de cabeça e nadávamos juntos até eu acordar literalmente cansada, com braços doendo. E de tanto nadar em sonhos, voltei às piscinas, como master, no mesmo fatídico ano de 1995. Esse nadador exemplar me trouxe de volta para a vida. Porque pessoas assim nunca morrem nas nossas lembranças. Hoje uma tradicional travessia da Baixada Santista leva seu nome. Jovens atletas nadam a travessia José Ricardo Carvalho de Oliveira sem saber que homenageiam não só o atleta que colecionou títulos, mas o nadador que amava nadar, que conseguia esses títulos não por talento nato ou técnica perfeita, mas por muita dedicação, esforço e vontade. E que sua coleção de amigos era ainda maior que de medalhas. E que seus curtos anos na Terra valeram por muitas vidas. E que mesmo não estando aqui, me fez voltar na minha essência de disciplina, persistência e irmandade. E eu nunca pude agradecer.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Mantenha Seu Brilho
Como não é sempre que estou disposta a falar da dor e da saudade ou do processo pérpetuo (até que atinja - Dora ou o processo - a maioridade), esse blog era pra ser uma forma de contar aos amigos mais próximos o que estava se passando, comigo e com as pendengas judiciais. Também uma forma de desamarrar o nó. Tentar entender, dar um fio na meada, costurar essa história. Porém percebo agora que mais que tudo é para Dora. Só ela importa nesse momento, a maior vítima de tantos erros e intolerância. E há quanto tempo essa forte menina passa por tanto desrespeito aos seus direitos de criança? Há mais de 6 anos e tem apenas nove. É ela quem precisa entender como os adultos transformam sua vida sem perguntar o que sente ou pensa. E qual motivo fez chegar ao ponto do insustentável. E porquê de novo teve que largar a vida dela para ingressar em outra vida, levando dela só ela mesma.
Ainda bem que tenho tudo guardado, Dora já lia e terá maior entendimento ainda no futuro, que seu pai falava de acordo por emails, exigia nossa mudança para São Paulo para partilhar guarda... mas foi lá com busca e apreensão, tirou Dorinha no meio da aula e levou para morar com os avós em Ribeirão Preto. Ou seja, queria transtornar mais ainda nossa vida, obrigando a fazer uma mudança para São Paulo para depois levá-la para o interior. A intenção clara é afastar Dora da mãe, irmã, amigos, cidade... a tal alienação parental declarada! E enquanto escrevia sobre acordo, enquanto gastava horas do tempo do promotor Alfonso Presti sobre acordo, entrava com novo processo, para a Destituição do Poder Familiar - já extinto graças ao juiz de bom senso. Tão evidente o empenho da outra parte em separar mãe e filha, para sempre.
Crescendo rápido
É muita coisa para uma criança! Como lidar com a proibição de falar com a mãe? Não poder mais ver sua querida irmãzinha e suas melhores amigas? Como Dora aguenta tudo isso? Eu sou mãe de Dora e a pessoa que mais a conhece e mais conviveu com ela em sua ainda curta, mas já tão expressiva, conturbada e singular trajetória. Dora tem inteligência acima da média. É popular, sociável, talentosa e sábia. Mesmo sendo tudo isso, ainda é uma criança e o tempo para ela corre diferente. Há 70 dias foi arrancada de tudo o que ela tinha e levada para morar em Ribeirão Preto, com os avós, obrigada a adaptar-se bruscamente, sem conversa sobre mudança, sem avisos ou recomendações e ficar lá, sem poder falar com ninguém do seu convívio, de sua rotina. Proibida, cerceada, monitorada! Para Dora esse tempo é interminável, ela não sabe o que está acontecendo aqui na casa dela, com as coisas dela, a vida dela, os amigos, a cidade. Se é difícil para quem está aqui, mal posso imaginar como está sendo para ela, sua angústia e insegurança. Seu coraçãozinho tão jovem e já tão martelado com o prego da saudade.
Mas ela precisa saber que ninguém nunca e jamais a esquecerá. Que sua irmãzinha Miranda fala dela todos os dias. Que eu tive que tirar suas fotos, pois Miranda fazia beicinho e chorava! Ela vê perua escolar, aponta e fala: "Doinha!" e fica muito feliz quando a Raquel, melhor amiga da Dora, vem em casa. A doce e meiga Raquel, com sua inesgotável paciência, brinca com Miranda, que afoga em Raquel a saudade de Dora. Miranda não esquece Dorinha e não tenho mais como dizer que Dorinha foi passear. Que passeio mais demorado mamãe! Deve ser o que fala em mirandês.
Saber que o ballet do Municipal continua com sua vaga, suas professoras torcem por sua volta. Que suas colegas de classe ficaram muito tristes de não ter mais Dora na frente, para poder seguir seus passos. As amigas sentem sua falta, me enchem de perguntas sobre Dora e porque não podem falar mais com ela. Tão querida, foi e será sempre assim a vida de Dora. O brilho de Dora transcende sua pessoa. Ela ilumina todos os espaços que ocupa. Agora ela está lá em alguma escola de ballet de Ribeirão Preto, estimulando outras garotas com seu entusiasmo e alegria; encantando outras professoras com sua inteligência e talento. É isso que faz Dora tão especial, a diferença que faz pelos lugares que passa. Espero que percebam isso e deixem Dora falar, que o melhor para Dora é ficar com a mãe!
Sempre digo que os filhos devem ser criados para o mundo, de preferência, para melhorar o mundo. Mas minha filha ainda é muito nova para ser do mundo, eu precisava ensiná-la mais sobre liberdade de expressão, direitos humanos e cidadania. Protegê-la mais um pouco da maldade e prepará-la para enfrentar o mal. Agora ela está vivendo uma educação completamente diferente, sendo criada por pessoas estranhas, com ideias muito distintas das minhas! Quem a conhece ou esteja conhecendo agora, neste momento, verá uma menina simpática, tranquila, segura, esperta e decidida. Assim ela era até 70 dias atrás. Não imagino o que possa ser feito para tornar Dora uma menina melhor! Ao contrário, com o atual sistema de cerceamento, proibições, constrangimentos e privações a que tem sido submetida, temo muito por sua saúde mental. Ah, se a Justiça não fosse tão lenta e se não desse tantas brechas para os maus intencionados, de tempo vago... quem sabe ainda salvaria Dora de tanta ditadutra e autoritarismo.
Ainda bem que tenho tudo guardado, Dora já lia e terá maior entendimento ainda no futuro, que seu pai falava de acordo por emails, exigia nossa mudança para São Paulo para partilhar guarda... mas foi lá com busca e apreensão, tirou Dorinha no meio da aula e levou para morar com os avós em Ribeirão Preto. Ou seja, queria transtornar mais ainda nossa vida, obrigando a fazer uma mudança para São Paulo para depois levá-la para o interior. A intenção clara é afastar Dora da mãe, irmã, amigos, cidade... a tal alienação parental declarada! E enquanto escrevia sobre acordo, enquanto gastava horas do tempo do promotor Alfonso Presti sobre acordo, entrava com novo processo, para a Destituição do Poder Familiar - já extinto graças ao juiz de bom senso. Tão evidente o empenho da outra parte em separar mãe e filha, para sempre.
Crescendo rápido
É muita coisa para uma criança! Como lidar com a proibição de falar com a mãe? Não poder mais ver sua querida irmãzinha e suas melhores amigas? Como Dora aguenta tudo isso? Eu sou mãe de Dora e a pessoa que mais a conhece e mais conviveu com ela em sua ainda curta, mas já tão expressiva, conturbada e singular trajetória. Dora tem inteligência acima da média. É popular, sociável, talentosa e sábia. Mesmo sendo tudo isso, ainda é uma criança e o tempo para ela corre diferente. Há 70 dias foi arrancada de tudo o que ela tinha e levada para morar em Ribeirão Preto, com os avós, obrigada a adaptar-se bruscamente, sem conversa sobre mudança, sem avisos ou recomendações e ficar lá, sem poder falar com ninguém do seu convívio, de sua rotina. Proibida, cerceada, monitorada! Para Dora esse tempo é interminável, ela não sabe o que está acontecendo aqui na casa dela, com as coisas dela, a vida dela, os amigos, a cidade. Se é difícil para quem está aqui, mal posso imaginar como está sendo para ela, sua angústia e insegurança. Seu coraçãozinho tão jovem e já tão martelado com o prego da saudade.
Mas ela precisa saber que ninguém nunca e jamais a esquecerá. Que sua irmãzinha Miranda fala dela todos os dias. Que eu tive que tirar suas fotos, pois Miranda fazia beicinho e chorava! Ela vê perua escolar, aponta e fala: "Doinha!" e fica muito feliz quando a Raquel, melhor amiga da Dora, vem em casa. A doce e meiga Raquel, com sua inesgotável paciência, brinca com Miranda, que afoga em Raquel a saudade de Dora. Miranda não esquece Dorinha e não tenho mais como dizer que Dorinha foi passear. Que passeio mais demorado mamãe! Deve ser o que fala em mirandês.
Saber que o ballet do Municipal continua com sua vaga, suas professoras torcem por sua volta. Que suas colegas de classe ficaram muito tristes de não ter mais Dora na frente, para poder seguir seus passos. As amigas sentem sua falta, me enchem de perguntas sobre Dora e porque não podem falar mais com ela. Tão querida, foi e será sempre assim a vida de Dora. O brilho de Dora transcende sua pessoa. Ela ilumina todos os espaços que ocupa. Agora ela está lá em alguma escola de ballet de Ribeirão Preto, estimulando outras garotas com seu entusiasmo e alegria; encantando outras professoras com sua inteligência e talento. É isso que faz Dora tão especial, a diferença que faz pelos lugares que passa. Espero que percebam isso e deixem Dora falar, que o melhor para Dora é ficar com a mãe!
Sempre digo que os filhos devem ser criados para o mundo, de preferência, para melhorar o mundo. Mas minha filha ainda é muito nova para ser do mundo, eu precisava ensiná-la mais sobre liberdade de expressão, direitos humanos e cidadania. Protegê-la mais um pouco da maldade e prepará-la para enfrentar o mal. Agora ela está vivendo uma educação completamente diferente, sendo criada por pessoas estranhas, com ideias muito distintas das minhas! Quem a conhece ou esteja conhecendo agora, neste momento, verá uma menina simpática, tranquila, segura, esperta e decidida. Assim ela era até 70 dias atrás. Não imagino o que possa ser feito para tornar Dora uma menina melhor! Ao contrário, com o atual sistema de cerceamento, proibições, constrangimentos e privações a que tem sido submetida, temo muito por sua saúde mental. Ah, se a Justiça não fosse tão lenta e se não desse tantas brechas para os maus intencionados, de tempo vago... quem sabe ainda salvaria Dora de tanta ditadutra e autoritarismo.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Nosso Natal no Visitário Público
Mais um capítulo inacreditável da infâcia de Dora!
Dia 24 de dezembro seria um sábado. Passei a semana em conflito sobre qual decisão tomar: passar o Natal no Visitário com Dora e fazê-la feliz por 6 horas monitoradas ou poupá-la de nova separação dolorosa? Numa das cinco perícias pelas quais passei com o psicólogo forense Sidney Shine, pedi ajuda nessa conduta. "Entendo que você se prive do contato para preservá-la do sofrimento da separação. Por outro lado é tudo o que ela tem com você e espera por esses momentos ansiosamente". Ele só me fez refletir mais ainda. Era tudo o que tinhamos: 6 horas semanais, presas numa caixa de cimento.
Mas era o único tempo para abraçar e beijar Dora, dizer o quanto a amava e sentia tudo aquilo, acompanhar seu desnvolvimento levando revistas para desenhar, escrever e pintarmos juntas. E estava chegando o Natal, que nunca tinha sido muito especial pra mim até o nascimento de Dora. Depois dela, eu passei a entender melhor o espírito natalino, como verdadeiro símbolo de união e amor ao próximo, amando a todos mais que a si mesmo. Afinal, os locais onde crianças nascem, geralmente são tomados de ternura e esperança!
Durante a semana Evandro, o pai de Pietra, me animou dizendo que tinha uma roupa de Papai Noel e nós faríamos uma festa! Comprei até uma árvore para montar e minha mãe, que também visitava Dora, fez um vestido lindo para a netinha. O dia chegou. Dora e a amiguinha ficaram radiantes em montar a árvore e mais algumas crianças ajudaram a colocar os penduricalhos. Em algum momento, Evandro esquivou-se da sala e foi ao banheiro, com a devida autorização oficial, colocar a roupa de Noel. Quando voltou com doces e presentes foi delírio coletivo! Estava totalmente disfarçado, barba gigante, óculos... mas não mudou os sapatos! Após detalhada observação, Dora vira para mim e solta essa: "- É o pai da Pietra, né mamãe?" Fiz que sim com a cabeça. "Que legal, mamãe". Sim, era muito legal um pai colocar uma fantasia e transformar um ambiente carcerário em lúdico. Não era legal um pai levar uma filha para passar o dia lá, com sua doce mãezinha. Mas esse dia tornou-se único, especial, definitivo.
Uma hora antes do final do nosso breve encontro, levei Dora para tomar banho. Uma assistente social nos acompanhou. Observava eu tirar a roupa da Dora, entregar o sabanote, shampoo, muito desagradável e constrangedor. Enquanto eu a secava carinhosamentero - há mais de quatro meses não dava banho ou trocava minha filha - a mulher disse que nunca tinham usado o local para banho. "Mas deveriam, aqui é muito abafado e as crianças ficam sujas e suadas". Ela concordou comigo e vislumbrei um olhar de compaixão.
Arrumei o cabelo de Dora artisticamente. Ela estava linda e pronta para passar o Natal com a família da namorada do pai. Isso mesmo, nem com a família paterna ela passaria a noite de Natal. Minha filhinha linda, indo de cabeça baixa ao encontro do pai. Como estava grande, crescida, com ar amadurecido nesses três meses de visitário, morando com o pai, passando por perícias, tantas mudanças, sem nunca mais ver seus amiguinhos Tomás, Serena, Laurinha... tudo isso me passou como um cometa natalino. Ela estava indo para a vida que eu não fazia parte e não me deixavam fazer. Dessa época só sei o que Dora me confiava ou achava importante saber.
Não me contive e fui atrás dos dois, quem sabe conseguiria comovê-lo. Dora de cabeça baixa, a ergueu com um sorriso. Ele fingiu não perceber nada. Já estavam entrando no carro quando gritei: "Jonas!" Um olhar com flecha de gelo me atinge, mas prossigo: "Feliz Natal!" Nenhuma reação, desprezo absoluto. Só pude lamentar. Espero que Dora já tenha esquecido o pior desse dia, lembre-se apenas de como enfrentamos e transformamos a realidade.
Dia 24 de dezembro seria um sábado. Passei a semana em conflito sobre qual decisão tomar: passar o Natal no Visitário com Dora e fazê-la feliz por 6 horas monitoradas ou poupá-la de nova separação dolorosa? Numa das cinco perícias pelas quais passei com o psicólogo forense Sidney Shine, pedi ajuda nessa conduta. "Entendo que você se prive do contato para preservá-la do sofrimento da separação. Por outro lado é tudo o que ela tem com você e espera por esses momentos ansiosamente". Ele só me fez refletir mais ainda. Era tudo o que tinhamos: 6 horas semanais, presas numa caixa de cimento.
Mas era o único tempo para abraçar e beijar Dora, dizer o quanto a amava e sentia tudo aquilo, acompanhar seu desnvolvimento levando revistas para desenhar, escrever e pintarmos juntas. E estava chegando o Natal, que nunca tinha sido muito especial pra mim até o nascimento de Dora. Depois dela, eu passei a entender melhor o espírito natalino, como verdadeiro símbolo de união e amor ao próximo, amando a todos mais que a si mesmo. Afinal, os locais onde crianças nascem, geralmente são tomados de ternura e esperança!
Durante a semana Evandro, o pai de Pietra, me animou dizendo que tinha uma roupa de Papai Noel e nós faríamos uma festa! Comprei até uma árvore para montar e minha mãe, que também visitava Dora, fez um vestido lindo para a netinha. O dia chegou. Dora e a amiguinha ficaram radiantes em montar a árvore e mais algumas crianças ajudaram a colocar os penduricalhos. Em algum momento, Evandro esquivou-se da sala e foi ao banheiro, com a devida autorização oficial, colocar a roupa de Noel. Quando voltou com doces e presentes foi delírio coletivo! Estava totalmente disfarçado, barba gigante, óculos... mas não mudou os sapatos! Após detalhada observação, Dora vira para mim e solta essa: "- É o pai da Pietra, né mamãe?" Fiz que sim com a cabeça. "Que legal, mamãe". Sim, era muito legal um pai colocar uma fantasia e transformar um ambiente carcerário em lúdico. Não era legal um pai levar uma filha para passar o dia lá, com sua doce mãezinha. Mas esse dia tornou-se único, especial, definitivo.
Uma hora antes do final do nosso breve encontro, levei Dora para tomar banho. Uma assistente social nos acompanhou. Observava eu tirar a roupa da Dora, entregar o sabanote, shampoo, muito desagradável e constrangedor. Enquanto eu a secava carinhosamentero - há mais de quatro meses não dava banho ou trocava minha filha - a mulher disse que nunca tinham usado o local para banho. "Mas deveriam, aqui é muito abafado e as crianças ficam sujas e suadas". Ela concordou comigo e vislumbrei um olhar de compaixão.
Arrumei o cabelo de Dora artisticamente. Ela estava linda e pronta para passar o Natal com a família da namorada do pai. Isso mesmo, nem com a família paterna ela passaria a noite de Natal. Minha filhinha linda, indo de cabeça baixa ao encontro do pai. Como estava grande, crescida, com ar amadurecido nesses três meses de visitário, morando com o pai, passando por perícias, tantas mudanças, sem nunca mais ver seus amiguinhos Tomás, Serena, Laurinha... tudo isso me passou como um cometa natalino. Ela estava indo para a vida que eu não fazia parte e não me deixavam fazer. Dessa época só sei o que Dora me confiava ou achava importante saber.
Não me contive e fui atrás dos dois, quem sabe conseguiria comovê-lo. Dora de cabeça baixa, a ergueu com um sorriso. Ele fingiu não perceber nada. Já estavam entrando no carro quando gritei: "Jonas!" Um olhar com flecha de gelo me atinge, mas prossigo: "Feliz Natal!" Nenhuma reação, desprezo absoluto. Só pude lamentar. Espero que Dora já tenha esquecido o pior desse dia, lembre-se apenas de como enfrentamos e transformamos a realidade.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Cárcere Infantil
Escrever sobre o período mais traumático da minha vida não é tarefa fácil. Mas é preciso esclarecer alguns fatos, pois cada vez mais a história se repete. Até hoje o motivo pelo qual fui fazer visitas para minha filha Dora, então com 3 anos e 7 meses, num Visitário Público (espécie de cárcere infantil) monitorada por psicólogos, assistentes sociais e policiais militares, ainda é confuso para muita gente. Até amigos muito próximos se atrapalham com o amadorismo dos advogados da época somado ao meu desespero em ver Dora com urgência. Para piorar tem ainda o sadismo e oportunismo da outra parte, aproveintando-se da situação para inverter fatos!
Há 6 anos - abril de 2005 - eu tinha a guarda provisória da Dora e o pai fazia visitas em finais de semana alternados, levava para viajar, participava das festinhas da escola em Boiçucanga, no litoral norte de SP, ligava quando queria para minha casa. Isso seguia enquanto esperávamos marcar uma audiência sobre guarda definitiva. Eu já sabia que guarda definitiva não existe, pode ser revertida a qualquer tempo, com agravo. Então para melhorar essa história eu estava disposta a mudar para o Guarujá, deixando Dora mais perto do pai, que morava em São Paulo. Enfim, tudo parecia se encaminhar rapidamente para um final gratificante. Esse processo já tinha mais de 6 meses! Nas férias Dora ficou 15 dias com o pai, período em que fui para o Chile. Trocava emails diariamente com o pai de Dora e ligava quase todos os dias para ela. Voltei da viagem, dormi na casa de amigos e o pai de Dora foi levá- para mim. Tudo tão civilizadamente...
E assim fiquei sem chão
Aconteceu que em agosto de 2005, ao chegar na rodoviária do Guarujá para buscar minha filha, quando Dora voltaria do fim-de-semana do Dia dos Pais, ela não chegou! Minha mãe ligou no meu celular para dizer que o pai dela havia ligado com uma história de que Dora machucou o dedo, mas estava bem! Não, Dora não tinha machucado o dedo e não acredito que estivesse bem! Passei uma semana tentando falar com ela, com o pai e ninguém me dizia nada sobre o paradeiro dela! No máximo os avós repetiam que "estava viajando pelo interior com o pai"! Chegou ao ponto da advogada Marta Macruz de Sá, da outra parte, me ligar em casa para me colocar "a par dos fatos". Que o juiz passou a guarda provisória para o pai, pois o mesmo cismou que eu fugiria para o Chile. Tinha provas circunstanciais.
Essa advogada me ligou tanto que cheguei a gravar uma conversa de 18 minutos. Da minha parte, a advogada Jussara Esther Aguiar comia uma mosca andróide, já que o árbitro passou a guarda baseado num agravo apresentado ao Ministério Público. Meus defensores deveriam ter sido rápidos, mas não, aceitaram determinação baseada em suposições estapafúrdias.
Mil burocracias a parte eu precisava ver minha filha de 3 anos e meio que foi levada sem nada, sem entender nada, era para voltar na segunda e ela nem queria ir. Eu insisti para que fosse, era dia dos pais e seria muito gostoso. Dora foi confiante, ainda comprei mais uma revistinha das princesas e dei na rodoviária. Me deu tchau e foi com essa revistinha. Suas bonecas, roupas, álbuns de figurinhas, tudo estava lá comigo esperando por ela - peraí? Estou maluca ou está tudo se repetindo? Estou falando de acontecimentos ocorridos em 2005!
Mas isso não podia estar acontecendo. Muita autoridade, trata-se de uma criança que fica repentinamente privada de ver a mãe! Deveria haver alguma forma de eu ver minha filha! Segundo Muruy de Oliveira, o parceiro, assistente e sócio de Jussara, eu teria que passar por perícia psicossocial. Quando saísse resultado da perícia, com certeza visitaria Dora. Mais absurdo ainda. A tal perícia poderia demorar meses, em seguida o recesso de final de ano. Imaginem ficar sem ver Dora por até 6 meses!
Muruy me veio com a alternativa do tal visitário público, se eu pedisse veria Dora no próximo fim-de-semana. Eu quiz! Eu não sabia o que era, mas veria minha filha, falaria com ela. Em alguns dias Muruy me ligou para confirmar visita no tal Visitário. Ele estava satisfeito por ter conseguido as tais visitas, todos os sábados, das 10h às 16h! Depois eu fui saber que Muruy de Oliveira nem tinha inscrição na Ordem dos Advogados nessa época, mas enfim, era ele quem tocava o meu processo, Jussara só assinava e agora entendo porque aconteceu tamanho equícovo.
Um dia antes da primeira visita Jussara me ligou recomendando que não levasse brinquedos porque lá não havia nenhum e as crianças poderiam brigar pelos de Dora. Logo se via que Jussara não entendia mesmo de crianças, fiz o oposto, preparei uma mala carregada de brinquedos. Fui de ônibus, fiz baldiação de metrô para a zona leste e fui me aproximando do que parecia um presídio! Da calçada cheia de buracos eu avistava altos muros cinzas e brancos. Passo pelo portão onde dois policiais fardados me cumprimentam. Só cimento, nenhuma árvore ou planta. Subo uma rampa e mostro meus documentos para uma assistente social e uma psicóloga. Vejo Dora! Largo a mala e corro para abraçá-la, meu coração dispara, ela não acredita que está me vendo, quer olhos nos olhos e não pára de me beijar. "Eu te amo, mamãe! Que saudade!". Aperto forte minha menina e percebo que está mais magra,os olhos um pouco fundos... para que esse sofrimento precoce minha filhinha?
Ela mal pegava suas bonecas, só queria ficar no meu colo, me abraçar e conversar. Ficamos num canto, em colchonetes azuis, desses de academia. Eu não entendia aquele monte de gente estranha participando de momentos tão meus e de minha filha. Profissionais analisando nossas conversas e carinhos. Tudo muito perturbador. Depois fiquei sabendo que na teoria esse era o lugar destinado para encontros de pais que pudessem oferecer risco aos filhos: violentos, estupradores, dependentes químicos ou sei lá mais o quê! Mas na prática era um lugar onde pais desesperados com a lentidão jurídica apelam para ver os filhos e se arrependem, pois a outra parte aproveita-se desse desespero e usa a criança para manipular situações . O próprio sistema sabe disso. Posteriormente, em conversa com a assistente social do meu processo, afirmei ser impossível aqueles pais terem molestado suas filhas. Resignadamente ela respondeu que em cada 70 denúncias, duas são verdadeiras, as outras 68 são ex-esposas vingativas que querem destruir o homem. É mais raro no meu caso. Eu mesma só conheci mais duas na minha situação. De mulheres que vão visitar os filhos...
A Vida em Desespero
Mas quero voltar nessa primeira visita. O início de um calvário que resultou numa sequência de atitudes desesperadas. É o preço que se paga por não ter paciência, não saber esperar. O calvário só aumenta. Mas até de uma cova funda você vê uma luz. Um rapaz simpático, com um enorme sorriso solidário se aproximou: "Você é nova aqui, né?" Era o Evandro Paiva, pai de Pietra, já nesse esquema de visitas há 9 meses! Seríamos companheiros de sábados cármicos. Vê-lo ali com sua filha, brincando e sorrindo, uma menina amorosa, que parecia gostar tanto do pai...como ele foi parar ali? Ah, sim, fazia parte da estatística da vingança. O caso dele era tão doentio que a mãe de Pietra não se contentava em deixar a filha lá. Ficava das 10h às 16h e até levava lanche, já que o Visitário também era desprovido de lanchonete ou alimentação gratuita. Nós é que tínhamos que nos preocupar em proporcionar refeições, do jeito que desse, no chão mesmo.
E com isso tudo Dora estava tão feliz, só queria ficar abraçadinha na mamãe. Perguntava quando o juiz ia decidir com quem ela iria morar. Que ela pedia para morar comigo, mas o pai respondia que o juiz é quem iria decidir. Eu só tinha vontade de chorar, mas dizia que o juiz seria justo e faria o melhor para ela. O tempo passou rápido. Um pouco antes das quatro o pai da minha filha apareceu, junto da namorada, com quem Dora estava morando. Ele abaixou e abriu os braços lá do portão. Dora viu, me agarrou e começou a chorar. "Não mamãe, eu vou ficar com você, a gente dorme aqui mamãe!" Eu a abraçava e não pude mais conter tanto choro. O pai dela aproximou-se impassível. "Vamos Dorinha, você tem que ir comigo!". Ela dizia não com a cabeça e chorava até perder o fôlego. Tentei acalmá-la de todas as formas. E um policial chegou mais perto, falou com Dora de jeito carinhoso, teve que literalmente arrancá-la de mim, mas sem violência, pegou-a e passou para o pai. Enquanto via Dora indo embora, limpando as lágrimas com uma mão e acenando com a outra, minhas pernas desabaram. Esse mesmo policial, Laerte, me apoiou e com lágrimas nos olhos, disse. "Em tantos anos, nunca vi cena igual. Não imagino o que a senhora fez, mas essa menina te ama e não merece passar por isso". Tomei uma água, o policial era muito mais sensível a dor da Dora do que o próprio pai.
Antes de ir ainda conversei mais um pouco com o Evandro. "Você vai ter que ser forte para aguentar isso aqui, é uma pressão terrível!", me alertou. Sim, ele tinha razão. Sábado após sábado eu tinha que estar refeita para enfrentar tudo aquilo de novo, com situações de brigas pesadas, constrangimentos, climas de mágoa, rancor, vingança, tudo o que crianças não precisam ser submetidas a passar.
Será que eu iria suportar descer a Serra do Mar todos os sábados, com lágrimas nos olhos e estilhaços no coração? Passar meus domingos jogada na cama chorando? Tentar me recuperar na segunda-feira e já ficar mal na quinta quando começava a arrumar a mala de brinquedos? Conseguiria suportar ver minha filha ser sistematicamente arrancada de mim todos os sábados naquele lugar sombrio por tempo indefinido? E durante a semana passar por perícias psicológicas e tentar em vão falar com Dora ao telefone? O que seria a minha vida a partir de então? Era duro demais até para a mais forte das mulheres perfeitas. E eu estava cada dia mais fraca e sem paciência.
Há 6 anos - abril de 2005 - eu tinha a guarda provisória da Dora e o pai fazia visitas em finais de semana alternados, levava para viajar, participava das festinhas da escola em Boiçucanga, no litoral norte de SP, ligava quando queria para minha casa. Isso seguia enquanto esperávamos marcar uma audiência sobre guarda definitiva. Eu já sabia que guarda definitiva não existe, pode ser revertida a qualquer tempo, com agravo. Então para melhorar essa história eu estava disposta a mudar para o Guarujá, deixando Dora mais perto do pai, que morava em São Paulo. Enfim, tudo parecia se encaminhar rapidamente para um final gratificante. Esse processo já tinha mais de 6 meses! Nas férias Dora ficou 15 dias com o pai, período em que fui para o Chile. Trocava emails diariamente com o pai de Dora e ligava quase todos os dias para ela. Voltei da viagem, dormi na casa de amigos e o pai de Dora foi levá- para mim. Tudo tão civilizadamente...
E assim fiquei sem chão
Aconteceu que em agosto de 2005, ao chegar na rodoviária do Guarujá para buscar minha filha, quando Dora voltaria do fim-de-semana do Dia dos Pais, ela não chegou! Minha mãe ligou no meu celular para dizer que o pai dela havia ligado com uma história de que Dora machucou o dedo, mas estava bem! Não, Dora não tinha machucado o dedo e não acredito que estivesse bem! Passei uma semana tentando falar com ela, com o pai e ninguém me dizia nada sobre o paradeiro dela! No máximo os avós repetiam que "estava viajando pelo interior com o pai"! Chegou ao ponto da advogada Marta Macruz de Sá, da outra parte, me ligar em casa para me colocar "a par dos fatos". Que o juiz passou a guarda provisória para o pai, pois o mesmo cismou que eu fugiria para o Chile. Tinha provas circunstanciais.
Essa advogada me ligou tanto que cheguei a gravar uma conversa de 18 minutos. Da minha parte, a advogada Jussara Esther Aguiar comia uma mosca andróide, já que o árbitro passou a guarda baseado num agravo apresentado ao Ministério Público. Meus defensores deveriam ter sido rápidos, mas não, aceitaram determinação baseada em suposições estapafúrdias.
Mil burocracias a parte eu precisava ver minha filha de 3 anos e meio que foi levada sem nada, sem entender nada, era para voltar na segunda e ela nem queria ir. Eu insisti para que fosse, era dia dos pais e seria muito gostoso. Dora foi confiante, ainda comprei mais uma revistinha das princesas e dei na rodoviária. Me deu tchau e foi com essa revistinha. Suas bonecas, roupas, álbuns de figurinhas, tudo estava lá comigo esperando por ela - peraí? Estou maluca ou está tudo se repetindo? Estou falando de acontecimentos ocorridos em 2005!
Mas isso não podia estar acontecendo. Muita autoridade, trata-se de uma criança que fica repentinamente privada de ver a mãe! Deveria haver alguma forma de eu ver minha filha! Segundo Muruy de Oliveira, o parceiro, assistente e sócio de Jussara, eu teria que passar por perícia psicossocial. Quando saísse resultado da perícia, com certeza visitaria Dora. Mais absurdo ainda. A tal perícia poderia demorar meses, em seguida o recesso de final de ano. Imaginem ficar sem ver Dora por até 6 meses!
Muruy me veio com a alternativa do tal visitário público, se eu pedisse veria Dora no próximo fim-de-semana. Eu quiz! Eu não sabia o que era, mas veria minha filha, falaria com ela. Em alguns dias Muruy me ligou para confirmar visita no tal Visitário. Ele estava satisfeito por ter conseguido as tais visitas, todos os sábados, das 10h às 16h! Depois eu fui saber que Muruy de Oliveira nem tinha inscrição na Ordem dos Advogados nessa época, mas enfim, era ele quem tocava o meu processo, Jussara só assinava e agora entendo porque aconteceu tamanho equícovo.
Um dia antes da primeira visita Jussara me ligou recomendando que não levasse brinquedos porque lá não havia nenhum e as crianças poderiam brigar pelos de Dora. Logo se via que Jussara não entendia mesmo de crianças, fiz o oposto, preparei uma mala carregada de brinquedos. Fui de ônibus, fiz baldiação de metrô para a zona leste e fui me aproximando do que parecia um presídio! Da calçada cheia de buracos eu avistava altos muros cinzas e brancos. Passo pelo portão onde dois policiais fardados me cumprimentam. Só cimento, nenhuma árvore ou planta. Subo uma rampa e mostro meus documentos para uma assistente social e uma psicóloga. Vejo Dora! Largo a mala e corro para abraçá-la, meu coração dispara, ela não acredita que está me vendo, quer olhos nos olhos e não pára de me beijar. "Eu te amo, mamãe! Que saudade!". Aperto forte minha menina e percebo que está mais magra,os olhos um pouco fundos... para que esse sofrimento precoce minha filhinha?
Ela mal pegava suas bonecas, só queria ficar no meu colo, me abraçar e conversar. Ficamos num canto, em colchonetes azuis, desses de academia. Eu não entendia aquele monte de gente estranha participando de momentos tão meus e de minha filha. Profissionais analisando nossas conversas e carinhos. Tudo muito perturbador. Depois fiquei sabendo que na teoria esse era o lugar destinado para encontros de pais que pudessem oferecer risco aos filhos: violentos, estupradores, dependentes químicos ou sei lá mais o quê! Mas na prática era um lugar onde pais desesperados com a lentidão jurídica apelam para ver os filhos e se arrependem, pois a outra parte aproveita-se desse desespero e usa a criança para manipular situações . O próprio sistema sabe disso. Posteriormente, em conversa com a assistente social do meu processo, afirmei ser impossível aqueles pais terem molestado suas filhas. Resignadamente ela respondeu que em cada 70 denúncias, duas são verdadeiras, as outras 68 são ex-esposas vingativas que querem destruir o homem. É mais raro no meu caso. Eu mesma só conheci mais duas na minha situação. De mulheres que vão visitar os filhos...
A Vida em Desespero
Mas quero voltar nessa primeira visita. O início de um calvário que resultou numa sequência de atitudes desesperadas. É o preço que se paga por não ter paciência, não saber esperar. O calvário só aumenta. Mas até de uma cova funda você vê uma luz. Um rapaz simpático, com um enorme sorriso solidário se aproximou: "Você é nova aqui, né?" Era o Evandro Paiva, pai de Pietra, já nesse esquema de visitas há 9 meses! Seríamos companheiros de sábados cármicos. Vê-lo ali com sua filha, brincando e sorrindo, uma menina amorosa, que parecia gostar tanto do pai...como ele foi parar ali? Ah, sim, fazia parte da estatística da vingança. O caso dele era tão doentio que a mãe de Pietra não se contentava em deixar a filha lá. Ficava das 10h às 16h e até levava lanche, já que o Visitário também era desprovido de lanchonete ou alimentação gratuita. Nós é que tínhamos que nos preocupar em proporcionar refeições, do jeito que desse, no chão mesmo.
E com isso tudo Dora estava tão feliz, só queria ficar abraçadinha na mamãe. Perguntava quando o juiz ia decidir com quem ela iria morar. Que ela pedia para morar comigo, mas o pai respondia que o juiz é quem iria decidir. Eu só tinha vontade de chorar, mas dizia que o juiz seria justo e faria o melhor para ela. O tempo passou rápido. Um pouco antes das quatro o pai da minha filha apareceu, junto da namorada, com quem Dora estava morando. Ele abaixou e abriu os braços lá do portão. Dora viu, me agarrou e começou a chorar. "Não mamãe, eu vou ficar com você, a gente dorme aqui mamãe!" Eu a abraçava e não pude mais conter tanto choro. O pai dela aproximou-se impassível. "Vamos Dorinha, você tem que ir comigo!". Ela dizia não com a cabeça e chorava até perder o fôlego. Tentei acalmá-la de todas as formas. E um policial chegou mais perto, falou com Dora de jeito carinhoso, teve que literalmente arrancá-la de mim, mas sem violência, pegou-a e passou para o pai. Enquanto via Dora indo embora, limpando as lágrimas com uma mão e acenando com a outra, minhas pernas desabaram. Esse mesmo policial, Laerte, me apoiou e com lágrimas nos olhos, disse. "Em tantos anos, nunca vi cena igual. Não imagino o que a senhora fez, mas essa menina te ama e não merece passar por isso". Tomei uma água, o policial era muito mais sensível a dor da Dora do que o próprio pai.
Antes de ir ainda conversei mais um pouco com o Evandro. "Você vai ter que ser forte para aguentar isso aqui, é uma pressão terrível!", me alertou. Sim, ele tinha razão. Sábado após sábado eu tinha que estar refeita para enfrentar tudo aquilo de novo, com situações de brigas pesadas, constrangimentos, climas de mágoa, rancor, vingança, tudo o que crianças não precisam ser submetidas a passar.
Será que eu iria suportar descer a Serra do Mar todos os sábados, com lágrimas nos olhos e estilhaços no coração? Passar meus domingos jogada na cama chorando? Tentar me recuperar na segunda-feira e já ficar mal na quinta quando começava a arrumar a mala de brinquedos? Conseguiria suportar ver minha filha ser sistematicamente arrancada de mim todos os sábados naquele lugar sombrio por tempo indefinido? E durante a semana passar por perícias psicológicas e tentar em vão falar com Dora ao telefone? O que seria a minha vida a partir de então? Era duro demais até para a mais forte das mulheres perfeitas. E eu estava cada dia mais fraca e sem paciência.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Uma Vida Nada Banal
Estou tão triste que nem tenho vontade de escrever. Me sinto mais que triste. Nem Lars Von Trier, o cineasta dinamarquês dado a imaginar situações bizarras e surreais, seria capaz de criar uma personagem tão patética quanto eu, como em seu genial "Os Idiotas". Me sinto mais ingênua e enganada do que a protagonista cega de Dançando no Escuro. A cegueira da personagem, impressionante interpretação da sempre linda Bjork, é literal, a minha é metafórica. Ela não vê a armadilha feita para incriminá-la, eu vejo, mas não posso acreditar! Sou o pior tipo de cega: a que não quer ver.
Desde o início eu pensei que Dora pudesse estar em Ribeirão Preto, com os avós. Porém isso deixaria cristalino como o genitor não quer ficar com ela, apenas tirá-la de mim. Não importa se ela está sofrendo longe de tudo e todos. Importa que eu sofra. Tento muito entender o porquê de tanto ódio. Por eu decidir levar adiante uma gestação que ele não queria? Por eu tê-lo apoiado no início amador de sua carreira? Por eu tê-lo sustentado financeira e emocionalmente todo o tempo em que morou comigo? Por ter secado suas lágrimas nas duas vezes em que o diretor da Cia do Feijão, Pedro Pires, avisava que se continuasse não decorando textos, sairia do grupo antes da estreia? Por eu ter sido sincera quando percebi que cometi um grande erro ao ter me juntado a ele? Por querer me separar antes que aparecesse um homem minimamente interessante por quem eu me apaixonasse? Ou por que não morri no meu desesperado pedido de socorro?
Ter sumido com a Dora por mais de 4 anos foi o de menos, o ódio dele era muito anterior, porque ao reverter a guarda, em agosto de 2005 - baseado em fatos irreais - não me deixava falar ao telefone com ela, não me deu paradeiro, foi morar na casa da namorada, a atriz de teatro, Luciana Viacava, por quem sentia gratidão, afinal, foi ela quem deu abrigo para minha filha. Já superei esse sentimento de gratidão. Li o que ela falou sobre mim em seu depoimento da sentença de guarda definitiva.
Me sinto tão idiota por ter trocado emails por mais de um ano com o avô de Dora, o psiquiatra infantil José Hércules Golfeto, recém aposentado da USP Ribeirão Preto, onde era catedrático. Em uma das mensagens ele me pediu a numeração de roupas e calçados de Dora, para mandar presentes. Eu dei! Porque pensei que seria uma forma de aproximá-la da família paterna. Esses presentes nunca chegaram. Ele comprou todos os sapatos e roupas para colocar no armário do quarto que já preparava para receber a neta! Ainda bem que se aposentou! Nem quero imaginar o que ensinou e como formou seus alunos!
Há menos de duas semanas liguei no consultório dele para pedir humildemente que me passasse o endereço onde Jonas e Dora estariam morando, sem isso seria mais difícil entrar com ação para regularizar visitas. Disse que não sabia, nem a escola em que Dora estudava ele sabia, pois Jonas não contava nada para ele. Repetia verborragicamente que precisávamos fazer acordo, parar de brigar. "Como vou brigar com alguém que não me atende, meu senhor?" Era como se não houvesse interlocutor do outro lado da linha. O psiquiatra, em seu joguinho mental barato, ainda repetia que eu preciso fazer tratamento, tenho que me tratar...
Ao menos agora eu sei com quem Jonas aprendeu a mentir descaradamente, em casa mesmo, não foi em curso de ator, não! O tempo todo Dora está lá com os avós! O avô psiquiatra é quem sustenta toda essa história, seja mental ou financeiramente. Com sua experiência profissional sabe como desestabilizar uma mãe desesperada por notícias da filha. Ele está repetindo o que já fizera antes, mas eu, mais cega que a mãe que dançava no escuro, acreditei na mudança de comportamento.
A ida de Dora para Ribeirão Preto dificulta ainda mais minha situação no processo. Eles querem perpetuar essa história até Dora crescer, tornar-se uma adolescente rebelde e frustrada. Mais que isso, carente do amor da mãe e dos amigos queridos! Se esses pais criaram Jonas, o que farão com minha filha? Será que conseguirão tornar aquela doce e sincera criança num ser sem moral e dissimulado? Não, isso não pode acontecer... algum juiz tem que perceber que o melhor para Dora é estar com a mãe e a irmã. Não com os avós! Se ela tem pai e mãe, por que deixá-la com os avós?
Não posso parar de escrever
Recebi instrução jurídica para parar de escrever nesse blog sobre o processo, parar de dar nome e sobrenome aos da outra parte. A outra parte lê o que escrevo e pode não gostar, pode fazer tudo se virar contra mim, ficar nervosinho. Acontece que a outra parte tirou minha filha, meu dinheiro, minha saúde, não posso permitir que tire meu direito de liberdade de expressão. A instrução é para escrever e guardar o que escrevo, não divulgar nada. Devo agir como mãe e não jornalista. Mas não se trata de maternidade ou jornalismo. É cidadania, se eu não puder expressar o que sinto, deixo de ser humana! Não consigo disassociar as várias faces de mim: mãe, jornalista, filha, amiga, nadadora, escritora! De guardada já basta Dora, eu queria que o mundo soubesse desse caso. A verdade sobre esse caso.
E mais: se for para escrever no blog, que seja sobre banalidades. Impossível, minha vida não é banal. As pessoas na minha vida não são banais. E mesmo os mais triviais dos acontecimentos, na minha visão, tornam-se significativos. O que acrescentaria em mim e nos outros escrever levianamente sobre assuntos banais? Não que tenha sido essa a instrução, mas é como me sentiria. O que decidi é que paro por aqui sobre os acontecimentos da ação, afinal tudo que escrevo pode se voltar contra mim.
Só porque escrevi sobre a Associação Síndrome do Amor, que fica em Ribeirão Preto, a outra parte surtou porque achou que eu houvesse "descoberto" que Dora estava lá e que eu também estaria em frente da casa da família dele, para sequestrá-la! Quem precisa mesmo de tratamento? Esse mesmo ser que vê fantasmas em tudo que falo ou escrevo, mandou emails - tenho guardado - para tentar mediação num órgão que tenta acordo em situações de conflito. Liguei, marquei, avisei... nada. Só provas para juiz ver! Também escreveu para eu ver Dora no Fórum de São Paulo, depois no Fórum de Santos, sempre em Fóruns, para evitar que eu fuja com minha filhal. Aceitava tudo. Desmarcava tudo.
Não entendo como uma pessoa como eu pode suscitar tanto medo! Sou ingênua, beirando a idiotice, como escrevi no primeiro parágrafo, sou fácil de enganar, como também deu para perceber. Ainda tem um psquiatra nessa história, agindo para desestruturar a mãe da neta, batendo na tecla da depressão que eu tive em 2004! E, pelo visto, tentando ardilosamente me deprimir de novo! Qual mãe não se deprimiria numa situação dessas? Eu! Estou muito triste, mas não deprimida.
Incrivelmente me mantenho sã. Graças a minha Miranda, criança feliz, divertida e carinhosa, que não deixa nenhuma lágrima escorrer por meu rosto. Mesmo quando tenho que explicar para essa menininha de 2 anos que sua irmã "Doinha" foi passear. Ela fala da Dora todos os dias! Não, não ouso chorar na sua frente! Ela merece o meu melhor sorriso, toda a minha alegria que ainda resta. Me mantenho sã graças a minha legião de amigos, que não me deixa esquecer o quanto sou querida e que sempre terei com quem contar.
Enquanto isso vou tentando parar de dançar no escuro. E escrever sobre todos os assuntos relevantes da minha vida, muito maiores que o processo perpetuado de guarda.
Desde o início eu pensei que Dora pudesse estar em Ribeirão Preto, com os avós. Porém isso deixaria cristalino como o genitor não quer ficar com ela, apenas tirá-la de mim. Não importa se ela está sofrendo longe de tudo e todos. Importa que eu sofra. Tento muito entender o porquê de tanto ódio. Por eu decidir levar adiante uma gestação que ele não queria? Por eu tê-lo apoiado no início amador de sua carreira? Por eu tê-lo sustentado financeira e emocionalmente todo o tempo em que morou comigo? Por ter secado suas lágrimas nas duas vezes em que o diretor da Cia do Feijão, Pedro Pires, avisava que se continuasse não decorando textos, sairia do grupo antes da estreia? Por eu ter sido sincera quando percebi que cometi um grande erro ao ter me juntado a ele? Por querer me separar antes que aparecesse um homem minimamente interessante por quem eu me apaixonasse? Ou por que não morri no meu desesperado pedido de socorro?
Ter sumido com a Dora por mais de 4 anos foi o de menos, o ódio dele era muito anterior, porque ao reverter a guarda, em agosto de 2005 - baseado em fatos irreais - não me deixava falar ao telefone com ela, não me deu paradeiro, foi morar na casa da namorada, a atriz de teatro, Luciana Viacava, por quem sentia gratidão, afinal, foi ela quem deu abrigo para minha filha. Já superei esse sentimento de gratidão. Li o que ela falou sobre mim em seu depoimento da sentença de guarda definitiva.
Me sinto tão idiota por ter trocado emails por mais de um ano com o avô de Dora, o psiquiatra infantil José Hércules Golfeto, recém aposentado da USP Ribeirão Preto, onde era catedrático. Em uma das mensagens ele me pediu a numeração de roupas e calçados de Dora, para mandar presentes. Eu dei! Porque pensei que seria uma forma de aproximá-la da família paterna. Esses presentes nunca chegaram. Ele comprou todos os sapatos e roupas para colocar no armário do quarto que já preparava para receber a neta! Ainda bem que se aposentou! Nem quero imaginar o que ensinou e como formou seus alunos!
Há menos de duas semanas liguei no consultório dele para pedir humildemente que me passasse o endereço onde Jonas e Dora estariam morando, sem isso seria mais difícil entrar com ação para regularizar visitas. Disse que não sabia, nem a escola em que Dora estudava ele sabia, pois Jonas não contava nada para ele. Repetia verborragicamente que precisávamos fazer acordo, parar de brigar. "Como vou brigar com alguém que não me atende, meu senhor?" Era como se não houvesse interlocutor do outro lado da linha. O psiquiatra, em seu joguinho mental barato, ainda repetia que eu preciso fazer tratamento, tenho que me tratar...
Ao menos agora eu sei com quem Jonas aprendeu a mentir descaradamente, em casa mesmo, não foi em curso de ator, não! O tempo todo Dora está lá com os avós! O avô psiquiatra é quem sustenta toda essa história, seja mental ou financeiramente. Com sua experiência profissional sabe como desestabilizar uma mãe desesperada por notícias da filha. Ele está repetindo o que já fizera antes, mas eu, mais cega que a mãe que dançava no escuro, acreditei na mudança de comportamento.
A ida de Dora para Ribeirão Preto dificulta ainda mais minha situação no processo. Eles querem perpetuar essa história até Dora crescer, tornar-se uma adolescente rebelde e frustrada. Mais que isso, carente do amor da mãe e dos amigos queridos! Se esses pais criaram Jonas, o que farão com minha filha? Será que conseguirão tornar aquela doce e sincera criança num ser sem moral e dissimulado? Não, isso não pode acontecer... algum juiz tem que perceber que o melhor para Dora é estar com a mãe e a irmã. Não com os avós! Se ela tem pai e mãe, por que deixá-la com os avós?
Não posso parar de escrever
Recebi instrução jurídica para parar de escrever nesse blog sobre o processo, parar de dar nome e sobrenome aos da outra parte. A outra parte lê o que escrevo e pode não gostar, pode fazer tudo se virar contra mim, ficar nervosinho. Acontece que a outra parte tirou minha filha, meu dinheiro, minha saúde, não posso permitir que tire meu direito de liberdade de expressão. A instrução é para escrever e guardar o que escrevo, não divulgar nada. Devo agir como mãe e não jornalista. Mas não se trata de maternidade ou jornalismo. É cidadania, se eu não puder expressar o que sinto, deixo de ser humana! Não consigo disassociar as várias faces de mim: mãe, jornalista, filha, amiga, nadadora, escritora! De guardada já basta Dora, eu queria que o mundo soubesse desse caso. A verdade sobre esse caso.
E mais: se for para escrever no blog, que seja sobre banalidades. Impossível, minha vida não é banal. As pessoas na minha vida não são banais. E mesmo os mais triviais dos acontecimentos, na minha visão, tornam-se significativos. O que acrescentaria em mim e nos outros escrever levianamente sobre assuntos banais? Não que tenha sido essa a instrução, mas é como me sentiria. O que decidi é que paro por aqui sobre os acontecimentos da ação, afinal tudo que escrevo pode se voltar contra mim.
Só porque escrevi sobre a Associação Síndrome do Amor, que fica em Ribeirão Preto, a outra parte surtou porque achou que eu houvesse "descoberto" que Dora estava lá e que eu também estaria em frente da casa da família dele, para sequestrá-la! Quem precisa mesmo de tratamento? Esse mesmo ser que vê fantasmas em tudo que falo ou escrevo, mandou emails - tenho guardado - para tentar mediação num órgão que tenta acordo em situações de conflito. Liguei, marquei, avisei... nada. Só provas para juiz ver! Também escreveu para eu ver Dora no Fórum de São Paulo, depois no Fórum de Santos, sempre em Fóruns, para evitar que eu fuja com minha filhal. Aceitava tudo. Desmarcava tudo.
Não entendo como uma pessoa como eu pode suscitar tanto medo! Sou ingênua, beirando a idiotice, como escrevi no primeiro parágrafo, sou fácil de enganar, como também deu para perceber. Ainda tem um psquiatra nessa história, agindo para desestruturar a mãe da neta, batendo na tecla da depressão que eu tive em 2004! E, pelo visto, tentando ardilosamente me deprimir de novo! Qual mãe não se deprimiria numa situação dessas? Eu! Estou muito triste, mas não deprimida.
Incrivelmente me mantenho sã. Graças a minha Miranda, criança feliz, divertida e carinhosa, que não deixa nenhuma lágrima escorrer por meu rosto. Mesmo quando tenho que explicar para essa menininha de 2 anos que sua irmã "Doinha" foi passear. Ela fala da Dora todos os dias! Não, não ouso chorar na sua frente! Ela merece o meu melhor sorriso, toda a minha alegria que ainda resta. Me mantenho sã graças a minha legião de amigos, que não me deixa esquecer o quanto sou querida e que sempre terei com quem contar.
Enquanto isso vou tentando parar de dançar no escuro. E escrever sobre todos os assuntos relevantes da minha vida, muito maiores que o processo perpetuado de guarda.
Assinar:
Postagens (Atom)