segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nosso 11 de Setembro

  Assisti só dia destes Leões e Cordeiros (EUA, 2007, direção do Robert Redford), uma inteligente e sensível observação em cima da Guerra Contra o Terror, deflagrada após o 11 de setembro. Adorei o filme, mas não é sobre interesses políticos bélicos, mídia como fantoche nas mãos do poder, professores idealistas ou alunos brilhantes que quero falar. É sobre o dia 11 de setembro de 2001. Dia do maior ataque terrorista de todos os tempos visto em tempo real, um momento histórico acompanhado por bilhões. Difícil não lembrar o que se estava fazendo naquele momento.
  Eu dormia. Estava na minha primeira gestação, que entrava no quarto mês. A placenta prévia me exigiu repouso absoluto e era difícil dormir cedo, sem ter feito nenhuma atividade física, fora o barulho da rua - morava no térreo. O telefone tocou às 9h, era Claudia Pentiocinas. Como era querida e constante podia dar bronca e reclamei por ter ligado cedo, já que sabia da minha dificuldade de sono noturno. "Esquece, amiga, o mundo está acabando, explodiram o World Trade Center".
   Apesar de já "adrenada", caminhei muito calmamente até a sala (nunca tive TV ou computador no quarto). Morava em São Paulo e o meu querido Fábio Diegues mudou-se para ficar comigo, já que necessitava de muito mais cuidados do que uma gestante normal. Mas Fábio já tinha saído para o trabalho. Então liguei a TV e vi o jornalista Carlos Nascimento falando de uma Torre, enquanto outra era atacada. Até ele se confundiu, não sabendo se era replay ou novo ataque terrorista. Logo vieram as imagens do Pentágono em chamas. E a explosão aérea de uma outra nave. Seria o fim do mundo?
   Liguei imediatamente para Ali Hassan: libanês, jornalista e muçulmano. "Caramba Dri, você já é a quinta pessoa que me liga. Eu não tenho nada a ver com isso", brincou. "Sei, meu querido, mas preciso conversar com alguém para entender o que está acontecendo e dos que eu conheço você é quem tem maior conhecimento da cultura árabe. Por favor, venha em casa depois do trabalho...". Antes de entrar no repouso, trabalhava ao lado do Ali, na assessoria de imprensa do Sebrae- SP. Era um ótimo profissional e amigo. Companheiro de incontáveis horas de conversas sobre tudo.
  E então liguei para Flavia Vieira, uma "irmã", aventureira destemida, que tinha conseguido visto de um ano para os Estados Unidos, no dia anterior. "Olha o que está acontecendo, você não pode ir para lá", implorei. "Pelo contrário, darling, agora que ninguém mais vai conseguir visto, vou aproveitar e trabalhar muito por lá". E foi o que aconteceu mesmo!
   Mas a maior lembrança é da incerteza mundial causada pelo ataque. E eu, abraçando minha barriga, só tinha certeza que deveria proteger ainda mais aquela vida que mal começava. No mesmo dia escrevi uma carta para Dorinha - já sabia que era menina desde os 3 meses e meio e já a chamava de Dorinha. Falava sobre o momento histórico em que ela viria ao mundo, de uma guerra terrorista (como se todas não o fossem), de como o mundo necessitava de amor e paz. Foi neste dia, 11 de setembro de 2001, que tive certeza absoluta que traria ao mundo um ser especial, repleto de sabedoria e amor, fraternal, solidário. Uma pessoa que faria diferença. Senti que Dora precisava mesmo nascer e eu faria de tudo para que viesse no nono mês. E que enquanto estivesse comigo, estaria protegida, feliz e saudável. Não importava que Torres Gêmeas estivessem desabando. Dora estava protegida, comigo. Só o amor é capaz de parar uma guerra.
   Tive certeza que fiz a escolha certa em seguir adiante com uma gravidez tão difícil. Sabia que poderia perdê-la até o sexto mês ou, se nascesse prematura, poderia ter problemas na formação. Mas vendo aquelas explosões só conseguia pensar num bebê que nasceria, cresceria e faria muita diferença. Foi uma certeza inexplicável. Não porque era minha filha, afinal todos os filhos fazem a diferença para as mães, sentia algo além de mim. Parei de ter medo de perdê-la.
   De certa forma, a perdi. Mas a preparei para ser o que Dora é. O terrorismo continua. Os EUA parecem não mais poder proteger o mundo. Mal podem se proteger. Eu protegi Dora o quanto pude. Agora nem posso ver. Minha guerra pessoal é tão pequena diante da guerra do mundo. Mas é minha dor, minha filha que tanto protegi e tiraram de mim. E eu que já senti tanto as dores do mundo, agora tenho a minha dor, que é só minha. 
  O mundo muda. As pessoas, talvez.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Você Destruiu a Minha Vida

   Tenho precisado de amigos para me lembrar quem sou. Minha querida Mirela Tavares, conhecedora desta história bem antes de Dora nascer, não consegue entender como me transformei nesta pessoa cheia de mágoa e ódio. Me disse que sou a pessoa mais paz e amor que já conheceu. Lembra que fui uma das primeiras amizades que fez quando aportou em São Paulo, vinda de Salvador. Era uma bahiana estressada! Fomos juntas em trilhas, cachoeiras, praias e piscinas, conheceu e se divertiu muito com meus amigos de infância, de natação. Estranho porque parece que aquela pessoa não sou eu.
   Sim, lembro da garota que encarava com naturalidade as piores broncas. Atravessava dores sem esmorecer, sem grandes traumas. Era quem estava presente nas tragédias pessoais de muitos amigos, dando suporte, agindo com rapidez e lógica. Sem fé em Deus, mas com fé no ser humano. Talvez a descrença em Deus tenha sido o que sempre me moveu a fazer as coisas, nunca deixei nada nas mãos deste ser imaginário. A maioria deixou tudo nas mãos de deus no decorrer da história e olha no que deu esse planeta e essa humanidade.
   Se eu fosse uma música hoje, seria esta: http://youtu.be/JIFWpMzwUnc

  Por pior que fossem as pessoas ou o que fizessem, nunca desejei a morte de ninguém (hoje desejo mais do que uma). Nem quando o Governo Collor confiscou o dinheiro de quem poupava seus centavos em caderneta de poupança. Não quis que Collor morresse, quis que ele fosse destituído da Presidência da República. E com muito orgulho pintei minha cara, vesti roupas pretas e saí em carreata pelas avenidas de Santos, um dia depois dele pedir em rede nacional apoio e cor no País. Sim, sou uma pessoa muito orgulhosa! Tenho orgulho de ter feito parte de uma geração que derrubou presidente. Orgulho de ser santista, uma cidade com histórico de luta e resistência. A primeira cidade abolicionista de São Paulo. Dois anos antes da Lei Áurea já não haviam escravos em Santos. Muitos moradores santistas esconderam negros fugidos das senzalas dos Barões do Café. Na ditadura não foi diferente. Cidade de guerrilheiros. Conheço pessoas que acobertaram estudantes "terroristas" por aqui. 
   Tenho orgulho da Vila mais famosa do mundo, do futebol do Santos F. C., que sempre mostra arte para o mundo, com talento, sem agressões. Tive muito orgulho de ser mãe de Dora. Uma menina brilhante, no sentido literal da palavra. Dora sempre brilhou por onde passou. Melhor aluna, melhor bailarina, melhor amiga... e tão cheia de amor. Mas não tenho mais Dora, não exerço mais a maternidade dela. Procuro não me orgulhar tanto de Miranda, mesmo quando dizem como ela é inteligente, esperta, enorme e rápida. Meus vários amigos atletas dizem que Miranda nasceu para o esporte. Corre como uma maratonista, salta como uma jogadora de voley, arremessa como se estivesse numa partida de handball, cai como uma judoca faixa preta. E dança, dança como a irmã que nunca mais viu, porém não esquece.
    Já tive orgulho da minha profissão, hoje tenho dúvidas, muitas delas. Como li dia desses: Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado, todo o resto é Publicidade (George Orwell). Por isso tenho orgulho do que escrevo aqui. Ainda faço, de alguma forma, jornalismo. E, sem perceber, já fiz muita publicidade.
    Não foi o tempo, não foi a idade, não foram as adversidades que me fizeram deixar de ser quem sou. É a insanidade deste processo, o sistema judiciário e, principalmente, Jonas Golfeto. Sim, ele conseguiu, ele destruiu minha vida. Sigo fazendo tudo o que sempre fiz, algumas coisas até melhor. Mas a vida que eu tinha foi destruída. Não é de agora. Ele começou a me destruir lentamente, com sagacidade e inteligência ímpar, que só os verdadeiros psicopatas possuem. Sabia do meu amor incondicional por Dora e quando estava em depressão profunda, me tirou a filha. Consegui Dora de volta. Usou minha viagem para o Chile, devidamente avisada, inclusive para o avô José Hércules Golfeto, como estopim, porque não se conformou de me ver tão rapidamente recuperada. Disse que fui para lá planejar uma fuga! E o resto é tão exaustivo que não quero mais falar disso.
    Difícil viver assim, esperando. A vida passa  muito rápido. Tenho que esperar que um juiz leia 8 volumes, cerca de 8 mil páginas de um processo, marque um audiência e decida alguma coisa. Lamentável esperar pela Justiça. Eu queria mesmo que esse processo acabasse, mas não sei se posso dar fim nele sendo ré. Surreal demais alguém dar entrada num processo de Regularização de Visitas com a Suspensão das Mesmas e colocar 7 volumes de um processo já encerrado. Quem ganha com isso? Os advogados! Ou será que aquela família vive feliz? Dora é feliz? Não sei. Um promotor, que nem é mais do caso, disse que sou uma mãe nociva. Nunca me viu, nem minha filha. Nunca me verá, nem minha filha. 
   Eu me perdi. Não consigo encontrar aquela garota que foi neste show http://youtu.be/jOowmbyhZnk e cantou todas as músicas. Depois do show, minha querida e saudosa Cássia Eller rasgou a blusa e jogou na mesa em que estávamos eu, Lilian Pavan e Claudinha. Depois tirou o sutiã e jogou para mim! Na saída, uma multidão veio atrás de nós para pegar um pedaço daquela energia. "Onde você está as coisas são mais lindas." Que as pessoas que conhecerem Dora em Ribeirão Preto captem seu brilho e amor, suas novas amigas "Isabelas", Luana, Julia... que vocês e suas famílias recebam Dora de coração e portas abertas, que as mães dessas meninas tratem minha filha como filha, quando ela estiver em suas casas. 
     Minha resistência transformou-se em desistência.
   

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Ferida Só Aumenta

  Pior do que não ver ou falar com Dora é não saber nada dela. É tê-la como lembrança, falar dela apenas no passado, como se tivesse morrido, perceber que ninguém pergunta mais dela, porque eu não terei o que responder. Não é apenas uma ferida que não cicatriza. É uma ferida que só aumenta e me destrói um pouco a cada dia. E não importa o quanto digam que isso vai terminar, que tem data certa para acabar, que Dora nunca irá me esquecer. Os longos 14 meses afastada judicialmente dela e que poderão procrastinar-se por não sei mais quanto tempo nunca serão esquecidos. Me impuseram esta dor há mais de 7 anos.
  Todos os dias são tristes, mas alguns são piores. Algumas vezes tenho pesadelos horríveis, como o desta noite, quando vi Dora desfazendo-se numa imagem etérea. Então acordo às 5h da manhã e não durmo mais. Sim, todos sofrem, alguns mais, outros menos, com intensidade diferente. Mas essa dor imposta e saber que minha filha está sofrendo e ter essa sensação de impotência sobre a minha vida e não fazer parte da vida da Dora, a pessoa que eu gerei... isso é uma tortura diária, que poucos, muito poucos conseguem suportar. Para desgraçar tudo de vez, sou do tipo que quando a coisa está mal, escuto aquelas  músicas tristes, para afundar de vez, tipo essa  http://youtu.be/pudOFG5X6uA
  Porque daí começo a achar a situação piegas, de uma breguice sem par. É uma dor tão grande que não cabe no peito e precisa ser extravasada de alguma forma. Como não sou adepta da luta armada, só posso me diluir em lágrimas. E haja lenços de papel. Ainda não sei como consigo trabalhar, cuidar da Miranda, duas gatas, duas cachorras, ter 5 projetos para realizar e ainda arrumar tempo para me amargurar e chorar. O que mais posso fazer para ocupar todo o meu tempo e parar de pensar na Dora? O que eu posso fazer para esquecer tudo isso e não deixar o ódio tomar conta de mim? Como não execrar o sistema judiciário, suas falhas, seu protecionismo e injustiças? Como, se vivo isso todos os dias e ainda encontro situações piores, mais cruéis, mais humilhantes? Como não desprezar pessoas como os membros da família Golfeto? Ah, o avô psiquiatra, que ainda me fez acreditar que poderia conversar com o guardião da Dora... só para ser mais humilhada por policiais, que chegaram junto com o guardião. A crueldade da família Golfeto é inacreditável. E com exceção de Jonas, todos são doutores! A avó Ed, a tia Raquel.Onde eu estava com a cabeça para me envolver com gente tão torpe? Quando eu poderia imaginar que aquele sujeito com cara de bonzinho era um torturador cruel, com traços claros de psicopatia?
  Não sei mais quanto tempo conseguirei viver essa vida que não é minha, nem esse mundo que não é meu. Se eu quisesse viver em fóruns, audiências, no meio de ações, processos, execuções e perícias, teria feito Direito. Não essa vida não é minha, essa não sou eu. Se a outra parte (vulgo Jonas Golfeto) acha o máximo viver assim (tanto que também processa as empresas TAM e Claro), sorte dele, que terá ainda mais 7 anos nesse litígio. Aliás, já que não tem nível superior, deveria fazer faculdade de Direito. Seria um excelente advogado de causa própria!

  Tento pensar nas coisas boas da vida: 

  Miranda, minha filha perfeita e que está todos os dias comigo. Laura, minha mãe, que com 77 anos também fica proibida de ver a neta, mas mesmo assim encontra forças e alegria para cuidar da Miranda quando viajo a trabalho. Meus inúmeros amigos, que ficaram comigo nos meus melhores momentos, mas também estão ao meu lado nas horas tristes. A música, que me basta quando não tenho forças ou palavras. O Santos F.C. que completará 100 anos amanhã. E a literatura, porque quando parece que vou explodir, escrevo sobre petardos ou pétalas e isso me alivia muito.
  Tantos bons momentos, mas são tão pequenos perto desta dor que eu sinto. Não é só saudade, é muito mais. Saudade eu tenho das pessoas que morreram e não vou poder ver mais. O que sinto é pior! É não saber, é ficar ignorante de tudo. É cruel e isso precisa ter fim. Nem que seja daqui 7 anos, 7 meses e 27 dias, quando Dora deixará de ser menor e passará a ser gente. Então vou querer ver de que forma a família irá nos impedir. Quais serão os meios ardilosos usados para nos separar quando ela tiver 18 anos? O que eu farei para viver com essa ferida dilacerando o meu peito?

quinta-feira, 22 de março de 2012

A comoção causada por Renata Câmara Agondi


   Quando espalhou-se a notícia sobre a mudança de uma nadadora do Clube Fluminense (RJ)  para o Clube de Regatas Saldanha da Gama, foi criada certa expectativa nas equipes santistas. A garota tinha uns 17 anos e além de boa atleta, era linda, bronzeada, tinha olhos azuis na piscina e verdes no mar. E o sorriso ficava ainda mais perfeito por conta da simpatia. E também tinha um certo charme carioca ao falar. Renata era tão legal que dava atenção para todo mundo, até para mim, uma pirralha de 12 anos, que nadava em outro clube, o Vasco da Gama.

   Por essas irrefutáveis voltas que o planeta dá, passamos a treinar juntas a partir de 1986, no Internacional de Regatas. Então tive o privilégio de conhecer melhor a pessoa e a nadadora Renata, de dividir a raia nos treinos, nos revezamentos, o chuveiro no vestiário, as músicas dos Beatles. A presença dela era sempre querida e aguardada. Como nadadora era determinada, eficiente e muito resistente. Tanto que foi se especializando em águas abertas, começou a nadar no mar, logo teve destaque nacional e partiu para provas no exterior. Em seguida Renata foi treinar no Santa Cecília, onde já fazia faculdade. E eu parei de nadar aos 17 anos, quando entrei na faculdade. A última vez que nos vimos foi numa competição no Inter, afinal eu havia saído da natação, mas a natação não saiu de mim. Fui torcer pelos amigos que ainda treinavam e matar a saudade do cheiro de cloro e pés molhados.
    Linda como sempre contou-me as novidades, entre elas que iria fazer o Canal da Mancha e tentaria quebrar o recorde mundial. Ainda me recomendou que voltasse a nadar, que era muito nova para parar. Mas eu tinha me convencido de que não valia mais contar tanto azulejo sem melhorar a performance, estava cansada do mesmo sempre. Daí falou com muito entusiasmo dos treinos e competições em mar aberto, que precisa ter mais resistência e quanto mais velhos, mais resistentes ficamos e menos explosivos. Também contou do inesperado das provas, que dependia de condicões climáticas. Alguns meses depois, em agosto de 1988, ela embarcava para a Europa, para mais uma grande conquista.

   Há duas semanas fiz um treininho de mar aberto com uma turma de nadadores masters, fomos de barco até a Ilha das Palmas (Santos), nadamos de lá até uma prainha. Confesso que tive de deitar na areia quentinha porque a água gelada deixou meu corpo formigando e meus braços travaram de ficar inchados. Quase não consegui voltar, mas precisava manter minha dignidade e chegar logo, afinal Miranda, minha filhinha, estava na Ilha me esperando! A sensação de missão cumprida, mesmo arrasada, é indescritível. O cansaço muscular é o melhor relaxante.
   Como adoro turismo esportivo, aproveitei para passar o dia na Ilha, tão linda e cheia de opções. Boa parte dos nadadores fez o mesmo e, ao entardecer, esperávamos na lanchonete a próxima barca, olhando navios que passavam iluminados num mar alaranjado. Então alguém falou de Renata Agondi, alguém que não chegou a conhecê-la, mas conheceu sua história. Ela perdeu a vida há quase 24 anos, quando tentava atravessar o Canal da Mancha, e é lembrada e admirada por pessoas que não chegaram a conhecê-la.

     Na última terça-feira estava em São Paulo, voltando de uma reunião, com os jornalistas Norian Segatto e Flavio Prado. Apesar do esporte dominante nos nossos papos ser o futebol, o assunto no carro era natação, por conta do tal treino no mar que eu tinha feito. Passávamos em frente à TV Bandeirantes e neste momento Flavio lembrou da matéria que fez com a nadadora Renata Agondi, poucos dias antes dela viajar, foi até Santos e a acompanhou no treino. Como prefere futebol a qualquer esporte não tinha tanta vontade de fazer, mas como repórter competente fez e da melhor maneira. Contou que já gostou quando a viu, porque era linda e simpática. Depois, tão bacana, comunicativa e simples também.
    Nos impressionamos como faz tempo que isso aconteceu. Eu me lembrava perfeitamente de como fiquei sabendo pela TV da morte da ex-companheira de equipe, quando esperava ouvir sobre seu recorde! Ele também lembrava. Ficou muito chocado e fez uma matéria em homenagem logo depois. E eu fiquei impressionada como em tão curto espaço de tempo a lembrança da Renata se fez tão presente.

   A comoção que causa o final trágico desta nadadora não é só porque foi tão jovem, era tão linda, carismática e talentosa. Quantas vidas não terminam assim? Mas Renata perdeu a vida fazendo o que mais gostava e para o que estava mais preparada. A causa foi hipotermia, mas o que levou a essa causa, ninguém saberá. Não importa. O que importa é que a passagem meteórica de Renata na vida das pessoas foi marcante. Ela era realmente muito impactante. Fico tão emocionada por saber que continua inspirando jovens e antigos nadadores, é exemplo não só de determinação e coragem, mas de respeito. Temos que respeitar limites, quando impostos pela natureza. Nem o nadador mais experiente ou  mais rápido pode vencer a água. Só temos que vencer o tempo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Nova Opressão Feminina

   Ainda não tenho opinião formada sobre o Dia Internacional da Mulher. O que não é ruim, pois quando eu tiver opinião formada sobre tudo, me aposento! Só sei que não existe Dia Internacional do Homem (tudo bem, sei que eles também comemoram o Dia das Crianças). Brincadeiras e feminismos de lado, o dia 8 de março para mim sempre significou o aniversário de dona Dora, mãe da grande amiga Beth Yumoto, e que inspirou o nome da minha primogênita.
   Sim, nos últimos 100 anos a mulher "ganhou" o direito de votar, de trabalhar, ter ou não filhos, ter independência financeira, sexual, individual. E o que ganhamos de fato? Dupla jornada de trabalho (a minha é tripla), salários menores do que homens, ainda que ocupando o mesmo cargo. De tudo que tenho passado e aprendido no último ano, com tantas mulheres que conheci por também estarem afastadas de seus filhos, cheguei numa conclusão que não é minha, mas de uma cientista social de Brasília: tirar a guarda dos filhos é a nova forma de opressão feminina.
  Resumindo a ópera: quando uma mulher não quer mais o relacionamento, prefere ficar sozinha com o filho a aturar uma relação fracassada, entediante e ociosa. A mulher pula fora mesmo, com coragem e muita disposição. Daí tem homens que não se conformam em serem trocados por nada, talvez fosse mais fácil aceitar um novo amor na vida da ex do que constatar que ela prefere ficar só do que mal acompanhada. Não há mais como prender essa mulher financeiramente (muitas vezes é essa mesma mulher que sustenta o homem), não há como escravizá-la no lar ou sexualmente. O que resta então? Tirar-lhes os filhos! Nenhuma mulher está preparada para isto, não há sofrimento maior do que ser judicialmente afastada do filho, ser proibida de ver o filho, tocar, abraçar, sentir, acompanhar o desenvolvimento e todas as suas fases. Acho até que é  pior do que a morte, pois com ela você é obrigado a conformar-se. Com a injustiça, não! É a forma mais torpe de vingança. E nesses casos a criança sempre fica aos cuidados de outra mulher.
    Na primeira vez Dora era cuidada pela madrasta e babá, agora é cuidada pela avó, empregada e tia, talvez uma nova madrasta também, não sei, talvez passe anos sem saber. Claro que existem exceções, que só confirmam a regra.
   
  Uma outra mulher incrível, Marília Campos, fundadora da Associação Síndrome do Amor, em Ribeirão Preto, fez uma colocação muito relevante: "as mulheres conseguem passar por tragédias pessoais sem perder a leveza e o poder de amar". Os homens se entregam mais fácil, ficam mais amargos. Eu continuo leve e sigo amando. E acredito numa revolução feminista na criação dos filhos machos. Como tenho amigos de várias idades, etnias e crenças, percebo que os mais jovens estão cada vez mais abertos e do lado das mulheres. Talvez por já terem sido criados apenas por mulheres! Quando digo jovens, quero dizer adolescentes mesmo ou recém-saídos desta fase. Claro que também tenho amigos de vanguarda com o mesmo pensamento igualitário (como os jornalistas Norian Segatto e Sérgio Duran, entre outros que posso pecar por não citar). Geralmente homens que adoram mulheres prezam a igualdade. Não é uma questão sexista, mas humanitária. Há diferenças entre homens e mulheres e não podemos ignorá-las. Fisicamente o homem é mais forte e rápido. Se pegarmos o homem e a mulher mais rápidos do mundo, na terra ou na água, o homem vence fácil. O mesmo em esportes coletivos. Dá para negar isto?
  Agora em se tratando de intectualidade e sensibilidade, podemos todos ser iguais, sim. E acredito que um mundo feito de pessoas mais intelectuais e sensíveis, certamente será um mundo melhor, onde o feminismo não existirá, pois não será mais necessário. Talvez eu nem esteja viva para ver isso, mas minhas filhas poderão estar. E viva a revolução!
  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Futebol e Eu


    Nasci na Santa Casa de Santos, sábado de Sol, no dia 20 de junho de 1970, um dia antes do Brasil ser tricampeão na Copa do México. Diz a lenda que médicos e enfermeiras só falavam no jogo. Deram anestesia geral na minha mãe, Laura, porque eu era a primeira (e única) filha e no mês seguinte ela completaria 35 anos. Mesmo com pressão normal, acharam que era gravidez de risco, por conta da idade. Meu pai, Abel, apesar de português, torcia como o mais fanático tupiniquim para essa Seleção de estrelas.      
     O bebezinho ficou ali, no meio da torcida do Hospital. No dia da final também, fiquei lá ouvindo gritos e fogos, isso deve ter ficado no meu inconsciente. Não consigo assistir nada sem torcer. Se ligar a TV e estiver passando um jogo Kosovo e Antuérpia, vou acabar torcendo para algum e isso em qualquer esporte. Também nasci perto da Vila Belmiro e na época Pelé era ídolo mundial, mas era na minha praia que ele jogava! Mesmo assim nunca tive um time definido.
    Confesso que em 1977 quase virei corinthiana, porque queria ser do contra e não achava que deveria torcer para o Santos “só” porque nasci na cidade e porque Pelé jogava lá, oras. Então decidi que torceria para o campeão paulista daquele ano. E não é que o Corinthians, após amargar 23 anos sem título, vence o campeonato? Mas não adianta, meu coração não é corinthiano... sou santista da gema, fazer o que?
   Sempre adorei esportes, praticar, torcer, vibrar, gritar! Acabei virando nadadora porque meu pai foi nadador, mas acabei me apaixonando por natação (e por nadadores) e, com minha baixa estatura, não dava para ser outra coisa, não.  
   Na Copa de 1982, entendi a paixão nacional. Tinha 12 anos e cada jogo aumentava a torcida, assistia sempre com a turma da natação, no Clube de Regatas Vasco da Gama ou na casa de alguém com mãe que não se importava de alimentar com lanchinhos gigantes uma equipe de nadadores famintos. O último jogo, que eliminou o Brasil, foi na casa das irmãs Rosana e Renatinha. Dona Therezinha era mesmo uma santa!    
   Comecei a entender um pouco mais de futebol, virei fã de Sócrates e Zico. Quando fomos eliminados até chorei, até hoje não sei se porque achei injusto aquele time não ser campeão ou porque não teria mais a torcida com a galera da natação. Restava voltar a torcer nas piscinas... 
   E então Serginho Chulapa começa a jogar no Santos e assim me defini como torcedora santista. Para completar minha saga com o Peixe, fiquei amiga de Fábio Diegues e parte da turma da Sangue Jovem, no começo dos anos 90, reunia-se na casa do Fábio, antes dos jogos na Vila. Fui totalmente contaminada. Na mesma época me apaixonei por um fanático por futebol, um certo chileno corinthiano. E para poder discutir com propriedade até aprendi o que era impedimento! Sim, Chico, saiba que você é responsável por eu saber mais sobre futebol. Eu queria impressionar, sendo uma garota que entedia de futebol.
   Na Copa de 94 eu morava em São Paulo, num apartamento decadente apelidado de Bronx (esse é um post à parte), no bairro do Paraíso. Dividia com uma amiga, que tinha um namorado santista tão fanático que seu apelido virou um sobrenome: Marco Bola. Todos os jogos eram assistidos neste apartamento, com a presença de todos os ilustres ex-moradores, a maioria santista. E já que brasileiro é um povo supersticioso mesmo, Bola fez até um altar para o Romário, que ficou na sala até a final, e em cada jogo, cada um levava uma nova mandinga. E no dia da decisão dramática por penaltis muitas lágrimas rolaram nas faces de Tiko (Rocha) e Daltão (Vighi), tenho tudo gravado!!! E o resto é história.
   Isso me ajudou muito na minha meteórica passagem na TV Tribuna, de Santos. Como repórter fazia matérias sobre os Meninos da Vila, uma safra que começou a ser a renovação do Peixe, com Giovane, Jameli e Gallo, entre outros craques. E minha primeira filha nasceu em 2002, ano em que o Santos F.C., já com Robinho e Diego, foi campeão brasileiro e a Seleção pentacampeã!
  Coincidência ou não voltei a morar em Santos na Era Neymar - sim, ele finalmente encerrou a Era Pelé e iniciou sua própria Era. Para completar estou escrevendo sobre Djalma Santos, o melhor lateral direita que este País já teve e um dos homens mais admiráveis que já conheci. Tenho visto e revisto jogos e jogadas das Copas de 54, 58, 62 e 66. E cada vez gosto mais desse universo, que mudou muito, muito mesmo.
   Hoje é aniversário de Djalma, já liguei para parabenizá-lo pelos seus 83 anos. Ele agradeceu muito a minha lembrança, mas quem tem deve agradecer sou eu, por ter a oportunidade de compartilhar o que foi e o que continua sendo essa vida incrível, cheia de lições, aventuras, tristezas e muitas alegrias. 
   E vejo que Neymar, um craque de 19 anos, já é um milionário, com herança para séculos de descendentes. E vejo Djalma, com 83 anos, levando uma vida digna, porém modesta, por tudo que é e representa para o futebol mundial.  Um homem que tem uma Fundação com seu nome e corre atrás de patrocínio para uniforme e chuteiras para seus discípulos. Que ainda faz propagandas para aumentar sua renda e poder pagar o plano de saúde. Às vezes penso que somos a pessoa certa, mas na época errada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

E Mais Um Boletim de Ocorrência Contra Mim

    E então, no último dia 10, quando completou um ano que não vejo ou falo com Dora, liguei mais uma vez e o avô atendeu. Entre outras me disse que duas vezes (!) perguntou se Dora queria falar comigo ao telefone, mas ela não quis. Que não fala mais da irmã, que está muito apegada ao pai e tia. Novamente disse que não manda nada, quem manda é Jonas, que o advogado disse para ele não se meter. E que Jonas está montando apartamento para morar com Dora e a futura esposa (pobre mulher).
    Disse ainda não agüentar mais esse martírio e teme que Dora, daqui uns anos, fuja de casa, como aconteceu com uma paciente dele, que não aguentou a briga entre os pais e fugiu aos 12 anos e só voltou aos 16. Verdade, não sei? Mas detesto omissão e, neste caso, José Hércules Golfeto está sendo tremendamente omisso. Enquanto psiquiatra infantil sabe o risco que Dora está correndo e até me dá exemplos. Como pai de Jonas, concorda com tudo o que ele faz! Quanta insanidade! E a louca sou eu?
    O avô ainda insistiu para que eu conversasse com Jonas. “Aproveita e fala com ele hoje”. Então fui até a residência dos Golfetos.  Ao invés de ficar esperando na calçada a chegada ou saída de alguém, toquei a campainha. Creio que quem atendeu foi Lourdes, a empregada, uma mulher gentil, a única que me trata com alguma dignidade naquela casa. Mas quando disse que era eu, mãe de Dora. Nada.
    Volto a tocar, ela diz que Jonas já vem. Aguardo embaixo de uma árvore, enquanto converso com um guarda do bairro, sobre o tempo, a cidade e da minha espera para ver minha filha que foi arrancada de mim há um ano, para lhe entregar o livro de aniversário do ano passado e o convite para o aniversário de Miranda, a irmã, nesta semana.  Cinco minutos depois chega Jonas Golfeto, o ator/mentado. E chega dentro de uma viatura, com dois policiais militares e uma pilha de papéis nas mãos. Era o processo! Ele pensa que é Kafka*.
    Pega o celular e liga alucinadamente para advogados. Os policiais chegam para falar comigo. Dizem que estou impedida judicialmente de visitar minha filha. Respondo que só quero vê-la, ver o quanto cresceu, como está seu cabelo e queria entregar o livro e o convite, estendido para toda família. Depois chega mais uma viatura com mais dois policiais. Puxa, acho mesmo que vou mudar para cá. Não deve haver crimes nas ruas, para duas viaturas serem disponibilizadas para este tipo de ocorrência.
     Jonas não falou comigo, tentei conversar, disse que foi sugestão do pai dele. Sou uma jornalista idiota, ainda acreditar na mudança de comportamento alheio. No  fim só queria mesmo que eu me humilhasse mais um pouquinho.
    Já estava sentada na calçada sendo corroída pelas lágrimas e ainda tive vontade de me ajoelhar, implorar... adiantaria? Acho que falta um pouco de culhões para esse sujeito, além de caráter e maturidade. Já queria ir direto para o Fórum anexar mais este BO. Disse ainda que só quero atormentar minha filha emocionalmente. Curioso, não falar com a mãe, irmã, qualquer pessoa de seu convívio não é um tormento? Falar com a mãe é?
    Ao contrário de mim, que tenho tanto o fazer neste vasto mundo que precisa de mais humanidade e menos burocracia, parece que Jonas leva uma vida tão sem sentido, que faz desse processo sua razão de viver. E quando Dora completar 18? O que ele fará da vida quando não tiver que processar, ir em fóruns, contratar advogados, remexer em ações?
    Será que agora será um mar de BOs com minha estadia aqui em Ribeirão Preto? Talvez ele peça até uma ordem de restrição, creio que tudo é planejado. Mas eu posso ficar na rua esperando Dora chegar ou sair, sem tocar campainha, sem incomodar, só para vê-la.  Sempre que venho para cá meu sofrimento aumenta, pois estou tão perto de Dora e não posso vê-la ou abraçá-la.
    A coisa boa é que estou com Paola Miorim e suas duas filhas encantadoras. Uma tem a idade d e Dora e certamente seriam grandes amigas. Paola, que já ligou para Jonas, só para entregar para Dora algumas coisas dela, que eu trouxe em maio, é doce, meiga, sensata e gentil, além de linda. Pois o genitor de Dora não quis conversa com ela, desligou o telefone na cara da minha querida amiga. Perdeu em não conhecê-la. Por outro lado foi sorte da Paola, uma pessoa leve demais para tanta perversidade.
   Queria ser mais malvada. Mas o máximo que consigo em malvadeza é ser irônica, o que chega a ser engraçado. No meio das minhas lágrimas com o policial militar, que utilizou seus conhecimentos de psicologia comigo, falei sobre minhas dúvidas quanto a masculinidade de Jonas,  essa falta de coragem de falar comigo. Ele riu e riu muito. “Desculpe, sei que o momento não é para riso, mas é muito engraçado”.
    Sim, o melhor não é rir depois que tudo isso passar, pois posso ficar 8 anos sem rir. Tenho que rir enquanto acontece.

* Franz Kafka, autor de O Processo (1925), entre outras obras-primas da ficção. Na minha singela opinião, um gênio!