quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Em que Dimensão eu Tenho Visitas com Dora?

   Não tenho escrito mais sobre o processo porque desde que o atual juiz - o quarto desde que a outra parte entrou com a ação de Regularização de Visitas com Suspensão das Mesmas - esperei que algo se resolvesse. Em junho esse juiz sentenciou que as visitas, acordadas em agosto  de 2011, com supervisão de uma psicóloga escolhida pela outra parte, se iniciassem "o quanto antes!" Nunca se iniciaram. Apenas em agosto a outra parte me enviou um email para entrar em contato com Fabíola Januário Martins. Liguei, ela disse que me retornaria após o feriado de 7 de setembro. Até agora nada. Escrevi para a outra parte, mais uma enrolação. 
   Estive em Ribeirão Preto no dia 23 de agosto distribuindo uma ação pedindo visitas para Miranda, no feriado de 7 setembro. Obviamenet, não esperava mais resultado disto, não para o 7 de setembro deste ano. Estive mais duas vezes em Ribeirão Preto, em setembro. Numa delas com Miranda, consegui falar com o juiz, até cair em prantos quando Miranda pediu para ver Dorinha. Ela pensava que iria ver a irmã, estava entendendo tudo o tempo todo!
    No dia 28 de setembro voltei para Ribeirão Preto. Tentei ver o processo, mas estava com o juiz, para "conclusos". Esperei, tinha que seguir viagem para Uberaba. O juiz mandou um recado que na segunda me daria uma resposta. Na segunda, dia 1 de outubro. Eleições, folga nesta segunda, ligo no cartório, ligo de novo. Houve uma conclusão, está no site. Com o coração aos pulos fui ver o que o juiz decidiu: será que hoje poderei ver minha filha por skype? Será que minha mãe poderá vê-la neste feriado? Será que o juiz deu alguma resposta sobre a ação de alienação parental que eu dei entrada há 14 meses? Não! Essa foi a sentença dele: 

A presente ação cautelar foi promovida pela menor Miranda Mendes, representada por sua mãe Adriana de Carvalho Mendes, contra Jonas Melo Golfeto, para poder visitar a irmã Dora Mendes Golfeto, também absolutamente incapaz, que está sob a guarda do requerido. Pretendia que lhe fosse assegurado direito de visitas no dia 7 de setembro, para que passassem juntas o feriados em Santos, onde mora a requerente, e acompanhadas da avó materna. Entretanto, os autos somente foram apensados aos de regulamentação de visitas no dia 11 de setembro, como vista aberta ao representante do Ministério Público no dia seguinte, quando, pois, a ação já estava prejudicada. Vieram-me os autos à conclusão no último dia 21. Esta ação, portanto, já perdeu seu objeto. E, de toda maneira, cabe notar que a cautelar não poderia ter caráter satisfativo, e nem ser tratadas as visitas de forma assim casuística, se a representante legal da requerente é que, naturalmente, exerceria também o direito de visitas à filha Dora, e se no caso há conflito intenso de Adriana com Jonas, na ação de regulamentação de visitas que a primeira propôs, e onde já há regulamentação provisória, que não poderia ser alterada assim de plano e de forma exaustiva, não podendo a genitora querer que aquele direito de visitas provisoriamente ajustado tenha alcance maior ou seja de súbito modificado, ainda que agora se valendo da irmã da criança, Miranda, pois é óbvio que quando a mãe exercer as visitas à filha Dora já estará sendo indiretamente assegurado tal direito à irmã Miranda, requerente desta ação. Sendo assim, com base no art. 267, VI, do CPC, julgo extinta a ação, sem resolução de seu mérito, determinando a remessa dos autos ao arquivo, conquanto à requerente são deferidos os benefícios da assistência judiciária gratuita. P. R. I. C.
 
  Ora, mas isso era óbvio! Eu não esperava mais nada sobre visita de Miranda! Era uma liminar urgente em agosto, se ele  não deu resposta até 7 de setembro, não precisava mais. Para piorar ainda tira um sarro da minha cara, diz que já há uma regularização provisória! Em que dimensão isso acontece? Em que planeta eu visito Dora? E ainda diz que a regulamentação de visitas foi proposta por mim! Ora, em que momento eu pedi regularização de visitas com suspensão das mesmas? Dá para ler a inical para ver quem é o requerente e o requerido? 
  Dá para imaginar a dor que eu sinto cada vez que vou até a cidade em quem minha filha está apreendida? O quanto dói não poder vê-la, pois se tentar na casa chamam a policia, se for na escola, estarei expondo-a. Dá para entender como se sente uma mãe há exatos 20 meses proibida de abraçar sua filha? Ela cresceu dentro de mim, alimentou-se no meu seio...  
   É possível dimensionar o tamanho da minha indignação com esse resultado? A verdade é que não vou fazer mais nenhum movimento. A família Golfeto venceu, parabéns, conseguiram deixar uma criança órfã de mãe viva, com toda a ajuda do judiciário. Conseguiram separar duas irmãs na infância, para evitar sentimentos maiores. Dorinha, sempre vou te amar, quando você crescer e puder sozinha procurar por sua mamãe, estarei logo ali, no primeiro clique. E farei de tudo para Miranda nunca te esquecer, porque se acontecer uma tragédia maior comigo nesse tempo, ela poderá te contar a mãe incrível que eu fui.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Essência Impregnada

    Comecei a arrumar gavetas e caixas de Dora. Há mais de 20 meses está tudo intocado, o quarto tem movimento porque dormem hóspedes, passeiam gatos e os brinquedos e roupas de Miranda estão guardados lá. Mas nem as duas caixas de Barbies são muito usadas. Miranda prefere bebês e bichinhos de pelúcia. Tem vezes que abre as gavetas da irmã desaparecida, escolhe alguns vestidos e os veste. Não é que muitos deles já servem nela? Como é grande essa Miranda! Roda sorridente com os vestidos de Dorinha, mas começo com espirros descontrolados, devido às inúmeras alergias desenvolvidas desde que perdi minha filha mais velha. É imensurável a dor de nunca mais ver quem você gerou, pariu, amamentou e por 9 anos viu crescer... é o oco do vazio ver as roupas e imaginar de que tamanho estaria agora essa criança. Dói tão dilasceradamente que o corpo só pode reagir com aversão.

    Parece o relato da mãe de um filho que morreu, eu sei. Também sei que minha filha está viva (ao menos não fui comunicada do contrário), mas não fazemos mais parte uma da vida da outra desde que Dora foi apreendida, na busca feita em sua escola, no dia 10 de fevereiro de 2011. Minha filha foi apreendida e levada e ponto. Impedida de ver sua mãe, sua irmã, seus amigos. Impedida de usar suas roupas, brincar com seus brinquedos, expressar seus sentimentos e suas vontades. Isso não é um tipo de morte? Isso não é um assassinato? O que fazem com Dora é muito pior do que fazem comigo. Continuo sendo mãe. Ela perdeu a mãe. E também a irmã, a mesma que agora dança com suas roupas e folheia os seus livros. Há 20 meses Dora parou de ver Miranda crescer. Nem imagino quando se encontrarão de novo. Tão pouco a surpresa de ambas, ao perceberem o quanto estão mudadas. Posso ter uma leve ideia pelo que aconteceu ontem, quando Miranda viu a capa do DVD Harry Potter e a Ordem da Fênix. Me perguntou porquê os três estavam tão estranhos, expliquei que cresceram. "Será que Dorinha também vai estar assim?"
    Como se já não bastassem as tristezas e dramas inevitáveis da vida, me obrigam a suportar o absurdo de ter duas filhas proibidas de conviver, de brincar, de amar! Irmãs proibidas de crescerem juntas! Quem deveria defender os direitos das crianças? Realmente não sei o que acontece, não entendo o tempo, a demora... será que os profissionais de Vara de Família ainda não entenderam que as crianças crescem? Será que não entendem que o magistrado não nos faz favores? São todos funcionários públicos! Para quem Miranda e Dora irão reclamar quando souberem que foram impedidas de viver juntas? De participar da festa de aniversário uma da outra? Ou fazer a festa juntas, já ambas nasceram em fevereiro, com 7 dias de diferença.
    Entre minha indignação, misturada com revolta, torturada de saudade... encontro um caderno que Dora me deu, no nosso último Dia das Mães, em maio de 2010. A cada página um desenho mais lindo e colorido, com mensagens e declarações de amor, entre elas, uma que me fez chorar aos soluços: "Mamãe, você me dá tudo o que eu preciso: amor, carinho, aconchego, proteção e é por isso que te amo tanto". Também encontrei uma redação, O Cão Herói, onde conta, como uma repórter, a história de um destemido cão, que salvou 14 pessoas numa enchente na cidade de São Paulo, com datas, endereços e nomes. Então passei do choro ao riso, pensando na minha influência sobre a cria. Dora sempre gostou de escrever e fazer perguntas e sempre me viu resgatando animais abandonados. A verdade é que atos ficam muito mais impregnados do que palavras.
    No meio dos cadernos da escola de Dora caiu um cartão postal. Era de Gramado (RS), datava de 7 de julho de 1991. "Adriana, estou aqui em Gramado fazendo um curso. Tem pessoas elegantes, cultas e está tudo super interessante. Estou bebendo muito vinho. Faz frio. Saudades de você e de seus pais. Beijos para você e para a dona Laura. Do amigo, Gustavo Liedtke". A amizade com essa pessoa gentil, amável, inteligente e muito espirituosa começou em Ribeirão Preto. Nos conhecemos na faculdade Unaerp, em 1989. Adolescentes que dividiam o tempo entre estudos, inclusive da língua alemã, saídas, viagens e festas. Engraçado era quando nos chamavam de herdeiros, porque nos consideravam muito ricos.
    Nesses mais de 20 anos sempre tivemos notícias um do outro, mesmo quando esse criativo publicitário foi morar na China. Gustavo chegou a conhecer Dora quando ainda era bebê. Depois, com tudo isso que virou minha vida, nos perdemos um pouco. Por essas maravilhosas coincidências do destino, nos reaproximamos mais do que nunca no ano passado, no que posso chamar de a pior fase da minha vida. O humor sarcástico dele em muitos momentos me tirou das lágrimas. O pai dele também faleceu em consequência do Alzheimer, por isso soube exatamente o que me dizer quando o meu se foi. Gustavo trabalha hoje numa importadora de vinhos e continua bebendo com maestria, tornando o hábito, uma arte. O que tenho aprendido com ele sobre enologia é para uma futura tese.
     O que mais me emocionou neste cartão é perceber que a nossa essência continua a mesma. Quanta gentileza, carinho e amizade estão contidos nele. A delicadeza de lembrar-se de meus pais. O comentário sobre a elegância e cultura das pessoas. Assim, também a essência de Dora está impregnada nela, sua generosidade, gratidão, amor, bondade. Por mais que 20 anos se passem.
    
   

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Viver Não é Preciso"



   Há pouco mais de um mês voltei a nadar. O primeiro dia foi muito difícil, as pernas não batiam na velocidade que meu cérebro ordenava, os braços não puxavam a água e não lembrava como respirar em três tempos. Mas no terceiro dia o “professor” já veio perguntar se eu era nadadora, se competia... afinal, por pior que estejam as braçadas de um nadador aposentado, dá para saber quem nadou desde criancinha. Quando respondi sim a todas suas perguntas, me chamou para treinar com o pessoal de “águas abertas”, na Unimes, de Santos. Na mesma Unimes Dora fazia nado sincronizado. Eu levava Dora para o treino e Miranda ficava no carrinho dormindo, com meses de vida. Na época imaginava o dia em que Dora estaria na piscina de Saltos Ornamentais, onde treinava nado, Miranda na aula infantil de natação e eu dando umas braçadas com os adultos. 
   Meu desejo de praticar esporte junto às filhas atletas concretizou-se em parte. Levei Miranda para fazer uma aula experimental. Não só ela adorou, jogando-se na piscina destemidamente, como chorou quando a aula terminou, após 50 minutos de movimentos ininterruptos. Miranda tem DNA aquático, mas com tendência forte para a dança, o esporte/arte.
   Ainda não consegui nadar cinco vezes por semana, como é meu objetivo, mas passado um mês já consigo sentir meus braços como remos e minhas pernas já estão bem mais fortes e rápidas. Fico tão cansada que durmo junto com Miranda às 21h, mesmo se deixo luzes e computador ligados. É o melhor cansaço que existe: o do exercício físico. É tão bom fazer algo que te lembra quem você é. Natação é um esporte solitário e silencioso, em que o nadador só depende dele mesmo, ouve apenas os sons de suas braçadas e bolhas na piscina. Apesar de solidariedade ser fundamental na vida, é bom não esperar nada de ninguém e ser capaz de fazer todo o possível sozinho.
   Enquanto eu nado penso na solução de problemas, lembro dos tantos momentos que só aconteceram porque eu era nadadora, todos os amigos que tenho comigo até hoje. * “Nadar é preciso, viver não é preciso”. A primeira vez que fiz uma análise profunda desta frase foi aos 15 anos. Estava numa rede, balançando com o jovem ator Alexandre Corrêa, hoje Borges, do grupo Boi Voador. Com 19 anos, o lindo, talentoso, sensível e promissor artista lia um texto compenetradamente, enquanto me questionava sobre a profundidade da frase. Na minha visão simplista queria dizer que a vida não é precisa, não há precisão nenhuma na vida. Na navegação, sim. Como eu treinava muito naquela época, logo fiz uma analogia com a natação, esporte totalmente preciso e técnico. “Nadar é preciso, viver não é preciso”.
   Alê não queria apenas "declamar" a frase com voz potente, queria transmitir o significado daquilo. Vivia um tempo de muitas dúvidas, como quase todo adolescente, sua única certeza era que fazia exatamente o que deveria fazer: atuava. Também sentiu que “atuar é preciso, viver não é preciso”. 

   O primeiro contato com uma família muito singular e especial aconteceu em 1985. Estava no primeiro colegial e uma das minha melhores amigas de escola era Geórgia. No segundo ano tinha um garoto muito lindo e carismático, que tocava violão e cantava as músicas do Legião Urbana, falei que gostaria muito de conhecer o André, que para minha surpresa era irmão de Geórgia. Logo ela disse que ele era minha cara e nos tornaríamos amigos, mas que eu precisava conhecer o seu outro irmão, também ator, que morava em São Paulo. Realmente André se tornou um companheiro de vida, com algumas ausências por nossas agendas complexas, mas sempre presente. E, obviamente, adorei Alexandre. 
   Aos poucos fui conhecendo toda a família. O pai deles era diretor de teatro, o santista Tanah Corrêa. Alê era filho único de seu primeiro casamento. André, Geórgia e Kênia eram filhos dele com Elza Piacentini, uma mulher muito sábia, que me acolhia em sua casa como membro da família. No começo era confuso, porque o pai (Tanah) estava no quarto casamento, tinha outras filhas e eram todos irmãos, mesmo que nem tivessem mais o mesmo DNA. Como Janaína, que era irmã dos irmãos de Alexandre, mas coberta de mimos como sua caçulinha. Minha mãe achava tudo muito estranho, mas antes que soltasse alguma pérola preconceituosa sobre a família de artistas, lembrei-lhe que namorou Plínio Marcos, o mais maldito dos malditos, quando o mesmo ainda estava no circo. Mas ela nunca falou nada, ao contrário, quanto mais conhecia os irmãos, mais gostava de todos.
   Alê era fã de Elvis, e sempre que estava na casa da Elza, nas suas folgas de ensaio, dançava comigo Love Me Tender, com cara de galã e jeito de menino. Me sentia uma garota muito especial, por conhecer uma família tão grande, tão cheia de referências, tão amorosa, em que todos se respeitavam tanto. Alexandre me convenceu a fazer curso de teatro “porque eu tinha uma bela voz, rosto expressivo e cinematográfico”. Confesso que adorei o curso com Walderez de Barros, mas nadar, encenar, fazer computação e inglês fez com que minhas notas caíssem e meu pai falou para eu parar com alguma coisa. Larguei o teatro (mas o teatro nunca me largou). Continuei precisando da natação, a única coisa precisa em minha vida.
   Fui ver muitas das peças dos irmãos atores. André por um tempo tentou deixar a carreira, fez publicidade, mas o ofício nunca deixou dele, por incrível que pareça, era a atuação que lhe pagava as contas! André não poderia negar o próprio talento, seria blasflêmia! O sonho de Alexandre era fazer cinema, nunca o ouvi falando de atuar em TV, não naquela época, mas cinema era sua grande paixão... até que um dia ele estreou em Terra Estrangeira*. E com que satisfação assisti Alê engrandecendo um papel pequeno (o contraventor Miguel) com seu talento, carisma e um tanto de disciplina. Já como jornalista o entrevistei algumas vezes, percebendo que o estrelato em nada alterou sua sensibilidade e respeito aos outros. Ele sempre teve brilho próprio, portanto sempre foi uma estrela. Trabalhar no que ama, ser reconhecido por seu trabalho é uma das maiores satisfações que se pode ter na vida. Fico tão feliz em acompanhar a trajetória de dedicação, trabalho e sucesso de tantas pessoas. Uma famílias tão grande, com tantas separações e novas uniões, mas mantendo sempre o foco no mais importante: ser e fazer feliz.

* A frase Navegar é preciso, viver não é preciso tornou-se famosa como citação do escritor português Fernando Pessoa, mas a afirmação foi do general romano Pompeu, em 70 A.C. Há muitas análises para essa frase, subjetivamente também pode considerar a navegação como descoberta, portanto jogar-se na vida seria preciso. Viver por viver, não. Filosofia para horas e dias...

* Terra Estrangeira (1995). Primeiro filme dirigido pela dupla Walter Salles e Daniela Thomas, um dos meus longas favoritos, não só por ser esteticamente e de roteiro perfeitos, mas porque representou a retomada do cinema nacional após a Era Collor. É um "documentário" sobre a juventude da época.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ela Nunca Mais Viu o Mar

    Assim que soube estar grávida fui ver qual hospital fazia parto na água. Apesar de desejar o parto em Santos, já estava até me conformando em ter uma filha paulistana, quando tive a placenta prévia, com 37 dias de gestação. Minha obstetra, Rosa Maria Neme, como toda boa médica, estava otimista, porém pragmática. "Esqueça parto na água, esqueça parto normal. Se você conseguir chegar ao sexto mês sem perder o bebê, será cesárea." E Dora, com todos os cuidados médicos, de amigos, de minha prima Keila, que ficou comigo nos últimos 3 meses, nasceu linda e saudável, aos 9 meses.
    Dora foi conhecer o mar com 4 meses. Amou e demonstrou com o entusiasmo que sempre teve pelo novo. Não consigo dimensionar a importância do mar em minha vida. Não preciso vê-lo, mas é sempre bom saber que estou a poucos quilometros dele. Como é bom ouvir o barulho do mar. Acho que isso só sente quem nasceu e cresceu na praia, caiçara mesmo. A praia é meu quintal, nunca foi lugar de férias.
    Antes de completar 2 anos, Dora mudou-se comigo para a casa que eu tinha em Boiçucanga (litoral norte de São Paulo). Uma casa bonita, em um terreno de mil metros quadrados. Construí essa casa enquanto estava grávida, pensando como Dora iria aproveitar na adolescência, com os amigos (foi vendida e a maior parte gasta no processo de guarda). Lá Dora passava as manhãs de Sol na areia e depois da escolinha íamos ver o pôr-do-sol.
     O mar de Boiçucanga fez muito bem para Dorinha, para mim, nem tanto. Lá tive depressão, depois de muitos percalços fui para meu apartamento no Guarujá, pequeno, de um quarto, mas falei com o pai de Dora e ele também achou melhor, pois ficaria mais perto de São Paulo. Daí cometi meu maior erro: confiei na pessoa que me tirou a filha na minha depressão! Mas como a guarda provisória era minha e ele ficava com ela nos finais de semana, queria dar um basta em tudo, não sabia que Jonas Golfeto estava saindo em busca de falsos testemunhos e brechas da Justiça para conseguir arrancar Dora de mim... e do mar.
    Quando foi levada pelo pai em agosto de 2005, para o final de semana do Dia dos Pais, ainda queria ficar comigo. Dora estava amando o novo apartamento, tinha condomínio com piscina, parquinho e era perto da praia da Enseada. Mas insisti para que fosse com seu pai, comprei até presente para ela entregar ao próprio carrasco. E seu pai não a devolveu. Havia conseguido a guarda, dizendo que fui para o Chile "planejar" uma fuga! (isso tem em outros posts). Depois de meses de Visitário Público, depois de fugir com Dora desse lugar medonho e bizarro e passar um mês em Búzios (sou fugitiva chique, tá?). Voltei, pois fomos escancaradas no Fantástico (o próprio, da Rede Globo). Mas o erro deu certo, Dora teve férias na praia e logo consegui ficar com ela nos finais de semana alternados, o que ainda era tão pouco para nós.
     Na primeira vez que desci a Serra do Mar com Dora, então com pouco mais de 4 anos, há  mais de 8 meses sem ver a Baixada, pediu para descer por Santos, para passar em frente ao mar, estava com saudade da praia. Durante o tempo em que morou na casa da namorada do pai, Luciana Viacava, nunca mais tinha visto o mar. Olhando pela janela me disse com brilho nos olhos que adorava ser santista. Lamentavelmente tive de informá-la que nasceu em São Paulo, mas ainda restava-lhe torcer para o Santos e morar na praia. Dora sempre foi uma abnegada. Conformou-se. Dora sempre foi generosa, obediente e puro amor. Por muito tempo achei que não merecia alguém tão especial. Mas era porque tinha depressão e essa doença nos cega, nos faz pensar que não merecemos nada, depois percebi que ela era assim porque, além de ser um espírito nobre, é minha filha, porque também fui criada dentro da verdade, do amor, da justiça e da generosidade.
     Moramos também em Paraty, uma das cidades mais lindas que já conheci. Lá fomos muito felizes, conhecemos bons amigos, alguns que levo para a vida toda, como Kátia Chigres, Andréa Doalmo e Yara Marques. Dora teve amigos maravilhosos também, fez natação, passeava de barco, morávamos numa casa linda, com cachoeira no terreno. Eu agradecia todos os dias nossa paz, nossa vida, nossos amigos. Como a maioria era "forasteira", havia muita solidariedade. Dora amava Paraty, concordava em mudar de lá só se fosse para Santos. E assim foi. E em Santos nasceu Miranda. Dora fazia ballet no Municipal de Santos, conheceu Raquel, sua melhor amiga, o que me fez conhecer Claudia, mãe de Raquel, a mulher mais guerreira que já conheci em toda a minha vida. Claudia luta bravamente contra o câncer há mais de 5 anos, tem 4 filhos incrivelmente educados, inteligentes e espirituosos. E tem o marido Fernando, que Dora também adorava. No fim de tarde santista eu levava Dora e Raquel para a praia, elas ficavam brincando na areia, enquanto eu ficava com Miranda no carrinho, com meus amigos. A praia em Santos é melhor à noite do que de dia. Santos tem vida na praia de dia e de noite. Dora adorava o mar.
   E agora Dora vive há mais de 500 quilometros do mar. Nem nas férias vai para a praia, porque isso a faria lembrar demasiadamente da mãe e de seu passado, que a família tenta apagar. Dora sente saudade não só de mim, da irmã, dos amigos, Dora sente saudade do mar. Sua dor um dia vai acabar, as marcas talvez nunca se apagem, mas sua alma é nobre e nada vai mudar o que está gravado em seu coração, nada.
http://youtu.be/MYTt3oKoOMA

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Com Miranda, na Mirada

  Neste sábado estava com Miranda no Sesc de Santos, no último dia do Mirada - Festival Íbero-Americano de Artes Cênicas. O Mirada é um post a parte, ainda mais para quem gosta de teatro como eu. Foram vários espetáculos em teatros, praças públicas e centro histórico, não só em Santos, mas em várias cidades da Baixada Santista. Na quarta-feira ainda fui assistir ao clássico SantosxFlamengo, na Vila Belmiro, com meu amigo de infância e natação, Marcelo Santos, mais um grupo de atores, técnicos, diretores espanhóis e mexicanos. E tudo foi muito divertido.
  Mas eu estava sábado no Sesc, após ter perdido a última peça infantil. Miranda brincava com uma menininha vestida de princesa (com coroa e tudo). Eu de longe percebia que Miranda era maior e mais forte e fiquei meio apreensiva, já que a menina parecia uma princesa Disney e Miranda está mais para a Fiona. A mãe da princessa tinha lindos cabelos cacheados e sempre um sorriso no rosto. Confiei. Depois me aproximei e após 10 minutos de conversa, trocamos o telefone. Jornalista e também cantora, perdemos as contas dos amigos em comum. Sua filhinha tem alguns meses menos que Miranda. Quando perguntou sobre o nome diferente, contei que foi sugestão da minha filha mais velha, Dora, que estava com o pai e que eu tinha problemas com a guarda. Não quis me aprofundar.
  Como seguimos o papo e a programação intensa que continuaria até o show de encerramento de Karina Buhr, ela acabou perguntando da guarda, já que o pai de sua filha mais velha, também com 10 anos, tinha entrado com ação para conseguir a guarda. As coincidências não pararam mais. A mãe da princesa me disse que seus amigos dizem que para mãe perder guarda de filho só se for drogada, violenta e que "nem puta perde a guarda de filho". Não tive como não fazer referência ao título de um post. Antes do Novo Código Civil, a guarda era da mãe na separação, para o pai conseguir a reversão tinha que provar que a mãe era péssima. Agora é de quem pede primeiro, de quem mente mais. Além da minha, contei umas três histórias de mães que perderam a guarda e ainda ficaram sem ver os filhos por anos. Pior não é perder a guarda, pior é ficar 20 meses sem ter notícias da filha. 
  E mesmo existindo uma Lei (a de Alienação Parental) que pune o alienador e que pode reverter a guarda imediatamente, nada é feito. Aliás, acho que  o sistema judiciário ajuda a manter o crime de alienação parental, então fica muito difícil fazer vigorar uma Lei que nem o judiciário cumpre. Entrei com a ação há mais de um ano, porque não sabia de Dora há 6 meses. Agora são mais de 20. As únicas mudanças foram o número de meses, o tamanho da minha indignação, da minha angústia e da minha raiva. E Miranda que agora só fala da irmã no passado: "Eu tive uma irmã". Está certa, afinal ela não tem mais uma irmã. Miranda vive um luto em vida. Para ela a irmã está com o vovô Abel, no passado, na memória, em fotos, em lembranças. Dora, nem foto da irmã tem. Para Dora todos os seus amigos a esqueceram, afinal ela não sabe que o papai bloqueou seus amigos.
  Não vejo sentido para mais nada disso. Eu até procurei uma terapeuta, para tentar lidar com essa morte em vida, apesar de todos os meus "senões" com essa categoria, já que os avós de Dora, José Hércules Golfeto e Ed Melo Golfeto são, respectivamente, psiquiatra infantil e psicóloga. A tia Raquel Golfeto também é psicóloga. O pai eu nem sei mais o que é, já que era ator e abandonou a carreira para ficar em Ribeirão Preto, na casa dos pais, afastando Dora da vida que ela teve. Minha filha está cercada de profissionais da saúde mental e olha só o que essas pessoas fazem. Não conseguem nem esclarecer o genitor de Dora sobre o mal que está fazendo com a filha e com ele mesmo, afinal, não consigo imaginar que Jonas Golfeto (o pai) seja feliz vivendo em processos - além dos meus, também tem processado algumas empresas (vai ver é para pagar advogado, uma suposição), ficar longe da metrópole São Paulo (será que está?), morar numa espécie de província. Mesmo assim estive com uma terapeuta. Mas é muito difícil, porque meu problema não é comigo. Meu problema é com a lentidão do judiciário, com a crueldade da outra parte, com a falta de senso dos pais da outra parte, com a distância física da minha filha, que conseguiram tirar da minha vida, com aval da Justiça!
   E mesmo assim a outra parte insiste na minha "loucura, a depressão". Ora, qualquer um no meu lugar já teria entregado o chapéu há tempos. Nem antidepressivo eu tomo, porque mesmo se quisesse não poderia, por conta das minhas alergias. 
   Se houver algum sentido nisso tudo é o de alertar mães de que não precisa ser drogada, nem violenta, nem puta para perder a guarda de filho. Só precisa ter dado o azar de se envolver com um psicopata*, desocupado, vingativo, com tempo de sobra e com pais que apoiam seus devaneios megalomaníacos. E tem muito mais desse tipo do que se pode imaginar. 
  Não estou fazendo um manifesto feminista, embora seja muito feminista. Sei que existem mulheres vingativas, que não superam a separação e tentam vingar-se afastando os filhos dos ex. Porém, o número de homens com esse perfil é muito maior do que se pode supor. Ouço muito que quem mais sofre com isso é a criança. Eu não sei se minha filha está sofrendo, há mais de 20 meses não me deixam falar com ela. Da outra vez que o pai a afastou de mim, mas que eu a via no Visitário Público (lugar horrível já mencionado aqui e que o pai amoroso faz questão de manter a filha - só não conseguiu de novo porque tal cárcere não existe em Ribeirão Preto), sei que sofria e muito. Sei que as mães sofrem muito, pela dor do afastamento e pela dor da injustiça, do julgamento.
   Miranda e sua mais nova amiga de infância, a princesa, ficaram alheias aos nossos assuntos de adulto. Ficamos na frente do palco. Para minha mais agradável surpresa, Edgard Scandurra, meu guitarrista preferido, meu ídolo da adolescência, tocou com Karina. Ele olhava enternecido para as duas garotinhas que dançavam como bailarinas e prestavam muita atenção no show. Karina arrastou-se como cobra até as meninas, em sua performática apresentação, deitada, cantando, foi acariciada pelas duas no rosto e cabelo. Foi lindo! Muitas fotos, muitas gravações e algumas pessoas vieram me parabenizar pela minha Miranda, dizendo que ela nasceu para brilhar, para os palcos. Não sei, vejo em Miranda uma atleta, mas acho que Miranda nasceu, principalmente, para ser feliz e para me manter mãe.

* Antes que a outra parte tenha um "siricotico" e saia em busca do fórum mais próximo para me processar por injúria e difamação, deixo claro que essa é uma opinião minha, construída após muita leitura e análise. O psicopata não é, necessariamente, um serial killer, mas ele destrói vidas. Em busca de seu objetivo passa por cima de pessoas e sentimentos, não sente a dor alheia, é tão frio que planeja por anos sua vingança, com inteligência acima da média, convence muitos com suas mentiras, é capaz de transformar-se para enganar, para conseguir a confiança de alguém. Acha que nunca será desmascarado ou vencido.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Alienação Parental não é crime?



   No último dia 26 de agosto completaram 2 anos da Lei de Alienação Parental. Há mais de uma no eu entrei com uma ação sobre o tema, em Ribeirão Preto, pois na data acabava de completar 6 meses que não me deixavam sequer falar ao telefone com minha filha. Com muito custo e mais de duas horas de audiência realizada no dia 8 de agosto de 2011, ou seja, há mais de um ano, houve um acordo "amigável" para que eu e  minha filha Dora, hoje com 10 anos e meio, nos falássemos por skype.
   O contato só foi feito uma vez, já que era um acordo amigável e poderia o genitor e guardião legal, o ator Jonas Golfeto, voltar atrás a qualquer tempo. Pois a situação agora é ainda pior, pois já há quase 3 meses o atual juiz do caso (é o quarto desde que esse processo começou!) deferiu visitas "o quanto antes". Ora, essa Lei de Alienação parental vigora, porém  não funciona. O genitor, que há mais de 15 anos morava em São Paulo, mudou-se para a casa dos pais, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, para mais de 500 km de distância, sem motivo aparente, pois nem emprego tem naquela cidade. É mais do que óbvio que sua intenção é tão somente afastar Dora de mim, da irmã, da avó e de toda a sua história.
    Segue na íntegra a Lei, creio que o genitor comete todas as infrações citadas. Não só o genitor, como também os avós Ed Melo Golfeto, psicóloga; e o avô José Hércules Golfeto, psquiatra infantil (!) também são alienadores, portanto, criminosos! E não adianta virem me processar por difamação ou injúria, pois não há como ir contra os fatos supracitados. O que essas pessoas pretendem fazer com minha filha, não imagino. Não tenho acesso ao seu rendimento escolar, fichas médicas, seus novos amigos ou sua nova vida. Quando tentei contato amigável, chamaram a polícia. Sobre a visita "o quanto antes", o advogado da outra parte, Danilo Murari, nunca é encontrado para "negociar" com minha advogada.
   Assim como Dora, várias crianças sofrem esse abuso psicológico e a Justiça continua cega e até hoje não soube de nenhum caso em que essa Lei de Alienação Parental tenha sido respeitada. O que  mais me impressiona nos avós alienadores de Dora é que ambos são profissionais da saúde mental! Que vergonha destas pessoas...


 

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Subchefia para Assuntos Jurídicos
Mensagem de veto
Dispõe sobre a alienação parental e altera o art. 236 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: 

Art. 1o  Esta Lei dispõe sobre a alienação parental. 
Art. 2o  Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. 
Parágrafo único.  São formas exemplificativas de alienação parental, além dos atos assim declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com auxílio de terceiros:  
I - realizar campanha de desqualificação da conduta do genitor no exercício da paternidade ou maternidade; 
II - dificultar o exercício da autoridade parental; 
III - dificultar contato de criança ou adolescente com genitor; 
IV - dificultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; 
V - omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço; 
VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou dificultar a convivência deles com a criança ou adolescente; 
VII - mudar o domicílio para local distante, sem justificativa, visando a dificultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós. 
Art. 3o  A prática de ato de alienação parental fere direito fundamental da criança ou do adolescente de convivência familiar saudável, prejudica a realização de afeto nas relações com genitor e com o grupo familiar, constitui abuso moral contra a criança ou o adolescente e descumprimento dos deveres inerentes à autoridade parental ou decorrentes de tutela ou guarda. 
Art. 4o  Declarado indício de ato de alienação parental, a requerimento ou de ofício, em qualquer momento processual, em ação autônoma ou incidentalmente, o processo terá tramitação prioritária, e o juiz determinará, com urgência, ouvido o Ministério Público, as medidas provisórias necessárias para preservação da integridade psicológica da criança ou do adolescente, inclusive para assegurar sua convivência com genitor ou viabilizar a efetiva reaproximação entre ambos, se for o caso. 
Parágrafo único.  Assegurar-se-á à criança ou adolescente e ao genitor garantia mínima de visitação assistida, ressalvados os casos em que há iminente risco de prejuízo à integridade física ou psicológica da criança ou do adolescente, atestado por profissional eventualmente designado pelo juiz para acompanhamento das visitas. 
Art. 5o  Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial. 
§ 1o  O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial, conforme o caso, compreendendo, inclusive, entrevista pessoal com as partes, exame de documentos dos autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos e exame da forma como a criança ou adolescente se manifesta acerca de eventual acusação contra genitor. 
§ 2o  A perícia será realizada por profissional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigido, em qualquer caso, aptidão comprovada por histórico profissional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental.  
§ 3o  O perito ou equipe multidisciplinar designada para verificar a ocorrência de alienação parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do laudo, prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em justificativa circunstanciada. 
Art. 6o  Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta que dificulte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação autônoma ou incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo da decorrente responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de instrumentos processuais aptos a inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a gravidade do caso: 
I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador; 
II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado; 
III - estipular multa ao alienador; 
IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial; 
V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão; 
VI - determinar a fixação cautelar do domicílio da criança ou adolescente; 
VII - declarar a suspensão da autoridade parental. 
Parágrafo único.  Caracterizado mudança abusiva de endereço, inviabilização ou obstrução à convivência familiar, o juiz também poderá inverter a obrigação de levar para ou retirar a criança ou adolescente da residência do genitor, por ocasião das alternâncias dos períodos de convivência familiar. 
Art. 7o  A atribuição ou alteração da guarda dar-se-á por preferência ao genitor que viabiliza a efetiva convivência da criança ou adolescente com o outro genitor nas hipóteses em que seja inviável a guarda compartilhada. 
Art. 8o  A alteração de domicílio da criança ou adolescente é irrelevante para a determinação da competência relacionada às ações fundadas em direito de convivência familiar, salvo se decorrente de consenso entre os genitores ou de decisão judicial. 
          Art. 9o  (VETADO) 
Art. 10.  (VETADO) 
Art. 11.  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. 
Brasília,  26  de  agosto  de 2010; 189o da Independência e 122o da República. 
LUIZ INÁCIO LULA DASILVA
Luiz Paulo Teles Ferreira Barreto
Paulo de Tarso Vannuchi
José Gomes Temporão
Este texto não substitui o publicado no DOU de 27.8.2010 e retificado no DOU de 31.8.2010

sábado, 25 de agosto de 2012

Dora, Miranda, Harry Potter e Eu

   É como uma viagem fantástica ao passado recente. Me vejo sentada com Miranda, me abraçando nas cenas mais tensas, do mesmo jeito, com o mesmo rosto expressivo, as mesmas tiradas inteligentes e perguntas contundentes, além da mesma imensa sensibilidade de Dora quando víamos ao mesmo Harry Potter e a Pedra Filosofal.  Ambas também o assistiram pela primeira vez aos 3 anos, um pouco precoce eu acho, já que a saga do meu amado Harry começa quando ele completa 11. 
  A primeira vez que vi esse filme foi em 2005, em Boiçucanga, litoral norte de São Paulo, na TV. Antes não havia dado importância nem para o filme, menos ainda para os livros. Mas o mundo criado pela escritora inglesa J.K. Rowling me fascinou de um tanto que fui atrás de informações. Ao saber que a ideia original veio por acaso e foi escrita em guardanapos, em 1990, quando JK, mãe solteira de dois filhos, estava desempregada, achei mais fascinante! Sete anos depois o primeiro livro foi publicado, dando início aos outros seis que contam a história desse pequeno bruxo. 
   Em 2001 foi lançado o primeiro longa, mas eu achei que era filme infantil e, como não tinha filhos, nem dei muita atenção. Ainda bem que tive Dora para me introduzir neste mundo mágico! Fui comprando todos os DVDs e assistindo aos lançamentos no cinema com Dora. Não fui ao cinema para a segunda parte de Relíquias da Morte porque além da tristeza em saber que a história acaba, não teria Dora ao lado para comentar tudo depois...
   Daí há umas três semanas, Miranda viu a capa do DVD e pediu para colocar o filme. Viu inteiro e pediu para ver de novo. E passamos sábados e domingos com Pedra Filosofal e Câmara Secreta, ainda não apresentei os outros, ela ainda está fascinada pelos primeiros. E também vai ficando tudo muito forte e cada vez mais cruel, assim como a vida. Mas, mais que tudo, da eterna luta entre o bem e o mal, Harry Potter fala de amizade, confiança e coragem. E agora vejo um enorme paralelo entre Harry, Dora, Miranda e eu. Até completar 11 anos, a vida do menino era restrita a uma cama embaixo da escada. Fica órfão ainda bebê e foi criado por tios abomináveis, que escondiam dele sua verdadeira história. Ele só começa a descobrir quem é a partir desta idade.
   As pessoas nem sempre são o que parecem ser. Miranda já percebeu que Severo Snape, apesar da aparência sinistra e atitudes duvidosas, faz o bem. Tem um passado de sofrimento e desprezo, envolveu-se com os Comensais da Morte, mas teve a sua redenção. E que o bonzinho, na verdade é o mal encarnado. Assim é na vida, as aparências enganam muito. A parte preferida de Miranda é quando Harry fica em frente ao espelho que mostra o que mais deseja ter ou ser. O que o menino vê é a imagem dos pais...
   Harry descobre que é muito poderoso e admirado e que seus pais não morreram num acidente de carro, mas foram assassinados! Harry sofreu alienação em toda a sua infância! Ainda tentam fazê-lo acreditar que seus amigos o esqueceram, escondendo todas as cartas que lhe eram enviadas. Assim é com Dora, que teve seus amigos bloqueados, para nem poder conversar por msn e pensar que ninguém mais lembra dela.
  Sirius Black*, o Prisioneiro de Azkaban, preso e condenado como um louco, é na verdade um herói! E a cada filme as peças vão se encaixando, cada detalhe, como o ratinho Perebas de Rony que na verdade é o espião do mal, Peter Pettigrew, um fraco que a princípio segue o grupo do bem que forma A Ordem da Fênix, mas que, vulnerável, cede para o mal, e transforma-se num Comensal da Morte. Afinal é muito mais fácil fazer o mal do que o bem e, como os ratos, é o primeiro a abandonar o navio quando este afunda, vendo mais vantagens no lado do mal... e existem muitos ratos por aí.
    Assim como Harry Potter, todos tem o bem e o mal dentro de si, todos são tentados a praticar maldades. É uma escolha pessoal e Harry escolhe ser bom. Como ele, em A Ordem da Fênix, eu também sinto tanta raiva o tempo todo porque estou ligada ao mal e não posso escapar disso, tenho que enfrentá-lo. No Cálice de Fogo até o seu melhor amigo duvida quando seu nome aparece para uma disputa que só pode ter participação de alunos com 17 anos. Ele precisa provar para a escola inteira (a sociedade em que vive) que não está mentindo e participar de uma disputa para a qual pensava não estar preparado. Assim é comigo nessa disputa de guarda insana.
   Os personagens fictícios criados por essa escritora brilhante são como as pessoas da vida real, alguns seguem o lado mais fácil, outros são fiéis aos seus princípios. Há Neville, um garoto que parece inseguro e meio bobo, mas que nas horas decisivas se enche de coragem e glória. E quem nunca conheceu uma Hermione? Que estuda e sabe tanto que chega a parecer arrogante. Que levanta a mão quando o professor faz uma pergunta, parecendo exibicionista. Que tem tanta sede de saber que faz uma magia para poder estar em várias aulas ao mesmo tempo. Altruista, luta pela liberdade dos elfos, líder, idealiza e ajuda a fundar a Armada de Dumbledore, nos mesmos moldes do grupo antecessor, que funda a Ordem da Fênix. Dora era fã de Hermione, sua personagem favorita. Por enquanto o favorito de Miranda é Harry, diz que quer abracá-lo (ela sempre abraça quem ama). Mas Miranda prefere o Homem Aranha à Mulher Maravilha...
   Quando assisti a primeira parte de Relíquias da Morte, com Dora, me surpreendi por ela considerar o melhor de todos os filmes. Achei muito intimista, com os três personagens centrais fugindo o tempo todo, com diálogos mais profundos... ainda não sei de qual eu gosto mais, mas uma menina de 8 anos ( a idade dela na época) preferir este filme, achei muito perturbador... vai ver é mais parecida com a Hermione do que eu imaginava!
  A cada ano a vida dos personagens vai ficando mais difícil e alguns amigos vão morrendo pelo caminho. Assim é a vida, com muitas perdas. E sim, muitos morrem tragicamente jovens.Daria para fazer uma tese sobre a saga de Harry, minha vida e de minhas filhas. Mas a história de Harry, para minha tristeza, já teve fim. Espero que a de Dora e Miranda continue por muito tempo e que o desfecho seja menos trágico, com menos mortos e feridos.
   
* Sirius Black foi interpretado magistralmente por Gary Oldman, um dos meus atores favoritos. Em O Prisioneiro de Azkaban Dora virou fã dele e sua morte foi muito sentida por nós duas. Quando engravidei de Miranda, um dos nomes cogitados, caso fosse menino era Sirius. Ideia de Dora, que queria mesmo Sirius Black. Mas realmente pensei em batizar de Sirius.