terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dora é Só Mais um Número

    Não acredito em macumba, mas certa vez, há uns 7 anos, o guardião legal da minha filha, Jonas Golfeto, ligou para minha mãe e disse que iria fazer uma macumba para que ela tivesse uma morte horrível! Até a advogada dele, Marta Macruz de Sá, ligou para minha mãe dizendo que Jonas estava nervoso e falou da boca para fora. Não dei a mínima, assim como não acredito em deus, também não acredito no diabo. A verdade é que minha mãe está bem viva e com saúde e quem morreu de morte horrível foi meu pai.
   De uns tempos para cá comecei a pensar que o tal dia 21 de dezembro de 2012, que segundo a profecia Maia seria o fim do mundo, deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma esperança. Não vejo nem túnel, quanto mais a luz. A única certeza é que tenho uma filha que preciso cuidar sozinha e outra que não precisa de mim para mais nada. Que tenho alguém para dar "boa noite filhinha, te amo". Continuo tendo filha. Mas Dora não tem mais mãe. Nunca mais chamou ninguém de mãe, talvez em seus sonhos ou pensamentos. O sistema judicário é o maior colaborador desta crueldade. Para os juízes e promotores do caso, Dora não passa de um número. É tratada como objeto e eu tenho que me resignar com a morosidade da Justiça, porque é assim e assim sempre será. É um fato como nascer, viver e morrer.
   Desde junho o atual juiz setenciou que as visitas monitoradas por psicóloga escolhida pela outra parte aconteçam "o quanto antes". Não aconteceram. A outra parte, aqui chamado de Jonas Golfeto, cada hora inventa uma história (aliás, ele é perito em inventar histórias). Ele pode tudo, tem poder absoluto sobre a filha, eu não sou nada, talvez seja apenas mais um número, mais uma mãe que é proibida de ver a filha. Tem alguns grupos online de pais e mães que não podem ver os filhos ou então vivem o tormento de ver de 15 em 15 dias crianças robotizadas. Dia desses saí de um deles, além de ser da ong Pais Por Justiça, em que um tal Nilson Falcão se achou no direito, em seu site, de me julgar, fiquei deprimida. O que acontece é que mesmo quando a criança pode optar com quem ficar, acaba optando pelo alienador. A Justiça colabora com os alienadores, lhes dá tempo de manipular, de encher a cabeça das crianças de medo, de aterrorizar! E Dora está sendo aterrorizada não só pelo pai, mas pelos avós, José Hércules Golfeto, um psiquiatra infantil, doutor em tratar de crianças (!), a avó psicóloga (Ed Melo Golfeto) e também tem a tia Raquel Golfeto, outra psicóloga. Dora está numa família de profissionais da saúde mental, todos colaboram com essa bárbarie. Queria muito que isso tudo fosse divulgado, assim os pacientes saberiam com que profissionais estão mexendo. Quem sabe assim eles teriam menos pacientes e daí menos dinheiro para pagar os advogados de Jonas, porque Jonas não trabalha e quem paga tudo são os pais dele. Pagam todos os gastos da Dora e todos os gastos dos advogados. São alienadores profissionais! O que os juízes fazem? Nada, é só mais um processo, um número. O salário gordo deles estará lá todos os meses, não importa quantas audiências façam ou deixem de fazer. Quantas páginas leiam ou deixem de ler. Dora é só mais um número.
    A outra parte me mandou um email no dia 31 de agosto, passando o telefone de uma nova psicóloga para a tal visita monitorada, já que Edna Costa, escolhida em agosto do ano passado, desistiu, pois  me achou muito agressiva! Nossa, que psicóloga é essa? Não seria a missão destes profissionais tratar de pessoas com transtornos? Afinal sou uma transtornada, que mãe não ficaria, no mínimo, com muita raiva por passar por tudo isso há tantos anos? Acho até que ando calma demais...
   Como Edna Costa desistiu, com a rapidez de uma tartaruga, a outra parte conseguiu outra psicóloga, demorou só 6 meses. Curioso que a família toda é desta categoria, curioso que eles podem escolher quem quiser: colegas, ex-alunos, enfim, poder absoluto para a família da outra parte. A nova psicóloga Fabíola Januário, está disposta, mas não pode ser por 3 horas, é tempo demais, só 1h30 e durante a semana. Claro, a pessoa aqui pode fazer um bate e volta para Ribeirão Preto no meio da semana, é tão fácil. Faço qualquer coisa para poder ver minha filha.
    Daí na semana retrasada o guardião legal mandou outro email, dizendo que estaria em contato com a tal psicóloga na semana seguinte, para então agendar as datas para as visitas monitoradas. Até agora, nada. Terá feriado super prolongado, depois recesso, depois férias forenses, quem sabe em 2014 eu consiga falar com Dora...  o juiz? Deixa correr solto, afinal, Dora é só mais um número.São tantos litígios, qual o problema da filha ficar 2 anos sem mãe, se tudo acontece dentro da Lei? Não sinto mais indignação, estou resignada com a situação, me acostumei com isso.
    Finalmente consegui mexer nos armários de Dora e doar suas roupas e sapatos, que não lhe servem mais.Os alinadores fizeram tudo direitinho, Dora não tem nada de material que lhe faça lembrar a vida que teve um dia, nem fotos, nem livros, nem roupas, nem brinquedos. Guardei as bonecas para a Miranda, mas essa minha filha fofa não é chegada em barbies, prefere bichinhos de pelúcia e bebês, que cuida com tanto carinho que acabo cobrindo na hora de dormir, como se fossem bebês de verdade. Para Miranda são de verdade e se ela acredita, quem sou eu para dizer o contrário.
    Miranda é muito inocente e pequena, ainda acredita em muitas coisas. Dia desses olhou para o céu, juntou suas mães como numa oração e pediu: "Papai do céu, traz a Dorinha pra mim que ela é do meu coração". Ela tem feito isso com muita frequência e também pediu para o papai noel trazer a Dora de presente para ela. Não serei eu a dizer-lhe que papai noel e deus não existem. Com tudo isso acho que ela logo descobrirá por si mesma. Não adianta pedir nada para deus. O papai noel ainda estará em alguns shoppings centers, acabará acreditando nele por mais alguns anos.. já deus...
     Sigo com meus processos, já são sete. E preciso desabafar: quando Dora foi  levada embora quis voltar para o meu apartamento no Guarujá, que é meu! Mas a primeira advogada, Marília Teles, a mesma que me convenceu a pagar os honorários do advogado da outra parte, também me convenceu a ficar nesta casa cara, de 3 quartos (só eu e Miranda) até o vencimento do contrato, porque o juiz veria que sou estável. Ora, já estamos no quarto juiz e nunca nenhum viu nada, nem audiência teve. A advogada Marília? Devo ainda 10 mil reais para ela, que escreveu uma ação que não deu em nada e nunca participou de nenhuma audiência e assim que descobriu que Dora estava morando em Ribeirão Preto, saiu do caso, pois seria inviável a distância. Também porque viu que eu não teria tanto dinheiro para pagar tudo isso.
     Agora tenho outro problema, o contrato vence em dezembro... onde vou  morar? Não sei, minha inquilina não quer sair, disse que só sai no final do ano que vem, mesmo o contrato tendo vencido no ano passado. As Leis protegem os inquilinos. Eu terei que entrar com uma ação de despejo! Para onde vou agora? Posso ir para qualquer lugar. Tenho o mundo inteiro para escolher. Tenho dois meses de férias para curtir com Miranda, já que, obviamente, não verei Dora até março. Mas posso escolher morar em Ribeirão Preto e ver Dora de longe na escola e no balé, ficar na esquina da casa dos avós dela. Para a Justiça Dora é só mais um número. Para mim é uma filha e por mais que o pai dela tente me destituir do poder familiar, será sempre minha filha e eu serei sempre sua mãe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um Sobrevivente do Holocausto

   Meu amigo Marcelo Santos me convidou para ir com ele entregar um vinho que trouxe de sua última viagem à França para o dono de uma pousada na Bertioga, uma das cidades da Baixada Santista. Era um mimo do nosso casal de amigos Maria e Christopher Salmon. Amizade que nasceu por conta de um encontro entre Dora e a filha deles, Nêmora, na praia. Amizade tão forte e sincera que se alastrou por uma rede de amigos. Fui, porque estar com Marcelo é sempre ótimo, ele é divertido, inteligente e meu amigo há 31 anos, ou seja, não preciso explicar mais nada, um sorriso e já dá para entender tudo.
   Ao chegar avistamos uma mesa, com 7 pessoas. Jacques, o dono da pousada e também francês, logo reconheceu Marcelo, que já foi dizendo que o vinho era ainda mais envelhecido, já que estava com ele há quase um ano. Nos juntamos ao grupo de franceses e um árabe, responsável pelos deliciosos camarões do jantar. Sentei ao lado de Jacques, em frente sua esposa Rebecca e sua irmã, Marie. Mulheres já na "melhor idade", lindas, inteligentes, cheias de experiências para serem compartilhadas. O que seria uma passagem rápida tornou-se horas de conversas sobre países, políticas, viagens, gostos, fonéticas, linguisticas. Como adoro tudo isso!
   Então Rebecca falou que morava no Bom Retiro. Disse que já havia trabalhado por lá, na Editora Pini. Na época o bairro tradicionalmente judeu estava tomado pelos coreanos, pois a maioria da comunidade judaica paulistana mudara-se para o bairro de Higienopólis. "Sim, lá só ficaram os judeus ortodoxos!", me respondeu a senhora, dando a deixa sobre sua condição religiosa.
   
   Antes queria ratificar minha admiração pelos judeus, tenho mesmo muitos amigos judeus e todos tem em comum o desejo pelo conhecimento e a solidariedade. E são solidários não só com os seus, todos os meus amigos judeus sempre foram muito solidários comigo e com quem precisasse de sua ajuda. O meu ateísmo permite que eu participe sem preconceitos de debates sobre todas as religiões. O judaísmo sempre me interessou muito e um desses meus amigos, Tamer Memberg Fadida, quase me converteu, com todos os seus livros, seu amor, inteligência e sabedoria. Mas para isso, só me casando com um judeu, porque não nasci judia.

   Daí falamos sobre a II Guerra Mundial. Coincidentemente ou não, eu e Marie assistimos na semana o mesmo documentário Redescobrindo a Segunda Guerra, no History Channel. Concordamos que o cenário da Alemanha devastada na I Guerra, a arrogância francesa e os cérebros geniais do mal ao lado de Hitler foi o que fez o nazismo tomar a proporção que tomou. No início Hitler era considerado apenas um insano fanático (o que realmente era), na sua primeira tentativa de eleger-se conseguiu somente 2% dos votos, jornalistas debochavam dele em seus artigos. Foram necessários quase 20 anos para que o nazismo acontecesse realmente. Os jovens soldados fanáticos que começaram a seguir Hitler no ínico da década de 30 foram as crianças que cresceram com fome, na miséria e começavam a colocar a culpa nos franceses, logo em seguida, nos judeus.
    Percebi que Rebecca começava a falar mais baixo sobre esse assunto, ao seu lado estava sentado seu pai, um senhor de uns 90 anos, pequeno, loiro, rosado, bochechas vermelhas, olhos claros e brilhantes, um meio sorriso sempre no rosto, que ora falava de sua última viagem à Paris, ora de como amava o Brasil.
    Com a voz ainda mais baixa, contou que o pai é polonês, ainda muito jovem foi levado para Auschwitz, o pior dos piores campos de concentração do massacre judeu. Senti um certo torpor, senti muita emoção e não consegui expressar som algum. Então, como alguém que quer deixar um testemunho do horror da guerra, Rebecca narrou uma breve parte da história de sua família. 
    Seu pai e sua tia, com um bebê de meses nos braços, foram levados como animais empilhados, não sabiam para onde. Ouviam-se histórias, mas a crueldade nazista ainda era algo inimaginável para os dois jovens irmãos. Ao chegar foram analisados pelos oficiais da Gestapo, olharam seus dentes, seus braços e pernas. Por sorte eram fortes e saudáveis: "Esses dois podem ir para o campo de trabalho". A moça seguiu carregando o bebê. Mas para que precisariam de um bebê? Ele só tiraria a atenção da mãe. Arrancaram-lhe o bebê dos braços e na frente dos dois irmãos, o arremessaram como se fosse uma bola, contra a parede. O bebê morreu em minutos e a mãe nem pode abraçá-lo de novo para desperdir-se de seu corpinho já sem vida. Isso era a abertura do horror...
    Cada um foi para um lado. Ficaram sem notícias um do outro. Sofreram torturas e humilhações inenarráveis. Esse senhor sobreviveu, sem nada, só a roupa que tinha no corpo. Alguns judeus falaram sobre a comunidade no Brasil. Com ajuda mútua conseguiram mandá-lo para o País das oportunidades. Aqui foi acolhido por dois outros judeus. Quando conseguiu reerguer-se foi visitar a Polônia, lá ouviu que o nazismo foi horrível, porque não exterminou todos os judeus. Nunca mais ele falou uma palavra em polonês. Assim como eu, também não tolera a intolerância. E esse senhor estava ali,  na minha frente, tomando um delicioso vinho francês, falando da vida e de amenidades.
    Ao me despedir do grupo cumprimentei e beijei um por um, mas ao chegar nesse senhor, dei um abraço tão forte que ele, provavelmente, não entendeu. Tive mesmo vontade de chorar. Pensei que toda a tortura psicológica e emocional que passo há 7 anos, todas as privações com a minha filha, todas as minhas dívidas financeiras não são nada, absolutamente nada, diante do horror daquele campo de concentração. 
    Posso não ser tão forte, nem tão obstinada, muito menos ter tanta fé, mas sou demasiadamente humana, tanto nos erros, como nos sentimentos e, conhecendo um sobrevivente do Holocausto, um senhor lúcido, saudável, que recomeçou do zero, em outro País, com outra língua, apenas com a roupa do corpo e os braços e mente para trabalhar, senti que também posso recomeçar. Ainda tenho saúde, tenho uma filha que depende totalmente de mim, tenho inteligência, tenho muitos amigos e tenho respeito. De certa forma também sou uma sobrevivente e quanta sorte tenho, por conhecer sobreviventes muito mais fortes e resistentes do que eu.
   

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Só não tiraram o leitinho da Miranda!

    Quando perdi a guarda de Dora para seu genitor, Jonas Golfeto, fui condenada a pagar 10 mil reais para seu advogado. Ele venceu, levou o prêmio (minha filha) e tenho que pagar por isso, assim é a Justiça, fazer o que? Não paguei e os juros cresceram até chegar em 16 mil. Em abril do ano passado minha advogada da época negociou minha dívida em 16 parcelas de mil. Fui contra essa negociação, pois meu salário era de 5 mil, mais custas processuais, honorários, minhas contas, meu pai internado numa clínica de repouso e minha filha caçula Miranda, totalmente por minha conta e risco, não sobraria nada! A advogada foi tão firme em me fazer pagar que até depositou a primeira parcela para mim (que  lhe paguei no dia seguinte, claro), disse - e quase me convenceu - de que isso seria bom, o juiz veria que pago minhas dívidas, cumpro com minhas obrigações e tenho palavra. Enfim, foi feito o acordo. Mas na semana seguinte descubro que minha filha Dora foi levada para morar na casa dos avós, em Ribeirão Preto, a mais de 500 km de distância.
    Ora, isso mudaria totalmente o cenário da história. São Paulo está a menos de uma hora de Santos, posso ir e voltar no mesmo dia com folga, mesmo que fosse só para ir ao Fórum ver processo. Mas claro que em São Paulo tenho muito o que fazer, além de trabalho, entrevistas e ver amigos queridos. Ir para Ribeirão Preto e voltar no mesmo dia é quase inconcebível (mas já fiz isso algumas vezes). Tenho lá uma grande e querida amiga de infância, Paola Miorim, que me hospeda sempre, que tem duas filhas lindas e inteligentes, o que torna minhas viagens menos dolorosas e sempre construtivas, cheias de conversas sobre todos os assuntos e lembranças íntimas e pessoais, que só sabe quem viveu uma vida junto. Santista, atleta, linda e meio nerd, Paola faz parte da minha vida desde sempre, pois nadamos e estudamos juntas. Conheço toda a sua família e ela conhece a minha. Um dia ela até tentou falar com o guardião de Dora, por telefone, para entregar uns livros e roupas preferidas da minha filha, mas ele desligou na cara dela, pois se é minha amiga,  não pode ser gente boa. Ah, quanto engano...
    Enfim, cada viagem para Ribeirão, mesmo com hospedagem garantida, sai cara. Também pago para advogados irem, tudo muito cansativo, porque quase sempre é "infrutífero". Escrevi para o advogado da outra parte, o jovem Danilo Murari, assim que soube da agressiva mudança de Dora para Ribeirão Preto e da minha impossibilidade de continuar pagando, mesmo fazendo outros trabalhos free lancer. Nenhuma resposta, só um pedido de execução da dívida. Pois o juiz executou a dívida. Meus bens foram alienados, minha conta está bloqueada, por sorte, estava negativa no dia do bloqueio. Mas eis que na manhã do último domingo recebo uma ligação da minha advogada, perguntando se eu tinha outra conta. "Não que eu me lembre". "É que saiu uma publicação dizendo que a execução foi parcialmente frutífera". 
    Isso já revirou meu estômago. No dia seguinte fui procurar saber o que havia acontecido: pegaram o dinheiro da poupança que fiz para Miranda! Está no nome dela, mas como é menor e a responsável legal sou eu, tiraram o dinheiro que guardo para minha filha! Isso é vergonhoso...
    Tão vergonhoso quanto essa família Golfeto é o que a Justiça faz com Miranda. Nunca comentei sobre o suposto pai de Miranda, até porque ele ainda é suposto, já que não registrou a menina. Quando eu contei sobre a gravidez, ele me disse que estava namorando, diante da minha surpresa, esclareceu que estava com as duas ao mesmo tempo, para decidir com qual ficaria, como se fosse a última bolacha do pacote. Me surpreendi, porque ele era um professor de natação, educação física, surfe e adorava crianças. Dizia ser louco para ter um filho, enfim, me decepcionei com a atitude, mas como já sofria com um pai obcecado por me separar da minha filha, acreditei que seria melhor sem pai (e a situação de Miranda é de longe muito melhor que a de Dora). Como o cara às vezes ligava chorando ou aparecia chorando arrependido, mas logo depois ignorava a gravidez, decidi pedir Investigação de Paternidade, ainda grávida de 7 meses, para acabar com tanta indecisão.
    O primeiro exame de DNA foi marcado quando Miranda tinha 1 ano e 11 meses! Ele não foi. Daí o segundo foi marcado quando ela tinha 3 anos e 4 meses. Nada de novo. O que acontece agora? Marca-se o terceiro exame, se o provável genitor não aparecer, daí é julgado à revelia, mas ainda pode recorrer. Depois disso é obrigado a pagar pensão retroativa, mas pode dizer que não tem dinheiro. Perguntei para a advogada dessa ação porque não o contrário: o homem é considerado pai, paga pensão até fazer o DNA, caso não seja o pai, a mãe devolve com juros e retroativo? "Ora, porque a Justiça entende que a mãe já vai ter gasto com a criança e não terá como devolver?" E a Justiça não entende que se a mãe não tiver condições a criança pode passar privações e até fome? Não, as Leis foram escritas por homens, homens que parecem que nunca tiveram mãe.
    Enfim, a Justiça para Miranda é tão ineficiente como a Justiça para Dora. Eu sustentei Dora sozinha até ser levada, nunca pedi pensão para Jonas Golfeto, até porque os avós é que seriam acionados, já que são eles que sustentam o filho e nunca quis encrenca com aquela família. Agora, além de tudo, eles querem tirar o que dou para Miranda! É de dar dó dessa gente. Não basta deixarem Dora sem mãe, eles também querem que a mãe de Dora fique à mingua e que sua irmãzinha passe necessidade.
    Eu, se fosse José Hércules Golfeto, o psiquiatra infantil "renomado", avô de minha filha, mentor disso tudo, que há quase 2 anos não permite que eu fale ao telefone com Dora, teria vergonha de sair às ruas! Lamentável tudo isso. Miranda já sofre a falta da irmã, logo mais sofrerá privações por conta de uma família tão mesquinha, que nem a conhce, mas já a prejudica, só porque ela é minha filha. Só não digo que tiraram o leitinho da Miranda porque ela ainda mama em meus seios.
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O dia em que conheci Claudio Tognolli e Rodrigo Vianna

    Pensei que seria mais uma matéria banal sobre o movimento pró-reabertura dos cassinos, com muitos políticos e empresários. Como seria um evento no Hotel Casa Grande (um 5 estrelas conhecido na cidade de Guarujá - SP) e com show de Fausto Fawcett, da famosa música Kátia Flávia (a Godiva do Irajá), seria divertido. A canção composta por Fausto tocou muito nas rádios, o que tornou esse jornalista, autor teatral e escritor de ficção científica, uma figura conhecida.  Apesar de não concordar com o lobby dos cassinos, seria interessante um show com Loiraças Belzebus.
    No meio da multidão vi um cara com olhar agitado e óculos de grau igual ao meu, deveria ser um jornalista. Me aproximei, me apresentei como repórter do jornal Diário da Cidade, caso ele precisasse saber sobre alguém ou alguma coisa da Baixada Santista. "Obrigada, sou Claudio Tognolli" e logo comentou sobre nossos óculos idênticos. "Mas você não é repórter especial da Folha de São Paulo?". Lia as matérias do cara e achei curioso que o mandassem para fazer uma de puro lobby, isso seria coisa mais para um iniciante ou correspondente na Baixada.
    Com seu jeito rápido de falar sobre tudo, me esclareceu que estava ali atrás do bicheiro Ivo Noal, foragido da polícia há mais de 6 meses. Ele estava atrás desse cara e tinha certeza de que o encontraria ali. Eu nem sabia que esse Ivo Noal existia, mas achei o máximo poder participar dessa investigação. Então saímos pelos corredores do Hotel, dando uma de perdidos. Até que Claudio avistou o foragido! Corremos feito loucos atrás dele, eu com minha filmadora VHS, que tinha levado para gravar o show, ele com uma máquina minúscula, portátil, sem recursos, mas que deu  muitas capas para o jornal. Cheia de adrenalina e um pouco esbaforida, segui por outro lado, para tentar cercá-lo. Em vão, o cara sabia como fugir e deveria ter um carro importado esperando na saída. Perguntamos para vários dos presentes sobre o aparecimento do bicheiro, ninguém sabia, ninguém viu, como se fosse um fantasma que só nossa mediunidade avistou.
   Novamente no salão, Tognolli acena para um repórter de TV, alinhado e charmoso, com microfone em punho. Era Rodrigo Vianna, que acabara de sair da Folha de São Paulo e estava em uma de suas primeiras matérias para a TV Cultura. Narramos o acontecido e Rodrigo ficou arrasado por não ter captado essa imagem. "Mas ela tem!", apontou Claudio. Na mesma hora entreguei minha fita para Rodrigo, que adiantou que a Cultura não paga imagens, mas colocaria meus créditos como cinegrafista. Adorei! Mas pedi para devolver depois, já que também haviam imagens pessoais de shows e viagens.
    Enquanto eu fazia anotações para a matéria que só entraria no dia seguinte, vi Tognolli ligar para a redação e ditar cada palavra e vírgula do texto que abriria uma página. Sem erros, com precisão cirúrgica. Não havia internet, nem telefones celulares. Depois Claudio dispensou o táxi e eu o levei até onde estava hospedado. Mas antes ficamos sentados no calçadão da praia, ouvindo o barulho do mar e conversando sobre jornalismo, investigações e rock. Para minha agradável surpresa ele era totalmente rock, já havia entrevistado metade dos meus ídolos e tinha uma coleção de guitarras. 
   Minha matéria ficou infinitamente melhor do que eu mesma imaginei. Escrevi com muita vontade na manhã seguinte. Recebi ligações dos dois jornalistas. Claudio para trocar figurinhas, Rodrigo para passar um endereço em que ele pudesse entregar a fita e me agradacer mais uma vez. Com certo orgulho assisti ao jornal da Cultura, com as imagens do bicheiro Ivo Noal rindo e bebendo com os engravatados, depois correndo por corredores, com minha câmera atrás dele. Nos créditos aparecia Imagens Adriana Mendes.  O jovem e promissor repórter de TV deixou  meu material na casa da avó de uma amiga, em São Paulo. Dona Alice ficou encantada com a educação, beleza e gentileza do rapaz.
    Com Rodrigo Vianna não encontrei mais pessoalmente, mas com Claudio Tognolli tive a oportunidade de outros encontros e coincidências e até o entrevistei antes do lançamento de um de seus livros, O Século do Crime. Pode ser que nenhum dos dois lembre-se deste dia ou desta matéria. Mas para mim, uma foquinha de 22 anos, foi marcante. Em poucas horas aprendi mais sobre jornalismo do que em um semestre inteiro de faculdade. O espírito investigativo e generoso de Tognolli, que não manteve para si a notícia, espalhando-a para outro veículo de comunicação foi uma demonstração de como fazer da profissão um bem de utilidade pública. Ético, não iria passar para um jornal concorrente, mas por que não mostrar imagens desta fuga para uma TV? Por que não enriquecer a matéria de seu colega? Como o professor universitário que também viria a ser, não se importou de me explicar quem era o bicheiro, que eu nem sabia que existia. Também não tive vergonha de dizer que não sabia. Rodrigo Vianna, por sua vez, mostrou sua gratidão e foi pessoalmente entregar uma fita caseira, na casa de uma senhora.
    Não é por acaso que Claudio Tognolli seguiu fazendo reportagens cada vez mais investigativas, em que teve de mudar, inclusive, a identidade. E Rodrigo Vianna não era só um profissional bem apessoado e de voz bonita. Sua preocupação social, com a ética e com os direitos humanos estão explícitos em seu blog. Adoro ler Escrivinhador, no  www.rodrigovianna.com.br. Sempre tem informação, com muita opinião.
     Aquela noite foi daqueles momentos de estar no lugar e hora certas. Mas, principalmente, com as pessoas certas. Era uma noite estrelada, num Hotel em frente ao mar. Poderia ter sido só mais uma noite tranquila, com uma matéria meio boba, sobre um evento que não dizia muito. Mas tornou-se numa espécie de marco para aquela garota foquinha. Foi uma noite apenas, mas que me mostrou que investigar e perseguir a notícia é ainda mais divertido que um show de rock.
   
   

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Em que Dimensão eu Tenho Visitas com Dora?

   Não tenho escrito mais sobre o processo porque desde que o atual juiz - o quarto desde que a outra parte entrou com a ação de Regularização de Visitas com Suspensão das Mesmas - esperei que algo se resolvesse. Em junho esse juiz sentenciou que as visitas, acordadas em agosto  de 2011, com supervisão de uma psicóloga escolhida pela outra parte, se iniciassem "o quanto antes!" Nunca se iniciaram. Apenas em agosto a outra parte me enviou um email para entrar em contato com Fabíola Januário Martins. Liguei, ela disse que me retornaria após o feriado de 7 de setembro. Até agora nada. Escrevi para a outra parte, mais uma enrolação. 
   Estive em Ribeirão Preto no dia 23 de agosto distribuindo uma ação pedindo visitas para Miranda, no feriado de 7 setembro. Obviamenet, não esperava mais resultado disto, não para o 7 de setembro deste ano. Estive mais duas vezes em Ribeirão Preto, em setembro. Numa delas com Miranda, consegui falar com o juiz, até cair em prantos quando Miranda pediu para ver Dorinha. Ela pensava que iria ver a irmã, estava entendendo tudo o tempo todo!
    No dia 28 de setembro voltei para Ribeirão Preto. Tentei ver o processo, mas estava com o juiz, para "conclusos". Esperei, tinha que seguir viagem para Uberaba. O juiz mandou um recado que na segunda me daria uma resposta. Na segunda, dia 1 de outubro. Eleições, folga nesta segunda, ligo no cartório, ligo de novo. Houve uma conclusão, está no site. Com o coração aos pulos fui ver o que o juiz decidiu: será que hoje poderei ver minha filha por skype? Será que minha mãe poderá vê-la neste feriado? Será que o juiz deu alguma resposta sobre a ação de alienação parental que eu dei entrada há 14 meses? Não! Essa foi a sentença dele: 

A presente ação cautelar foi promovida pela menor Miranda Mendes, representada por sua mãe Adriana de Carvalho Mendes, contra Jonas Melo Golfeto, para poder visitar a irmã Dora Mendes Golfeto, também absolutamente incapaz, que está sob a guarda do requerido. Pretendia que lhe fosse assegurado direito de visitas no dia 7 de setembro, para que passassem juntas o feriados em Santos, onde mora a requerente, e acompanhadas da avó materna. Entretanto, os autos somente foram apensados aos de regulamentação de visitas no dia 11 de setembro, como vista aberta ao representante do Ministério Público no dia seguinte, quando, pois, a ação já estava prejudicada. Vieram-me os autos à conclusão no último dia 21. Esta ação, portanto, já perdeu seu objeto. E, de toda maneira, cabe notar que a cautelar não poderia ter caráter satisfativo, e nem ser tratadas as visitas de forma assim casuística, se a representante legal da requerente é que, naturalmente, exerceria também o direito de visitas à filha Dora, e se no caso há conflito intenso de Adriana com Jonas, na ação de regulamentação de visitas que a primeira propôs, e onde já há regulamentação provisória, que não poderia ser alterada assim de plano e de forma exaustiva, não podendo a genitora querer que aquele direito de visitas provisoriamente ajustado tenha alcance maior ou seja de súbito modificado, ainda que agora se valendo da irmã da criança, Miranda, pois é óbvio que quando a mãe exercer as visitas à filha Dora já estará sendo indiretamente assegurado tal direito à irmã Miranda, requerente desta ação. Sendo assim, com base no art. 267, VI, do CPC, julgo extinta a ação, sem resolução de seu mérito, determinando a remessa dos autos ao arquivo, conquanto à requerente são deferidos os benefícios da assistência judiciária gratuita. P. R. I. C.
 
  Ora, mas isso era óbvio! Eu não esperava mais nada sobre visita de Miranda! Era uma liminar urgente em agosto, se ele  não deu resposta até 7 de setembro, não precisava mais. Para piorar ainda tira um sarro da minha cara, diz que já há uma regularização provisória! Em que dimensão isso acontece? Em que planeta eu visito Dora? E ainda diz que a regulamentação de visitas foi proposta por mim! Ora, em que momento eu pedi regularização de visitas com suspensão das mesmas? Dá para ler a inical para ver quem é o requerente e o requerido? 
  Dá para imaginar a dor que eu sinto cada vez que vou até a cidade em quem minha filha está apreendida? O quanto dói não poder vê-la, pois se tentar na casa chamam a policia, se for na escola, estarei expondo-a. Dá para entender como se sente uma mãe há exatos 20 meses proibida de abraçar sua filha? Ela cresceu dentro de mim, alimentou-se no meu seio...  
   É possível dimensionar o tamanho da minha indignação com esse resultado? A verdade é que não vou fazer mais nenhum movimento. A família Golfeto venceu, parabéns, conseguiram deixar uma criança órfã de mãe viva, com toda a ajuda do judiciário. Conseguiram separar duas irmãs na infância, para evitar sentimentos maiores. Dorinha, sempre vou te amar, quando você crescer e puder sozinha procurar por sua mamãe, estarei logo ali, no primeiro clique. E farei de tudo para Miranda nunca te esquecer, porque se acontecer uma tragédia maior comigo nesse tempo, ela poderá te contar a mãe incrível que eu fui.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Essência Impregnada

    Comecei a arrumar gavetas e caixas de Dora. Há mais de 20 meses está tudo intocado, o quarto tem movimento porque dormem hóspedes, passeiam gatos e os brinquedos e roupas de Miranda estão guardados lá. Mas nem as duas caixas de Barbies são muito usadas. Miranda prefere bebês e bichinhos de pelúcia. Tem vezes que abre as gavetas da irmã desaparecida, escolhe alguns vestidos e os veste. Não é que muitos deles já servem nela? Como é grande essa Miranda! Roda sorridente com os vestidos de Dorinha, mas começo com espirros descontrolados, devido às inúmeras alergias desenvolvidas desde que perdi minha filha mais velha. É imensurável a dor de nunca mais ver quem você gerou, pariu, amamentou e por 9 anos viu crescer... é o oco do vazio ver as roupas e imaginar de que tamanho estaria agora essa criança. Dói tão dilasceradamente que o corpo só pode reagir com aversão.

    Parece o relato da mãe de um filho que morreu, eu sei. Também sei que minha filha está viva (ao menos não fui comunicada do contrário), mas não fazemos mais parte uma da vida da outra desde que Dora foi apreendida, na busca feita em sua escola, no dia 10 de fevereiro de 2011. Minha filha foi apreendida e levada e ponto. Impedida de ver sua mãe, sua irmã, seus amigos. Impedida de usar suas roupas, brincar com seus brinquedos, expressar seus sentimentos e suas vontades. Isso não é um tipo de morte? Isso não é um assassinato? O que fazem com Dora é muito pior do que fazem comigo. Continuo sendo mãe. Ela perdeu a mãe. E também a irmã, a mesma que agora dança com suas roupas e folheia os seus livros. Há 20 meses Dora parou de ver Miranda crescer. Nem imagino quando se encontrarão de novo. Tão pouco a surpresa de ambas, ao perceberem o quanto estão mudadas. Posso ter uma leve ideia pelo que aconteceu ontem, quando Miranda viu a capa do DVD Harry Potter e a Ordem da Fênix. Me perguntou porquê os três estavam tão estranhos, expliquei que cresceram. "Será que Dorinha também vai estar assim?"
    Como se já não bastassem as tristezas e dramas inevitáveis da vida, me obrigam a suportar o absurdo de ter duas filhas proibidas de conviver, de brincar, de amar! Irmãs proibidas de crescerem juntas! Quem deveria defender os direitos das crianças? Realmente não sei o que acontece, não entendo o tempo, a demora... será que os profissionais de Vara de Família ainda não entenderam que as crianças crescem? Será que não entendem que o magistrado não nos faz favores? São todos funcionários públicos! Para quem Miranda e Dora irão reclamar quando souberem que foram impedidas de viver juntas? De participar da festa de aniversário uma da outra? Ou fazer a festa juntas, já ambas nasceram em fevereiro, com 7 dias de diferença.
    Entre minha indignação, misturada com revolta, torturada de saudade... encontro um caderno que Dora me deu, no nosso último Dia das Mães, em maio de 2010. A cada página um desenho mais lindo e colorido, com mensagens e declarações de amor, entre elas, uma que me fez chorar aos soluços: "Mamãe, você me dá tudo o que eu preciso: amor, carinho, aconchego, proteção e é por isso que te amo tanto". Também encontrei uma redação, O Cão Herói, onde conta, como uma repórter, a história de um destemido cão, que salvou 14 pessoas numa enchente na cidade de São Paulo, com datas, endereços e nomes. Então passei do choro ao riso, pensando na minha influência sobre a cria. Dora sempre gostou de escrever e fazer perguntas e sempre me viu resgatando animais abandonados. A verdade é que atos ficam muito mais impregnados do que palavras.
    No meio dos cadernos da escola de Dora caiu um cartão postal. Era de Gramado (RS), datava de 7 de julho de 1991. "Adriana, estou aqui em Gramado fazendo um curso. Tem pessoas elegantes, cultas e está tudo super interessante. Estou bebendo muito vinho. Faz frio. Saudades de você e de seus pais. Beijos para você e para a dona Laura. Do amigo, Gustavo Liedtke". A amizade com essa pessoa gentil, amável, inteligente e muito espirituosa começou em Ribeirão Preto. Nos conhecemos na faculdade Unaerp, em 1989. Adolescentes que dividiam o tempo entre estudos, inclusive da língua alemã, saídas, viagens e festas. Engraçado era quando nos chamavam de herdeiros, porque nos consideravam muito ricos.
    Nesses mais de 20 anos sempre tivemos notícias um do outro, mesmo quando esse criativo publicitário foi morar na China. Gustavo chegou a conhecer Dora quando ainda era bebê. Depois, com tudo isso que virou minha vida, nos perdemos um pouco. Por essas maravilhosas coincidências do destino, nos reaproximamos mais do que nunca no ano passado, no que posso chamar de a pior fase da minha vida. O humor sarcástico dele em muitos momentos me tirou das lágrimas. O pai dele também faleceu em consequência do Alzheimer, por isso soube exatamente o que me dizer quando o meu se foi. Gustavo trabalha hoje numa importadora de vinhos e continua bebendo com maestria, tornando o hábito, uma arte. O que tenho aprendido com ele sobre enologia é para uma futura tese.
     O que mais me emocionou neste cartão é perceber que a nossa essência continua a mesma. Quanta gentileza, carinho e amizade estão contidos nele. A delicadeza de lembrar-se de meus pais. O comentário sobre a elegância e cultura das pessoas. Assim, também a essência de Dora está impregnada nela, sua generosidade, gratidão, amor, bondade. Por mais que 20 anos se passem.
    
   

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Viver Não é Preciso"



   Há pouco mais de um mês voltei a nadar. O primeiro dia foi muito difícil, as pernas não batiam na velocidade que meu cérebro ordenava, os braços não puxavam a água e não lembrava como respirar em três tempos. Mas no terceiro dia o “professor” já veio perguntar se eu era nadadora, se competia... afinal, por pior que estejam as braçadas de um nadador aposentado, dá para saber quem nadou desde criancinha. Quando respondi sim a todas suas perguntas, me chamou para treinar com o pessoal de “águas abertas”, na Unimes, de Santos. Na mesma Unimes Dora fazia nado sincronizado. Eu levava Dora para o treino e Miranda ficava no carrinho dormindo, com meses de vida. Na época imaginava o dia em que Dora estaria na piscina de Saltos Ornamentais, onde treinava nado, Miranda na aula infantil de natação e eu dando umas braçadas com os adultos. 
   Meu desejo de praticar esporte junto às filhas atletas concretizou-se em parte. Levei Miranda para fazer uma aula experimental. Não só ela adorou, jogando-se na piscina destemidamente, como chorou quando a aula terminou, após 50 minutos de movimentos ininterruptos. Miranda tem DNA aquático, mas com tendência forte para a dança, o esporte/arte.
   Ainda não consegui nadar cinco vezes por semana, como é meu objetivo, mas passado um mês já consigo sentir meus braços como remos e minhas pernas já estão bem mais fortes e rápidas. Fico tão cansada que durmo junto com Miranda às 21h, mesmo se deixo luzes e computador ligados. É o melhor cansaço que existe: o do exercício físico. É tão bom fazer algo que te lembra quem você é. Natação é um esporte solitário e silencioso, em que o nadador só depende dele mesmo, ouve apenas os sons de suas braçadas e bolhas na piscina. Apesar de solidariedade ser fundamental na vida, é bom não esperar nada de ninguém e ser capaz de fazer todo o possível sozinho.
   Enquanto eu nado penso na solução de problemas, lembro dos tantos momentos que só aconteceram porque eu era nadadora, todos os amigos que tenho comigo até hoje. * “Nadar é preciso, viver não é preciso”. A primeira vez que fiz uma análise profunda desta frase foi aos 15 anos. Estava numa rede, balançando com o jovem ator Alexandre Corrêa, hoje Borges, do grupo Boi Voador. Com 19 anos, o lindo, talentoso, sensível e promissor artista lia um texto compenetradamente, enquanto me questionava sobre a profundidade da frase. Na minha visão simplista queria dizer que a vida não é precisa, não há precisão nenhuma na vida. Na navegação, sim. Como eu treinava muito naquela época, logo fiz uma analogia com a natação, esporte totalmente preciso e técnico. “Nadar é preciso, viver não é preciso”.
   Alê não queria apenas "declamar" a frase com voz potente, queria transmitir o significado daquilo. Vivia um tempo de muitas dúvidas, como quase todo adolescente, sua única certeza era que fazia exatamente o que deveria fazer: atuava. Também sentiu que “atuar é preciso, viver não é preciso”. 

   O primeiro contato com uma família muito singular e especial aconteceu em 1985. Estava no primeiro colegial e uma das minha melhores amigas de escola era Geórgia. No segundo ano tinha um garoto muito lindo e carismático, que tocava violão e cantava as músicas do Legião Urbana, falei que gostaria muito de conhecer o André, que para minha surpresa era irmão de Geórgia. Logo ela disse que ele era minha cara e nos tornaríamos amigos, mas que eu precisava conhecer o seu outro irmão, também ator, que morava em São Paulo. Realmente André se tornou um companheiro de vida, com algumas ausências por nossas agendas complexas, mas sempre presente. E, obviamente, adorei Alexandre. 
   Aos poucos fui conhecendo toda a família. O pai deles era diretor de teatro, o santista Tanah Corrêa. Alê era filho único de seu primeiro casamento. André, Geórgia e Kênia eram filhos dele com Elza Piacentini, uma mulher muito sábia, que me acolhia em sua casa como membro da família. No começo era confuso, porque o pai (Tanah) estava no quarto casamento, tinha outras filhas e eram todos irmãos, mesmo que nem tivessem mais o mesmo DNA. Como Janaína, que era irmã dos irmãos de Alexandre, mas coberta de mimos como sua caçulinha. Minha mãe achava tudo muito estranho, mas antes que soltasse alguma pérola preconceituosa sobre a família de artistas, lembrei-lhe que namorou Plínio Marcos, o mais maldito dos malditos, quando o mesmo ainda estava no circo. Mas ela nunca falou nada, ao contrário, quanto mais conhecia os irmãos, mais gostava de todos.
   Alê era fã de Elvis, e sempre que estava na casa da Elza, nas suas folgas de ensaio, dançava comigo Love Me Tender, com cara de galã e jeito de menino. Me sentia uma garota muito especial, por conhecer uma família tão grande, tão cheia de referências, tão amorosa, em que todos se respeitavam tanto. Alexandre me convenceu a fazer curso de teatro “porque eu tinha uma bela voz, rosto expressivo e cinematográfico”. Confesso que adorei o curso com Walderez de Barros, mas nadar, encenar, fazer computação e inglês fez com que minhas notas caíssem e meu pai falou para eu parar com alguma coisa. Larguei o teatro (mas o teatro nunca me largou). Continuei precisando da natação, a única coisa precisa em minha vida.
   Fui ver muitas das peças dos irmãos atores. André por um tempo tentou deixar a carreira, fez publicidade, mas o ofício nunca deixou dele, por incrível que pareça, era a atuação que lhe pagava as contas! André não poderia negar o próprio talento, seria blasflêmia! O sonho de Alexandre era fazer cinema, nunca o ouvi falando de atuar em TV, não naquela época, mas cinema era sua grande paixão... até que um dia ele estreou em Terra Estrangeira*. E com que satisfação assisti Alê engrandecendo um papel pequeno (o contraventor Miguel) com seu talento, carisma e um tanto de disciplina. Já como jornalista o entrevistei algumas vezes, percebendo que o estrelato em nada alterou sua sensibilidade e respeito aos outros. Ele sempre teve brilho próprio, portanto sempre foi uma estrela. Trabalhar no que ama, ser reconhecido por seu trabalho é uma das maiores satisfações que se pode ter na vida. Fico tão feliz em acompanhar a trajetória de dedicação, trabalho e sucesso de tantas pessoas. Uma famílias tão grande, com tantas separações e novas uniões, mas mantendo sempre o foco no mais importante: ser e fazer feliz.

* A frase Navegar é preciso, viver não é preciso tornou-se famosa como citação do escritor português Fernando Pessoa, mas a afirmação foi do general romano Pompeu, em 70 A.C. Há muitas análises para essa frase, subjetivamente também pode considerar a navegação como descoberta, portanto jogar-se na vida seria preciso. Viver por viver, não. Filosofia para horas e dias...

* Terra Estrangeira (1995). Primeiro filme dirigido pela dupla Walter Salles e Daniela Thomas, um dos meus longas favoritos, não só por ser esteticamente e de roteiro perfeitos, mas porque representou a retomada do cinema nacional após a Era Collor. É um "documentário" sobre a juventude da época.