quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Feliz no Rito de Passagem

    Sei que não deveria escrever isso por aqui, mas escrevo mesmo assim. Sei que a outra parte vai adorar ler tudo isso e levar para o processo. Tudo bem, sei reconhecer uma derrota. Perdi minha filha para a Justiça, para os avós, para o novo mundo dela, do qual não faço parte. Estou velha para o mercado de trabalho, decadente e saturado, dificilmente conseguirei emprego decente como jornalista. Afinal é só dar uma busca no google e logo será encontrado a edição feita pela outra parte, que piora o que já era horrível. "Pô, saiu na Globo, então é verdade! Essa mulher é uma louca, sequestradora!". Não tenho mais credibilidade nenhuma.
    Nunca entendi tanto ódio! Certa vez já estávamos separados e ele me chamou de escrota porque pedi para ficar com Dora. Eu só queria sair com um amigo para conversar. Ficou 3 meses sem ir ver a filha depois disso. Mesmo assim o mantive como dependente no meu plano de saúde Sul-América Top, embora vários amigos tenham dito que eu era boazinha demais. "Não, ele é um babaca, mas é o pai da minha filha e se sofrer um acidente na estrada quero que tenha helicóptero para socorrê-lo e o melhor atendimento".
     Estou muito deprimida, muito mesmo. Tenho um monte de amigo otimista dizendo que não posso ficar assim, tenho outra filha para criar sozinha... e isso me deprime mais ainda! Tenho outra filha para cuidar totalmente sozinha e não estou acertando nesse trabalho. Luz no fim do túnel? Pode ser um caminhão na contramão. Ontem fiquei conversando pelo computador com a Simone Raia: "Dri faz isso, faz aquilo". Não conversamos há tanto tempo que ela não sabia de várias coisas ruins que aconteceram. Me sinto chata e repetitiva. Acho que só a Marcia Abad sabe como foram meus últimos 3 anos. Acho que só ela entende realmente o que sinto e o que tenho enfrentado, porque tem sido a pessoa mais próxima de mim nesse período obscuro que não clareia nunca. Olha que eu tento, mas ninguém vê o tanto que eu tento.
      Minha mãe, com quem sempre discordo, mas não me imagino sem, levou a Miranda ontem para a casa dela, atendendo meu pedido confuso. Miranda me deixa exausta, mas me ocupa e me faz rir e adora qualquer vitamina ou arroz sem sal que eu faça. Porém me sentia mesmo aniquilada, querendo assistir Roma e não Peter Pan. Elas foram, mas não conseguia me concentrar em nada e comecei ver a imensidão de fotos que tenho guardadas. Iniciei essa função desde que reencontrei uma irmãzinha da infância, a Pimentinha. Prometi que lhe mostraria todas as nossas fotos, de maiô adidas e tudo. Mas a Regina Pimentinha é uma história que merece um texto, um livro só para ela. Estou até agora mergulhada num mar de fotos, espalhadas pela casa.
      A fotografia sempre fez parte de mim. Quando eu nasci meus pais não tinham onde morar, cada um morava com suas famílias, e moramos por meses no estúdio fotográfico dele, no centro de Santos. Não tenham dó imaginando um bebê pobrezinho, acho essa história muito singular. Quando minha mãe descobriu que estava grávida meu pai estava viajando. Não eram casados, ele só voltou 3 meses depois. Casaram-se no civil quando eu já era um feto de 4 meses. Apesar do namoro longo e da idade dos dois (Laura 34, Abel 32) ainda não tinham nada programado. Então nasci assim, numa véspera de final de Copa do Mundo, sem saber direito para onde ia. Vai ver por isso sou tão nômade. Meu pai sempre fotografava tudo e quando eu tinha uns 7 anos já me deixava fotografá-lo, pois nunca tinha foto dele em lugar nenhum. As fotos mais lindas dele são minhas. E eu era sua modelo favorita, uma das vantagens de ser filha única. Talvez por isso eu saia tão bem nas fotos, já sei meu melhor ângulo, sorriso...
     E quanto mais eu via as fotos mais lembrava de como era feliz e como poderia continuar sendo. Mas minha felicidade não depende mais de mim, não nesse momento, não nos últimos anos. O que fazer para ser feliz? Tentei encontrar naqueles momentos eternizados alguma resposta. Ainda estou tentando. Me vi atleta nas fotos de natação e o medo que tomou conta de mim quando parei de nadar e mudei para Ribeirão Preto. Tinha tantos amigos no colégio e nas piscinas, será que nos afastaríamos? Será que eu seria aceita em outros grupos? Com apenas 17 anos mudei para a cidade que chamo, carinhosamente, de Sucursal do Inferno, porque lá faz 30C no inverno. Tudo bem que fui para a casa do Paulo Miorim, amigo de meu pai e pai da Paola, Marcelo e Rodrigo, meus amigos desde sempre. A ideia, acho, era ver se me comportava bem até poder mudar para uma República. Parece que deu tudo certo, em alguns meses já estava procurando uma para dividir.
     Lembro exatamente do dia que vi uma garota baixinha, de cabelos cacheados e sorriso imenso perguntar: "Alguém sabe quem queira dividir um apartamento?". Eu! E fui me apresentar. Era a Giselle Bastos, de Campinas, que já dividia um apê de um único quarto com a Soraya Caldana, outra campineira. Essas duas foram muito importantes para mim, inclusive na minha mudança de estilo. Tinha acabado de parar de nadar e minhas roupas eram camisetas, moletons, tênis, minissaia, bermudas e poucos vestidos.
    A Gigi, estudante de Publicidade, era gerente da Ellus e a Soraya, da Alcachofra, logo fiquei linda e moderna e bem vestida, embora nunca tenha ligado muito para isso. Para completar chegou mais uma, Helena Couto. Formada em Física pela Unicamp estava meio perdida, vendo sua genialidade ser pouco aproveitada no mundo prático. Foi também trabalhar numa loja, a Zeppellin, daí eu tinha os sapatos e botas mais modernos da época. Heleninha era uma figura, acordava de mau humor, mas ia melhorando até o final do dia e acabava sempre com risadas e euforia. Tenho histórias impublicáveis sobre ela. Como eu só tinha 18 anos e as meninas entre 23 e 25, me achavam muito criança para participar de certos assuntos. Aos poucos viram que eu tinha um pouco de maturidade e experiência (não tanto quanto elas, claro).
     Fiz muitos amigos em Ribeirão Preto que trago comigo até hoje: Gustavo Liedtke, meu confidente, que me faz rir e chorar e sabe tanto de mim há tanto tempo. Fábio Diegues, que é santista, mas que fui conhecer lá na Sucursal do Inferno. Cristina Dalto, que eternizou nossa amizade em sua filha Bruna, que é minha afilhada. Célia Payão, que depois ainda foi morar comigo em São Paulo. Claudia Rubio, que tive a felicidade de reencontrar há pouco tempo e perceber que nunca deixamos de ter afinidades e seguimos um percurso parecido na vida.
     Para celebrar os novos amigos decidi fazer meu aniversário de 19 anos no tal apartamento minúsculo, além da comemoração posterior, com os amigos de Santos, que nunca deixaram de ser amigos. Meus pais foram, óbvio, levando doces, quitutes, a amiga Simone Raia e minha priminha Luaine, que sempre tive como uma irmã, de tanto que ficava em casa desde os 2 anos. Amo demais essa prima! O apartamento ficou lotado, tinha gente até na área de serviço. Também apresentei meu namorado da época, o Siquila, mas só como amigo, porque estávamos juntos há menos de um mês. A grande surpresa para a pequena Luaine, então com 9 anos, foi conhecer a Magali de Souza, a personagem das histórias em quadrinhos. Magali morava em Ribeirão e era amiga das meninas de Campinas, logo, minha amiga. "Como assim? Ela existe de verdade?" Sim, ela, a Mônica, o Cascão e o Cebolinha. Mais engraçado é que a Magali não saía do lado da mesa, nem a Simone, em todas as fotos está comendo ou pegando algo para comer. E minha mãe é especialista em preparar quitutes gostosos. Magali é mesmo uma comilona e não engorda, a danada! A Lu ficou encantada e tem várias fotos ao lado dela.
      Foi tudo perfeito! Mesmo os que beberam demais foram comportados, nem vomitaram, quem fumava ia para a sacada. Meus novos amigos foram totalmente aprovados por meus pais! Um bando de estudantes de Jornalismo e Publicidade, que falava pelos cotovelos, atropelando conversas e histórias.
      Penso que essa passagem, muitas vezes dolorosa, da adolescência para o mundo adulto, foi bem fácil para mim. Fui feliz e sabia o que queria quando muitos se sentem perdidos. Nunca tive problemas em conhecer gente, em enfrentar o novo, em mudar de cidade, casa, em manter os amigos. Talvez tudo tenha sido muito fácil para mim, por isso não consigo entender como suportar tudo que é tão difícil. Sei que há dores iguais ou piores do que a minha. Sei porque sofri muito as dores dos outros também. Mas não consigo encontrar uma saída. Não consigo.
     
http://youtu.be/nvaaX-pP4aI 
     

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Fantasma do Alzheimer

    Quando meu pai já estava muito estranho, já até perdendo-se pela cidade, um dia foi até o meu apartamento. Eu ainda estava de camisola, jogada, pensando na minha filha de 3 anos, que eu via no Visitário Público de São Paulo todos os sábados, das 10h às 16h. A tortura era tanta que eu demorava até a semana seguinte para me recompor. Isso em 2005. O interfone tocou e pedi para mandar subir, meu pai nem me ligava mais, achei curioso ir me ver. Voltava da casa do único irmão, meu tio Filipe*, que foi-se para sempre de maneira rápida, dia 17 de junho deste ano, do coração. O porteiro teve de subir com meu pai, que não acertava o número 10 no elevador.
      Estava tão deprimida que não consegui me trocar e descer para buscá-lo. Ofereci água, conversamos um pouco e disse que tinha ido visitar a mãe, minha querida Maria do Carmo Brites, a vovó portuguesinha de 1m45cm, de cabelos branco total e olhos imensos e azuis. Mas ela havia morrido no final de 2004... foi o primeiro grande alarme: meu pai poderia ter Alzheimer. Mesmo pensando tudo isso, não conseguia agir. Pouco depois ele saiu, confundiu o elevador com a porta do vizinho. Não tive forças para seguir com ele. Olhei pela janela meu pai quase ser atropelado ao atravessar a rua, já não dirigia, ia pegar um ônibus. Nunca esqueço esse dia e não ter seguido com ele nesse momento é o maior arrependimento da minha vida. Ter deixado a tristeza me dominar ao ponto de não ajudar quem sempre me guiou nessa jornada inglória. Sempre lembro deste dia e choro.
        Certa vez chegou nervoso porque tinha perdido o dinheiro que estava em seu bolso, era o aluguel da casa da minha avó, em São Vicente. O irmão dele não acreditou que tinha perdido o dinheiro. Na verdade era difícil para todo mundo acreditar que aquele homem não conseguia realizar tarefas antes tão simples.
         O diagnóstico preciso veio em 2006. Estávamos juntos com a médica. Ainda em momento de lucidez constatou: "Quer dizer que vou morrer de Alzheimer?". "Se você tiver sorte, pai, pode ter antes um avc (acidente vascular cerebral)", respondi com o humor sarcástico que herdei ou aprendi com ele. Mas o Mal de Alzheimer não tem graça nenhuma. Hoje fiquei sabendo que Gabriel García Márquez, um dos meus autores favoritos, está com Alzheimer também. Talvez hajam tantos com essa doença porque nunca a população mundial foi tão longe na vida. Também porque os diagnósticos são mais precisos. Não há nada mais triste do que perder quem você ama a cada dia. Meu pai, meu exemplo em quase tudo, minha referência na tolerância, no diálogo, na mente aberta, nas explosões iradas seguidas de pedido de perdão, disse que nunca esqueceria de mim. Mas esqueceu. Nem se reconhecia no espelho.

      Como essa doença é genética, tenho de 20 a 40% de chances de desenvolvê-la. Como sou muito parecida com ele, acho que as chances são muitas mesmo. O perfil do paciente, antes de desenvolver a doença é de uma pessoa extremamente ativa, falante, inteligente. É tipo um excesso de produção das células nervosas, inflama tudo na cabeça, é muito neurônio. Por isso devoro todas as publicações a respeito, quero evitar ao máximo a dependência absoluta. Minhas filhas não merecem isso. Entre as formas de prevenção (ou adiamento) estão praticar esporte, conhecer lugares novos, aprender novos idiomas, ler muito, exercitar e oxigenar o cérebro ao máximo, ou seja, é preciso ter muito tempo e dinheiro, coisas que não tenho. Me resta escrever para quando eu esquecer todas as minhas histórias, minhas filhas possam lê-las.
      Meu pai também era um grande contador de histórias incríveis, teve uma vida cheia de viagens e fatos interessantes, até se afogar no trabalho para deixar algo de bom para mim e minha mãe. De nada adiantou, já com Alzheimer, foi perdendo todos os seus bens, os bancos levaram carros, imóveis, terrenos, comércio... mas o que ele tinha de melhor ficou comigo. Parte de seus livros também estão comigo. Mas não consigo me concentrar suficientemente para lê-los.
      Sobre a doença li também que estresse contínuo e profundo aceleram o processo. O que eu vivo há anos mesmo? Mas tenho um alento, se eu tiver a doença será uma forma de esquecer de tudo e todos, desse círculo vicioso de erros que se tornou minha vida, dessa dor de ter perdido uma filha para a Justiça, de ser mãe pela metade da outra filha, de não conseguir me reerguer, de ser detonada o tempo todo por gente que nunca me viu. Os que amo serão os últimos a serem esquecidos, porque o Alzheimer é assim, vai restando o que importa, até não restar mais nada.
      Coincidência ou não hoje é Dia do Idoso, se você tem alguém que ama com Alzheimer, abrace muito, as palavras perdem o significado, os gestos não.

    * Filipe Correia Mendes era meu único tio por parte de pai. Numa internação em que seu irmão ficou na UTI e só sairia de lá usando fraldas geriátricas e numa cadeira de rodas, não quis acreditar, repetia que "o Abel não está em condições de sair assim".
     Meu tio era um homem muito inteligente, apesar da diabetes que estava lhe tirando a visão, tinha plenas condições mentais, mas não conseguia aceitar ver seu irmão assim. Nesse dia no hospital, me contou coisas dos dois que me emocionaram muito. Achava meu tio arrogante, mal humorado, mas tinha uma razão forte para isso, da infância, que eu só soube depois.
     Quando vieram para o Brasil ele tinha 12 anos e meu pai 10. Minha avó detestou o mangue da praia de Santos e foi com o "Abelito" para a Argentina, onde morava parte de sua família. Deixou Filipe com o pai, Manuel, porque se levasse os dois, certamente o marido galã arrumaria outra mulher. Me coloquei no lugar daquela criança de 12 anos, em um País distante, com idioma igual, mas fala diferente, longe da mãe e do irmão e, pior, sentir-se o preterido. A arrogância nada mais era do que sua forma de defender-se do mundo. Custei a entender mas, felizmente, nos últimos anos, ficamos próximos, até me ajudou resolvendo uma pendência jurídica no início deste ano (era advogado).
      Numa de nossas últimas conversas falou muito da infância em Portugal, das brincadeiras na neve, de como o Abel era o preferido da turma. Estava me preparando para voltar de Ribeirão Preto quando recebi  a ligação de Filipinho, meu primo mais velho, sobre o falecimento. Nem dormi na viagem, me arrumei e fui direto para o velório. Estávamos nos três: eu, Filipinho e Ana Maria. Meu pai só teve a mim, meu tio só teve os dois. Ana não teve filhos, Filipinho tem uma filha, Izabela, que mora em Rondônia. Nós três ali abraçados éramos a família Mendes. Senti ali como é bom ter família, por menor que seja. Espero que o meu fantasma só assombre a mim.

"Raiva é Energia", Já Dizia o Velho Punk

   Estou sentindo uma urgência muito grande em escrever. Tive mais uma noite de insônia e escrevi um pouco de uma história linda de amor e música, que sempre me inspirou. Não pensei em tocar tão profundamente quando escrevi, deixei meu amigo Clayton Martin em lágrimas, pedi desculpa, mas ele agradeceu, disse que foi uma mistura de tristeza, alegria e orgulho e que isso fez com que se sentisse mais vivo. Lindo isso, não? Só poderia vir de alguém com sensibilidade que transborda.
    Fico num turbilhão de pensamentos e só consigo melhorar escrevendo, é tanta coisa pra dizer que não digo, penso como tem gente na minha vida que não mensura sua importância. Foi assim dia desses também, com minha inesquecível professora do primário, Lea Eloi.
     Tem vezes que penso em parar de escrever nesse blog. Não poder mais escrever sobre o processo me deprime, porque esse era o fundamento, eu só tenho minhas palavras para defender minha figura pública, amplamente detonada em rede nacional. Mas tudo que escrevo engrossa os 9 volumes do processo, porque a outra parte vai e coloca tudo lá. Se ao menos o juiz lesse... mas eu tenho tanta vontade de escrever o que vem acontecendo desde dezembro, sobre todas as dificuldades impostas por brechas da Justiça, o não cumprimento de prazo por parte do magistrado. As perícias que nunca terminam, porque a minha loucura deve ser tão genial que nenhum perito conseguiu defini-la! Ainda vão inventar um nome novo para os meus "transtornos psiquiátricos". Não sou bipolar, não tenho depressão crônica, não sou boderline, não tomo nenhum tipo de remédio, nem aspirina. O que eu tenho então? Tenho raiva, muita raiva.
       Tenho muita raiva de ser julgada o tempo todo por gente que não me conhece e nem juízes são. Hoje logo cedo me vi numa conversa de facebook que eu já tinha saído, de um desses grupos de Pais que Sofrem Alienação Parental, que culpam as mulheres e blábláblá. Já parei de culpar a outra parte, que iniciou isso tudo em 2005. A culpa é minha que transei sem camisinha e com o cara errado, fiz repouso absoluto por 7 meses e meio para minha filha nascer, não quis ir numa clínica de aborto quando o cara errado procurou uma. Não lhe dei um chute quando disse que não tinha coragem de contar para os seus pais que eu estava grávida. A culpa é minha que acreditava em Justiça.
     A culpa é, principalmente, do Judiciário, que mantém o litigio por décadas. E nesse grupo um cara vai e posta a matéria do Profissão Repórter e ainda escreve algo mais ou menos assim: "Olha o que essa artista fez, deu dois tiros, um no pé e outro na cabeça, não, foram dois tiros na cabeça" e outras coisas que embrulharam meu estômago com gastrite nervosa. Ora, meu caro desinformado, sou jornalista, o pseudo artista é a outra parte, se acredita mesmo na Globo, a alienadora oficial do País, só posso sentir pena de você e desejar que sua ex continue mantendo a guarda da criança!
    Antes eu havia escrito que sou mãe solteira e queria que o genitor reconhecesse porque preciso da pensão. Nossa, fui achincalhada! Como se as mães vivessem das pensões de seus filhos! Que o mais importante é a presença, é o amor! Se o genitor nunca quis conhecer, registrar e fugiu de exames de DNA como posso obrigar a dar amor? Agora pensão eu poderia... poderia se a Justiça não protegesse tanto os homens. Mãe solteira ainda é vista como uma devoradora, homens que não assumem filhos são amplamente aceitos na sociedade.
      Tenho raiva e muita raiva desses advogados que sugam até os ossos de seus clientes, fazendo de tudo para manter o litigio, que escrevem qualquer coisa sem provas porque sabem que levará anos até provar o contrário. Tenho muita raiva de mim, que só queria ser uma anarquista inofensiva, uma punk do amor, com meia dúzia de furos na orelha e de tatuagens pelo corpo, que só extravasava a raiva pelo mundo todo errado em shows de rock, mas me tornei uma vítima desse sistema de tortura psicológica. E tenho raiva porque o papel de vítima  nunca me caiu  bem.

Cacos de Barcelos

     Nunca gostei muito de agressões físicas, mas as pessoas que escurraçaram o Caco Barcellos durante sua tentativa frustrada de acompanhar as manifestações de junho, me representam. Agradeço a todas. Foi a prova de que esse arrogante jornalista não é o que pensava que todos pensavam dele: um sinônimo de imparcialidade e profissionalismo.
     Foi reconfortante ver o Barcellos aos cacos, com aquela cara de "sou muito melhor do que todos vocês", tendo de ouvir em uníssono uma multidão gritando "pede pra sair". Que ele não dignifica a profissão já estava claro na matéria sobre guarda, quando ele, literalmente, baba de raiva ao negar que a foquinha emotiva me contasse onde minha filha estava. Imparcialidade ali passou longe, porque foi uma jornalista para cada lado, Eliane Scardovelli ouvindo minha versão, Gabriela Lian ouvindo a da outra parte. Quando eu aprendi sobre jornalismo, diziam que o repórter deveria ouvir os dois lados, três ou quatro se preciso fosse.
    Tem o presidente da Ong APASE também, Analdino. É um advogado que adora explorar sofrimento alheio, a Ong  não tem nem endereço. Ficou super interessado no caso, pois viu ali uma forma de ter visibilidade na mídia. Me ligou, ligou para a outra parte. Disse que conheceu o Caco Barcellos, estudaram juntos em Campinas e que Caco foi afastado de seu filho, quando a criança tinha 4 anos, por isso tinha raiva das mães. Não me contou em off, portanto, posso escrever isso aqui. Verdadee ou não foi o tal Analdino o relator da história. Disse ainda que a outra parte do meu processo lhe contou que levou minha filha para Ribeirão Preto porque não daria conta de cuidar dela sozinho em São Paulo e que ficava muito mais em São Paulo mesmo. Quando perguntei se diria isso em juízo... não, claro que não. Mas como não pediu off, está aqui também.
http://youtu.be/pC9npjmGvNM

Adriana e Fernanda

    Tem um monte de gente que não me conhece, não sabe a criança fofa que eu fui, a adolescente cheia de amigos, estudiosa, atleta, cooperativa, participativa, que sempre pegou bichinhos nas ruas, que perdeu muitos amigos na juventude de mortes trágicas, que continua perdendo, mas continua amando todos eles, todos os dias vida. Muita gente não sabe que lembro de tudo porque me interesso por tudo, quando leio um livro, estou dentro do livro, quando escuto uma música, separo os instrumentos, sinto cada batida, porque bate junto do meu coração. Quando escuto uma história é com o coração também, por isso lembro de tudo, eu vivo, não fico de expectadora, eu me envolvo, eu sofro junto, eu vibro junto. Eu sou assim e sempre fui e acho que continuarei sendo e essa gente que não sabe nada de mim me critica porque "se perdeu a guarda coisa boa que ela  não é".
    Mas ao mesmo tempo tem outras pessoas que se identificam de cara, só pelo texto. E tive a sorte de conhecer pessoalmente e me tornar amiga de duas delas: Adriana Abujanra e Fernanda Vicente.
     A Dri leu o blog, me mandou um email que chorou e não conseguiu parar de ler, isso há mais de 2 anos. Quando vi Dora pela primeira vez, em Ribeirão Preto, ela foi a primeira a ligar e choramos tanto ao telefone que nem dava para conversar. Como ela mora com suas duas filhas lindas, Sof e Manu, em São Carlos, próxima a Ribeirão, fui com Miranda para lá, dias antes do Natal de 2012. Empatia imediata. Inteligente, feminista, cuida das duas filhas sozinha, numa batalha diária. Cheia das tatuagens, terna e doce. A vida lhe dá tapas e ela retribui com sorrisos, aliás, um sorriso lindo! A Dri é toda linda! Estive semana passada com elas de novo, foi ainda melhor, mesmo eu doente, imunodeprimida... a Miranda já é amiga de infância das filhas dela e isso é tão especial. As meninas nunca viram o mar e virão para cá em novembro. E quero que elas vejam como é lindo o oceano e quantas possibilidades podem trazer.

    Um dia recebi uma mensagem de Fernanda Vicente, que lia meus textos, se identificava, era jornalista, santista, mãe solteira e feminista e me apoiva. Olhei seu perfil no facebook e adicionei. Ontem, domingo, fui no Centro dos Estudantes de Santos, um lugar muito underground, fervilhante de ideias e juventude. Fui levada por meu primo, meu amor, Osvaldo Gonçalves Jr, que daria uma aula aberta de teatro infantil. Foram várias atividades infantis, com música do Palavra Cantada, gente linda, disposta no coletivo. Tinha bolo, salgados, pipoca... tudo para as crianças, até apresentação de palhaços, Miranda disse que parecia uma festa. E de certa forma, era. Coloquei uma foto da Miranda feliz da vida na internet e a Fernanda mandou uma mensagem e apareceu, com o filho Davi, um menino de 4 anos enorme, cheio de energia!
    Ela me reconheceu e nos apresentamos. Nossa! Amiga de infância! Olhos vivos, fala rápida, pensamentos claros, ideias definidas, feminista ativista mesmo, daquelas que dá orgulho de ser mulher. Trocamos até confidências íntimas. Eu não estava nos melhores dias, com a garganta doendo, que não me deixava falar muito. A Fer é tão cheia de ânimo e alegria, já combinamos outros programas com nossos filhos e já sei que será uma grande amiga. Essas duas mulheres e os acontecimentos recentes me deram um impulso no ativismo. Feminismo não é o contrário do machismo, é a luta contra ele. Difícil mudar o pensamento dos machistas, mas é possível fazer com que as mulheres se livrem deles e criar crianças sem sexismo e essa será, daqui para frente, uma das minhas principais bandeiras.

     Então alguém como eu atrai e repele. Mas ainda não sei qual é o meu problema de fato. Qual psiquiatra seria capaz de descobrir? Queria tanto ter uma resposta para tanto transtorno... que me dá muita raiva!

http://youtu.be/zN-GGeNPQEg





segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Fazendo Amor e Música

    O ano não lembro, mas era Carnaval, eu e Keila, minha prima, viajamos para Paraty (RJ). Acampamos na praia do Jabaquara, com Cynthia e Paula, as irmãs Matozinho. Mas praia mesmo era lá em Trindade. A Serra do Deus Me Livre nem tinha asfalto, daí choveu e não pudemos voltar. Lembro da Keila querendo ficar, porque tinha visto um cara que era o seu número. E lá estava eu sentada na calçada, tomando uma cerveja gelada, enquanto esperávamos "o cara" passar. Então vi um rapaz magro, branco, de cabelo desgrenhado, com olhar I don't care. Carregava uma prancha. Keila e seu charme irritante logo trouxeram o cara para o seu lado. Olhares, sorrisos, afinidades e saí de mansinho porque estava sobrando.
    Engraçado foi saber que eles já haviam se encontrado uma outra vez e eu também estava lá. Clayton Martin, o número da Keila, era baterista dos Ostras e fomos num show deles na praia de Maresias (litoral norte de SP). Perdi a Keila de vista e fiquei preocupada porque ela já tinha bebido demais, como não achei, resolvi voltar para o show. E lá estava ela! Dançando no palco! Parecia uma performance, nem a tiraram de lá, afinal sempre faz sucesso garota bonita no meio da banda. 
    Mas em Trindade foi o encontro de verdade. E então não se largaram mais. Algumas temporadas depois, mudaram-se para Arraial D'Ajuda, na Bahia. Fiquei um ano longe desses adoráveis malucos, fui vê-los no final de 1999, porque queria começar 2000 em grande estilo. Fui eu e o Azeitona (Fábio Daros), percussionista dos bons. Chegamos exaustos, abraçamos os queridos Clayton e Keila e fomos todos para a praia. Na volta, que tristeza, a casa tinha sido invadida e minha câmera fotográfica nova, cheia das lentes, filtros e zoons foi junto no roubo. Dessa jornada incrível, que caminhei com o Azeitona de Arraial até Caraíva, as imagens ficaram só na lembrança.
     O que mais me marcou na viagem foi ver o Clayton tocando violão, gaita e cantando (não sabia que ele sabia cantar além dos backing vocals). A Keila também tocava, mas estava tocando muito melhor. Sua voz rouca, meio punk, agora estava mais afinada. Era muito amor e música! Estavam fazendo uma imersão em novas alternativas. Achei tudo ótimo! Assim nasceu a banda Vaca de Pelúcia, da qual eu era a maior fã!
     Gravaram um CD, voltaram para São Paulo e começaram a fazer shows. Ia sempre que meu trabalho quase escravo permitia. Uma vez estava com a Keila no show dos Autoramas (https://youtu.be/bkrNGlZrk-E), no Sesc Santos. A gente lá curtindo, dançando, cantando e uma turma teen do rock aproximou-se dela e perguntou: "Você é a Keila do Vaca de Pelúcia? Nossa, somos seus fãs, vocês são demais, você é linda!" Acho que fiquei mais orgulhosa do que ela nesse dia, que na verdade, nunca percebeu a dimensão da banda.
     Quando fiz repouso absoluto na gestação da Dora, Keila passou os últimos 3 meses comigo, em São Paulo, cuidando de mim, cozinhando coisas deliciosas e arrumando tudo com sua mania de limpeza que rendeu o apelido de Mônica (Geller, dos Friends). Já escrevi sobre isso por aqui, mas não que o Clayton também era hóspede constante na casa, chegava ou muito tarde ou muito cedo, sempre com queijos de diversos tipos para alegrar nossa mesa. A Vaca estava já meio parada e o Clayton, que não parava nunca de tocar tudo, estava em outros projetos, como Os Detetives e Cidadão Instigado. Keila começou a dedicar-se mais às suas pinturas e vendas.
     Também nunca entendi porque o casal se desfez, embora continuassem na parceria, companheirismo e amizade, sempre juntos em todas as outras coisas. Mesmo cada um com outro par, ensaiavam juntos, compunham juntos, eram de uma cumplicidade invejável, um tipo de amor incondicional, acontecesse a merda que acontecesse.
      E tem dias e principalmente noites, que bate uma saudade tão grande, só traduzida pela música. Não diminui, nem faz parar, mas alivia e pode me fazer dormir.

sábado, 28 de setembro de 2013

Lucidez Antes que Seja Tarde

    Nossas filhas nos aproximaram. Miranda ficou fascinada pela garotinha de vestido e coroa de princesas, que brincava de rodar no Sesc de Santos. Como era menor do que Miranda, que é chegada numas brincadeiras de luta e artes maciais, me preocupei. Mas a mãe, com seu sorriso largo e olhar sincero, disse para não me preocupar, crianças se entendem. Nos simpatizamos de imediato, me contou de sua filha mais velha, com múltiplas deficiências, as três vivem grudadas, mas justo naquele dia, a primogênita estava com o pai. Perguntou se eu tinha outra filha. Pensei em dizer que não, porque é tão difícil explicar, tem de ser por doses homeopáticas, mas certamente ficaria amiga daquela mulher, que além de jornalista era cantora e mãe dedicada e amorosa. Comecei a contar meio sem jeito, mas ela ficou realmente interessada e tocada na pela história da mãe que perdeu a guarda da filha. Sentiu meu drama, fazia perguntas como repórter, em algumas vezes quase chorou, como a melhor amiga.
   O dia terminou de noite, num show incrível em que as meninas fizeram até performance, a amizade foi selada e desde então, há mais de um ano, nos encontramos inúmeras vezes, algumas combinadas, quase todas inesperadas. Nossos destinos parecem se cruzar o tempo todo. As vejo sempre juntas, um carinho enorme entre as irmãs, apesar de já ter 11 anos, a mais velha precisa de cuidados de bebê e sempre precisará. O amor incondicional desta mãe é lindo, leva a menina em sua cadeira de rodas para todos os cantos. Nem liga mais para os olhares de piedade nas ruas. E sua presença é tão fascinante. Indiscutivelmente bela, tem um humor fino, voz rouca e também é muito inteligente, bem informada, conversamos horas e nunca acaba o assunto. É tão querida e tem tantos amigos, que seu apartamento foi incendiado, perdeu todas as roupas e das filhas, brinquedos e uma comoção entre amigos lhe trouxe quase tudo de volta. Essa mulher, mãe, jornalista, com tantos afazeres, tem sempre um tempo para socorrer amigos, acompanha de perto minha saga, se revolta, fica indignada, tem ideias, não se conforma, quer fazer denúncia. Quantas vezes se emocionou por meus encontros com Dora...
    
    Num dos dias que antecedeu minha ida para Ribeirão Preto, nos encontramos no Sesc de Santos e, como estava muito calor, seguimos com as meninas para a praia, com a amiga Marcia Abad, testemunha e companheira de toda essa história também, e também o pai da filha mais nova. A praia de Santos à noite tem vida própria, no calor fica muito mais gostosa do que de dia. Ficamos todos lá, comendo pastel, tomando água, fazendo desenhos na Fonte do Sapo, convidando crianças para desenhar também. As meninas brincavam na areia, quando um cara passa com violão e nos oferece uma música (que é cobrada depois), desafinou um pouco, mas nós fomos nos afinando e cantando Raul. Sempre Raul. Lembro que minha viagem no dia seguinte ficou mais leve.
     Ainda comentamos, Marcinha e eu, como era bonito ver um casal, mesmo separado, sair junto com a filha, isso era admirável. Numa outra vez fomos todos assistir um campeonato de Patinação Artística no Clube Internacional de Regatas. As três meninas, as três amigas e o pai. Comemos pizza, nos divertimos muito. O cara sempre calado, compensando a falastrice de sua ex (creio ser uma característica do pessoal da Comunicação). 
     
    Hoje, madrugada de 28 de setembro de 2013, estou com insônia. Apesar do dia ter sido cansativo, da garganta doer após uma semana de gripe e febre, nenhum desses é o motivo da falta de sono. Não consigo dormir porque soube que esse pai entrou com uma ação para pegar a guarda da filha! Não sei detalhes dos fatos, nos escrevemos rapidamente e amanhã minha amiga querida virá em casa, com a amiga querida da Miranda. Ambos já tem advogados, ambos já estão sofrendo de ansiedade e medo, sentimento de rancor e vingança. Não consigo dormir porque fico imaginando a menina que anda na rua com sua coroa, ser arrancada de seu mundo dos sonhos. Ela ama a mãe, a irmã, sua vida em Santos, seus amigos. Também ama o pai e fica tão feliz de ver o pai e a mãe passeando juntos. Não sei exatamente como e quando começou essa mais nova disputa insana. Mas se está no começo, pode terminar mais rápido, antes que uma das partes fique cega de amargura ou emburreça de amor e ódio. O mais racional sempre vence, isso eu já sei. Mas quem perde parte preciosa da vida em fóruns, tribunais, escritórios de advogados, mesmo que vença, também é um perdedor.
    Antes que seja tarde, que esse casal tenha lucidez para manter o amor de sua filha. Que essa menina tão inocente não seja mais uma com a infância ceifada pelo mundo dos adultos e o sistema judiciário.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Crime da Rua Cuba

     Véspera do Natal de 1988, um crime choca o País. O advogado Jorge Toufi Bouchabik e sua mulher,  Maria Cecília Delmanto Bouchabik, foram brutalmente assassinados em sua casa, na Rua Cuba, num bairro elegante e muito rico de São Paulo, e o principal suspeito era o filho mais velho do casal, então com 19 anos, Jorge Delmanto Bouchabik. Eu tinha 18 anos, já cursava jornalismo na Unaerp de Ribeirão Preto e acompanhei cada linha da investigação. Que loucura seria um filho matar os pais por ter divergências tão comuns entre pais e filhos! Se não fosse o rapaz, que terror perder os pais de forma tão trágica e ser acusado por isso!
       Uns seis meses depois estava eu na festa Túnel do Tempo, na lendária república estudantil Taberna dos Índios. A festa estava incrível, tinha desde homens das cavernas a guardiões do espaço. Minha fantasia era de uma cortesã do século XVIII, estava me achando linda! Estava tão lotada que mal conseguia chegar ao bar para pegar uma cerveja ou água e comecei a ouvir reclamações dos "convidados". Como eu era frequentadora da república me coloquei a trabalhar no bar para ajudar. Meu namorado, Siquila, um estudante de Publicidade, não gostou muito, porque perdeu a namorada para servir os beberrões. Toda hora aparecia um rapaz dos anos 50, com topete, camiseta branca, jaqueta de couro, calça jeans, muito charmoso. Puxava papo comigo, pedia sempre água. Logo percebi que estava sendo paquerada, fui simpática, como sempre sou quando a paquera é inofensiva. Na hora de  sair me deu um cartão e disse: "Se puder, me liga!". Havia um número de telefone e o nome Jorginho. Meu estômago retorceu, era o "Jorginho da Rua Cuba"!
     Então fiquei sabendo que ele acabara de passar no vestibular de Direito na mesma Unaerp. Conversei com a Gigi (Gisele Bastos) e Soraya Caldana, as adoráveis garotas de Campinas com quem eu dividia o apartamento. Iria ou não iria ligar? Decidi que sim e falei com meu namorado, que mesmo muito enciumado, concordou que eu ligasse para tentar desvendar alguma pista perdida daquele crime misterioso. Liguei para o Jorginho, que ficou de me pegar na faculdade para jantarmos. Contei para meus amigos da faculdade Fábio Diegues, Celso Castro, Cláudia Rubio, Cristina Dalto e tantos outros, combinamos que eu estaria até 1h da manhã no bar Noite Sem Pressa e, caso eu atrasasse mais de uma hora, poderiam ficar preocupados. Não havia celular na época, nem internet e eu iria sair com o suspeito de um crime terrível!
     No horário combinado, Jorginho abre a porta da minha sala de aula, os mais de 50 alunos viraram-se para ver. Claro que numa sala de estudantes de jornalismo a curiosidade era unânime e as notícias corriam como Bolt. Fomos para um lugar bem legal e movimentado, de lanches, que era mais a  cara de quem  tem 19, 20 anos. Ele era gentil, educado, simpático e inteligente. Em meia hora me perguntou: "Você sabe quem eu sou, né?". Sim, sabia e fui sincera ao contar que estava ali por curiosidade e que acompanhava toda a história do crime. Jorginho disse que quando viu que eu era do Jornalismo pensou em voltar, mas tinha me achado "encantadora" e precisava me conhecer melhor, mesmo com medo de estar em alguma primeira página de jornal no dia seguinte. Agora era conhecido como Jorginho da Rua Cuba e isso  lhe doía demais. Mudou para o interior tentando o anonimato, mas percebeu que isso seria impossível. Ao pagar a conta pediu a nota e disse que tudo o que gastava precisava ser notificado. Triste...
     Tenho o dom de fazer as pessoas se abrirem comigo e talvez esse seja o meu maior trunfo como repórter. Em pouco tempo ele me contou muito do seu calvário e pediu que não contasse a ninguém. Nunca contei, faz parte do meu código de ética. Em certos momentos seus olhos enchiam-se de água, ele respirava e voltava a falar. Sua dor era sincera. Em nenhum momento disse "sou inocente" ou "não fui eu". Seus irmãos o apoiavam, seus avós o amavam, muitos amigos o abandonaram. Contei também de mim e porque saí de Santos e fui parar naquela terra quente e seca (esse é assunto para outro post). Falei dos meus pais, amigos,  aptidões, imediatismo e espírito investigativo. E disse exatamente porque fiquei tão impressionada com essa história, sendo culpado ou não, já estava marcado e sendo julgado por um País inteiro. 
     Tomamos sorvete e pedi para me levar ao tal bar, pois iria encontrar amigos e meu namorado, perguntei se queria ir, não quis, pois não precisava ser observado por uma dezena de aspirantes a jornalistas. Jorginho, definitivamente, não gostava dessa categoria. Quem diria que duas décadas depois eu também passaria a ter certa aversão pelos formados em  Direito...
       Entrei em seu carro e ele pegou um caminho oposto, disse que precisava passar na casa dele. Confesso que senti  medo, quando ele parou na porta, preferi não entrar. Voltou com um ramalhete de flores do campo lindo! Então me disse que se eu fosse como imaginava me daria as flores. "Se eu soubesse, teria também comprado bombons, porque você é mais doce e inteligente do que linda". Só não me apaixonei porque já era completamente apaixonada pelo Siquila. Jorginho não tentou nem me beijar, foi  gentil, elegante e respeitoso. Foi encantador mesmo! Me deixou em casa e combinamos de nos encontrar em qualquer oportunidade... ele só queria ter amigos! 
     Coloquei as  flores  no vaso e fui ao  tal bar encontrar meus colegas sedentos  por notícias. Contei exatamente o que conto aqui, com mais riqueza de detalhes, afinal passaram-se 25 anos! Nos falamos mais algumas vezes e talvez fôssemos amigos, se eu não tivesse voltado no final de 1990  para Santos. Acabei namorando 5 anos com o Siquila, hoje advogado, muito bem casado, que aceitou, mas não gostou nada desta história.
       Soube que Jorginho acabou expulso do curso pouco antes de terminá-lo, por pagar a faculdade com cheques roubados,  nem sei se isso é verdade. Sei que até hoje esse crime não foi solucionado, que ele e seus irmãos já processaram jornalistas, emissoras e não ganharam. E isso me faz pensar que talvez exista sim crime perfeito. E que a Justiça é tão lenta, mas tão lenta, que quando se concretiza, não pode mais ser chamada de Justiça.
     

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Decisão de Champignon

    É muito difícil escrever quando o acontecimento é tão recente, mas é isso que os jornalistas fazem o tempo todo. Esse espaço não é jornalístico, mas, de certa forma, escrevo também sobre atualidades. O suicídio do Champignon me chocou muito mais do que a morte por overdose do Chorão. Fiquei sabendo de uma forma bizarra, não tinha visto TV, acessado internet, nada... e ontem, às 19h, vejo o recado de uma amiga: "morre o Chorão, morre o Champignon, só não morre...". Achei que era uma brincadeira de humor negro, custei a acreditar, tive que ler a notícia no  computador. É triste demais a  banda Charlie Brown Jr ter agora esse estigma de tragédia. Pior é ler os inúmeros comentários imbecis acerca da morte do Champs. 
    Quando vi esse garoto tocando pela primeira vez, ele não tinha mais do que 15 anos, já era um baixista virtuose. Parecia uma criança! Eu sempre presto muita atenção nos baixistas, talvez porque tenha um desejo enrustido de tocar baixo. Nessa época o Charlie Brown ainda tinha outro nome e cantava em inglês. Foi no emblemático Bar do Torto. Já escrevi aqui o que essa banda significa para a cidade de Santos e não faz muito tempo. Ao contrário dos dias ensolarados da morte e enterro do Chorão, aqui hoje está muito cinza e frio.
      Tem gente chamando o Champs de covarde, de drogado, de louco... não importa. Para  mim será sempre o garoto simpático e tímido, que me surpreendeu ao assumir os vocais na Banca (talvez a banda de carreira mais meteórica de que se tem notícia). Por que ele se matou? Talvez excesso de filosofia, porque o suicídio é a morte filosófica, é decidir não querer ficar mais aqui. Por ter esse perfil tímido, talvez ninguém tenha percebido que suas recentes perdas também o deixaram perdido, só talvez...
        Homenagens  póstumas, programas de TV, críticas, tudo isso vai acontecer no próximo mês, mas o que a decisão de Champignon traz a tona é o sentido da vida, o existencialismo. Quantos adolescentes estão sofrendo pela primeira vez por um suicida? Por que as religiões, que provocam guerras desde que o mundo é mundo por discordarem em seus dogmas, só não discordam na condenação do suicida? Será por que se todos começarem a se matar não haverá mais fiéis, crentes ou religiosos praticantes? Será o suicida um fraco ou um forte? Será que queria mesmo morrer ou apenas pedir socorro? Imagino quantas pessoas estão questionando-se sobre isso a partir de ontem. Muitos que  nunca pensaram nisso.
      Também talvez eu consiga escrever porque o Champignon era um conhecido distante. Tive muitas perdas de pessoas muito próximas esse ano e não consegui escrever sobre elas. Talvez nunca consiga ou daqui uns 10 anos, quem sabe. É triste ver os urubus buscando imagens mórbidas do Champs. Criticando uma atitude pessoal e intransferível. Tudo isso é triste demais.

       Na semana passada, uma amiga virtual (que quero muito conhecer pessoalmente), Giovana Lizana*, fez uma provocação sobre Morrissey (The Smiths) e Robert Smith (The Cure), que se eles realmente fossem verdadeiros no que cantavam, já teriam se matado. Brincou como se eles fossem posers*. Entrei na defesa dos meus ídolos da adolescência, dizendo que eles não terem se matado é um alento para quem tem depressão e que poser então era o Chorão, que cantava positividade e cometeu um suicídio inconsciente. Claro que era tudo provocação e jamais poderia imaginar que uma tragédia ainda maior na banda estava por vir. E hoje, conversando com Marcia Abad sobre o Champs e essas provocações, ela disse que mais do que cantar os desgostos da existência, o que Morrissey e Robert Smiths faziam "era uma catarse, um jeito de mostrar o sofrimento para mundo e assim, continuar vivendo". 
       


*Giovana é uma garota linda e inteligente que acaba de completar 19 anos, escreve brilhante e verdadeiramente em seu blog Little Wild One, tem muitas crises de depressão e eu desejo imensamente que ela não se entregue e não morra!

*Pra quem não sabe, poser é uma gíria usada para tudo que finge ser o que não é.