Sempre evitei dar minha opinião sobre o
programa Bolsa Família, do Governo Federal, mas tenho lido tantos comentários
reacionários e fora da realidade de quem vive ou viveu em outras esferas da
sociedade, que tenho vontade de por fim em algumas amizades. É muito fácil para
quem sempre estudou em escola particular, ganhou carro aos 18 anos, teve
faculdade paga ou então passou na pública (já que estudou na melhor escola
privada) falar que “é preciso ensinar a pescar e não dar o peixe”.
Eu vivi as
duas realidades, estudei em escola pública até o primeiro colegial, mas meu pai
percebeu que o ensino público estava lastimável e preferiu me colocar no
Colégio Objetivo, uma máquina de passar no vestibular. Eu até poderia ter
pleiteado uma bolsa como atleta, mas meu pai, sempre ele, tão sensato, tinha
condições de pagar e achava melhor que outros nadadores, menos favorecidos
naquele momento, ficassem com a bolsa.
Ganhei meu primeiro carro aos 18 anos, um Fusca, para eu "aprender a dirigir e poder
dar pequenas batidas sem maiores prejuízos". Ganhei um carro 0km aos 22, quando
estava no último ano da faculdade e já trabalhando na área. Não pedi nada e nem
acreditei quando vi o carro na garagem: “Agora você pode subir e descer a Serra
com segurança”, declarou meu pai e completou: “O IPVA e o seguro anual estão
pagos, a partir de agora é só com você”. Eu ganhei o peixe, mas já tinha
aprendido a pescar. Além do que sou filha única, talvez, se tivesse mais irmãos,
as condições teriam sido outras.
Então escuto mulheres falando que “essas
mulheres” ficam se enchendo de filhos por causa do Bolsa Família, que é só
fazer controle de natalidade. Sim, claro, eu mesma, tão bem informada e
instruída, não planejei nenhuma gravidez, afinal, camisinha nunca estoura,
pílula nunca falha e nós nunca ficamos enlouquecidos de paixão. Escuto isso de
mulheres que fizeram vários abortos, uma hipocrisia abominável! Se fossem
pobres teriam sido mães na adolescência, porque menina pobre não tem outra
saída a não ser ter o filho ou arriscar morrer abortando de qualquer jeito. As
meninas com dinheiro abortam em clínicas elegantes e caras, depois se acham no direito
de criticar outras mulheres que aos 30 anos já estão no quinto, sexto filho. O pior
machismo é o feminino, sempre achei isso, desde quando nem sabia o que era
machismo.
Vejo a desigualdade social na minha própria casa. Quando Dora nasceu
eu tinha um plano de saúde top 5, arcava com todas as despesas dela, da casa e
até do folgado do pai dela, Jonas Golfeto. Dora só estudou em escola pública
por 2 anos, mas era na Escola Modelo Dino Bueno, em Santos, que trouxe para
nossas vidas a família Figueiredo Schiarri e isso já valeu por uma eternidade
de coisas boas, mesmo que a escola fosse ruim (o que não era).
Mas Dora queria mais e então conseguiu por mérito 50% de bolsa
no colégio Ateneu Santista, comprei todo o material e uniforme, com certo
esforço, já que tinha Miranda, com menos de 2 anos, totalmente por minha conta
e risco. Porém, aos 15 dias de aula, minha Dora foi levada pelo pai, oficial de
Justiça e Rede Globo, até Ribeirão Preto. Lá estuda numa ótima escola, Albert
Sabin (nunca me permitiram conhecer, já que a outra parte levou o processo
– mesmo em segredo de Justiça – para proibir que eu entrasse), continua com
excelentes notas, as mesmas que sempre teve, em escola pública ou privada. Faz
ballet pago também. Não conheço a casa dos avós, José Hércules Golfeto e Ed
Melo Golfeto, onde mora, mas sei que é bem grande, pois já estive lá no portão,
para tentar abraçar minha filha após um ano sem nem ouvir sua voz, mas a outra
parte chamou a polícia para me levar embora.
Por que há desigualdade social na
minha casa? Porque Miranda nasceu em um hospital particular, mas eu não tinha
mais plano de saúde e precisei pagar tudo (sozinha), sempre frequentou creche
pública e agora está numa escola municipal, no Guarujá, muito linda e toda
lúdica, mas Miranda, que também tem tanta sede de saber, já me disse: “Mamãe,
quero aprender a ler, escrever, na escola só dão brincadeira, brincar eu brinco
no prédio”.
Fui conversar com a professora, me explicou que é uma norma e que é
contra (uma professora rebelde), “nessa idade só brincadeiras”, apenas Miranda
e mais dois da sua sala sabem escrever o nome e reconhecem letras. Cabe a mim
brincar de escolinha em casa e lhe alfabetizar.
Gastei até o que não tinha
com um processo, para ter acesso à minha filha. Há mais de três anos vivo essa
saga e nem eu me aguento mais. Se tivesse muito dinheiro, já teria a guarda
da Dora. O advogado mais fodão de
Ribeirão Preto me garantiu que em um ano ela estaria comigo... mas seus
honorários eram 40 mil reais, fora as custas judiciais. Na Vara de Família
sempre vence quem tem mais dinheiro ou conhecimento, em Ribeirão Preto só
conheço amigos de adolescência e jornalistas, o que já me ajuda muito. A
família Golfeto conhece muita gente e é muito conhecida lá (apenas lá).
Miranda
nunca será disputada judicialmente, ela não tem pai, nem em seu registro de
nascimento. Até tentei fazer com que o cara a registrasse, com medidas legais
cabíveis, mas o sistema judicial brasileiro é paradoxal: não posso passar
mais que 2h30 junto de Dora, dentro de uma sala, no Fórum, monitorada por uma
psicóloga por quem não sinto a menor empatia, mas sou capaz de criar Miranda
absolutamente sozinha. Tenho muita curiosidade em saber como serão minhas
filhas adultas, no que dará essa desigualdade social das duas. Aqui no Brasil
a Justiça falha e tarda, sempre. Estou até pensando em me cadastrar no Bolsa
Família, já que minha filha frequenta escola pública, já que o Estado nunca me
deu nada e ainda me tirou uma filha.