sábado, 14 de novembro de 2015

O Mar de Lama


    Desde o rompimento das barragens em Mariana (MG), no último dia 5, tento escrever sobre essa catástrofe ambiental, a maior da história do País. Mas eu esperava mais notícias e meu instinto curioso e investigativo não cansou de procurar fora das grandes mídias nacionais. Porque se fosse depender de Rede Globo ou Folha de São Paulo para manter-me bem informada, só saberia como o brasileiro é solidário, como foi o resgate da cadelinha após 3 dias soterrada. O sofrível apelo ao sentimentalismo, sempre. Não que os desabrigados de Mariana não mereçam receber doações de todos os cantos do Brasil. Mas se a barragem rompida pertence à Samarco/Vale do Rio Doce, essas deveriam enviar todos os donativos, providenciar hospedagem às vítimas, tratar dos funerais.
   O que eu previa, no meu não acadêmico conhecimento ambiental, é que a contaminação seria grande e inevitável e o curso do rio Doce seguiria levando a tabela periódica inteira até desaguar no mar. Alguns dias depois, lendo mídias locais, soube que Governador Valadares estava sem água e a previsão é que esse cenário caótico se estenderia por um mês. Um mês sem água! O que acontece em uma cidade sem água nos hospitais, escolas, casas e ruas? Vi imagens de pessoas recolhendo água de esgoto.
    No dia 12 de novembro, enfim, saiu o resultado de análises laboratoriais de amostras da água do rio Doce, encomendadas pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), de Baixo Guandu. Foi detectada a presença de metais pesados como chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio. O Rio Doce está morto! É aterrador, não serve mais para nada (irrigação, animais e pessoas). Fora o tanto de animais e plantas mortos pelo caminho. O mar de lama foi devastando todo o ecossistema que encontrava pela frente. Só no dia 12 de novembro o Governo Estadual solicitou ao Federal o apoio do Ministério da Integração Nacional e do Exército Brasileiro para “amenizar” os problemas que serão enfrentados pela passagem da lama pelo território do Espírito Santo. A principal preocupação é com o abastecimento de água. Alguém sabe o que acontecerá quando essa lama chegar ao mar? Já estão sendo tomadas providencias quanto a isso?
   E tem mais: o rompimento dessas barragens não foi acidente! Não é possível tratar como tal. Há mais de dois anos foi feita uma perícia e o resultado é que as barragens estavam condenadas. Foi uma tragédia anunciada, como tantas no Brasil. Não foi abalo sísmico! E a imprensa não cobre como deve cobrir um acontecimento desses. Seria porque a Vale do Rio Doce é grande anunciante? Será porque esqueceram de fiscalizar tudo o que foi privatizado nesse País desde os anos 90 e as grandes corporações de comunicação se negam a denunciar mazelas do PSDB?
   E onde estava esse Governo desgovernado que nem para sobrevoar de helicóptero o local? Onde estavam presidente Dilma, ministros do Meio Ambiente e Minas e Energia? Estavam tentado limpar e encobrir a própria sujeira? Reunião de cúpula para decidir qual a melhor desculpa a ser dada?
   Esse mar de lama dá menção a várias metáforas. Eu mesma tenho vivido num mar de lama, tenho me sentido um lixo físico, mental e moral. E não é possível nadar na lama, nem enxergar nada. É uma cegueira absurda, que faz com que eu conheça o pior de mim, porque não vejo horizontes, porque fecho meus olhos e sinto o que há no meu coração. Há indignação e dores da alma. E a dor é bem maior do que as dores do corpo. Porque Justiça aqui tarda e falha. Porque a Direita quer nos ver de novo nas trevas. Perde tempo em retrocessos como criminalizar o aborto para estuprada! Isso na mesma semana em que considera família apenas um lar com homem, mulher e uma criança. Então o que dizer para o filho do estupro? Porque há pouco tempo queria a Cura Gay. Isso nada mais é que desviar a atenção do que realmente importa. Porque não temos mais esquerda.
   Sei que ainda há muito para investigar sobre a tragédia que começou em Mariana e segue até o mar. Quanto mais procuro, mais acho. E quando começava a escrever esse texto aconteceu o atentado em Paris. Prato cheio para a grande mídia brasileira, que jogou os holofotes para lá, desviando a atenção como se desviam nossos milhões para bancos suíços. Tenho amigos em Paris. Falei com um por longo tempo ontem mesmo, Jamiro Oliveira. Ele está bem e contou um pouco do caos de lá. Mas isso eu escreverei em outro post. Porque o mar de lama aqui é grande, é um reflexo do nosso desgoverno. Como bem escreveu meu colega jornalista e poeta, André Argolo:

Toda barragem tenta conter
o que não se quer contido
e quando vaza, é enlouquecidamente

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Precisamos Falar Sobre Suicídio

    O que tem de gente se matando não pode mais ser ignorado. No último mês soube de cinco suicídios cometidos na Baixada Santista, mais precisamente em Santos e Guarujá, três deles na última semana, de pessoas entre 20 e 50 anos. Duas mulheres, um garoto lindo. Amigos de amigos meus. Penso que não exista uma pessoa que não conheça alguém que se matou. Se for falar em conhecer quem já tentou se matar, esse número quadriplica.
  Acontece que esse assunto é um dos maiores tabus que persiste na humanidade. Talvez o maior. As famílias não falam sobre isso, evitam dizer a verdade sobre a morte do ente querido. A mídia não divulga, pois há uma "estatística" de que quando alguém "famoso" se mata ou quando se publica, aumenta o número de suicídio. Quando trabalhei no Governo do Estado de São Paulo fiquei estarrecida com o número de suicídios cometidos nos metrôs paulistanos. Não era divulgado.
   Dói falar nisso? Sim, dói bastante, é triste saber que alguém com saúde física, com família, amigos, se mata. Li em algum lugar que o desespero é o amor desgovernado. Então penso que as pessoas que cometem suicídio estão desesperadas, sem esperança de nada. Elas tem amor dentro delas, tem o amor dos outros, mas não sabem governá-lo. 
   A depressão é algo que se instala aos poucos e as pessoas próximas precisam estar atentas, muito atentas. Pode começar com falta de apetite, falta ou excesso de sono, desleixo com tudo. A depressão é uma falta que não tem explicação. Há culpa, medo de pedir ajuda e não ser ajudado, paúra de se tornar um estorvo para os outros. Quem tem depressão pensa que ninguém o quer por perto, pois realmente é muito difícil ficar perto de quem está longe de si mesmo. Como disse Gustavo Liedtke, um amado amigo meu: "quando você fala em suicídio, eu morro um pouco também". Acredito nisso e penso que todos os deprimidos também, por isso não falam.
   Muitas vezes o deprimido não quer morrer, quer mudar de vida. Muitas vezes acredita que há algo melhor depois da morte. Muitas vezes é só um ato alucinado, onde não há real intenção de morrer, mas de chamar a atenção para sua dor. 
   Quando alguém que parece ter tudo (amor, família, dinheiro, profissão, carreira) se mata, fica uma indignação em volta, uma certa frustração dos que ficaram, não tem nada disso, mas seguem alegres. Mas é preciso pensar que pode haver um buraco tão grande dentro dessa pessoa que a mesma se perde dentro dele e não consegue sair. Não consegue olhar em volta e ver todas as coisas lindas que existem nesse mundo. Também há guerra, ganância, capitalismo selvagem, destruição. Para haver o bem é preciso haver o mal, senão, como saberíamos diferenciá-los? 
    Sempre fui do tipo que sofre pelos outros, que sente a dor do outro, sou de uma compaixão exagerada. Na maioria das vezes em que me machucaram, guardei para mim a dor, evitando sempre a briga, o conflito. Guardar tanto machuca ainda mais. Então fico parecendo aquela pessoa tão boa e abnegada que aceita tudo. Mas não sou assim e decidi mudar. Não quero partir para brigas inúteis, mas não quero mais deixar parecer que está tudo bem. Porque não está bem. Resolvi mudar e apagar tudo do passado que possa me deixar triste. Quando lembranças ruins chegam, eu parto. Quando lembranças boas chegam para lembrar que são só lembranças, mudo a estação. Quando fico sabendo que alguém jovem, com uma vida inteira pela frente, matou-se, sinto compaixão. Sei que tentou até onde conseguiu. Sei que será julgado. 
    Os que tentam se matar e não conseguem são, da mesma forma, muito julgados. Como se as pessoas próximas não o deixassem esquecer de tal desatino. Isso machuca demais. Deixem que a pessoa fale quando quiser falar. Digam que estarão sempre quando ela precisar, mesmo que não consigam estar. Talvez por ter essa compaixão com suicidas, me chegam sempre pensamentos autodestrutivos um dia antes de alguém próximo se matar. Parece que os pensamentos das pessoas chegam até mim. Sinto como se os pensamentos não fossem meus. É um dom de presságio que eu não gostaria de ter. Preferiria que viesse a imagem da pessoa, para que eu pudesse ligar para ela, correr até ela e abraçá-la. 
     Aconteceu isso no ano passado. Eu estava com uns pensamentos mórbidos, pensei que era pelo período de mudança, de tentativa de mudança que eu passava. Tive insônia. E no dia seguinte veio uma trágica notícia. Nesta semana também me senti muito mal, sem dormir, sem comer. Dias depois, trágica notícia. Seguida de julgamentos, apontamentos, injúrias. E a pobre moça, linda, cantante e cheia de vida pela frente, não poderá nem se explicar. Há explicação?
     As religiões abominam o suicídio. Pregam o inferno para quem os comete. Há culpa o tempo todo, arrependimento. É uma decisão tão pessoal, como julgar o que o outro sentia para fazer isso? Não pensou nos filhos? Não pensou nos pais? Nos amigos? Óbvio que não! A pessoa não pensa nem nela mesma, como pensar nos outros?
    A pessoa está em desespero, que é o tal do amor desgovernado. Só não entendo porque esse medo em falar sobre suicídio. Admiro quem conta suas experiências, as torna públicas. Admiro quem tem coragem de falar a verdade, a sua verdade, pois sabemos que a verdade tem dois lados.
     Se você, que lê essas linhas confusas agora, conhece alguém com os sintomas acima citados (falta de fome, de sono, desleixo, apatia), não pense que é preguiça, falta de vontade, desânimo. Quando é passageiro, pode ser apenas uma melancolia sobre coisas da vida, mas quando o estado de paralisação não passa, ajude quem você ama. Talvez só precise colocar o seu amor nos trilhos.
   

domingo, 25 de outubro de 2015

Dora e a Dança

  Quando minha filha aprendeu a andar, aos 11 meses, foi na ponta dos pés. Na hora pensei: “Vai ser bailarina!”. Não foi uma viagem de mãe que adora dança, que escrevia sobre dança em caderno de cultura, viu vários espetáculos dos melhores grupos do Brasil e do mundo (como eu gostava desse trabalho e ainda ser paga por isso!), que foi jurada por duas vezes no Prêmio Imprensa de Dança. Não era delírio, era apenas a identificação de uma vocação do espírito.
   Durante a gestação eu ouvia muito Mozart, para me acalmar quando sentia medo de perdê-la (tive uma gravidez de risco, com repouso absoluto), mas também porque li sobre inteligência intrauterina, que música clássica desenvolve o aprendizado do feto. Verdade ou não, Dora tem uma inteligência acima da média. E ouvir música clássica, certamente, não faz mal algum.
    Quando morávamos em Boiçucanga (litoral norte de SP), Dora começou a educação infantil na Escola Raízes. Pouco antes de fazer 3 anos, a bailarina Juliana Andrade, que acabara de sair do Ballet Stagium (de São Paulo) para viver uma vida simples na praia, me chamou pedindo para que colocasse Dora no ballet. “Ela corre na ponta dos pés. É uma bailarina nata!”. Concordei, mas disse que assim como eu também iria nadar, porque assim como meu pai, considero saber nadar uma questão de sobrevivência, ainda mais para quem vive na praia. “Isso é ótimo, futuramente poderá fazer nado sincronizado”, profetizou Juliana, já que Dora, posteriormente, fez nado sincronizado na Unimes, em Santos, e mandava muito bem!
     No período em que moramos em Paraty, coloquei numa aula de dança, mas era uma professora tão ruim, que mais brincava com as meninas do que ensinava. Então a tirei de lá, pois dança é como esporte, precisa de disciplina, treino e muito suor. Foi quando Dorinha aprendeu a nadar. Gostava muito das aulas, não faltava e pegou o jeito fácil, mas via nela a suavidade da bailarina clássica, não a força aliada à técnica e a competitividade de uma nadadora.
    Em Santos me pediu para fazer ballet novamente, queria dançar no Municipal, mas já havia passado o processo seletivo. Fomos tentar uma bolsa na Rosely Ballet. No dia do teste, Miranda tinha apenas 15 dias! Enquanto Dora ficava na sala com outras várias meninas fazendo a aula, eu amamentava minha pequena gigante. Então as mães foram chamadas ao tablado, todas no canto e as meninas ao centro. Rosely, a dona da escola de dança, perguntou: “Quem é a mãe dessa menina?”, apontando para Dora. Levantei a mão. “Parabéns! Ela será uma grande bailarina!”. Precisei soltar o ar para não flutuar de orgulho. E então Dora e Raquel, sua melhor amiga da classe, ingressaram juntas na mesma escola de dança. A junção dessa dupla fez crescer uma grande amizade entre as mães também, eu e Cláudia.
    Passaram um ano bailando com muita dedicação, a apresentação do final do ano foi linda. E então inscrevi Dora para o teste no Ballet Municipal de Santos. Passou! Ficou radiante, mas não tanto quanto eu. Eram mais de 400 meninas para 40 vagas! Aos 7 anos, Dora não tinha dimensão do que isso significava. Em menos de 2 meses no Municipal, recebo a ligação da coreografa, me pedindo para deixar Dora fazer parte do Corpo de Baile Infantil. Das 40 novatas, apenas duas foram  chamadas para o CBI. A maioria termina os 9 anos de Ballet sem nunca integrar o Corpo de Baile.
    No dia 10 de fevereiro de 2011, fomos ao Municipal, fazer a inscrição para o segundo ano. E ver que sua melhor amiga Raquel também tinha passado de primeira no teste. Foi tanta alegria. Mas nesse mesmo dia Dora foi levada para Ribeirão Preto (narro essa história no primeiro texto desse blog).
      O que me alivia é que em Ribeirão Preto, Dora continuou dando vazão à sua grande paixão. No ano passado ficou meio desmotivada, pois não participava de todos os festivais que desejava, já que muitas vezes não havia elenco. Mas no início deste ano, Dora, além de fazer clássico, sapateado e jazz, entrou para a dança contemporânea. Então formaram um quinteto lindo. Numa seletiva de um Festival em Ribeirão Preto, classificaram-se para o de Salto, ficaram em décimo oitavo lugar, entre 40 coreografias. Em julho fez um curso intensivo de dança em São Paulo. Isso mudou seu conceito e a fez querer dançar mais e mais.
   Quando estávamos de férias em julho, em Boiçucanga, chegou a chorar porque pensava que não dançariam bem em Salto. Disse para não pensar negativo, que era para dedicarem-se mais, limpar a coreografia, melhorar. “Nossa mãe, como você está otimista!”. “Não, minha filha, o otimista diria: imagina, vai dar tudo certo. O pessimista diria: não vamos conseguir. O realista analisa o que foi dito e faz o que tem de fazer”. Daí ela se acalmou. E as cinco meninas ensaiaram e melhoraram muito. No Festival de Salto eram quase 500 coreografias, as três primeiras coreografias classificadas estariam automaticamente selecionadas para o Festival de Los Angeles, no ano que vem. Dora também dançou o sapateado, uma coreografia linda, chamada Chaplin. Teve pouco mais de um mês para ensaiar. Resumindo a ópera, minha talentosa filha está no quinteto de contemporânea, no clássico e no sapateado. Estará no palco de Los Angeles por três vezes, dançando, que é sua grande vocação desde sempre! Como é lindo saber do que mais gosta tão nova.
    No dia do resultado me ligou exultante, radiante. Talvez eu não tenha conseguido expressar o tamanho da minha satisfação. Agora, essas meninas lindas e dedicadas, além de aulas e ensaios seis vezes por semana, também estão atrás de dinheiro para a viagem, inscrição e estadia. Sei que irão conseguir, porque a motivação é grande. Do meu lado, ajudarei no que puder e até no que não puder. Felizmente, as coisas estão melhorando para mim no lado financeiro. Dizem que o dinheiro não compra felicidade, mas acho que manda trazer. Como me disse Miranda dia desses: “Mãe, nada é impossível”. Começo a acreditar que nada mesmo é. Somos nós que criamos no pensamento o nosso destino. E tenho certeza que daqui para frente o meu destino e das minhas filhas será de muita união, realização e felicidade.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Outubro das Minhas Rosas

    O mês de outubro sempre foi de festa para mim. Duas pessoas maravilhosas nasceram nesse mês: minha eterna amiga Claudia Figueiredo e minha maravilhosa prima e amiga Keila Gonçalves. Ambas se foram também no mesmo ano: 2013. E posso garantir que não há um dia que não lembre dessas queridas. Também foram levadas pela mesma doença. Coincidência ou não, nasceram no mês do Outubro Rosa.
   Sim, mulheres, temos de nos prevenir, nos cuidar, temos de lutar sempre para continuar seguindo saudáveis. E se acontecer um câncer na vida da gente, seja no nosso corpo ou no corpo de quem amamos, devemos continuar lutando, continuar amando. Não é fácil para quem está do lado, mas é muito mais difícil para quem passa pelo tratamento. Não é fácil viver com quem está morrendo, mas é mais difícil para quem sabe que tem pouco tempo. 
   A verdade é que estamos todos morrendo um pouco a cada dia, mas vivemos como se a morte nunca fosse chegar. Muitos passam a vida correndo atrás de dinheiro, estabilidade, fortunas e perdem momentos de amor, de comunhão, do que realmente vale na curta vida. Sim, a vida é absurdamente curta, mesmo que fiquemos nesse planeta por 100 anos, ainda é muito pouco.
    E como ouvi esses dias, "já que a minha vida é curta, não quero que seja banal, nem pequena". Quero uma vida de amor, de amigos, de sensações profundas, de aprendizado. Quero ser importante para quem importa para mim. E olha que me importo com pessoas que nem conheço. Quero ser importada para o coração das pessoas, assim como levo no meu coração todas as pessoas que amo (e são tantas).
     Tem muita conta para pagar? Todos tem, inclusive os mais ricos, quanto mais dinheiro, mais conta, sei bem disso porque já estive dos dois lados (dos endinheirados e dos sem dinheiro). Seu grande amor não lhe quer mais? Não era tão grande assim e tem tanta pessoa linda no mundo para conhecer. O amor é maravilhoso, quanto mais você tem, mais você recebe. Não consegue realizar seu grande sonho? Perceba quantas pequenas dádivas acontecem enquanto você tenta alcançar seu objetivo. A vitória pode estar no caminho e não na conquista. E se a angústia da dúvida apertar seu coração, olha o mar. E se você não mora na praia, olha a montanha. E se os prédios não te deixam ver a paisagem, olha para o céu, mesmo com poluição e nuvens, imagine que o Sol está sempre lá brilhando. Os grandes amigos reconhecemos no sorriso. Os grandes amores sentimos no abraço. A grande paz que procuramos está em nós mesmos. 
    Queria ter braços maiores, ser mais forte. Queria ter um sorriso mais largo que convidasse sempre à felicidade. Queria ter um olhar mais profundo para atingir sem palavras. Mais não sou perfeita, estou muito longe disso, com meus temores e angústias e passionalidade. Mas sigo tentando fazer o melhor, mesmo que da pior forma. Queria ter dito mais o quanto amava Claudia e Keila. Queria tê-las abraçado mais, queria ter feito muito mais por elas. Porque sempre fizeram tanto por mim. E mesmo não estando mais aqui, continuam fazendo. Porque o amor que tive ainda tenho e estará sempre em mim. A vida é o que acontece ao redor, enquanto as pessoas ficam olhando para os celulares. Em comum, essas duas tinham um certo repúdio à tecnologia. Keila mal usava o celular. Claudia nem entrava em facebook. Viveram intensamente e amaram muito. E deixaram filhos e amores. Deixaram sementes em vários corações. O meu vive germinando por elas. 
    Cada um lida de um jeito com a saudade. O meu jeito é chorar... e quando nem as lágrimas me aliviam, meu jeito é escrever. Que todas as mulheres que se amam, se toquem. E vivam plenamente o amor.
    E outubro continua sendo um mês de festa para mim. Minhas rosas nunca irão murchar.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

As Transformações Afetivas


    As relações afetivas passaram por uma mudança radical nas últimas duas décadas. Eu, que as vivo antes da revolução digital, sinto na pele a angústia da transformação. Antes apaixonava-se por alguém através do olhar, pelo som da voz, pelo cheiro que inebria, pelo toque inesperado que arrepia. Hoje abre-se o coração para estranhos, em assuntos profundos, antes só ditos para os amigos mais íntimos, fala-se de melancolias existenciais, busca da espiritualidade, desejos, indecisões. Pessoas agora apaixonam-se pelo que leem sobre o outro e o que o outro diz sobre si mesmo. Então passam do virtual para o real e vivem uma paixão, que logo acaba. Ou dura para sempre. Conversas virtuais podem ser as mais sinceras ou as mais falsas, cheias de sortilégios. Há uma dificuldade enorme em se criar vínculos, proporcional a de quebrá-los. Há antagonismo em tudo.
    Não nego que muito antes da internet, a escrita já me seduzia. Como viajava muito e conhecia nadadores pelo Brasil afora, era comum e um imenso prazer escrever cartas, levá-las ao correio, esperar a resposta. Numa dessas competições conheci um menino, ainda mais novo que eu, então com 12 anos. Era gentil e falante, um tanto precoce, lia bastante, quebrava recordes. Escrevíamos cartas e eu ficava admirada com o português sem erros, a narrativa do seu cotidiano, de suas aflições. Mas o contato se perdeu porque não havia nem e-mail e mudei de categoria (de Infantil para Juvenil).
Uns três anos depois nos reencontramos numa outra piscina. Ele já maior do que eu no tamanho. As cartas voltaram. Me apaixonei. E quando as cartas pararam e quando parei de nadar, as notícias cessaram. Foi mais fácil esquecer.  Era muito mais fácil desligar-se de alguém, ao menos mentalmente. Sem ter notícias, sem procurar notícias, o esquecimento vem, mesmo que as impressões do amor fiquem eternizadas no coração.
   Antes, se você quisesse mesmo escapar de alguma relação torturante, daquelas que você sabe que não tem mais jeito, mas não consegue esquecer, era só frequentar outros lugares ou, em casos extremos, mudar de cidade. Hoje você está em outro País e sabe como e o que o outro está fazendo. E a confusão é para os dois lados. Quem decide terminar não consegue se desligar, quer saber se o outro está bem, se já encontrou alguém. Quem foi “terminado” também quer saber se o outro está bem ou se já tem outro alguém. E um procura saber do outro, pela mesma razão, mas com sentimentos distintos. É muita energia e tempo perdidos. Há falta de autocontrole.
    Assim como é difícil levar, é também tão fácil trazer. Aquele que estava esquecido ou guardado com carinho em algum lugar do seu inconsciente ou coração, aparece na sua timeline como sugestão de amizade, você convida, você aceita, você começa a ler o que escreve, constata que sua narrativa é ainda mais cativante, que sua personalidade é humanista, que seus hábitos são saudáveis. Pensa em tudo que poderia ter sido e não foi.
    Você deixa tudo como está. Não quer mais começar ou terminar nada. Quer seguir resolvendo seus problemas e tentando salvar o mundo. Quer lutar por causas nobres e pessoais. Tenta controlar a curiosidade, para de mostrar o quanto está bem ou sofrendo. Sumir virtualmente agora parece uma espécie de morte. As pessoas começam a ficar preocupadas com você. Mas ao contrário, sumir deste mundo, é um abraço na vida!
    E num dia ensolarado você pode reencontrar alguém que atravessou décadas de transformação, como você. E percebe que as palavras escritas são mesmo sedutoras, são tocantes, emocionam, divertem e podem causar muita admiração. Mas nada supera olhar nos olhos, enquanto ouve. Olhar nos olhos enquanto fala. É a melhor forma de resolver qualquer situação. Falar e ouvir, sem intermediários, sem edições. Com o coração aberto e a mente tranquila.

domingo, 9 de agosto de 2015

O Sol Dentro de Mim

   Sempre me viram como uma pessoa ensolarada. Desde pequena na praia, na piscina, cabelos dourados, pele bronzeada e sorriso no rosto. Mas por dentro eu era como uma música do Violeta de Outono: "nada explicará meu sentimento, está em meu coração o frio do outono". Se por fora eu era verão, por dentro tinha um inverno que não acabava. Nunca consegui expressar muito bem o que sentia falando, por isso comecei a escrever. Muito, muito cedo. Escrever sempre foi um jeito de não enlouquecer, de não morrer.
   Nos relacionamentos não foi diferente. Até hoje tenho uma dificuldade danada em começar e em terminar. Porque nada é para sempre, sabemos. Espero que o outro termine, muitas vezes até peço que me deixe, mas não consigo explicar o porquê. Parece que quero antecipar o sofrimento. 

   Na adolescência tive uma história complexa. Eu amava o garoto, mas não conseguia dizer isso. Achava que era cedo demais. Comigo ele era apaixonado, espirituoso, na sociedade era um playboy que nada tinha a ver com a minha pessoa. Queria ficar com ele sem ninguém por perto. Terminamos de forma conflituosa, ele achando que o tinha traído, ficamos sem nos falar por anos, décadas. Nos dois anos que se seguiram após o término, sempre que podia, deixava uma carta (não havia celular, nem internet) na portaria do prédio dele. Escrevia o que sentia, o que pensava sobre as atitudes infantis dele, sobre a saudade que me acometia sem trégua, da minha mania de não falar de amor quase nada, da falta dolorosa primeiro do corpo, do cheiro, depois das conversas, da amizade. De como ele tirou o inverno de dentro de mim. 
   Foram dois anos sem conseguir esquecer aquele amor, mesmo namorando outro. Ainda bem que o destino maravilhoso nos reuniu novamente. Agora sabemos dizer o que sentimos e podemos rir da nossa juventude rebelde. E pensar no que poderia ter sido e não foi. Nem nunca será. 
   
    Daí quase 30 anos depois me vejo em situação parecida, inclusive com um homem do mesmo nome do tal garoto. Passei uns meses amando sem conseguir dizer que amava. Acho sempre muito precipitado sair dizendo que ama, parece exagero, pode espantar a pessoa. Mas ao mesmo tempo acho que o amor é assim, inesperado, inexplicável, acontece rápido, não é uma coisa que ficamos esperando que aconteça. Eu também sabia que ia acabar e me faltou coragem para acabar antes que acabasse. Depois quis dizer muitas coisas sobre as atitudes dele, repetitivas, egocêntricas, tal como o garoto da adolescência. Comecei a achar tantas similaridades além do nome. Parecia uma repetição. Embora sejam extremamente diferentes. Não gosto de comparações, não gosto de ser comparada com as ex. Não gosto de histórias de ex.
    Mas conforme a idade passa nossas histórias aumentam, não dá para negar o passado. Por um motivo que não sei, meus ex não me esquecem, porque foi bom demais ou ruim demais, tenho receio das respostas. Mas sei que demorei muito para amar de novo. E por mais que surjam novas pessoas, descomplicadas, de corpo sarado, sei que o amor é algo raro. Não adianta ficar com alguém para esperar que surja o amor. Nunca é assim.
     O que concluo é que por mais que a idade pese, o coração ainda é uma criança de alma pura, que enxerga mais fundo e além. Não escolhemos quem amamos, jamais escolheremos. Hoje pareço mais inverno, mas tenho um Sol que brilha o tempo todo dentro de mim. Estou num conflito tão grande entre razão e coração que mal posso dormir. Não haverá vencedor, preciso encontrar enfim um equilíbrio entre essa mente calculista e esse coração passional. E quanto mais amadurecemos, mais difícil se entregar para o amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A Magia do Lugar e das Pessoas

   Tanto aconteceu nesses 2 meses que não escrevo por aqui e não tem muito por onde começar a não ser pelo fim. Passei férias com minhas filhas e, ao contrário da última temporada trágica em Boiçucanga (litoral norte de SP), desta vez deu tudo mais que certo. Não gosto de carregar traumas e voltamos ao mesmo lugar, porque tinha certeza de que seria diferente.
   O principal foi encontrar todos os amigos e, mesmo tendo passado anos, perceber que nada mudou. Quando vi Laurinha, Serena e JoJo abraçando Dora com toda a força, me deu vontade de chorar. São amigas desde os 2 anos de idade. A primeira foi a Laurinha, o abraço com olhos fechados, longo, apertado, me encheu de lágrimas nos olhos. Serena, filha dos queridos Alê Poveda e Luciana Mesquita, amiga de Dora desde os tempos das nossas barrigas de grávida, primeira amiga a dormir na casa, o grude de infância... estava igual. Dora dormiu  na casa dela e na de JoJo (Joana, filha da Pri e Fábio) e adorou tudo. Lembro bem quando eu tinha 13 anos e tudo o que eu queria era ficar até de madrugada conversando com minhas amigas.
   Ficamos na casa da Myrian Bemerghi, minha amiga do surf, linda, guerreira, espirituosa e sempre de boa com a vida, filha da querida Renata Melo, que não pude ver porque estava se tratando em São Paulo. My é mãe da espertíssima Ana Lys, que Miranda adorou e brincou. Me deu um baque danado passar esses dias em Boiçucanga, um lugar mágico, que faz parte da minha vida desde sempre, que meu pai me levava para passear, que comprou um terreno grande em que construí uma casa do jeito que queria. Lá, onde passei férias e feriados com amigos de todos as partes do mundo. Ainda acho que voltarei para lá, quando as crias crescerem e eu passar parte das minha noites escrevendo livros e parte dos dias nadando naquele mar maravilhoso. E quem sabe, acompanhada de um grande amor na terceira idade.

    O que mais surpreende é que encontramos todos que queríamos sem marcar. Eu até tinha mandado mensagem para o Duda, pai de Tomás e Thales e marido da Camila Carrasco, que estava em Londrina. Não precisei marcar nada, nos encontramos na rua, enquanto ia para a praia com os dois filhos lindos, loiros e bronzeados. Dora e Tomás eram grudados na infância. Miranda adorou o Thales, virou fã do menino de 8 anos (que é mesmo encantador). Pensei que meu esperado encontro com a Camila fosse virar lenda, daí soube que ela voltou antes da hora. Estava no shopping com Dora e Miranda e ainda comentei, enquanto ia ao mercado: "Dora, fique atenta, a Camila pode passar aí a qualquer momento". E passou! Com Thales, a amiga Rafa (mais uma agregada no meu coração) e o filho José. Fomos todos para um bar pé na areia, ver o pôr-do-sol único daquela praia.

   E foi como se tivessemos tomado um café com bolo na tarde anterior. As histórias, afinidades, músicas, risadas... a felicidade está em momentos como esse, perpetuados na memória. Na mesma noite uma festa de aniversário, da Aline que eu não conhecia, na casa de outra pessoa incrível que tive o prazer de então conhecer. Casa linda, noite de lua prateada, fogueira e som dos "meninos" Alê, Fábio e Duda. Com direito a fogueira, com direito a conhecer um poeta na fogueira, que falou sobre ballet russo com Dora. E Miranda meio decepcionada porque "o filho dela não veio", referindo-se ao Thales, sua nova paixão.

   Em Santos não foi diferente, Dora e Maria Eduarda, filha da minha amiga de sempre, Simone Raia, passaram dias e noite conversando o tempo perdido. Maria é uma garota pra lá de inteligente e divertida, que estuda enquanto fala de guerras mundiais e teorias da conspiração e fim do mundo. Agora tornou-se fã da natação brasileira, assim como Dora, já que os nadadores são os caras mais bonitos do mundo. Fui ao cinema como sempre, várias vezes, ver todos esses filmões arrasta quarteirão. O último dos filmes que vimos foi o "terror" Sobrenatural, um dia antes de levar Dora, com Marcia Abad, minha amiga e companheira de filmes e livros e séries. Dublados que é uma porcaria, mas como é bom estar num cinema com Dora e suas amigas. Encontramos Raquel, sempre tão popular e com o sorrisão no rosto, filha do Fernando e da minha para sempre amada Claudia. O tempo não parou, mas a semente do amor e da amizade germinou. Nada será como antes, mas continuamos sendo o que sempre fomos, um peito aberto pronto para dar e receber.

   Nos dias de chuva ficávamos assistindo todos os jogos do Pan Americano, com o comentarista especialíssimo, Marcelo Santos, aquele amigo que poderia ser meu irmão. Dora estava com muita saudade dos comentários ácidos dele, que como bom educador, professor de Educação Física, explicava todas as regras de todos os jogos. Foram dias lindos, que antecipam os dias mais lindos que virão.