segunda-feira, 24 de junho de 2013

Brigar pra Quê?

    As manifestações não param e acontecem não só nos grandes centros urbanos e capitais, mas também em pequenas cidades do Brasil. São tantas as reinvindicações que se perdem no meio dos manifestantes. É certo também que muita gente vai no oba-oba, sem saber muito bem a quem ou o que reinvindicar. É muita indignação para pouco cartaz. Penso que pedir uma reforma política seria o ideal, porque muita coisa precisa mudar. Penso que grupos mais organizados, como o GLBTT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transsexuais) deveriam fazer seu manifesto diretamente aos seus opositores, como a turma que defende o projeto de Lei sobre a Cura Gay. Os médicos e categorias contrários às contratações de profissionais cubanos, idem. Meu maior protesto é contra a lentidão do Judiciário e suas brechas que deixam processos serem procrastinados por anos. Não estou sozinha. Já temos um grupo que precisa se organizar mais. A dificuldade da nossa organização é a imensidão territorial do Brasil.
    Já disse aqui que sou apartidária e anarquista. Não sou antipartidária, não odeio partidos. Acho até muito perigoso um jornalista ser petista, psdbista ou qualquer ista, porque isso tira totalmente sua credibilidade e imparcialidade. Se o jornalista tem partido, vai tomar partido, vai fechar os olhos para o Mensalão com a resposta vazia firmada em outra pergunta: "E a privatização tucana, esqueceu?" Chamo isso de explicar um erro com outro. Não concordo. O mesmo são os jornalistas psdbistas que parecem ter esquecido a privatização tucana e o golpe da reeleição do FHC. Eu estava lá, trabalhando na assessoria de imprensa no governador do Estado de São Paulo, Mario Covas, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou a reeleição e se reelegeu. Ora, só deveria valer a partir da próxima eleição. Foi golpe. O governador Mario Covas ficou muito bravo e só não rompeu porque isso partiria o PSDB no meio. Como disse, não sou partidária, mas admiro alguns políticos, tanto do PSDB, como do PT. Mario Covas era um desses admiráveis. Sei porque trabalhei com ele. Também admiro Eduardo Suplicy e alguns deputados estaduais e federais do PT. 
    O que não estou gostando de ver é a guerra por ideais políticos. Estou vendo amigos de infância rompendo por cegueira política. Claro, não devemos manter uma amizade só porque ela é longa, se percebermos que alguém virou um nazista, fascista, racista ou algo tão contrário aos nossos princípios de caráter e formação. Mas estou vendo amigos leais, de bom coração, trabalhadores, honestos, brigando. Não são hipócritas, nem ignorantes. São brasileiros que querem ver um País melhor, igualitário e justo, assim como eu, assim como muitos de vocês que estão lendo isso agora.
    Nas redes sociais parece que tem gente que só quer ser do contra, criar desavença. Não brigo. Já passei dessa fase juvenil, de ficar de mal, de não sou mais seu amigo. Tento esclarecer, tento entender o pensamento do outro. Tento relevar e me colocar no lugar. Tento me colocar no lugar de um médico brasileiro... mas isso é assunto para um outro post.
     Meus amigos de natação, por mais que tenham seguido outros caminhos, estão sempre nas minhas lembranças como pessoas que lutavam pelo mesmo ideal: treinar, competir, vencer seus limites. Torcíamos juntos, chorávamos e  ríamos juntos. Homens, mulheres, pequenos, grandes, brancos, negros, orientais, altos, baixos. Por genética alguns eram acima da média, outros abaixo, mas todos estavam sempre juntos. Assim que deveria ser quando queremos melhor educação, saúde, esporte, lazer, moradia, transporte. Juntos somos fortes. É o chavão mais verdadeiro que existe.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Secretária Nacional e a Deputada Federal

    Que a cena política anda confusa há algum tempo, para não dizer caótica, a maioria sabe. De uns tempos para cá há uma bancada religiosa no Congresso Nacional querendo derrubar direitos civis conquistados com muito sangue e lágrimas. Misturar política e religião nunca deu certo, basta passar os olhos no passado de guerras e genocídios "em nomes de Deus". Incoerente estar na presidência da Comissão de Direitos Humanos um deputado que pretende desumanizar negros, homossexuais e outras "minorias" que sofrem discriminação e ódio.
   Daí tenho que falar com várias lideranças políticas, religiosas, militantes e artistas sobre o combate à homofobia e sobre uma resolução datada de 1999, dizendo que homossexualidade não é doença, portanto não tem cura. Querer curar homossexual seria o mesmo do que tratar heteros para que sintam desejo pelo mesmo sexo, bem toscamente falando. Há um  projeto de Lei para derrubar essa resolução, vinda da tal bancada. Sendo que a Organização Mundial de Saúde não considera homossexualidade doença desde 1990. Uma figura importante para discorrer sobre o asssunto seria a Secretária Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário. Foram muitos emails e ligações para o seu assessor tentando marcar um depoimento, uma fala que fosse... 10 minutos bastariam.
    A agenda lotada de Maria do Rosário não nos permitiu marcar uma entrevista com hora e local determinados. Restou tentar a sorte após a reunião com o Conselho Nacional GLBT na Secretaria de Direitos Humanos. Maria do Rosário chegaria após as 18h. Os membros do Conselho discutiram questões políticas, de cidadania, organização do movimento, estatísticas da violência contra homofobia*. O assessor, sempre na correria, adiantou que ela não falaria nada sobre a Resolução/99. "Como assim a representante máxima do Brasil em Direitos Humanos não quer falar sobre um tema urgente que pode nos fazer retroceder até as trevas da Idade Média?" Esperei minha indignação conformar-se e pensei não era o objetivo, mas seria positivo ouvir Maria do Rosário falando sobre os direitos civis alcançados e o que está sendo feito para melhorar o panorama nacional. Duas perguntas com respostas de 2 minutos bastariam. 
   A Secretária entrou na sala de reunião, cumprimentou um por um, me deu até beijinho. Não sei se sabia que sou jornalista ou pensou que fosse alguma representante GLBT. Sentou-se, falou de ações positivas, parabenizou os participantes, marcou uma possível data para outra reunião. Assim que levantou-se, às 19h30, segui seus passos e quando vi o assessor aproximando-se dela após fazer um sinal positivo para mim, pratiquei minha leitura labial. "Estou exausta!".  Nossa representante máxima de Direitos Humanos estava cansada demais para dar qualquer declaração para o Conselho Federal de Psicologia. Será que ela tem ideia que, se a homossexualidade voltar a ser encarada como doença por determinação do Legislativo, o Congresso Nacional do Brasil irá contra todos os estudos científicos realizados por séculos?
   Deixei minha indignação conformar-se de novo. No dia seguinte tem mais.

   Depois de um dia cheio seguimos para o Gabinete da Deputada Federal Erika Kokay. Já havia uma jornalista esperando e um senhor de lá longe não sei de onde. A entrevista estava marcada para 18h, mas a deputada chegou 18h30, pediu desculpas e fez a logística das entrevistas. A nossa seria mais breve, 10 minutos talvez. O "set" foi uma salinha apertada, cheia de artesanatos de quase todas as regiões do País. Tinha também uma pintura pequena do Bob Marley. Erika sentou-se e não precisava de perguntas. Falava apaixonadamente sobre causas de igualdade, defendendo minorias, falando da essência do ser humano, de respeito, de cultura, de educação. Em uma de suas declarações mais contundentes disse estar com medo, pois a Comissão de Direitos Humanos está repleta de "homofóbicos, rascitas e fascistas, se continuar assim esse projeto sairá vencedor e o Brasil estará retrocedendo, indo contra uma ordem de tolerância mundial". Sim, é a treva!
   Sem precisar prolongar na pergunta, Erika Kokay falou por mais de 30 minutos. Deu material para esse e mais vários videos. Agradeceu, despediu-se com um abraço de quem está  na mesma causa e desculpou-se para os que estavam esperando. Quando a outra repórter mencionou a necessidade de ir embora, pois o motorista morava muito longe, rapidamente a deputada pediu para um rapaz da sua equipe levar a jornalista até seu trabalho, após a entrevista, podendo dispensar assim o motorista e fazer sua matéria. Ainda resolveu o assunto com o senhor que a esperava, também oferecendo uma logística para atender a todos.
   Parece pouco, mas atitudes assim no trato  pessoal, esse respeito e atenção, fazem toda a diferença, diferenciam as pessoas que tratam todos igualmente ou inferiormente. A coragem de falar o que pensa difencia os que lutam por igualdade de direitos ou os que estão lá só para cumprir tabela.
    Um misto de desolação e esperança tomou conta de mim. A luta do bem contra o mal continua.

* Por não haver denúncia ou porque lá a população é menos homofóbica mesmo, não existe caso de violência no Estado do Acre.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Crimes de Ódio

   Passei o dia no X Seminário LGBT do Congresso Nacional, em Brasília. Minha função era entrevistar líderes de movimentos, personagens interessantes, políticos e representantes religiosos para falar sobre questões de direitos civis, respeito à diversidade e, mais do que tudo, sobre a crescente intolerância dentro do Legislativo. Ao mesmo tempo, a luta contra essa intolerância mostra quem realmente, dentro daquele Congresso, está na causa dos Direitos Humanos. O trabalho é para o Conselho Federal de Psicologia, pois há uma resolução de 1999 afirmando que homossexualidade não é doença, portanto não precisa de tratamento e cura.
   Acontece que há uma certa bancada querendo derrubar essa resolução e tratar homossexuais. Falar que isso é um retrocesso soa redundante. A questão não é apenas religiosa, é também econômica e política. Começa que, se somos todos iguais, todos devem ter o mesmo direito: casamento, adoção, respeito, cidadania. Penso que há causas mais urgentes para serem debatidas, como a situação mais que precária da saúde e educação. Mas querer tratar homossexualidade como doença é caso de falta de saúde mental e falta de educação. Então, está tudo interligado e se isso acontecer, logo estarão tratando mulheres como seres inferiores e negros como "raça amaldiçoada". Não tolero a intolerância e odeio o ódio. 
   Tenho amigos e familiares evangélicos que não são fundamentalistas e não concordam com essa opinião. Mas o que acontece em Brasília é grave. Semana passada foi aprovada a Lei que criminaliza a homofobia, nem deu tempo de comemorar e a Lei foi revogada. O que diferencia o crime homofóbico dos outros crimes é o ódio. Não é "apenas" um tiro, é espancamento, tortura, sadismo.
   Por várias vezes tive vontade de chorar ouvindo relatos de pessoas que sofreram por demonstrar o seu amor, que perderam amigos queridos, assassinados por serem homossexuais. Como deve ser triste não poder abraçar, pegar na mão, fazer um carinho em quem se ama por medo de apanhar, de ser ultrajado, humilhado, morto... por que o amor incomoda tanto? Penso que os homofóbicos sentem um desejo imenso pelo mesmo sexo e odeiam tanto isso que querem exterminar qualquer vestígio gay do planeta.
    Tem gente que diz que "isso" vai acabar com a família, que é difícil explicar para uma criança o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que acho difícil explicar para uma criança é que existam pessoas que odeiam outras por isso ao ponto de assassiná-las. O que acaba com a família é a falta de amor.
    Uma das conclusões que cheguei é que se existe uma cura, só pode ser encontrada quando a pessoa sai do armário. O homossexual ou transexual sofre por medo. Medo da família, da sociedade, da falta de aceitação. A partir do momento que aceitam e demonstram sua sexualidade, a dor passa. Quando são respeitados como seres humanos, livres para amar quem quiser, o orgulho vem. Orgulho de demonstrar seu afeto, seu amor, de poder mostrar ao mundo seu parceiro, como fazem todas as pessoas quando se casam.
    Por que é tão chocante ver dois homens ou duas mulheres de mãos dadas, abraçados, se beijando carinhosamente? Não falta Jesus no coração dos fundamentalistas, o que falta é amor, é respeito.  Não tenho religião, mas até onde eu sei, o que ouvi dizer por aí, é que Jesus pregava amor ao próximo e compaixão. Como fundamentar o ódio dentro desse dogma religioso? Nunca li a Bíblia, aliás, só o Apocalipse. Mas não dá para seguir algo escrito ha 2 mil anos, com tantas metáforas, como verdade absoluta. Como os contos de fadas, a Bíblia é algo para pensar, para refletir, pode ter um fundo de verdade, mas é um livro de ficção... seguir a Bíblia literalmente é criar a desigualdade entre os homens. Somos todos iguais enquanto coletivo e únicos individualmente.
   
   

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Dentro do Hospital do Câncer

    O amigo jornalista Renato Rovai, que editava a Revista dos Bancários, me chamou para fazer uma entrevista com um jovem geneticista brasileiro que pesquisava (e estava na frente) o genoma humano. Fui entrevistar o gênio de 33 anos, no estilo ping pong*. Para escrever, primeiro precisei entender tudo o que significava essa pesquisa sobre células tronco, tudo tão novo no ano 2000. Modéstia bem de lado, que essa coisa de ser modesta nunca me definiu, a entrevista ficou ótima, tanto que enviei a edição da revista para Emmanuel, que trabalhava no Hospital do Câncer.
    No dia seguinte recebi uma ligação da agência de assessoria Comunique-se, que fazia a assessoria do hospital. Me agradeceram, disseram que a entrevista havia ficado excelente e me perguntaram onde eu trabalhava. Na época eu estava fazendo apenas trabalhos free lancer, meu último local havia sido o Palácio dos Bandeirantes, na assessoria do Governador Mario Covas, por isso eu havia vivenciado a doença de forma direta e tinha tanto interesse por seu combate, seus remédios, seu controle e um dia poder participar da descoberta de sua cura. Veio então a proposta de trabalhar para essa agência, apenas com a conta do Hospital do Câncer. Disse que pensaria e ligaria no dia seguinte para dar a resposta. Isso era só para aumentar meu passe, já que por dentro meu coração estava acelerado e a temperatura subia com a perspectiva dessa oportunidade.
    Meu trabalho consistia, basicamente, em noticiar todas as novas técnicas, tratamentos e aparelhos do Hospital, agendar entrevistas com oncologistas especializados e atender a demanda dos coleguinhas ávidos por boas notícias. Fácil? Nem tanto se considerarmos que é um lugar de referência mundial, com alguns dos melhores dos melhores médicos da área. Meu telefone não parava das 7h às 23h. Quantas vezes atendi repórter  às 22h para conseguir uma fala de algum especialista para falar sobre câncer de garganta no Jornal da Globo, que entraria no ar em 1h30. E conseguia, não porque sou o máximo, mas porque os médicos estavam sempre dispostos e me atendiam prontamente. Mais do que tratar as pessoas, esses profissionais queriam preveni-las, alertar para os exames preventivos, porque era e ainda é, a única forma efetiva de combater o câncer.
    Aos poucos fui saindo da agência e trabalhando exclusivamente dentro do Hospital. Tomava café com as enfermeiras, cumprimentava os pacientes, alguns já me chamavam pelo nome ao serem encaminhados para a quimioterapia. Nada mórbido, ao contrário, era um lugar cheio de vida, de pessoas dedicadas ao trabalho, conscientes da importância de estar ali e fazer o que faziam. Não chegava em casa pesada, esgotada, chegava sempre mais carregada de vida e energia.
    A ala infantil era um capítulo a parte na minha vida, porque muitas crianças não tem noção da gravidade da doença, por isso a estatística de cura entre elas, na época, era de 75%. Nessa fase comecei a pensar que ser ignorante muitas vezes pode ser melhor. Ignorante no sentido literal da palavra, porque ignoravam a doença, não sabiam o que era, suas consequências. A preocupação, a dor emocional ficava por conta dos pais, familiares, dos profissionais. Mas algumas sabiam o que se passava, como um garoto de 12 anos que tinha câncer ósseo. Ele já havia amputado uma das pernas e o pé da outra. Ficava na cadeira, lendo, lendo, lendo, sempre muito sério, só mudava quando apareciam os Doutores da Alegria, com seus narizes de palhaço, bolinhas de sabão e brincadeiras bobas, mas muito eficientes. Esses atores eram incríveis! Mudavam mesmo o humor de todos ao redor. Era tanto amor, tanto amor que transbordava.
    Na mesma época iniciei um projeto, um jornal para circulação interna. Fiquei noites pensando em como fazer um jornal sobre câncer que fosse leve, agradável de ler e não deprimisse ninguém. Comecei pelo nome Boas Novas, a ideia era só dar notícia de novos remédios, tratamentos, eliminação de tumores, entrevistas com médicos, pesquisadores, pacientes, familares. Não sei se o projeto continuou depois que saí de lá, mas que a ideia era boa, isso era.
    Também aprendi muito sobre oncologistas. Ao contrário de outros especialistas que tratam o paciente por pouco tempo, muitas vezes só numa emergência, o especialista em câncer passa meses, anos com a pessoa, conhece sua família, comemora cada vitória e sofre cada perda também. Minha admiração pela equipe era cada vez maior, diria inesgotável mesmo.
    Esse tempo foi muito enriquecedor, admito que chegou uma hora que meus assuntos preferidos eram as descobertas científicas, análises psicológicas dos pacientes e como o bom humor ajudava no tratamento. É chavão, mas rir é sim o melhor remédio. Ter acompanhado o tratamento e morte do Governador Mario Covas, trabalhado nesse Hospital foi como um aprendizado de espectador/coadjuvante de como a vida é delicada e rápida. Depois disso conheci muitas pessoas que tiveram a doença, algumas continuam combatendo, outras foram derrotadas. Por isso as lembranças de viver dentro do Hospital do Câncer são sempre tão atuais na minha mente, a cada amigo, familiar de amigo que tem câncer, penso nesses profissionais maravilhosos. Na batalha diária dos pacientes (alguns nem são tão pacientes assim) e todos que acompanham essas pessoas.
    A vida passa rápido, nem sempre é bela, muitas vezes a pessoa nasce, sofre e morre. Mas se de alguma forma eu, você que está lendo, pudermos ver beleza nos momentos tristes, tudo fica mais fácil. Achar graça na tristeza é uma arte e isso pode mudar tudo.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Esporte Salva

    Estava procurando uma foto para colocar no mural da minha amiga Flavia Vieira, no dia do seu aniversário de 40 anos. Procurava uma foto nossa quando ela tinha 15. A ideia era mostrar há quantos anos somos amigas, desde a natação. Não achei a tal foto, nem nenhuma mais antiga com a Flavia, mas achei tantas outras, com tantos amigos e de muitas viagens feitas pela natação e com meu pai.
     Daí fui vendo todas aquelas imagens antigas, em papel, eu tão menina e tão grande, parecendo uma mulher. Coloquei as fotos na minha página do Facebook e várias amigas que estavam conectadas começaram a comentar as fotos, lembrar da época e foi como se todas estivessem juntas novamente: eu, Simone Raia, Paola Miorim, Renata Morales, Rosane Mendes, Beth Yumoto, Juliana Figueiredo, Alessandra Braz, Roberta Moscatiello*.
     Claro que houve comentário de muitos outros amigos, porque estamos muito diferentes, aliás, melhores. E pensei como o esporte é capaz de mudar a vida das pessoas. Falo pela natação que foi o que pratiquei, mas no geral os atletas são diferentes, mais disciplinados, determinados, lidam melhor com frustrações, superam com mais facilidade obstáculos, além de serem mais preocupados com a saúde, com alimentação, com excessos. Tem exceção? Claro, como haveria a regra?
   Ser atleta, ter participado de uma equipe é ter o espírito de "vamos vencer juntos". O saber muito cedo que ninguém ganha nada sozinho, mesmo sendo um esporte individual, um único atleta excelente não é capaz de vencer uma equipe com vários na média. Mas o mais importante é o elo que nunca se rompe. As amizades que permanecem por décadas, as pessoas que mesmo sem encontrar há anos, basta um abraço e todos aqueles intermináves quilometros na piscina gelada voltam, as risadas no vestiário, a disputa pelo chuveiro mais quente, o ataque na lanchonete depois do treino, os finais de semana em competições, as vitórias, derrotas, abraços, aplausos, lágrimas. Essas amizades permanecem para sempre e sempre e sempre.
    Depois de ficar rindo com as lembranças e vendo fotos de nossos cabelos "oitentinha", ombros largos que ainda recebiam ombreiras (como sobrevivi aos anos 80?), as roupas largas porque o que importava era o conforto, enfim, depois de lembrar bem quem eu sou, minha essência, levantei cedo no dia seguinte e fui com Miranda até a praia do Tombo, torcer para Vitor Mendes, um dos filhos surfistas e campeões de Rosane - o outro é Jessé Mendes, um garoto de 20 anos com uma sólida carreira de atleta.
    E quando encontrei Rosane era como se a tivesse visto um dia antes, porque nossa amizade era uma irmandade, até pelo sobrenome igual, deixávamos acreditar nessa história de sermos irmãs, porque o que mais queria era ter uma irmã como ela!
   Miranda adora surfar e tem uma força de atleta em potencial, como seria bom virar mãe de atleta! Rosane, com seu bom humor e positividade de sempre, disse que se isso acontecer já vão pensar que ela é prima dos seus filhos, o que já vai chamar a atenção da torcida. Então fiquei vendo o lindo Vitor Mendes no meio dos amigos surfistas, com a mesma irmandade, comunhão e paixão pelo que se faz. Tão emocionante isso. Tão bom ver no que nossos filhos se tornaram. Senti orgulho por aquele garoto de 15 anos, que em sua última onda de sábado, faltando 50 segundos para acabar a bateria, correu pra descer mais uma onda, mesmo já estando com a melhor pontuação do dia. E foi a onda perfeita, com a melhor nota... ah, sim, Vitor venceu o campeonato.
     Ter certeza das coisas nunca foi meu ponto forte, porque pouca coisa é certa nessa vida. Mas uma certeza que tenho é que praticar esporte muda tudo na pessoa.  Por isso sempre achei que investir em esporte é uma das melhores ações que uma família, governo ou alguém próximo que se preocupe com uma criança pode fazer. Não é para gerar campeões, isso é consequência. É para formar pessoas que compartilham, que aprendem, ensinam. O esporte salva.

* Usei o nome de solteira das minhas amigas, porque com exceção de Renatinha, que casou com o nadador Carlos Banjai e tornou-se Renata Morales Banjai, todas as outras seguem com seu nome de natação. Renatinha é a tal exceção que confirma a regra.
   

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Mas ela vai voltar"

   No dia 6 de março acordei com uma notícia: "O Chorão morreu!". Na hora nem entendi, depois fui pensando no Charlie Brown Jr, a banda que vi nascer quando as letras eram cantadas em inglês, a banda que fiquei curiosa em ver porque contava com o baterista Pelado, que arrebentava tocando no Torto, lendário bar do Canal 4, em Santos. Daí também vi o Chorão, quem diria, aquele garoto que chegou na cidade já fazendo parte da cena rock dos anos 80, que bebia muito e às vezes chorava por motivos que quase ninguém sabia. Não é que o moleque sabia cantar e tinha o que dizer? Para completar o prodígio Champignon, um menino de 15 anos que tocava baixo como gente grande.
   Uma vez estava voltando de uma festa com minha amiga Ana Paula, vimos um rapaz jogado na calçada, de tão bêbado, tentamos animá-lo, disse lá umas frases desconexas e mandou a gente ir, nem reparou na beleza extraordinária da minha amiga! Era o Chorão! Por isso me impressionou vê-lo no palco, tão cheio de energia, tão lúcido, tão poético. Finalmente havia encontrado seu caminho, deixado de ser um marginal para a sociedade. O sucesso veio como consequência de uma banda profissional, que levava a música a sério. A trajetória do Charlie Browm confunde-se com a história dos adolescentes que foram crescendo a partir dos anos 80. São três gerações de fãs, não fãs saudosos, mas fãs atuais, que lotam os shows e isso não é pra qualquer banda. Como todos os adolescentes, frequentávamos os mesmos lugares, porque nascemos em 1970 e adolescentes se procuram para encontrar seus iguais.

   No mesmo dia era a cirurgia da minha mãe no Guilherme Álvaro, andei muito pela cidade, deixando Miranda com minha amiga Marcia Abad para  poder ficar esperando no hospital a cirurgia (que deu muito certo). Santos estava estranha, pessoas de todas as idades lamentavam o fim trágico de um cara ainda jovem, cheio de ideias e palavras para escrever. Não cabe aqui discorrer sobre  motivos que levam tantos ídolos da música a abusarem de drogas e ter mortes precoces. Mas sobre a importância desta banda para Santos. Primeiro traduzia o estilo de vida santista: "meu escritório é na praia, eu tô sempre na área". Fez a cidade ficar ainda mais conhecida no exterior, com os prêmios grammys, com os videoclipes gravados na praia.

   E também falava tanto de amor! Na mesma época em que era visto bebendo exageradamente pelos bares da cidade, teve um filho com uma garota ainda mais novinha, irmã de uns conhecidos meus - também da cena rock de Santos. Para calar a boca dos idiotas que julgam sem conhecer, era um pai presente, levava o filho em shows, dava bons exemplos! Estava lá! Bem novo encontrou o amor de sua vida, sua companheira e musa inspiradora. Conheci essa garota com cachos dourados, pele muito branca e fala mansa, quando namorava meu amigo Thiaguera, também músico, também com fim trágico. Nem acompanhei nada sobre velório, morte, investigações da morte do Chorão. Mas vi posts maldosos sobre essa mulher tê-lo abandonado. Não! O que sei é que não fosse ela, talvez ele tivesse ido antes. Sei que suas músicas eram pedidos de perdão. Espero que  A Banca continue tocando as músicas que tanto tocam o coração dos jovens.  E jovem é todo aquele que não se entrega, que se rebela com injustiça, que não aceita o "porque sim" como resposta e que quer continuar aprendendo sempre. Por isso as letras do Chorão, que se foi perto de completar 43 anos, falam direto aos jovens de corpo ou de alma.

   A música é eterna e continuo escutando Charlie Brown e acreditando que ela vai voltar pra mim.

 http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=l50yFF-faV8

domingo, 7 de abril de 2013

Escrever é Sagrado

   Três meses é muito tempo! Aconteceram tantas coisas, algumas boas, muitas ruins. Algumas situações não mudaram, outras mudaram e voltaram a ser como antes. Pensei em escrever tantos textos, mas não escrevi e as palavras foram engasgando no meu peito. Por que eu escrevo? Para organizar meus pensamentos, ordenar um pouco a minha vida. Se fica só no pensamento é como se não existisse, se perdesse no tempo, escrever é como deixar uma marca para a posteridade. Acho o ato de escrever sagrado. E também porque é o que faço e não há nada mais gratificante para quem escreve do que ter seu texto lido e comentado. Mesmo quando a crítica é negativa, alguém leu e se importou ao ponto de comentar. 
   Mas agradeço especialmente algumas leitoras que nunca me viram, mas me mandam email de encorajamento para voltar a escrever, qualquer tema que fosse, porque sentem falta do meu texto, porque seguiam o blog e acompanhavam minha saga. Mesmo não podendo mais escrever sobre o tema, que eu escrevesse sobre música, amizade e amor. Obrigada Rogéria, Tatiana, Adriana, Natália e essas mulheres que não desistem nunca. E empurram quem parou.
   Parei de escrever aqui por uma imposição e nada mais emblemático do que voltar no Dia do Jornalista, esse profissional que confronta, investiga, denuncia, informa e, algumas vezes, faz seu trabalho pela metade. O jornalista nunca deveria entregar uma matéria sem ouvir, de forma imparcial, os dois lados. Infelizmente, não é sempre isso o que acontece. Mas o jornalismo que eu fiz e acredito é o que não se conforma, o que não se cala, que se faz necessário quando autoridades abusam do poder, quando uma voz precisa ser ouvida, uma denúncia precisa ser feita. Sim, ainda sou idealista, talvez um pouco ingênua, ainda acredito que a verdade é sempre a melhor opção e que compartilhar conhecimento é uma das formas de fazer uma sociedade mais justa.
    Queria falar aqui de Marcos Feliciano, presidente da Comissão dos Direitos Humanos, um quase nazista, com suas declarações homofóbicas, rascistas. É um absurdo uma pessoa dessas presidir essa comissão, mais absurdo é representar o pensamento de muitos, cheios de preconceitos, mas que não declaram porque vivemos nos tempos do politicamente correto. Mais absurdo é todo o tempo despendido e audiência dada para esse fato, como se nada mais acontecesse de péssimo neste País. Queria falar do Complexo Aquático Julio Delamare, no Rio de Janeiro, que será transformado em estacionamento. Como assim uma cidade que sediará a próxima Olimpíada destruirá um complexo pronto?Simples, depois superfatura outra obra e ninguém vai questionar sobre isso. Queria falar do Papa Franscisco e sobre os escândalos do Vaticano, não só os sexuais, mas os financeiros também. Será que finalmente perceberam que o mercado religioso é lucrativo? Queria falar da eminência de um ataque nuclear pela Coreia do Norte. Há muita brincadeira sobre o fato do jovem ditador coreano ser um lunático mimado, mas esquecem que os senhores da guerra costumam ser lunáticos. A destruição em massa só pode ser coisa de gente que não pertence ao planeta. Mas tudo isso ficou velho em três meses, tudo fica velho muito rápido na era digital, são tantos novos absurdos e escândalos superando os anteriores, que fica difícil passar mais de um dia sem escrever, porque as opiniões se perdem, porque alguém já escreveu o que eu pensava e não quero mais do mesmo.
   Só o que não passa rápido é o amor e a saudade. Em três meses o tempo só aumentou esses sentimentos. O tempo não ajuda a melhorar, só deixa quem amamos mais amados e a distância com mais saudade.