terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dentro e Fora D`água

   Não lembro se a conheci dentro da piscina, na borda ou no vestiário. Mas foi no Vasco da Gama, em Santos, e tínhamos 11 anos. Apesar de ser apenas um mês mais nova do que eu, parecia uma criança e eu já era toda adolescente. Era uma garota linda que parecia a Branca de Neve. Trocamos papéis de carta e depois escrevemos algumas quando mudou-se com a família para Cuiabá.
    Dois anos depois Paola Miorim retornou maior do que eu e ainda mais bonita. Voltamos a dividir a mesma piscina, depois a mesma sala de aula de nerds no colegial e também ouvíamos os mesmos discos. Dormíamos uma na casa da outra e nunca nos faltava assunto ou vontade de fazer tudo: teatro, inglês, computação, canto. Estávamos juntas no show do Camisa de Vênus, no lendário Caiçara Clube, quando foi gravado o disco ao vivo. Cansadas do treino de sábado, ficamos sentadas na escadaria, sentindo o piso tremer.
    Chamava sua mãe de "mãe Lúcia" de tanto que dormia na casa dela e recebia as mesmas broncas e carinho. Seus irmãos, Marcelo e Rodrigo, também nadadores, tornaram-se meus irmãos. Meu pai ficou muito amigo do pai dela, Paulo, também nadador, como meu pai. Dancei valsa com Marcelo no seu aniversário de 15 anos. Precisei comprar um vestido novo, pois tinha engordado 5kg em 18 dias passados nos Estados Unidos. Me senti horrorosa, mas não perderia a festa por nada, nem ninguém! Quando Paola mudou-se para Ribeirão Preto, para fazer faculdade. acabei indo também, pois não queria amargar um ano de cursinho. Mas não aguentei o calor escaldante por mais de um ano e meio e voltei.
      Sempre me impressionou a estima elevada dela. Demorei a entender que precisamos nos amar acima de tudo, que somos nossos leais companheiros até o fim e se houver algo além do fim. Logo eu que nunca me amei muito e cheguei mesmo a me odiar certas vezes, tinha uma amiga que se amava acima de todas as coisas. E tão certa sempre esteve!
      Por trilhar caminhos diferentes e ter vidas tão corridas, passamos um tempo afastadas. Mas Paola foi uma das primeiras pessoas a me ligar quando passou uma matéria no Fantástico, com a sinistra voz de Cid Moreira dizendo: "Adriana Mendes tem graves problemas mentais". Me ofereceu toda a solidariedade, dizendo não acreditar em nada daquilo, mesmo sem me ver há alguns anos.
    Quando minha filha foi levada para Ribeirão Preto não pensei duas vezes em ligar para Paola e pedir para ficar em sua casa quando precisasse. A verdade é que eu não imaginava que precisaria por longos quatro anos. Nos dois primeiros eram só lágrimas, porque nada dava certo e eu não podia ver minha filha. Se eu consegui suportar tudo isso, Paola e suas adoráveis filhas, Lívia e Giovana, merecem todos os louros. Sempre que eu voltava arrasada de fóruns e delegacias era na casa delas que eu encontrava abraços, sorrisos e leveza para seguir.

    Existem pessoas que passam por algum momento de grande tristeza e levam o sofrimento para o resto da vida. Outras vivem grandes tragédias, perdas irreparáveis e fazem disso um aprendizado, uma superação. Paola faz parte do segundo grupo. E tomei isso como lição. 
   Mesmo tendo amigos muito queridos em Ribeirão Preto custei a querer encontrá-los. Não queria que me vissem tão magra, de olhos fundos, aparência abatida e doente. Preferia que lembrassem de mim como eu era, sempre sorridente e cheia de saúde. Paola podia me ver assim destruída, porque me viu nas piores fases da adolescência, quando ficava cheia de espinhas, peitos enormes e usava roupas e cabelos que não favoreciam em nada meus ombros e braços grandes. 
    Ela já me viu chorando tudo o que eu tinha para chorar de tristeza. Quando tentou falar delicadamente com a outra parte recebeu o telefone na cara. Respirou fundo e ligou de novo. Outro telefonema na cara. Não acreditou em tanta intolerância. Fomos criadas de uma forma a tolerar e aceitar diferenças. Fomos criadas de forma muito parecida.
     Quando finalmente pude ver minha filha fora do fórum, precisei indicar um "monitor". Como pedir o favor de buscar, acompanhar e levar, a cada 15 dias, com horário rígido e pré determinado, a alguém que não seja incrivelmente generoso e comprometido? Quem aceitaria tal responsabilidade? Quem assinaria um termo no  cartório do fórum? Talvez se eu tivesse um irmão, não fizesse isso por mim.
     Todas as idas e vindas na estrada eu pensava nisso. Em toda a trajetória de amizade que levou a esse ponto e reencontro tão forte na vida. Em todas as pessoas que agreguei por conta de Paola, como Patrícia Zorzenon, Marcos Papa, Sônia Gravine, Tetéu, Zeca Ferreira. A delícia de saber que Beto Wagner, Ana Luiza Feres e João Paulo também são amigos dela, mais recentes, de outras histórias que se cruzam nesse emaranhado de laços afetivos.
      Não é uma coincidência eu estar aqui no apartamento de Paola, escrevendo do note dela (sem ela estar em casa) o que provavelmente é o último texto do ano e o primeiro texto de liberdade. Amanhã, ou logo mais, considerando que já é madrugada, pego Dora, às 14h, para seguirmos juntas pela estrada, ver os amigos que há anos ela não vê, voltar nos mesmos lugares, mergulhar no mar, dormir finalmente e novamente embaixo do mesmo teto. Sem monitores, sem psicólogos, sem advogados. Apenas com amigos que escolhemos ter. É tão simbólico estar aqui nessa sala e ter essa pessoa na minha vida por 34 anos, de forma intensa e absoluta. Uma amizade que passa de geração para geração e que se perpetuará em projetos literários que agora também temos juntas. Esse foi um ano bom. Pela primeira vez em muito tempo sinto esperança. Sei que o próximo ano será libertário. Eu só posso agradecer e oferecer meu amor eterno.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Olhando Azulejos na Piscina

   Não me falta assunto, nem ideias. Mas falta mesmo um tempo para sentar com calma e escrever. Nada de escrever só por exercício, porque isso já faço com matérias e livros reportagem. Escrever sobre o que me importa, que nem sempre pode importar aos outros, mas que se for o suficiente para inspirar uma pessoa, já é uma missão cumprida. Adoro ter missões e cumpri-las.
  Um dia tive a feliz ideia de perguntar para a querida Tico Gil, por esse tal facebook, como eu faria para dar um mergulhão na piscina do Napoleão Laureano. "Segunda, quarta e sexta, das 9h às 11h, será muito bem vinda". Fui com Miranda, que adora natação. 
   De repente olhar Tico e Paulino, irmãos inseparáveis, de corpo e alma,  na borda da piscina, dando treino para crianças de 4 a sei lá quantos anos, me encheu de emoção quase incontrolável. Há 20 anos não nos víamos e parecia que nossa última despedida aconteceu no vestiário, no dia anterior.
   Então eu nadei. E lembrei de mim aos 6 anos, na mesma piscina, com medo de colocar a cabeça dentro da água, com medo de mergulhar, engolindo água pelo nariz e chorando como uma filha única mimada. Querendo desesperadamente fazer amigos, além dos imaginários e das bonecas no meu quarto. Lembrei de como era difícil aprender a nadar, como foi glorioso o dia em que atravessei a piscina que não me dava pé. E olhei Miranda nadando tão destemida, saltando da  baliza sem medo algum, conversando com todos os meninos ao lado.
    Paulino, uma das figuras mais lendárias da escola, tornou-se professor de Miranda. A admiração dela por ele foi imediata. Ele brinca, mas tem autoridade. O equilíbrio entre o mestre e o amigo. Na hora do aquecimento fora da água sempre a lembrança de colocar um menino e uma menina intercalando o círculo. Nada de clube da Luluzinha ou Bolinha, são todos amigos, todos irmãos. Menino não é mais forte, menina não é mais chorona. Cada indivíduo é único em sua singularidade e todos são iguais no coletivo. Um resumo tosco do que representa ser nadador.
   E sempre que me dava tempo ou meu pescoço travado permitia, nadava. Mais Costas do que qualquer outro estilo, porque a  cabeça tem que ficar parada mesmo. E então olhava o céu azul. Pensei que talvez tenha me dedicado mais a esse nado, já aos 13 anos, porque percebi que poderia olhar mais do que azulejos. Uma máxima antes das provas é: "Agora sou só eu e os azulejos". Natação é um esporte muito solitário, sempre você mesmo com seus pensamentos e contando azulejos. Ao mesmo tempo é um esporte tão coletivo e cúmplice, porque só quem passa horas contando azulejo sabe o que o outro sente. Como bem definiu Paulino Neto, "é como se todos nós tivessemos compartilhado o mesmo útero de 470 mil litros de água".
   Posso dizer que voltei às raízes. Num churrasco na cada da Tico reencontrei Claudinha, Silvinha Araújo "Sorriso", Rosana e a querida mestra de matemática, Zenilde Carmo. Uma alegria ver Miranda fazendo amizade com Antônio, um garoto de 19 anos, que ela viu como um menino de 10. Também nadador, filho de Tico, E a doce Bruna, a filha mais velha. E não ficamos todos vivendo de nostalgia de como era bom "o nosso tempo". Falamos do presente, do futuro, de amor e amizade. Sim, lembramos daquele que nos ensinou a nadar, professor Roberto Silva, também nosso amigo, psicólogo e pai. Que sorte foi a nossa, que grande equipe ele formou, não só de atletas, mas de cidadãos e amigos. 
   Lembramos também que não havia essa de bullying. Eu era a Mosquitinho, Rosane Mendes a Palitinho, Paulino era Chupeta, Tico era Ticolé e nem sabe mais seu próprio nome, virou Tico e pronto. Todos tinham um apelido, como a Regina Pimentinha, que vivia brincando na rua até descobrir a piscina. 
  No último dia de aula, Miranda levou um desenho para o seu professor. Um nadador sorridente, na borda da piscina, com oclinhos, sozinho no meio do azul. Um professor verde porque ele disse que adora o Hulk. Disse também que não queria presentes de fim de ano, seu maior presente seria receber uma menção honrosa no TCC das crianças, que se olharam sem saber o que era TCC. "Pode ser desenho também, adoro desenhos". E foi esse desenho caprichado e cheio de amor que Miranda fez.
   Na hora decisiva somos só nos e os azulejos. Mas antes tem toda uma história de superação, aprendizado e incentivo. Depois tem muitos abraços, sorrisos e lágrimas. E a amizade eterna entre os que dividiram um útero gigante.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Incêndios


    Estava em Brasília, com meus amados amigos Angel Luís e Gabriela Cunha. Nossas crianças (minha filha Miranda e seus filhos Inaê e Rudá) dormiam tranquilos. Então abrimos um vinho tinto e resolvemos ver um filme. Gabriela escolhe Incêndios. Eu nunca tinha visto, nem ouvido falar. Gab afirma que vou adorar, “é um filme impactante, daqueles que precisam ser vistos duas vezes”. Gab e Angel são aquele tipo de gente que vê filmes perturbadores para dormir, justamente para afastar o sono, coisa que não lhes falta. Adoro esse tipo de gente.
   Só sei que é uma produção canadense, dirigida por Dennis Villeneuve e que foi adaptado de peça homônima. O autor libanês, Wajdi Mouawad, não achava possível sua obra ser transformada em filme. Mas Villeneuve mostrou apenas a primeira cena, que não tem palavras, só olhares e gestos, com música de Radiohead. Isso bastou para Mouawad perceber que todo o resto seria possível. Parei de saber por aí. Ao contrário de mim, Gabriela não gosta de contar as histórias, nem os finais. Melhor assim!
   Começa com tanta intolerância seguida de violência, que paro com o vinho para não doer também o estômago. Namorado refugiado assassinado na frente da moça que o ama. Bebê arrancado de mãe e levado para orfanato. Mãe desesperada atrás do filho, fruto de muito amor, tomado de seus braços na hora do parto. Crianças aprendendo a atirar, tendo como alvo outras crianças. Menino com ódio no olhar e lábios trêmulos, controlando a vontade de chorar. Radiohead arrebentando meu coração. Aliás, a trilha sonora inteira do filme é brilhante. Não exagera, nem exclui, só aumenta a dramaticidade de todos os incêndios, reais ou metafóricos.
   Uma mulher está em estado de choque e há 5 anos parou de falar. Após sua morte, um grande amigo e advogado, chama o casal de filhos gêmeos e entrega uma carta para cada. Pede para um procurar o pai. E o outro procurar o irmão. Os gêmeos olham-se confusos. O pai estava morto e não tinham conhecimento de nenhum irmão. Assim começa a busca pelo desconhecido. Desvendam toda a verdade sobre o passado de sua mãe. Prisioneira, torturada, sobrevivente. Nada disso sabiam. E a cada nova pista, algo mais estarrecedor. Sinto que o final será surpreendente. E foi...

   Volto a tomar vinho e conversamos sobre o filme. Nossas impressões sobre como a falta de amor pode transformar uma criança indefesa em um assassino cruel são as mesmas. Tudo é terrivelmente triste. Só consegui chorar deitada, esperando o sono que nunca vem, com as cenas se repetindo em minha mente, um roteiro tão bem amarrado, montagem perfeita, interpretações tão realistas. E esse tema que sempre me intrigou, sobre a razão em tanta guerra (religiosa, política, social, pessoal). Queria tanto ter um cérebro capaz de entender e de explicar.
   No dia seguinte falamos muito sobre Incêndios. E na outra semana. Também no mês seguinte. É uma película apenas para quem tem estômago e ao mesmo tempo sensibilidade de ver beleza em escombros. Mas considero um filme fundamental. E como gosto de trilogias, segue mais uma dica de um que me tirou o sono. Se é para ficar acordada, que seja por algo que realmente me afete.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Solidão dos Números Primos

  Passava da 1h30 e eu já estava deitada. Mas meus olhos se recusavam a fechar. Não gosto de ficar condenando meus pensamentos, tentar freá-los ou contê-los. Sou uma, mas estou sempre dividida. Nunca faço uma coisa de cada vez. Parece que existe um duplo, o tempo todo. 

   Tento ser prática, já que não consigo nem fechar os olhos como vou dormir? Vou fazer alguma coisa porque não adianta lutar contra a insônia ou amaldiçoá-la, ela vence e depois se vinga durante o dia inteiro. Vou fugir para dentro de um livro! Mas não deveria, já que o que preciso é escrever dois livros! Um até final de dezembro, outro com prazo curto, porém estendido. Vou escrever! Mas minha tendinite está latejando um pouco. Uma dor que me acompanha há tanto tempo, que quando diminui sinto até falta. O pescoço dói mais.
  Tento me iludir.  "Ah, vou ligar a TV, quem sabe uma comédia romântica inofensiva". Sei que nenhum filme me devolve ao sono. Dona insônia maldita venceu. Levanto, vou até a sala e vejo um filme já começado, italiano, que me prende na primeira cena.
    Duas adolescentes de 13, 14 anos falam de meninos. Uma delas, Alice, nunca beijou, a amiga lhe ensina a beijar e pergunta qual garoto ela gostaria de beijar. Alice diz que gosta do menino Mattia. Aquele que se esfaqueou na sala de aula.
   Mergulhei na história de Alice e Mattia, naquele tipo de roteiro que vai e volta, decifrando traumas, comungando com os desajustes dos personagens. Torço por aquele beijo que Alice tanto espera. Não sei nada sobre o filme, no que vai dar, nem a sinopse, só reconheço a atriz, que admirei no também italiano, A Bela Adormecida. 
    Penso que está acabando, mas acontece um salto no tempo e surge Alice, visivelmente atormentada e assustadoramente doente. Estremeço. Me abalo com a cena e a interpretação. Agora tenho necessidade de saber tudo sobre essa atriz que tanto me impressionou. Nem sei seu nome.
   Sigo sentindo uma mistura de náusea e angústia. Além da expectativa romântica em saber se Mattia, agora um físico genial que mora na Alemanha, irá salvá-la. Ela sabe que está se matando e pede socorro a quem esteve ao seu lado por toda vida, sem nunca tocá-la. Eu choro. Como pode tanta crueldade consigo mesma e ternura com o outro?
      Parece ser a cena final. Abraço, por favor, aconteça! Beijem-se, nem que seja por necessidade! De repente, o sinal some. Como assim não vou saber como essa história termina? O sinal volta. Nem letreiros mais estão passando. Como assim não vou saber nem o nome do filme?
     

      Passava das 3h e eu precisava saber algumas coisas antes de dormir. A pista era que Alice foi construída pela mesma atriz que incorporou Maria, de A Bela Adormecida. Descubro outros vários filmes da brilhante Alba Rohrwacher, que só em 2010, atuou em quatro. Começo a ler sobre todos eles, num site italiano. E lá estava A Solidão dos Números Primos (2010, dirigido por Saverio Costanzo), adaptação do romance La Solitudine Dei Numeri Primi, de Paolo Giordano. Pronto, agora tenho mais um livro para ler. Quero muito ler esse livro. Como eu não sabia de nada disso?
   Tento não pensar em toda a singularidade de Alice e Mattia, enquanto indivíduos. Mas em todas as similaridades, enquanto casal.
     Passa das 6h e agora só o que eu preciso é dormir. Fecho os olhos e durmo pensando no romance, no amor que não se basta. Logo tenho que acordar.

      Um pouco disso tudo http://youtu.be/uwdfCce8Yfk
     

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ela Só Queria Abraçar Seu Filho


    Recebi o e-mail de uma mãe que perdeu a guarda do filho. Outra Dri. Como eu, como a Adriana Botelho. Li com dois dias de atraso e escrevi imediatamente. Essa Dri estava desesperada, disse estar trancada no quarto com uma faca, querendo se matar, que não suportava mais tanta humilhação e essa dor que a rasgava por dentro. Me escreveu porque leu esse blog e sabia que eu conhecia essa dor. Também sei que quando alguém quer se matar primeiro pede socorro. Sei que é uma forma de chamar a atenção para o seu sofrimento. E que existem algumas tentativas, antes de atingir esse objetivo, o suicídio. Tentei consolá-la e lhe dizer que não está sozinha, que não é a única a passar por isso e que todas as mães que perdem seus filhos para a Justiça, em algum momento, já pensaram em acabar com a própria vida.
    Não é fácil enfrentar a burocracia do judiciário, que nos trata como números. Não é fácil passar por esse processo de desumanização. Muitas vezes me pego repetindo chavões em “juridiquês” e tratando casos escabrosos com certa frieza. Mas quando aparece uma mãe dilacerada por ser brutalmente afastada do seu filho, volto a ser humana. Sinto a mesma dor e uma vontade enorme de abraçar e chorar junto. Sei o quanto é castrador ter a vida nas mãos de advogados, promotores e juízes. Muitos deles que nunca nos viram e tão pouco viram o rosto de nosso filhos. Pessoas tão entranhadas em papéis e números que acham normal o afastamento. “É assim mesmo que funciona a Justiça, tem muito processo para ler”. E quando o reencontro acontece, geralmente após anos, escutamos que “é normal esse estranhamento, com o tempo o vínculo volta”. Não, nada disso é normal e alguma coisa precisa ser feita urgentemente para mudar esse sistema torpe. Não suporto mais ver tantas vidas destruídas, tantas crianças órfãs de mães vivas.
    Essa Dri me respondeu pouco tempo depois. Foi um alívio imenso saber que não tinha se matado. Até o seu jeito de escrever mudou. Talvez por saber que alguém entende o que ela passa. Escrevi que não somos só nós. Falei de todas as mães que conheço, algumas que vivem por conta de antidepressivos, que também não viram seus filhos crescendo. Mais triste ainda foi saber que ela só tem esse filho de 11 anos e que não pode mais ter filhos. Me disse que tudo que queria era ter outro filho, como eu tenho. Isso me tocou tanto, que agora são 4h30 e não consigo dormir. Mas vou toda hora no quarto ver Miranda dormindo. Estou aqui prometendo a mim mesma ter mais paciência, ser mais tolerante e mais amorosa. O processo tem me tirado essas virtudes. Tudo bem que paciência nunca tive muita mesmo. Mas amor e tolerância nunca me faltaram, até me excederam.
    O pai do seu filho também pegou a guarda e levou para longe, para dificultar a visita, ganhar tempo no processo, afastar de todas as formas mãe e filho. E a Justiça, como sempre, ajuda os mais calculistas, com mais dinheiro e advogados de mau caráter. Sim, só pode ser um mau caráter o advogado que, para defender os interesses de seu cliente, não pensa no bem da criança. É cada coisa que essas pessoas fazem por dinheiro... talvez eu nunca entenda o interesse financeiro. Até no trabalho o meu maior interesse é o prazer no que estou fazendo, é a novidade. Mas o sistema judiciário já me fez pensar que a coisa mais importante do mundo é o dinheiro, não o amor. Ele, o dinheiro, é capaz de tudo, inclusive de tirar ou devolver a guarda de um filho. Alguém duvida que esses pais que tiraram os filhos das mães são mais abastados? Não. Porém tenho todas as dúvidas se eles sabem o que é amor.
   Talvez eu não tenha falado para essa Dri sobre nossa outra xará Dri Botelho. Em dezembro completará três anos que não vê a filha. O pai português a levou para Portugal. Pior de tudo é pensar que tenho sorte, já que minha filha está no mesmo Estado de São Paulo. São só seis horas de viagem. Em breve não será tempo nenhum, pois já desisti de trazê-la de volta. Já que ela não volta, eu vou. Poucos sabem como é duro deixar uma vida na praia e mudar para o interior, para um clima de deserto. Mas depois de quase quatro anos me dei por vencida. Nunca fui tão persistente. Sempre que algo me parecia muito difícil, tentava algo diferente. Mudava o rumo, partia para outra, desistia. Mas como desistir de um filho? Quantas vezes todas essas mães pensaram em desistir enquanto as lágrimas corriam pelo rosto?
    Dri, espero que você leia o que estou escrevendo e saiba que não podemos morrer em vão. Não tenho religião, não acredito na existência de deus, não acredito na Justiça (muito menos na do Brasil) e muitas vezes desacredito na humanidade. Me sinto uma excluída, que não tem direito à própria filha. Mas por algum motivo que ainda não entendi (e talvez nunca entenda) minha vida virou isso. Me transformei numa pessoa mais dura e menos sentimental. Esse sofrimento imposto não vai me tornar um ser humano melhor. Sinto o tempo todo que estou perdendo a vida. Sei que poderia ser muito mais produtiva. Poderia estar me cuidando mais, nadando, viajando para lugares novos, fazendo planos de férias, poderia namorar mais, me divertir mais. Mas nem consigo dormir direito. Nem planejar nada. Deixei o processo me guiar. Nunca mais serei como era. E tenho que amar quem sou agora. Mesmo não gostando do que vejo. Por algum motivo desconhecido nós temos que passar por isso. Pode ser para que nossos filhos saibam que lutamos por eles. Que eles não são os únicos que ficaram sem mãe por ordem judicial. Pode ser que juntas nós processemos o Estado, afinal ele colabora para que um processo de guarda, ou de simples regularização de visitas, que é o meu caso, se arraste por anos, até a infância acabar.
    Hoje seria o aniversário de uma grande amiga minha, que se foi tão nova, deixando quatro filhos lindos. Talvez por isso eu também não consiga dormir. Pela saudade e a falta que ela me faz. Só encontro minha amiga em sonhos. Ela não volta mais para os seus filhos. Mas nós estamos aqui. Nossos filhos ainda podem ter a esperança de abraçar novamente suas mães.

    Por algum motivo lembrei da Zuzu Angel. Nossos filhos estão vivos e poderemos abraçá-los de novo. Para quem tem saudade da ditadura, por favor, pensem em todas as mães que não puderam nem enterrar seus filhos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Espera de Miranda


   Quando sua irmã foi levada, faltava uma semana para Miranda completar 2 anos. Durante os primeiros 15 dias ela corria para o portão cada vez que ouvia uma buzina. Pensava que era a perua da escola trazendo a irmã para casa. Por alguns meses ficava olhando fotos das duas juntas, abraçava a foto e repetia, quase chorando: “Cadê minha Doinha?”. Nem eu sabia onde estava a irmã dela, mas dizia que estava viajando e logo voltaria. Passado mais de um ano, Miranda percebeu que a irmã não iria voltar. Uma das vezes que mais me doeu foi quando Lucas Chigres, um amiguinho de Paraty, que veio com a mãe Kátia, minha amiga, passar uns dias em Santos, perguntou sobre Dora. A resposta: “minha irmã morreu”.
    De certa forma, Miranda tinha razão. O que é a morte? É ter alguém e esse alguém desaparecer da sua vida, nunca mais ouvir a voz, sentir o cheiro ou ter qualquer notícia. Por mais de dois anos foi o que aconteceu na vida de Miranda. Ela tinha uma irmã e de repente, não tinha mais.
   O meu bebê fofo e meigo, que até hoje prefere bonecas bebês e não barbies, tornou-se combativa e agressiva. Talvez porque tenha passado a ser filha única ao mesmo tempo que o fantasma da irmã era sempre presente. Parei de contabilizar as vezes em que Miranda me acompanhou em Fóruns, delegacias para fazer Bos, viagens até Ribeirão Preto para ver a irmã que não davam certo.
    A primeira vez que encontram-se, no consultório do psquiatra infantil José Hércules Golfeto (avô de Dora), a cena foi estarrecedora. Miranda tremia e chorava, como se realmente tivesse visto um fantasma. As duas irmãs ficaram abraçadas no chão, chorando. Dora pensava que Miranda não lembrasse mais dela. Miranda pensava que Dora não existisse mais. Fiquei emocionada, chorei, mas também fiquei feliz, pois de alguma forma, o vínculo entre elas era forte e não fora rompido.
   Porém foi uma ilusão pensar que a partir daquele momento as coisas melhorariam. Foram mais 1 ano e nove meses para que um encontro decente acontecesse. Após a perícia da psicóloga forense, ficou claro que o vínculo havia sido quebrado. Não sou eu quem está dizendo, foi a própria psicóloga que escreveu isso, no laudo que está no processo.
    O primeiro encontro em liberdade ocorreu de forma inesperada. Eu estava em Ribeirão para resolver outras pendências. Com toda a morosidade do judiciário, após não conseguir ver Dora nem com ordem judicial (e mais uma vez Miranda aguardou em vão e seguiu comigo para uma delegacia), imaginei que os trâmites legais se arrastariam por mais alguns meses. E de repente estava andando na luz do Sol com Dora, sem psicóloga, sem paredes, sem policiais na porta. Mas Miranda não estava.
    Contei que vi sua irmã, que passeamos e que ela iria junto da próxima vez. Miranda contava os dias. Perguntava: “Vamos poder tomar sorvete? Vamos passear pelas ruas?”. Parece algo tão banal (e é), mas absolutamente novo no mundinho dela. Então eu disse que nossa amiga Adriana Abujanra e suas filhas, Sofia e Manu, iriam nos encontrar também. Elas viriam de São Carlos passar o Dia das Crianças com a gente. “Mas mãe, nós vamos encontrar a Dorinha!”. Expliquei que ficaríamos todas juntas, nós, a Dri e suas filhas, a Paola e suas filhas. Miranda dava pulos de alegria! A cada manhã acordava perguntando quantos dias faltavam para ver a irmã. Doía em mim o tanto de ansiedade desta criança.
     E quando novamente paramos em frente a casa da família Golfeto, seus lindos olhos negros brilhavam e seu sorriso de covinhas era ensolarado. Queria andar abraçada, de mãos dadas e quando entrou no shopping disse que não ia largar a Dorinha, “pra todo mundo ver que ela é minha irmã”.
   Mas agora, quando tudo parece que vai melhorar, me encontro em outro dilema. Miranda tem ciúme da irmã, afinal, ela nunca está e toma conta do meu tempo, mesmo nunca estando. Miranda era feliz em Santos e agora terá de mudar para Ribeirão Preto por conta da irmã. Ela tem uma mãe só pra ela, mas que não é só dela, porque tem essa irmã distante, que nunca está.
   E Dora não tem o amor que tinha porque o amor é construído na convivência, nos pequenos momentos, nos grandes, nas viagens, nas festinhas, no levar e trazer para ballet, natação, escola. E Miranda sofre e, apesar de ser brilhante e inteligente demais, não consegue entender o porquê destas coisas todas. E eu tento explicar da forma mais sincera. Falo da Justiça, falo de guarda, falo da outra parte, falo de advogados. Não há forma lúdica para falar sobre isso. E agora eu sofro porque nada é, nem será como antes. Sei que não podemos viver no passado, nem no futuro. Mas o presente não está bom, faz tempo que não está.
   O que escuto de advogada, psicopedagoga e profissionais dessa categoria de psicos (categoria essa que por motivos muito pessoais, tenho sempre os dois pés atrás) é que isso é natural. É natural que elas tenham perdido o vínculo. É natural que se estranhem depois de quase 4 anos. Natural? Não vejo nada de natural nisso. Não foi natural a separação brusca, tantos juízes no processo que não decidiam nada, os advogados da outra parte usando todas as brechas da Justiça para procrastinar ainda mais esse encontro. Não foi natural o promotor ler um monte de acusações sem provas e dar um veredito me proibindo de ver minha filha.
   Agora dizem que preciso procurar uma psicóloga para Miranda. Quem vai pagar isso? O promotor que foi assinando sentença sem me ouvir? O juiz que não leu minhas contra provas? Jonas Golfeto que, ardilosamente, fez essa separação durar 4 anos? Antes eu tinha duas filhas e sabia tudo sobre elas e nenhuma apresentava qualquer problema físico ou psíquico. Agora eu tenho uma filha que não sei nem os nomes dos médicos (alergologista, oftalmologista e psicanalista) que tratam de suas alergias a quase tudo e olhos constantemente inchados e vermelhos, e outra que é mais forte que um touro, mas precisa de terapia. Quem paga pelo trauma de Miranda? Quem é o responsável por toda essa espera e ansiedade?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Nós e Eles

   Estava em Ribeirão Preto para resolver umas pendências de mudança ou não mudança para lá. Não esperava nada, sem expectativa nenhuma de processo. Então saiu um despacho do juiz, entendendo o esforço da outra parte em não deixar mãe e filha se encontrarem, achando que passava dos limites recorrer tanto, entrar com apelação e tudo que a Justiça, afinal, permite. Depois de ver que nem com ordem judicial eu pude ver minha filha, o juiz determinou, em um despacho relâmpago, que haverá multa de 1 mil reais cada vez que a outra parte não cumprir a determinação judicial. Infelizmente, há pessoas que só sentem dor no bolso ou na conta bancária. Essa multa já deveria ter sido estipulada há muito tempo. Mas antes tarde do que em 2020!
   Já estava com a passagem comprada para voltar na sexta, mas com todo o prazer e ansiedade do mundo fiquei na casa da Paola Miorim, a pessoa que indiquei para acompanhar as visitas, que agora devem acontecer, impreterivelmente, de 15 em 15 dias, sábado das 14h às 19h e domingo, das 10h às 16h. 
   No sábado acordei muito cedo, de tanta ansiedade. Comecei a arrumar a casa. Logo Paola chegou dos seus 30 km de corrida (está treinando para uma maratona), colocou o DVD de um show do Pink FLoyd num volume bem alto e faxinamos a casa. Enquanto organizávamos íamos lembrando nossa fase Pink Floyd, entre 13 e 15 anos. Falamos muito do Marcelo Miorim, o irmão mais velho da Paola e que, por muitos anos, foi também meu irmão mais velho e mais querido. Do caçula Rodrigo Miorim, que se foi tão precocemente dessa vida, tão lindo e tão amado. Algumas vezes me dava vontade de chorar. Pela música, pela saudade, pela emoção de estar ali na espera de ter liberdade. Nada poderia ser mais simbólico do que ouvir Pink Floyd.
   Fomos buscar minha filha, pontualmente, às 14h. O abraço não foi tão apertado como eu queria, o sorriso não foi tão largo quanto eu esperava. Nada mais será como antes. Não dá para comensurar o tamanho do buraco que ficou em nossas histórias. Não vou contar detalhes de como foram nossos dois encontros. Só posso dizer que nunca foi tão bom sentar num sofá e ver um filme de mãos dadas. Almoçar a comida deliciosa da Paola, numa mesa de família, uma família de verdade e harmoniosa. Nunca foi tão bom tomar um café expresso em um shopping, enquanto Dora e Giovana (a caçula da Paola) tomavam um milkshake. 

    Acho que a outra parte e sua família nunca imaginariam que eu teria uma tão grande amiga em Ribeirão Preto, capaz de passar seus finais de semana comigo e minhas filhas, com "muito orgulho e com muito amor" e que suas filhas ficariam amigas de Dora. E tenho certeza que Dora e Giovana terão a mesma irmandade que tenho com Paola.
   Nesse tempo tão breve, mas tão importante que passamos juntas, falamos de quando éramos adolescentes, de nossos treinos de 10 km nadando, de nossos paqueras, primeiros namorados, estudos e parte de algumas situações hilariantes que já vivemos. Nossas filhas riam de tudo. Lívia, a mais velha da Paola, sempre dando suas pitadas divertidas de ironia.
  Também acho que é muito emblemático a Paola me acompanhar nesses encontros. Depois de quase 4 anos acompanhando mais de perto do que qualquer um essa saga, não poderia existir pessoa melhor para tal missão (ela assinou um termo de responsabilidade no Fórum, é uma missão, um compromisso com a Lei). E não digo isso só por ser equilibrada, inteligente, divertida e linda (e ainda muito mais por dentro do que por fora, acreditem). Mas porque tem aquela sensibilidade que falta na maioria dos seres humanos, porque tem paciência e sabedoria. E tem perseverança e determinação.
    
    Sempre foi o avô quem levou e buscou minha filha no portão. Na "entrega" me estendeu a mão e disse: "Não precisa ter tanto ódio, Adriana". Apertei sua mão, que estava meio trêmula, e respondi: "No meu coraçãozinho não há espaço para ódio e rancor". Imediatamente lembrei de uma das músicas que ouvi pela manhã, Us and Them. No final somos todos iguais e continuamos com os mesmos desafios e desavenças desde que o mundo é mundo. Mas é sempre "nós e eles". É muito difícil combater a injustiça. E nossas vidas muitas vezes está nas mãos de quem não nos conhece. E vejo tantas brigas por guarda de filho em todas as partes. Depois a criança cresce e vai embora. E o que fica são buracos, vazios e uma sensação de vida perdida.

    Pensei muito em todas as mães* e filhos que passam ou passaram por isso, todas que conheci nesses anos duros. Em especial na Natália Nogueira, que me preparou para esse estágio do estranhamento inicial. E porque ela ama Pink Floyd tanto ou mais do que eu e Paola. E a sensação de liberdade, mesmo momentânea, que senti, talvez possa ser traduzida nesse vídeo e nessa música. A vida é muito curta para ser perdida em processos, fóruns e cartórios.

* Não consigo pensar nos pais que disputam guarda porque os que fazem isso é por vingança. E sempre, sempre mesmo, as crianças ficam aos cuidados de terceiros (avós, tias, madrastas, babás). Pai que tem guarda é porque a mãe morreu, ficou doente demais ou presa. E esses pais torcem para que as mães melhorem e retomem a guarda. Ou procuram uma mulher bacana para ajudar com os filhos.
    Mas penso em pais que lutam pelo direito de ter finais de semana com seus filhos. Porque também existem muitas mulheres vingativas, que usam os filhos para machucar seus ex... não é uma questão sexista, é uma questão humanitária. E há humanos de todos os tipos, até os sem nenhuma humanidade.