terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Aqui Dentro


    Cheguei 20 minutos adiantada, logo eu que costumo me atrasar. Tomei um café, enquanto lia sobre várias coisas, aleatoriamente, tentando mudar o foco. Pensava que já devíamos ter nos encontrado antes, tantas as coincidências, lugares e pessoas comuns. Tentava despertar para outras imagens, outros assuntos, mas era ele, o meu interesse. “Deve ser fumante!”, desejava, conscientemente, por ser uma forma de afastar qualquer possibilidade de beijo.
    Quando finalmente me concentrei numa matéria de cultura, percebo uma pessoa postada ao meu lado. Era ele e nem o vi chegar. Nenhum vestígio de fumaça. Deu até para sentir o hálito doce quando me deu um abraço. Os lugares e as pessoas ficaram ainda mais comuns. Já nem sabia mais quais eram as minhas histórias ou quais eram as dele. E fui tão ingênua que dei minha data de nascimento assim, de supetão, com horário e tudo. Sabia do meu mapa astral antes de me conhecer. Parecia saber bastante sobre mim. Tudo que eu queria esconder percebia só de olhar. E talvez por isso eu falasse sem parar, tentando ocupar os silêncios carregados de poesia.
    Há algum tempo fujo de romantismo. O amor romântico e idealizado nos decepciona com ilusões criadas por nós mesmos. Por isso não esperava, nem idealizava mais nada, com ninguém. Não neste momento, neste período, nesta fase, neste ano, nesta vida. Estava sempre evitando o novo, o desconhecido, o inédito. Mas era um novo antigo, como se fosse um reencontro, um desses chavões “parece que te conheço há tanto tempo”. Pegou minhas mãos, que costumam ser frias, e estavam suadas. Até ele estranhou, como se soubesse sobre minha pressão baixa. Isso não era normal e eu não entendia o que estava acontecendo. Me sentia bem, mas meu corpo reagia estranho.
    A noite passou tão rápida e não queria me despedir, não estava preparada para o fim de nada. Minha incerteza precisava congelar aquele momento, até eu decidir dar boa noite ou dizer continua comigo. Nem lembro como foi, se vacilei no convite, se ele queria mesmo seguir comigo, apesar da madrugada que invadia a noite. Sei que fomos, foi o suficiente .
   Estávamos numa sacada, cheia de vasos com plantas, numa noite fresca do fim da primavera. Não havia palavra que bastasse por minha parte. As ouvidas e as faladas, também as escritas. Tomava alguns goles de vinho branco para continuar falando e aguçar os ouvidos. Queria também ouvi-lo, mas evitava tocá-lo. Evitava também o silêncio e os olhos nos olhos. Em algum instante ficamos tão próximos, que nada impediu nossos lábios de se juntarem. A primeira vez que o beijei foi por muito tempo. De um jeito familiar e prolongado. Na segunda foi mais longo ainda o mesmo beijo, cheio de doçura e desejo, como se aquele cheiro sempre estivesse dentro de mim. Na terceira noite de tantos beijos me habituei de uma forma a só ficar beijando-o, na esperança de que ele também não pudesse mais viver sem aquele beijo.
     Nos dias que seguiram me vi tomando menos café, comendo mais e pensando menos. Tentei ser mais intuitiva. Mas continuei não querendo o amor romântico e idealizado. Estou sempre tentando encontrar impedimentos para concretizar qualquer sonho, para não ter desilusão. Quando dormi duas noites seguidas com ele, entendi que era grave. Não tive vontade de sair correndo, inventar uma viagem de última hora ou dizer que estava muito melancólica e não gostava de mim assim. Ao contrário, quis ficar ao seu lado até me atrasar em efeito dominó. Quis ficar mesmo que em silêncio.
    Quanto mais ficar, é mais provável que eu sofra. Por estar praticando a intuição, sei do meu apego, sei que irei sofrer na separação que virá. Seja eterna, por um dia, um período, a separação vem, sempre vem.
    Me emociono demais, apesar de dizerem por aí que não demonstro ou falo sobre o que sinto. Podem não aparecer, mas os sentimentos estão comigo o tempo todo, se manifestando de outras formas, que não com palavras. Não sou apenas uma mente em ebulição, tenho um corpo que se expressa pelo amor e um coração que dói de tanto esperar e se despedir. Aprendi a disfarçar.
   Mas em momentos de entrega não existem disfarces. Certa noite senti novamente o que nunca pensei ser possível. Uma emoção tão grande que precisava ser extravasada além do gozo. Mas não sou dada a gritos, nem de ira, nem de prazer. Já não falava ou mesmo pensava ou articulava. Apenas sentia. E assim senti lágrimas que não eram de tristeza ou alegria. Era o amor que transbordava. Não havia nada que pudesse ser falado. Por segundos fui nada, sem me sentir vazia. Estava tão cheia de vida que tudo bastava. O corpo dele terminava no meu, sem saber qual coração era o mais cansado. E então consegui dormir como há muito tempo eu não dormia.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Menino João


    Escrevi o texto abaixo no dia 9 de janeiro, não sabia se queria que fosse o primeiro do ano, mas foi. Para quem quer saber sobre minhas férias com Dora, já adianto que ela pediu para voltar uma semana antes. Como eu a amo, deixo-a livre. O avô foi buscá-la. Mas viajei no mesmo carro, com ela e Miranda juntas. Estava dormindo quando descemos, nem nos despedimos. Ela teve muita alergia e queria o pai, desesperadamente. Ribeirão Preto é seu lar, sua casa, onde está sua família. Não há porque seguir o que o juiz manda. Não iria obrigá-la a ficar onde não queria, revendo amigos que não via há 4 anos, enquanto desejava estar com os amigos de Ribeirão Preto. Sua vida é outra vida. A irmã Miranda enche sua paciência. Não há vínculos de irmãs. A alergia é forte, mas o pai não quer eu saiba nem o nome do médico. Não vou insistir com o avô que, em princípio, mostrou-se solícito e disse para juntos ajudarmos Dora a se curar, já que seu filho era irredutível. Tudo dissimulação, era só para não me contrariar, já que sou tão louca. Que 2015 seja um ano bom, com anjos em cachoeiras.




   Chegamos em Boiçucanga com céu azul, final de tarde. Não sabia onde ficaria com minhas filhas. Foram 4 anos sem férias juntas e queria um lugar legal, mas não estava querendo rodar, nem gastar muito e parei no primeiro quarto com banheiro perto da praia. Um chalé simpático, um lugar organizado, com gramado, espaço comunitário para o café da manhã. Gostei de Fran, a dona, decidi ficar lá com Dora e Miranda.
     Antes de dormir ouvi um som suave de violão. “Esse é o lugar certo”, pensei contente. Quando acordei as meninas continuavam dormindo pesado e voltei a ouvir o som de violão, saí do quarto e uma mulher me ofereceu um café sorrindo. Manhã de sol, café, vizinha simpática e um garoto lindo dedilhando com carinho uma viola, perfeito. A mãe, Shirley, toda comunicativa, contou dos acampamentos na Praia Brava na sua adolescência, da singularidade em ser rockeira numa família de negros sambistas, da dificuldade que foi convencer os pais de que, “apesar de ser mulher”, queria fazer faculdade.
    Mas eu não conseguia tirar os olhos do filho João, tão lindo, parecia o Ben Harper jovem. E logo me perguntou sobre as tatuagens de notas musicais, reconhecendo a clave de Dó e o Mi maior e passando os dedos longos sobre elas. O garoto de 14 anos era alto, jogava vôlei, já tinha feito natação, sabia ler partitura e era muito falante, de sorriso largo. Conversamos sobre música, viagens, esportes e tatuagens. Ele disse que com tanta música boa no mundo, não se conformava como tinha gente que ouvia funk. “Mas funk do ruim, não do James Brown”. “Já me disseram na igreja que rock é música do diabo, mas não acho que o diabo seria capaz de fazer algo tão lindo”, filosofou o menino. Também falou do fusca que era do seu avô e que seria seu, que já cuidava do carro. Achei lindo um garoto ter orgulho de andar no fusca do avô.
    Me deu muita esperança conhecer um jovem como João. Quando me disse que nunca tinha ido numa cachoeira logo indiquei a de Boiçu, uma das mais lindas que já conheci. Expliquei o caminho para o pai, avisei que a trilha não era fácil, mas quando se chega ao poço vale cada gota de suor. Disse também que iria lá com minhas filhas, para evitar o horário do Sol forte na praia, porque sei que crianças não ficam no mar o tempo inteiro.
   João tocou Tempo Perdido do Legião Urbana e eu contei dos shows que fui da banda. “Mãe escuta isso! Ela foi em vários shows do Legião!” E cantarolamos “ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria”. Combinamos uma cantoria na noite de Lua cheia linda que viria. Miranda acordou e João, que tinha uma irmã de 4 anos, logo puxou assunto e espantou-se com o tamanho da criança. Cheio de ternura com a irmãzinha, Sofia, disse que encontou uma amiguinha para brincar. Então Dora levantou e apresentei os dois. João abriu o sorriso lindo. Percebi que ficou feliz em ver que eu tinha uma filha adolescente tão bonita. Não senti ciúmes, confesso que viajei longe e pensei que adoraria ter João como genro.
     Então a família saiu de carro. Disseram que iriam na praia e seguiriam para a cachoeira. Respondi que iria em seguida e nos encontraríamos lá. Mas pensei que deveríamos ter seguido todos juntos, já que eles não conheciam o lugar e que seria perfeito Miranda com Sofia, Dora com João e eu com a mãe rockeira, mochileira e falante. O pai? Bem, era um tanto calado, mas é sempre bom ter um homem quando se faz uma trilha.
    Fomos eu, Dora e Miranda. Há uns 7 anos não fazia aquele caminho árduo e fiquei satisfeita com minha capacidade pulmonar e muscular. Nada doeu. Miranda aguentou firme e forte. Dora só cansou no final. A cachoeira continuava linda e selvagem. E lá ficamos por um bom tempo. Mas muitas pessoas começaram a pular das pedras e senti uma dor no peito, como se uma tragédia fosse acontecer. Contei para Dora que o irmão de um amigo meu do colegial morreu mergulhando ali e que Marcelo Rubens Paiva acidentou-se ali também. Me deu vontade de sair.
   A volta, como sempre, foi mais rápida. Só não foi em tempo recorde porque uma mulher andava devagar e com medo até nas retas. Chegou a ser engraçado. Prudência nunca é demais, mas parar o trânsito é exagero. Por algum motivo, talvez para fazer Miranda ter cautela, falamos sobre escorregar e morrer na trilha. Mas depois eu e Dora concluímos que seria um bom lugar para a alma ficar, no meio da Mata Atlântica, com barulho de água corrente constante. Quando chegamos na estradinha de terra vimos uma equipe de resgate. “Estão vendo meninas? Alguém deve ter se acidentado”.
    Depois fomos até a casa de Nicole, amiga de Dora dos tempos do maternal. Ficamos no mar calmo, límpido e refrescante de Boiçucanga. Achei fantástico ver Dora e Nicole, que tanto se adoravam aos 2 anos, continuarem cheias de afinidade e assuntos. Miranda ficou enciumada, mas em pouco tempo perguntou por que Nicole ria de tudo. “Porque sou feliz”. “Você é muito fofa”, foi a definição instantânea de Miranda para a amiga da irmã.
    Voltamos todas para o chalé para pegar umas coisas e seguir para a piscina na casa de Nicole, duas quadras de distância. Assim que entrei no quarto, Shirley me chamou. Saí sorrindo e perguntei: - Foram à cachoeira?
- Sim. E meu menino morreu.
- Como?
- Ele morreu na cachoeira.
     Então me veio à mente a imagem do resgate chegando. Era para João.
    Abracei-a forte e comecei a chorar e ela me consolou. Disse que ele gritava de alegria por ver um lugar tão lindo, que corria e seguiu numa trilha, mas não voltou. Foi encontrado pelo pai, já sem vida. Provavelmente escorregou e bateu a cabeça numa pedra. Caiu na água. Desacordado, morreu por afogamento. Fiquei sem chão. Não caiu a ficha da mãe, não é possível estar assim tão conformada. Como ela não está me odiando por ter indicado o caminho da morte? Por que eu não estava junto para guiar aquele menino por uma trilha segura? Por que alguém tão iluminado morre tão jovem?
     Pedi para Dora e Miranda irem com Nicole, iria na sequência. Fiquei ali com Shirley e sua filha, esperando o marido voltar do IML, com Fran. Logo o casal dono dos chalés chegou. Estavam desolados, o marido não se conformava por não ter ido junto com eles. “Se tivesse me falado... sempre acompanho os hóspedes na cachoeira, é muito perigoso para quem não conhece”. Eu me sentia cada vez mais culpada. A irmãzinha não sabia muito bem o que tinha acontecido, apesar de ver o irmão desfalecido na sua frente. Quando o pai voltou aos prantos sem o irmão, ela perguntou por ele. E então chorou dizendo que queria o irmão. Lembrei de Miranda querendo a irmã por anos. Sofia não terá mais o irmão...
    Fui buscar minhas filhas. Mas fiquei um bom tempo com a mãe da Nicole, Telminha, que não via há 7 anos. Jantamos lá, as meninas se divertiram muito. Dora queria dormir na casa da amiga e eu deixaria, mas hoje não. Quantas noites passei sem minha filha? Quantas vezes pensei que algo horrível poderia acontecer a ela sem minha presença?
   Dora chorou quando voltamos para o chalé, pensando no menino que não estava mais lá. Estou aqui escrevendo e olhando minhas duas filhas dormindo juntas, na mesma cama de casal. Nosso tempo é estipulado, determinado, sei que será breve nosso encontro. Mas quero estar presente em cada minuto desse tempo. Quero sentir o cheiro delas, a pele, ouvir a voz, o canto. A família seguiu há pouco para São Paulo. Meu coração foi um pedaço junto do menino anjo. Me senti o anjo da morte. Assim que bati os olhos em João senti que jamais o esqueceria. Agora tenho a certeza.

  

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Dentro e Fora D`água

   Não lembro se a conheci dentro da piscina, na borda ou no vestiário. Mas foi no Vasco da Gama, em Santos, e tínhamos 11 anos. Apesar de ser apenas um mês mais nova do que eu, parecia uma criança e eu já era toda adolescente. Era uma garota linda que parecia a Branca de Neve. Trocamos papéis de carta e depois escrevemos algumas quando mudou-se com a família para Cuiabá.
    Dois anos depois Paola Miorim retornou maior do que eu e ainda mais bonita. Voltamos a dividir a mesma piscina, depois a mesma sala de aula de nerds no colegial e também ouvíamos os mesmos discos. Dormíamos uma na casa da outra e nunca nos faltava assunto ou vontade de fazer tudo: teatro, inglês, computação, canto. Estávamos juntas no show do Camisa de Vênus, no lendário Caiçara Clube, quando foi gravado o disco ao vivo. Cansadas do treino de sábado, ficamos sentadas na escadaria, sentindo o piso tremer.
    Chamava sua mãe de "mãe Lúcia" de tanto que dormia na casa dela e recebia as mesmas broncas e carinho. Seus irmãos, Marcelo e Rodrigo, também nadadores, tornaram-se meus irmãos. Meu pai ficou muito amigo do pai dela, Paulo, também nadador, como meu pai. Dancei valsa com Marcelo no seu aniversário de 15 anos. Precisei comprar um vestido novo, pois tinha engordado 5kg em 18 dias passados nos Estados Unidos. Me senti horrorosa, mas não perderia a festa por nada, nem ninguém! Quando Paola mudou-se para Ribeirão Preto, para fazer faculdade. acabei indo também, pois não queria amargar um ano de cursinho. Mas não aguentei o calor escaldante por mais de um ano e meio e voltei.
      Sempre me impressionou a estima elevada dela. Demorei a entender que precisamos nos amar acima de tudo, que somos nossos leais companheiros até o fim e se houver algo além do fim. Logo eu que nunca me amei muito e cheguei mesmo a me odiar certas vezes, tinha uma amiga que se amava acima de todas as coisas. E tão certa sempre esteve!
      Por trilhar caminhos diferentes e ter vidas tão corridas, passamos um tempo afastadas. Mas Paola foi uma das primeiras pessoas a me ligar quando passou uma matéria no Fantástico, com a sinistra voz de Cid Moreira dizendo: "Adriana Mendes tem graves problemas mentais". Me ofereceu toda a solidariedade, dizendo não acreditar em nada daquilo, mesmo sem me ver há alguns anos.
    Quando minha filha foi levada para Ribeirão Preto não pensei duas vezes em ligar para Paola e pedir para ficar em sua casa quando precisasse. A verdade é que eu não imaginava que precisaria por longos quatro anos. Nos dois primeiros eram só lágrimas, porque nada dava certo e eu não podia ver minha filha. Se eu consegui suportar tudo isso, Paola e suas adoráveis filhas, Lívia e Giovana, merecem todos os louros. Sempre que eu voltava arrasada de fóruns e delegacias era na casa delas que eu encontrava abraços, sorrisos e leveza para seguir.

    Existem pessoas que passam por algum momento de grande tristeza e levam o sofrimento para o resto da vida. Outras vivem grandes tragédias, perdas irreparáveis e fazem disso um aprendizado, uma superação. Paola faz parte do segundo grupo. E tomei isso como lição. 
   Mesmo tendo amigos muito queridos em Ribeirão Preto custei a querer encontrá-los. Não queria que me vissem tão magra, de olhos fundos, aparência abatida e doente. Preferia que lembrassem de mim como eu era, sempre sorridente e cheia de saúde. Paola podia me ver assim destruída, porque me viu nas piores fases da adolescência, quando ficava cheia de espinhas, peitos enormes e usava roupas e cabelos que não favoreciam em nada meus ombros e braços grandes. 
    Ela já me viu chorando tudo o que eu tinha para chorar de tristeza. Quando tentou falar delicadamente com a outra parte recebeu o telefone na cara. Respirou fundo e ligou de novo. Outro telefonema na cara. Não acreditou em tanta intolerância. Fomos criadas de uma forma a tolerar e aceitar diferenças. Fomos criadas de forma muito parecida.
     Quando finalmente pude ver minha filha fora do fórum, precisei indicar um "monitor". Como pedir o favor de buscar, acompanhar e levar, a cada 15 dias, com horário rígido e pré determinado, a alguém que não seja incrivelmente generoso e comprometido? Quem aceitaria tal responsabilidade? Quem assinaria um termo no  cartório do fórum? Talvez se eu tivesse um irmão, não fizesse isso por mim.
     Todas as idas e vindas na estrada eu pensava nisso. Em toda a trajetória de amizade que levou a esse ponto e reencontro tão forte na vida. Em todas as pessoas que agreguei por conta de Paola, como Patrícia Zorzenon, Marcos Papa, Sônia Gravine, Tetéu, Zeca Ferreira. A delícia de saber que Beto Wagner, Ana Luiza Feres e João Paulo também são amigos dela, mais recentes, de outras histórias que se cruzam nesse emaranhado de laços afetivos.
      Não é uma coincidência eu estar aqui no apartamento de Paola, escrevendo do note dela (sem ela estar em casa) o que provavelmente é o último texto do ano e o primeiro texto de liberdade. Amanhã, ou logo mais, considerando que já é madrugada, pego Dora, às 14h, para seguirmos juntas pela estrada, ver os amigos que há anos ela não vê, voltar nos mesmos lugares, mergulhar no mar, dormir finalmente e novamente embaixo do mesmo teto. Sem monitores, sem psicólogos, sem advogados. Apenas com amigos que escolhemos ter. É tão simbólico estar aqui nessa sala e ter essa pessoa na minha vida por 34 anos, de forma intensa e absoluta. Uma amizade que passa de geração para geração e que se perpetuará em projetos literários que agora também temos juntas. Esse foi um ano bom. Pela primeira vez em muito tempo sinto esperança. Sei que o próximo ano será libertário. Eu só posso agradecer e oferecer meu amor eterno.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Olhando Azulejos na Piscina

   Não me falta assunto, nem ideias. Mas falta mesmo um tempo para sentar com calma e escrever. Nada de escrever só por exercício, porque isso já faço com matérias e livros reportagem. Escrever sobre o que me importa, que nem sempre pode importar aos outros, mas que se for o suficiente para inspirar uma pessoa, já é uma missão cumprida. Adoro ter missões e cumpri-las.
  Um dia tive a feliz ideia de perguntar para a querida Tico Gil, por esse tal facebook, como eu faria para dar um mergulhão na piscina do Napoleão Laureano. "Segunda, quarta e sexta, das 9h às 11h, será muito bem vinda". Fui com Miranda, que adora natação. 
   De repente olhar Tico e Paulino, irmãos inseparáveis, de corpo e alma,  na borda da piscina, dando treino para crianças de 4 a sei lá quantos anos, me encheu de emoção quase incontrolável. Há 20 anos não nos víamos e parecia que nossa última despedida aconteceu no vestiário, no dia anterior.
   Então eu nadei. E lembrei de mim aos 6 anos, na mesma piscina, com medo de colocar a cabeça dentro da água, com medo de mergulhar, engolindo água pelo nariz e chorando como uma filha única mimada. Querendo desesperadamente fazer amigos, além dos imaginários e das bonecas no meu quarto. Lembrei de como era difícil aprender a nadar, como foi glorioso o dia em que atravessei a piscina que não me dava pé. E olhei Miranda nadando tão destemida, saltando da  baliza sem medo algum, conversando com todos os meninos ao lado.
    Paulino, uma das figuras mais lendárias da escola, tornou-se professor de Miranda. A admiração dela por ele foi imediata. Ele brinca, mas tem autoridade. O equilíbrio entre o mestre e o amigo. Na hora do aquecimento fora da água sempre a lembrança de colocar um menino e uma menina intercalando o círculo. Nada de clube da Luluzinha ou Bolinha, são todos amigos, todos irmãos. Menino não é mais forte, menina não é mais chorona. Cada indivíduo é único em sua singularidade e todos são iguais no coletivo. Um resumo tosco do que representa ser nadador.
   E sempre que me dava tempo ou meu pescoço travado permitia, nadava. Mais Costas do que qualquer outro estilo, porque a  cabeça tem que ficar parada mesmo. E então olhava o céu azul. Pensei que talvez tenha me dedicado mais a esse nado, já aos 13 anos, porque percebi que poderia olhar mais do que azulejos. Uma máxima antes das provas é: "Agora sou só eu e os azulejos". Natação é um esporte muito solitário, sempre você mesmo com seus pensamentos e contando azulejos. Ao mesmo tempo é um esporte tão coletivo e cúmplice, porque só quem passa horas contando azulejo sabe o que o outro sente. Como bem definiu Paulino Neto, "é como se todos nós tivessemos compartilhado o mesmo útero de 470 mil litros de água".
   Posso dizer que voltei às raízes. Num churrasco na cada da Tico reencontrei Claudinha, Silvinha Araújo "Sorriso", Rosana e a querida mestra de matemática, Zenilde Carmo. Uma alegria ver Miranda fazendo amizade com Antônio, um garoto de 19 anos, que ela viu como um menino de 10. Também nadador, filho de Tico, E a doce Bruna, a filha mais velha. E não ficamos todos vivendo de nostalgia de como era bom "o nosso tempo". Falamos do presente, do futuro, de amor e amizade. Sim, lembramos daquele que nos ensinou a nadar, professor Roberto Silva, também nosso amigo, psicólogo e pai. Que sorte foi a nossa, que grande equipe ele formou, não só de atletas, mas de cidadãos e amigos. 
   Lembramos também que não havia essa de bullying. Eu era a Mosquitinho, Rosane Mendes a Palitinho, Paulino era Chupeta, Tico era Ticolé e nem sabe mais seu próprio nome, virou Tico e pronto. Todos tinham um apelido, como a Regina Pimentinha, que vivia brincando na rua até descobrir a piscina. 
  No último dia de aula, Miranda levou um desenho para o seu professor. Um nadador sorridente, na borda da piscina, com oclinhos, sozinho no meio do azul. Um professor verde porque ele disse que adora o Hulk. Disse também que não queria presentes de fim de ano, seu maior presente seria receber uma menção honrosa no TCC das crianças, que se olharam sem saber o que era TCC. "Pode ser desenho também, adoro desenhos". E foi esse desenho caprichado e cheio de amor que Miranda fez.
   Na hora decisiva somos só nos e os azulejos. Mas antes tem toda uma história de superação, aprendizado e incentivo. Depois tem muitos abraços, sorrisos e lágrimas. E a amizade eterna entre os que dividiram um útero gigante.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Incêndios


    Estava em Brasília, com meus amados amigos Angel Luís e Gabriela Cunha. Nossas crianças (minha filha Miranda e seus filhos Inaê e Rudá) dormiam tranquilos. Então abrimos um vinho tinto e resolvemos ver um filme. Gabriela escolhe Incêndios. Eu nunca tinha visto, nem ouvido falar. Gab afirma que vou adorar, “é um filme impactante, daqueles que precisam ser vistos duas vezes”. Gab e Angel são aquele tipo de gente que vê filmes perturbadores para dormir, justamente para afastar o sono, coisa que não lhes falta. Adoro esse tipo de gente.
   Só sei que é uma produção canadense, dirigida por Dennis Villeneuve e que foi adaptado de peça homônima. O autor libanês, Wajdi Mouawad, não achava possível sua obra ser transformada em filme. Mas Villeneuve mostrou apenas a primeira cena, que não tem palavras, só olhares e gestos, com música de Radiohead. Isso bastou para Mouawad perceber que todo o resto seria possível. Parei de saber por aí. Ao contrário de mim, Gabriela não gosta de contar as histórias, nem os finais. Melhor assim!
   Começa com tanta intolerância seguida de violência, que paro com o vinho para não doer também o estômago. Namorado refugiado assassinado na frente da moça que o ama. Bebê arrancado de mãe e levado para orfanato. Mãe desesperada atrás do filho, fruto de muito amor, tomado de seus braços na hora do parto. Crianças aprendendo a atirar, tendo como alvo outras crianças. Menino com ódio no olhar e lábios trêmulos, controlando a vontade de chorar. Radiohead arrebentando meu coração. Aliás, a trilha sonora inteira do filme é brilhante. Não exagera, nem exclui, só aumenta a dramaticidade de todos os incêndios, reais ou metafóricos.
   Uma mulher está em estado de choque e há 5 anos parou de falar. Após sua morte, um grande amigo e advogado, chama o casal de filhos gêmeos e entrega uma carta para cada. Pede para um procurar o pai. E o outro procurar o irmão. Os gêmeos olham-se confusos. O pai estava morto e não tinham conhecimento de nenhum irmão. Assim começa a busca pelo desconhecido. Desvendam toda a verdade sobre o passado de sua mãe. Prisioneira, torturada, sobrevivente. Nada disso sabiam. E a cada nova pista, algo mais estarrecedor. Sinto que o final será surpreendente. E foi...

   Volto a tomar vinho e conversamos sobre o filme. Nossas impressões sobre como a falta de amor pode transformar uma criança indefesa em um assassino cruel são as mesmas. Tudo é terrivelmente triste. Só consegui chorar deitada, esperando o sono que nunca vem, com as cenas se repetindo em minha mente, um roteiro tão bem amarrado, montagem perfeita, interpretações tão realistas. E esse tema que sempre me intrigou, sobre a razão em tanta guerra (religiosa, política, social, pessoal). Queria tanto ter um cérebro capaz de entender e de explicar.
   No dia seguinte falamos muito sobre Incêndios. E na outra semana. Também no mês seguinte. É uma película apenas para quem tem estômago e ao mesmo tempo sensibilidade de ver beleza em escombros. Mas considero um filme fundamental. E como gosto de trilogias, segue mais uma dica de um que me tirou o sono. Se é para ficar acordada, que seja por algo que realmente me afete.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Solidão dos Números Primos

  Passava da 1h30 e eu já estava deitada. Mas meus olhos se recusavam a fechar. Não gosto de ficar condenando meus pensamentos, tentar freá-los ou contê-los. Sou uma, mas estou sempre dividida. Nunca faço uma coisa de cada vez. Parece que existe um duplo, o tempo todo. 

   Tento ser prática, já que não consigo nem fechar os olhos como vou dormir? Vou fazer alguma coisa porque não adianta lutar contra a insônia ou amaldiçoá-la, ela vence e depois se vinga durante o dia inteiro. Vou fugir para dentro de um livro! Mas não deveria, já que o que preciso é escrever dois livros! Um até final de dezembro, outro com prazo curto, porém estendido. Vou escrever! Mas minha tendinite está latejando um pouco. Uma dor que me acompanha há tanto tempo, que quando diminui sinto até falta. O pescoço dói mais.
  Tento me iludir.  "Ah, vou ligar a TV, quem sabe uma comédia romântica inofensiva". Sei que nenhum filme me devolve ao sono. Dona insônia maldita venceu. Levanto, vou até a sala e vejo um filme já começado, italiano, que me prende na primeira cena.
    Duas adolescentes de 13, 14 anos falam de meninos. Uma delas, Alice, nunca beijou, a amiga lhe ensina a beijar e pergunta qual garoto ela gostaria de beijar. Alice diz que gosta do menino Mattia. Aquele que se esfaqueou na sala de aula.
   Mergulhei na história de Alice e Mattia, naquele tipo de roteiro que vai e volta, decifrando traumas, comungando com os desajustes dos personagens. Torço por aquele beijo que Alice tanto espera. Não sei nada sobre o filme, no que vai dar, nem a sinopse, só reconheço a atriz, que admirei no também italiano, A Bela Adormecida. 
    Penso que está acabando, mas acontece um salto no tempo e surge Alice, visivelmente atormentada e assustadoramente doente. Estremeço. Me abalo com a cena e a interpretação. Agora tenho necessidade de saber tudo sobre essa atriz que tanto me impressionou. Nem sei seu nome.
   Sigo sentindo uma mistura de náusea e angústia. Além da expectativa romântica em saber se Mattia, agora um físico genial que mora na Alemanha, irá salvá-la. Ela sabe que está se matando e pede socorro a quem esteve ao seu lado por toda vida, sem nunca tocá-la. Eu choro. Como pode tanta crueldade consigo mesma e ternura com o outro?
      Parece ser a cena final. Abraço, por favor, aconteça! Beijem-se, nem que seja por necessidade! De repente, o sinal some. Como assim não vou saber como essa história termina? O sinal volta. Nem letreiros mais estão passando. Como assim não vou saber nem o nome do filme?
     

      Passava das 3h e eu precisava saber algumas coisas antes de dormir. A pista era que Alice foi construída pela mesma atriz que incorporou Maria, de A Bela Adormecida. Descubro outros vários filmes da brilhante Alba Rohrwacher, que só em 2010, atuou em quatro. Começo a ler sobre todos eles, num site italiano. E lá estava A Solidão dos Números Primos (2010, dirigido por Saverio Costanzo), adaptação do romance La Solitudine Dei Numeri Primi, de Paolo Giordano. Pronto, agora tenho mais um livro para ler. Quero muito ler esse livro. Como eu não sabia de nada disso?
   Tento não pensar em toda a singularidade de Alice e Mattia, enquanto indivíduos. Mas em todas as similaridades, enquanto casal.
     Passa das 6h e agora só o que eu preciso é dormir. Fecho os olhos e durmo pensando no romance, no amor que não se basta. Logo tenho que acordar.

      Um pouco disso tudo http://youtu.be/uwdfCce8Yfk
     

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ela Só Queria Abraçar Seu Filho


    Recebi o e-mail de uma mãe que perdeu a guarda do filho. Outra Dri. Como eu, como a Adriana Botelho. Li com dois dias de atraso e escrevi imediatamente. Essa Dri estava desesperada, disse estar trancada no quarto com uma faca, querendo se matar, que não suportava mais tanta humilhação e essa dor que a rasgava por dentro. Me escreveu porque leu esse blog e sabia que eu conhecia essa dor. Também sei que quando alguém quer se matar primeiro pede socorro. Sei que é uma forma de chamar a atenção para o seu sofrimento. E que existem algumas tentativas, antes de atingir esse objetivo, o suicídio. Tentei consolá-la e lhe dizer que não está sozinha, que não é a única a passar por isso e que todas as mães que perdem seus filhos para a Justiça, em algum momento, já pensaram em acabar com a própria vida.
    Não é fácil enfrentar a burocracia do judiciário, que nos trata como números. Não é fácil passar por esse processo de desumanização. Muitas vezes me pego repetindo chavões em “juridiquês” e tratando casos escabrosos com certa frieza. Mas quando aparece uma mãe dilacerada por ser brutalmente afastada do seu filho, volto a ser humana. Sinto a mesma dor e uma vontade enorme de abraçar e chorar junto. Sei o quanto é castrador ter a vida nas mãos de advogados, promotores e juízes. Muitos deles que nunca nos viram e tão pouco viram o rosto de nosso filhos. Pessoas tão entranhadas em papéis e números que acham normal o afastamento. “É assim mesmo que funciona a Justiça, tem muito processo para ler”. E quando o reencontro acontece, geralmente após anos, escutamos que “é normal esse estranhamento, com o tempo o vínculo volta”. Não, nada disso é normal e alguma coisa precisa ser feita urgentemente para mudar esse sistema torpe. Não suporto mais ver tantas vidas destruídas, tantas crianças órfãs de mães vivas.
    Essa Dri me respondeu pouco tempo depois. Foi um alívio imenso saber que não tinha se matado. Até o seu jeito de escrever mudou. Talvez por saber que alguém entende o que ela passa. Escrevi que não somos só nós. Falei de todas as mães que conheço, algumas que vivem por conta de antidepressivos, que também não viram seus filhos crescendo. Mais triste ainda foi saber que ela só tem esse filho de 11 anos e que não pode mais ter filhos. Me disse que tudo que queria era ter outro filho, como eu tenho. Isso me tocou tanto, que agora são 4h30 e não consigo dormir. Mas vou toda hora no quarto ver Miranda dormindo. Estou aqui prometendo a mim mesma ter mais paciência, ser mais tolerante e mais amorosa. O processo tem me tirado essas virtudes. Tudo bem que paciência nunca tive muita mesmo. Mas amor e tolerância nunca me faltaram, até me excederam.
    O pai do seu filho também pegou a guarda e levou para longe, para dificultar a visita, ganhar tempo no processo, afastar de todas as formas mãe e filho. E a Justiça, como sempre, ajuda os mais calculistas, com mais dinheiro e advogados de mau caráter. Sim, só pode ser um mau caráter o advogado que, para defender os interesses de seu cliente, não pensa no bem da criança. É cada coisa que essas pessoas fazem por dinheiro... talvez eu nunca entenda o interesse financeiro. Até no trabalho o meu maior interesse é o prazer no que estou fazendo, é a novidade. Mas o sistema judiciário já me fez pensar que a coisa mais importante do mundo é o dinheiro, não o amor. Ele, o dinheiro, é capaz de tudo, inclusive de tirar ou devolver a guarda de um filho. Alguém duvida que esses pais que tiraram os filhos das mães são mais abastados? Não. Porém tenho todas as dúvidas se eles sabem o que é amor.
   Talvez eu não tenha falado para essa Dri sobre nossa outra xará Dri Botelho. Em dezembro completará três anos que não vê a filha. O pai português a levou para Portugal. Pior de tudo é pensar que tenho sorte, já que minha filha está no mesmo Estado de São Paulo. São só seis horas de viagem. Em breve não será tempo nenhum, pois já desisti de trazê-la de volta. Já que ela não volta, eu vou. Poucos sabem como é duro deixar uma vida na praia e mudar para o interior, para um clima de deserto. Mas depois de quase quatro anos me dei por vencida. Nunca fui tão persistente. Sempre que algo me parecia muito difícil, tentava algo diferente. Mudava o rumo, partia para outra, desistia. Mas como desistir de um filho? Quantas vezes todas essas mães pensaram em desistir enquanto as lágrimas corriam pelo rosto?
    Dri, espero que você leia o que estou escrevendo e saiba que não podemos morrer em vão. Não tenho religião, não acredito na existência de deus, não acredito na Justiça (muito menos na do Brasil) e muitas vezes desacredito na humanidade. Me sinto uma excluída, que não tem direito à própria filha. Mas por algum motivo que ainda não entendi (e talvez nunca entenda) minha vida virou isso. Me transformei numa pessoa mais dura e menos sentimental. Esse sofrimento imposto não vai me tornar um ser humano melhor. Sinto o tempo todo que estou perdendo a vida. Sei que poderia ser muito mais produtiva. Poderia estar me cuidando mais, nadando, viajando para lugares novos, fazendo planos de férias, poderia namorar mais, me divertir mais. Mas nem consigo dormir direito. Nem planejar nada. Deixei o processo me guiar. Nunca mais serei como era. E tenho que amar quem sou agora. Mesmo não gostando do que vejo. Por algum motivo desconhecido nós temos que passar por isso. Pode ser para que nossos filhos saibam que lutamos por eles. Que eles não são os únicos que ficaram sem mãe por ordem judicial. Pode ser que juntas nós processemos o Estado, afinal ele colabora para que um processo de guarda, ou de simples regularização de visitas, que é o meu caso, se arraste por anos, até a infância acabar.
    Hoje seria o aniversário de uma grande amiga minha, que se foi tão nova, deixando quatro filhos lindos. Talvez por isso eu também não consiga dormir. Pela saudade e a falta que ela me faz. Só encontro minha amiga em sonhos. Ela não volta mais para os seus filhos. Mas nós estamos aqui. Nossos filhos ainda podem ter a esperança de abraçar novamente suas mães.

    Por algum motivo lembrei da Zuzu Angel. Nossos filhos estão vivos e poderemos abraçá-los de novo. Para quem tem saudade da ditadura, por favor, pensem em todas as mães que não puderam nem enterrar seus filhos.