quinta-feira, 22 de novembro de 2012

As Figuras Ilustres do Bronx

    Chegou uma hora em que decidi morar em São Paulo. Era lá que tudo acontecia e queria consolidar uma carreira, que mal tinha começado. Fui morar com Lúcia Rabelo Lemos, publicitária, amiga de uma amiga, num apartamento carinhosamente batizado de Bronx. Ficava na rua Eça de Queiroz, perto do metrô Paraíso. Nome de escritor célebre, bem localizado, um quarto só para mim, fui para lá animada. Lúcia era a primeira mulher e não santista a morar no local. Quando soube que eu era de Santos disse que voltaria a ter "panelinha". Quis saber como ela, que era de Bauru, foi parar lá. Foi por conta do então namorado Marco Bola, também publicitário, um agregador de pessoas, um cara sempre lembrado porque sempre lembra de todo mundo.
    O prédio era antigo/velho, o interfone não funcionava, então quem chegava tinha de ligar do orelhão da esquina, não havia elevador e não batia sol nos cômodos. Quando meu querido pai foi me ajudar na mudança ficou deprimido, por me ver num lugar assim, tão decadente. Mas eu o tranquilizei, pois era o que meu salário poderia pagar e eu ficava o dia todo trabalhando, era mesmo para tomar banho e dormir. Mas o Bronx era muito mais que uma simples pousada, em sua decrepitude habitava também seu maior charme. Na parede do meu quarto estavam alguns homens aranhas grafitados. Lúcia disse que eu  poderia pintar, mas apesar de remeter ao universo masculino, gostei de ter esse super herói (o meu preferido) nas paredes. Pintei o resto da casa e para me ajudar estavam os amigos Alexandre Strâmbio, músico e publicitário, filho único como eu, e Yeis, o melhor dançarino rockabilly visto em toda minha conturbada vida: topete engomado, óculos anos 50, calças apertadas, era meio parecido com Nicolas Cage. Generoso, Yeis me ensinou muitos passos e me trouxe a alegria dos Stray Cats e Violent Femmes, além de Kães Vadius. Esses dois figuras moravam no ABC Paulista e eram meus amigos da Metodista, onde fiz faculdade.
   Uma tradição no Bronx era fazer um evento para apresentar os antigos aos novos moradores e assim marcamos uma "festinha" no meu aniversário de 24 anos. Fui receber o primeiro convidado. Com inevitável espanto abri a porta para Alexandre Cid Pedroso, que havia nadado no Vasco da Gama, de Santos, meu clube do coração. Claro que ele não lembrava de mim, porque eu havia mudado muito nos últimos 12 anos, mas ele estava igual, aliás, mais bonito. E era ele o autor da arte nas paredes do meu quarto! Depois chegaram Daltão (Dalton Vigh) e Daltinho (Dalton Flemming). Dois amigos, ex-moradores e também frequentadores do Bronx, um com 2 metros de altura, outro nem tanto, daí os apelidos para saber quem era quem. Além dos nomes, os dois tinham em comum o bom humor, sorriso largo e simpatia estampados no rosto. Cada um que chegava, me deixava mais "embasbacada" em como um lugar como aquele conseguia concentrar tanta gente interessante por metro quadrado. A maioria dos ex-moradores do Bronx era ligada ao mundo da publicidade e das artes, eu era a primeira jornalista do pedaço.
    Também foram chegando meus amigos, muitos músicos e jornalistas. Acabei perdendo alguns convidados e quando entrei no quarto da Lúcia, vi um cara de óculos com aros pretos, jaqueta de couro, cara de poucos amigos, meio nerd, meio artista, baixo, magro. Era André Gomes, por quem senti uma atração imediata. Percebi que não estava para conversa, mas como era o meu aniversário, fiz ele falar um pouco. Artista plástico, editor de arte da revista Terra, rock, puro charme. Histórias tristes de amor e desilusão. Ok, era por esse que eu ficaria apaixonada...
    Minha vida nesse período foi muito rica em cultura pop e bons amigos. Bola tinha o livro do Bronx, de capa dura e preta, que ficava na sala para quando alguém tivesse inspiração pudesse escrever ou desenhar. Quando eu chegava cansada e estressada da Folha da Tarde, após mais de 12 horas de trabalho no caderno de Cidades, cobrindo acidentes, tráfico de drogas, massacres e chacinas, era no Livro do Bronx que eu extravasava minha veia poética e romântica. Devo ter escrito uns 2 volumes!
    Estávamos nos anos 90 e como todo jovem rock eu adorava Nirvana e Pearl Jam. Com Marco Bola aprendi amar Chico Science e todo o movimento mangue beat. Não consigo lembrar quantos shows eu fui nesta época, certamente uns dois por semana, dos grandes aos pequenos. Outro frequentador assíduo era o Tiko (Antonio Carlos Rocha), meu companheiro de muitos desses incontáveis shows. Divertido, cênico, inteligente, perspicaz, beberrão e de apuradíssimo gosto musical. Tiko era filho do Mussum, meu trapalhão preferido. E quando Mussum ficou doente e internado, Tiko ia do hospital direto para o Bronx, dormia lá quase sempre, me passava o boletim médico diário e eu sofria junto com ele. No dia da morte do Mussum me mandaram fazer a matéria. Não quis ir, sabia que iria ver o Tiko e deixaria de ser jornalista para ser apenas amiga. Pedi que enviassem outro repórter. Carla Conte foi a escolhida para a missão. Voltou com os olhos inchados de tanto chorar e me disse: "Dri, todos os jornalistas presentes se emocionaram como se o Mussum fosse um parente querido". Na verdade era.
   A Copa de 94 foi inteiramente assistida no Bronx, com todas essas pessoas reunidas, torcendo, se contorcendo e chorando juntas. A atriz Einat Fabel, do Grupo Tapa, na época namorada do Daltão, também ia nos jogos e festas. Lembro dela chorando na final e nem gostava tanto assim de futebol. Uma figura muito talentosa, expressiva, cheia de caras e bocas. Quando o Brasil venceu por pênaltis, de forma sofrida, foi a deixa para roubar um beijo do tal André, um tímido. Mas só fui me apaixonar de verdade quando vi seus lindos quadros. O apartamento dele era só de telas e tintas.

    Saí do Bronx porque me chamaram para trabalhar na TV Tribuna, de Santos. Mas coloquei Célia Payão, outra publicitária, para me representar. Lucia e Célia imediatamente ficaram amigas. Adoro apresentar meus amigos e torná-los amigos também. Célia tocava gaita e violão. Também cantava e encantava com seus olhos esverdeados, pele marrom e sorriso largo. Tingiu as paredes do Bronx de azul, branco e amarelo, mas manteve o homem aranha, porque já era patrimônio da casa.
    Como o filho pródigo, voltei em 1996, quando saí da TV e comecei no caderno de Cultura do Diário do Grande ABC - um post a parte - e Célia saiu para outros projetos. Na mesma época, Juliana Figueiredo, minha amiga de infância e natação, queria sair da república que dividia com as colegas da faculdade. Por isso a chamei para dividir o quarto comigo. Uma engenheira no meio desse bando de artistas e boêmios? Daria certo? Seria um peixe fora d'água? Não, porque Juliana até conhecia o Ale Cid Pedroso das piscinas. E mesmo dormindo e acordando cedo, sem beber, sem fumar, sem ser baladeira, é uma pessoa sem preconceito e de fácil convivência. Afinal, para quem passou a infância e adolescência em alojamentos ou ficando em casa de atletas de outras cidades, dividir o quarto com a amiga de sempre, é moleza. Foi muito bom tê-la no Bronx.
    Após um período  meio turbulento, mudei de lá. Não lembro quem foi o último a sair e apagar a luz. É o que menos importa, temos fotos, o Livro, que tenho certeza estar bem guardado com Bola, um colecionador perfeccionista. Também tenho todas as lembranças. Essas pessoas? Continuaram dando seus vôos, em grupo ou solo. Muitas encontrei em novos caminhos, algumas vejo na TV ou nos palcos,  outras continuam minhas amigas para sempre. Todos, sem exceção, são ilustres. Quem passou por lá, jamais esquecerá, assim como nunca esqueci.
  

O Tempo Todo Amor

    Chega um momento na vida que você pensa que já deve ter passado da metade dela. Estou neste momento, pode ser até que eu já tenha vivido mais de 80% do que me resta, não importa. O que penso é que por mais erros que possa ter cometido, por decisões precipitadas que me fizeram escolher o pior e mais doloroso caminho, me arrependo de muito pouco. É puro clichê, mas me dói mais as palavras que não disse, os abraços e beijos que não dei do que todas as porradas (metaforicamente falando) que tomei. E olha que sou uma beijoqueira, abraçadeira e faladeira incorrigível. Mesmo assim penso nas pessoas que amei e que podem não ter mensurado o tamanho do meu amor.
    Desde que Dora nasceu, em todos os dias que esteve comigo, ouviu inúmeras vezes "eu te amo". Há 649 dias ela não ouve mais minha voz, mas espero que meu amor esteja nela, assim como todos os abraços e beijos e palavras de carinho e coragem que sempre lhe dei. Sim, eu conto os dias, como o pessoal dos Narcóticos Anônimos, dos Alcóolatras Anônimos. Penso que eu vou viver sem Dora, só por hoje.
    Antes de dormir a última coisa que Miranda escuta é "te amo". Declarar o amor nunca é demais. A criança sente o amor, mas ouvir que a mãe a ama mais que tudo lhe dará sempre mais confiança. Miranda me retribui com um abraço e sua cara de sapeca: "Mamãe, eu te amo tanto!"
     Mesmo tendo feito tudo com tanto amor, parece que nada deu certo. Na gestação de Dora fiz repouso absoluto, ouvia Mozart, lia muitos livros, via muitos filmes, me alimentava só de orgânicos. Criei Dora com tanto amor, lhe ensinei tantas coisas, tantos valores, recebia seus amiguinhos em casa, ficava amiga dos pais de seus amigos. Espero que Dora nunca se esqueça disso, abdiquei muito por ela e foi porque eu quis, porque a infância passa rápido e queria torná-la um adulto que fizesse diferença no mundo. Nada deu certo. Agora tenho outra filha e não consigo fazer com Miranda o mesmo que fiz com Dora, porque vivo sob tensão e tortura, porque estou sempre angustiada e aflita, porque choro todas as noites e às vezes, todos os dias.
    E resolvi escrever um pouco mais sobre amor porque apesar da raiva, desse sentimento constante de que estou perdendo a vida num processo inútil, em que todos perdem, apenas alguns advogados ganham, o que sinto mesmo, o tempo todo é amor. E também porque ontem, antes de dormir, fui dar uma checada em emails e atualizações do facebook. Daí vi um vídeo engraçado, postado por Nathalia Melati, uma jovem, bela e inteligente jornalista, de umas fãs da saga Crepúsculo. Na sequência comentários hilariantes sobre amor puro e verdadeiro, de Ataualpa Pereira, um jovem, belo e criativo publicitário, que não por acaso é namorado de Nathalia. E também de Fabio Machado, que nem conheço, mas é amigo dos meus amigos, portanto, deve ser da mesma falange. Sempre dizendo que o amor vence no final, que nada é mais lindo do que o amor puro e verdadeiro. Uma brincadeira cheia de verdade.
    Como acordo sempre 6h20 e dificilmente durmo antes da meia-noite, o bom senso me dizia para desligar o computador e deitar. Mas uma playlist musical de amor foi iniciada justamente com Love Will Tears Us Apart, do Joy Division, quem me conhece só um pouquinho sabe do meu fascínio por essa banda. Daí teve Love Hurts em duas versões, Cure, Smiths, Brian Adams, Ryan Adams, The Bangles, Blondie, Ramones, Led Zepellin e eu pensei tanto no amor antes de dormir que sonhei com Dora a noite inteira. Como sempre ela estava enorme, maior do que eu. Dizia que não queria morar comigo, nem com o pai, queria ir para a casa da bisavó Josefa. Até onde sei nunca teve uma bisavó com esse nome. Nem apelando para a melhor amiga Raquel (ao menos era a melhor amiga até 649 dias atrás) consegui convencer Dora a voltar comigo, ela se despedia chorando, dizendo que não podia ficar ...
    Acordei antes da hora, angustiada e triste, mas ainda com muito amor. Miranda dormia ao meu lado, como um anjo. Ela é tão parecida com Dora fisicamente, as mesmas bochechas gordas, o mesmo amor. Não adianta, por mais que eu disfarce com minha ironia fina, com tiradas sarcásticas, por mais que sinta raiva, desespero, por maior que seja meu pragmatismo, o que mais sinto o tempo todo é amor.
   
    
   

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Insanidade Mental

    Desde setembro do ano passado tem perícia psicológica e social prontas, ambas dizendo que posso visitar minha filha, que posso trazê-la para minha casa, para visitas em Santos, para Dora poder lembrar da vida que teve, até ser levada pelo pai e nunca mais ver ninguém. Mas essas perícias nunca foram lidas por juiz nenhum de Ribeirão Preto (já passaram 4 pelo processo). Daí fico sabendo que tem uma precatória em Santos, desde agosto, para que eu faça uma perícia psiquiátrica por insanidade mental! Sou uma pessoa muito sensata e quero que tudo aconteça realmente o mais rápido possível, afinal minha filha Dora está perdendo a infância neste processo, não acompanha o crescimento da irmã Miranda e minha vida está sendo ceifada há quase 8 anos. Por isso fui até o fórum de Santos saber mais sobre esta história.
    Ao chegar no andar da equipe técnica, me apresentei e falei sobre o processo. "Ah, sim, daquele ator da Globo?". Nossa, não é que Jonas Golfeto já virou até ator da Globo com essa história macabra? Informei que a única coisa que a Rede Globo tem a ver com o processo é a falta de ética da equipe do Profissão Repórter, liderada pelo parcial Caco Barcelos, em ir filmar a busca e apreensão de uma criança, a pedido do próprio pai, que nunca se importou com a exploração da imagem da filha. Fiquei um pouco indignada e ainda disse que se alguém nesse processo trabalhou na "vênus platinada" fui eu, como repórter da TV Tribuna, filiada da Globo na Baixada Santista.
     As mulheres deram risada e me informaram que esta perícia ficaria para o ano que vem, por conta dos feriados, recesso e férias forenses. Ah, como se eu não soubesse o andar lento, quase em macha a ré do sistema judiciário brasileiro. Fiquei muito nervosa, chorei, me trouxeram água, solidarizaram-se com minha dor e angústia e acharam extremamente irônico que alguém "acusada" de insanidade mental fosse pessoalmente ao fórum para ser periciada. Mais perplexas ainda ficaram quando contei que minha filha Dora está há quase 2 anos morando na casa dos avós, José Hércules Golfeto e Ed Melo Golfeto, psiquiatra infantil e psicóloga, respectivamente. Irônico e cruel, porque se em algum momento fui insana, essas pessoas, como profissionais da saúde mental, deveriam  entender a dor de uma mãe separada sistematicamente da filha, deveriam entender que seu filho age pura e simplesmente por vingança. Quando contei que essa vingança começou do nada, em 2005, quando ele inventou que eu fugiria para o Chile e tomou a guarda e eu me obriguei a ver Dora em visitário público, a perplexidade foi geral. Contei também que na perícia feita em 2005 por Sidney Shine, considerado o melhor perito forense do País*, está escrito que Dora chora, grita e pede para ficar comigo todas as vezes que é arrancada de mim por policiais militares, "mas o que Jonas vê é Adriana segurando Dora e não deixando ela ir". É tão clara a visão distorcida que esse indivíduo tem da realidade. Pior é a família profissional da saúde mental apoiar tudo isso. Mas imagino como deve doer saber que foram um fracasso com o próprio primogênito. Mas eles não imaginam como dói em mim saber que minha filha está sendo criada pelos criadores da criatura...
    Enfim, não sei o que acontece em Ribeirão Preto, porque nada anda naquele processo e é óbvio e cristalino o tanto que o guardião legal de Dora faz para não me deixar vê-la. Vingança de que? Quando isso começou eu não tinha feito nada! Será que não querer me relacionar mais com ele foi o estopim da insanidade? Vai ver é isso, Jonas e seus pais pensam que sou insana por preferir ficar sozinha com minha filha de 9 meses, do que suportar e sustentar um cara arrogante e folgado.
    Bem que essa família tenta e como tenta me deixar insana. E claro que em alguns momentos fico transtornada mesmo, quero gritar, chorar, mostrar minha indignação para juízes, promotores, amigos, imprensa... mas nada adianta, nada! Dora está guardada na casa desta família e não tenho acesso. Nem eu, nem ninguém que ela conheceu. Isso é insano! O que a Justiça faz com Dora é a maior insanidade. Porque é impossível achar que ficar sem mãe por 2 anos é normal. Me mataram para Dora. Deixaram minha filha órfã de mãe viva! Esses avós não são insanos em corroborar com essa situação para lá de anormal? Será que esses senhores perderam a razão? Será que são portadores de Mal de Alzheimer e ainda não se deram conta? O que será que eles ensinaram para seus alunos na USP e Unaerp de Ribeirão Preto? Tenho medo de saber. Talvez técnicas de tortura psicológica... pura elucubração minha, antes que me processem por isso também.
    Mas se eu sou tão insana, como consigo criar Miranda sozinha? Sem pai,  sem babá, sem tias? E Jonas? Quando pegou Dora pela primeira vez partiu para a casa da então namorada, Luciana Viacava, que fazia as vezes de mãe junto com a babá. E agora levou para a casa dos avós... é claro que ele não consegue cuidar de Dora sozinho, nem dele mesmo consegue cuidar. Tem tanta certeza disto que nem tentou ficar com ela em São Paulo.
    Mas a insana aqui continua na luta, na labuta. Porque Dora um dia, se não acontecer nenhuma tragédia, irá completar 18 anos. Neste dia irá para onde quiser e com quem quiser. Acho até que irá morar sozinha, pois estará farta desta loucura toda. Mas continuo aqui e esses senhores que fazem as vezes de pais de Dora, perceberão que passaram os últimos anos de suas pobres vidas alienando a própria neta, impedindo-a de ver a irmã e a mãe. Quem é o louco afinal?
   
* Sidney Shine escreveu 19 páginas em sua perícia, realizada em 5 meses, num total de 8 entrevistas. O resultado foi totalmente favorável a minha pessoa, mas a advogada Martha Macruz de Sá, usando brechas da Justiça, contestou, dizendo que eu tive depressão, um problema psiquiátrico, daí tive de começar tudo de novo. Shine me disse, na época, que nunca tinha escrito tão positivamente sobre alguém em toda sua carreira forense. Qualquer dia publico aqui partes de seus escritos. Numa das frases me mostra uma Adriana que eu não conhecia, fiquei tão lisonjeada que pedi para usar quando escrevesse um livro. Ele concordou e me encorajou a escrever, dizia que eu tinha o dom de falar e escrever de forma exata e isto está muito perto de acontecer, porque este blog está para se transformar em livro, recheado de fotos, fatos e declarações que comprovarão que É Tudo Verdade Mesmo.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Dora é Só Mais um Número

    Não acredito em macumba, mas certa vez, há uns 7 anos, o guardião legal da minha filha, Jonas Golfeto, ligou para minha mãe e disse que iria fazer uma macumba para que ela tivesse uma morte horrível! Até a advogada dele, Marta Macruz de Sá, ligou para minha mãe dizendo que Jonas estava nervoso e falou da boca para fora. Não dei a mínima, assim como não acredito em deus, também não acredito no diabo. A verdade é que minha mãe está bem viva e com saúde e quem morreu de morte horrível foi meu pai.
   De uns tempos para cá comecei a pensar que o tal dia 21 de dezembro de 2012, que segundo a profecia Maia seria o fim do mundo, deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma esperança. Não vejo nem túnel, quanto mais a luz. A única certeza é que tenho uma filha que preciso cuidar sozinha e outra que não precisa de mim para mais nada. Que tenho alguém para dar "boa noite filhinha, te amo". Continuo tendo filha. Mas Dora não tem mais mãe. Nunca mais chamou ninguém de mãe, talvez em seus sonhos ou pensamentos. O sistema judicário é o maior colaborador desta crueldade. Para os juízes e promotores do caso, Dora não passa de um número. É tratada como objeto e eu tenho que me resignar com a morosidade da Justiça, porque é assim e assim sempre será. É um fato como nascer, viver e morrer.
   Desde junho o atual juiz setenciou que as visitas monitoradas por psicóloga escolhida pela outra parte aconteçam "o quanto antes". Não aconteceram. A outra parte, aqui chamado de Jonas Golfeto, cada hora inventa uma história (aliás, ele é perito em inventar histórias). Ele pode tudo, tem poder absoluto sobre a filha, eu não sou nada, talvez seja apenas mais um número, mais uma mãe que é proibida de ver a filha. Tem alguns grupos online de pais e mães que não podem ver os filhos ou então vivem o tormento de ver de 15 em 15 dias crianças robotizadas. Dia desses saí de um deles, além de ser da ong Pais Por Justiça, em que um tal Nilson Falcão se achou no direito, em seu site, de me julgar, fiquei deprimida. O que acontece é que mesmo quando a criança pode optar com quem ficar, acaba optando pelo alienador. A Justiça colabora com os alienadores, lhes dá tempo de manipular, de encher a cabeça das crianças de medo, de aterrorizar! E Dora está sendo aterrorizada não só pelo pai, mas pelos avós, José Hércules Golfeto, um psiquiatra infantil, doutor em tratar de crianças (!), a avó psicóloga (Ed Melo Golfeto) e também tem a tia Raquel Golfeto, outra psicóloga. Dora está numa família de profissionais da saúde mental, todos colaboram com essa bárbarie. Queria muito que isso tudo fosse divulgado, assim os pacientes saberiam com que profissionais estão mexendo. Quem sabe assim eles teriam menos pacientes e daí menos dinheiro para pagar os advogados de Jonas, porque Jonas não trabalha e quem paga tudo são os pais dele. Pagam todos os gastos da Dora e todos os gastos dos advogados. São alienadores profissionais! O que os juízes fazem? Nada, é só mais um processo, um número. O salário gordo deles estará lá todos os meses, não importa quantas audiências façam ou deixem de fazer. Quantas páginas leiam ou deixem de ler. Dora é só mais um número.
    A outra parte me mandou um email no dia 31 de agosto, passando o telefone de uma nova psicóloga para a tal visita monitorada, já que Edna Costa, escolhida em agosto do ano passado, desistiu, pois  me achou muito agressiva! Nossa, que psicóloga é essa? Não seria a missão destes profissionais tratar de pessoas com transtornos? Afinal sou uma transtornada, que mãe não ficaria, no mínimo, com muita raiva por passar por tudo isso há tantos anos? Acho até que ando calma demais...
   Como Edna Costa desistiu, com a rapidez de uma tartaruga, a outra parte conseguiu outra psicóloga, demorou só 6 meses. Curioso que a família toda é desta categoria, curioso que eles podem escolher quem quiser: colegas, ex-alunos, enfim, poder absoluto para a família da outra parte. A nova psicóloga Fabíola Januário, está disposta, mas não pode ser por 3 horas, é tempo demais, só 1h30 e durante a semana. Claro, a pessoa aqui pode fazer um bate e volta para Ribeirão Preto no meio da semana, é tão fácil. Faço qualquer coisa para poder ver minha filha.
    Daí na semana retrasada o guardião legal mandou outro email, dizendo que estaria em contato com a tal psicóloga na semana seguinte, para então agendar as datas para as visitas monitoradas. Até agora, nada. Terá feriado super prolongado, depois recesso, depois férias forenses, quem sabe em 2014 eu consiga falar com Dora...  o juiz? Deixa correr solto, afinal, Dora é só mais um número.São tantos litígios, qual o problema da filha ficar 2 anos sem mãe, se tudo acontece dentro da Lei? Não sinto mais indignação, estou resignada com a situação, me acostumei com isso.
    Finalmente consegui mexer nos armários de Dora e doar suas roupas e sapatos, que não lhe servem mais.Os alinadores fizeram tudo direitinho, Dora não tem nada de material que lhe faça lembrar a vida que teve um dia, nem fotos, nem livros, nem roupas, nem brinquedos. Guardei as bonecas para a Miranda, mas essa minha filha fofa não é chegada em barbies, prefere bichinhos de pelúcia e bebês, que cuida com tanto carinho que acabo cobrindo na hora de dormir, como se fossem bebês de verdade. Para Miranda são de verdade e se ela acredita, quem sou eu para dizer o contrário.
    Miranda é muito inocente e pequena, ainda acredita em muitas coisas. Dia desses olhou para o céu, juntou suas mães como numa oração e pediu: "Papai do céu, traz a Dorinha pra mim que ela é do meu coração". Ela tem feito isso com muita frequência e também pediu para o papai noel trazer a Dora de presente para ela. Não serei eu a dizer-lhe que papai noel e deus não existem. Com tudo isso acho que ela logo descobrirá por si mesma. Não adianta pedir nada para deus. O papai noel ainda estará em alguns shoppings centers, acabará acreditando nele por mais alguns anos.. já deus...
     Sigo com meus processos, já são sete. E preciso desabafar: quando Dora foi  levada embora quis voltar para o meu apartamento no Guarujá, que é meu! Mas a primeira advogada, Marília Teles, a mesma que me convenceu a pagar os honorários do advogado da outra parte, também me convenceu a ficar nesta casa cara, de 3 quartos (só eu e Miranda) até o vencimento do contrato, porque o juiz veria que sou estável. Ora, já estamos no quarto juiz e nunca nenhum viu nada, nem audiência teve. A advogada Marília? Devo ainda 10 mil reais para ela, que escreveu uma ação que não deu em nada e nunca participou de nenhuma audiência e assim que descobriu que Dora estava morando em Ribeirão Preto, saiu do caso, pois seria inviável a distância. Também porque viu que eu não teria tanto dinheiro para pagar tudo isso.
     Agora tenho outro problema, o contrato vence em dezembro... onde vou  morar? Não sei, minha inquilina não quer sair, disse que só sai no final do ano que vem, mesmo o contrato tendo vencido no ano passado. As Leis protegem os inquilinos. Eu terei que entrar com uma ação de despejo! Para onde vou agora? Posso ir para qualquer lugar. Tenho o mundo inteiro para escolher. Tenho dois meses de férias para curtir com Miranda, já que, obviamente, não verei Dora até março. Mas posso escolher morar em Ribeirão Preto e ver Dora de longe na escola e no balé, ficar na esquina da casa dos avós dela. Para a Justiça Dora é só mais um número. Para mim é uma filha e por mais que o pai dela tente me destituir do poder familiar, será sempre minha filha e eu serei sempre sua mãe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Um Sobrevivente do Holocausto

   Meu amigo Marcelo Santos me convidou para ir com ele entregar um vinho que trouxe de sua última viagem à França para o dono de uma pousada na Bertioga, uma das cidades da Baixada Santista. Era um mimo do nosso casal de amigos Maria e Christopher Salmon. Amizade que nasceu por conta de um encontro entre Dora e a filha deles, Nêmora, na praia. Amizade tão forte e sincera que se alastrou por uma rede de amigos. Fui, porque estar com Marcelo é sempre ótimo, ele é divertido, inteligente e meu amigo há 31 anos, ou seja, não preciso explicar mais nada, um sorriso e já dá para entender tudo.
   Ao chegar avistamos uma mesa, com 7 pessoas. Jacques, o dono da pousada e também francês, logo reconheceu Marcelo, que já foi dizendo que o vinho era ainda mais envelhecido, já que estava com ele há quase um ano. Nos juntamos ao grupo de franceses e um árabe, responsável pelos deliciosos camarões do jantar. Sentei ao lado de Jacques, em frente sua esposa Rebecca e sua irmã, Marie. Mulheres já na "melhor idade", lindas, inteligentes, cheias de experiências para serem compartilhadas. O que seria uma passagem rápida tornou-se horas de conversas sobre países, políticas, viagens, gostos, fonéticas, linguisticas. Como adoro tudo isso!
   Então Rebecca falou que morava no Bom Retiro. Disse que já havia trabalhado por lá, na Editora Pini. Na época o bairro tradicionalmente judeu estava tomado pelos coreanos, pois a maioria da comunidade judaica paulistana mudara-se para o bairro de Higienopólis. "Sim, lá só ficaram os judeus ortodoxos!", me respondeu a senhora, dando a deixa sobre sua condição religiosa.
   
   Antes queria ratificar minha admiração pelos judeus, tenho mesmo muitos amigos judeus e todos tem em comum o desejo pelo conhecimento e a solidariedade. E são solidários não só com os seus, todos os meus amigos judeus sempre foram muito solidários comigo e com quem precisasse de sua ajuda. O meu ateísmo permite que eu participe sem preconceitos de debates sobre todas as religiões. O judaísmo sempre me interessou muito e um desses meus amigos, Tamer Memberg Fadida, quase me converteu, com todos os seus livros, seu amor, inteligência e sabedoria. Mas para isso, só me casando com um judeu, porque não nasci judia.

   Daí falamos sobre a II Guerra Mundial. Coincidentemente ou não, eu e Marie assistimos na semana o mesmo documentário Redescobrindo a Segunda Guerra, no History Channel. Concordamos que o cenário da Alemanha devastada na I Guerra, a arrogância francesa e os cérebros geniais do mal ao lado de Hitler foi o que fez o nazismo tomar a proporção que tomou. No início Hitler era considerado apenas um insano fanático (o que realmente era), na sua primeira tentativa de eleger-se conseguiu somente 2% dos votos, jornalistas debochavam dele em seus artigos. Foram necessários quase 20 anos para que o nazismo acontecesse realmente. Os jovens soldados fanáticos que começaram a seguir Hitler no ínico da década de 30 foram as crianças que cresceram com fome, na miséria e começavam a colocar a culpa nos franceses, logo em seguida, nos judeus.
    Percebi que Rebecca começava a falar mais baixo sobre esse assunto, ao seu lado estava sentado seu pai, um senhor de uns 90 anos, pequeno, loiro, rosado, bochechas vermelhas, olhos claros e brilhantes, um meio sorriso sempre no rosto, que ora falava de sua última viagem à Paris, ora de como amava o Brasil.
    Com a voz ainda mais baixa, contou que o pai é polonês, ainda muito jovem foi levado para Auschwitz, o pior dos piores campos de concentração do massacre judeu. Senti um certo torpor, senti muita emoção e não consegui expressar som algum. Então, como alguém que quer deixar um testemunho do horror da guerra, Rebecca narrou uma breve parte da história de sua família. 
    Seu pai e sua tia, com um bebê de meses nos braços, foram levados como animais empilhados, não sabiam para onde. Ouviam-se histórias, mas a crueldade nazista ainda era algo inimaginável para os dois jovens irmãos. Ao chegar foram analisados pelos oficiais da Gestapo, olharam seus dentes, seus braços e pernas. Por sorte eram fortes e saudáveis: "Esses dois podem ir para o campo de trabalho". A moça seguiu carregando o bebê. Mas para que precisariam de um bebê? Ele só tiraria a atenção da mãe. Arrancaram-lhe o bebê dos braços e na frente dos dois irmãos, o arremessaram como se fosse uma bola, contra a parede. O bebê morreu em minutos e a mãe nem pode abraçá-lo de novo para desperdir-se de seu corpinho já sem vida. Isso era a abertura do horror...
    Cada um foi para um lado. Ficaram sem notícias um do outro. Sofreram torturas e humilhações inenarráveis. Esse senhor sobreviveu, sem nada, só a roupa que tinha no corpo. Alguns judeus falaram sobre a comunidade no Brasil. Com ajuda mútua conseguiram mandá-lo para o País das oportunidades. Aqui foi acolhido por dois outros judeus. Quando conseguiu reerguer-se foi visitar a Polônia, lá ouviu que o nazismo foi horrível, porque não exterminou todos os judeus. Nunca mais ele falou uma palavra em polonês. Assim como eu, também não tolera a intolerância. E esse senhor estava ali,  na minha frente, tomando um delicioso vinho francês, falando da vida e de amenidades.
    Ao me despedir do grupo cumprimentei e beijei um por um, mas ao chegar nesse senhor, dei um abraço tão forte que ele, provavelmente, não entendeu. Tive mesmo vontade de chorar. Pensei que toda a tortura psicológica e emocional que passo há 7 anos, todas as privações com a minha filha, todas as minhas dívidas financeiras não são nada, absolutamente nada, diante do horror daquele campo de concentração. 
    Posso não ser tão forte, nem tão obstinada, muito menos ter tanta fé, mas sou demasiadamente humana, tanto nos erros, como nos sentimentos e, conhecendo um sobrevivente do Holocausto, um senhor lúcido, saudável, que recomeçou do zero, em outro País, com outra língua, apenas com a roupa do corpo e os braços e mente para trabalhar, senti que também posso recomeçar. Ainda tenho saúde, tenho uma filha que depende totalmente de mim, tenho inteligência, tenho muitos amigos e tenho respeito. De certa forma também sou uma sobrevivente e quanta sorte tenho, por conhecer sobreviventes muito mais fortes e resistentes do que eu.
   

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Só não tiraram o leitinho da Miranda!

    Quando perdi a guarda de Dora para seu genitor, Jonas Golfeto, fui condenada a pagar 10 mil reais para seu advogado. Ele venceu, levou o prêmio (minha filha) e tenho que pagar por isso, assim é a Justiça, fazer o que? Não paguei e os juros cresceram até chegar em 16 mil. Em abril do ano passado minha advogada da época negociou minha dívida em 16 parcelas de mil. Fui contra essa negociação, pois meu salário era de 5 mil, mais custas processuais, honorários, minhas contas, meu pai internado numa clínica de repouso e minha filha caçula Miranda, totalmente por minha conta e risco, não sobraria nada! A advogada foi tão firme em me fazer pagar que até depositou a primeira parcela para mim (que  lhe paguei no dia seguinte, claro), disse - e quase me convenceu - de que isso seria bom, o juiz veria que pago minhas dívidas, cumpro com minhas obrigações e tenho palavra. Enfim, foi feito o acordo. Mas na semana seguinte descubro que minha filha Dora foi levada para morar na casa dos avós, em Ribeirão Preto, a mais de 500 km de distância.
    Ora, isso mudaria totalmente o cenário da história. São Paulo está a menos de uma hora de Santos, posso ir e voltar no mesmo dia com folga, mesmo que fosse só para ir ao Fórum ver processo. Mas claro que em São Paulo tenho muito o que fazer, além de trabalho, entrevistas e ver amigos queridos. Ir para Ribeirão Preto e voltar no mesmo dia é quase inconcebível (mas já fiz isso algumas vezes). Tenho lá uma grande e querida amiga de infância, Paola Miorim, que me hospeda sempre, que tem duas filhas lindas e inteligentes, o que torna minhas viagens menos dolorosas e sempre construtivas, cheias de conversas sobre todos os assuntos e lembranças íntimas e pessoais, que só sabe quem viveu uma vida junto. Santista, atleta, linda e meio nerd, Paola faz parte da minha vida desde sempre, pois nadamos e estudamos juntas. Conheço toda a sua família e ela conhece a minha. Um dia ela até tentou falar com o guardião de Dora, por telefone, para entregar uns livros e roupas preferidas da minha filha, mas ele desligou na cara dela, pois se é minha amiga,  não pode ser gente boa. Ah, quanto engano...
    Enfim, cada viagem para Ribeirão, mesmo com hospedagem garantida, sai cara. Também pago para advogados irem, tudo muito cansativo, porque quase sempre é "infrutífero". Escrevi para o advogado da outra parte, o jovem Danilo Murari, assim que soube da agressiva mudança de Dora para Ribeirão Preto e da minha impossibilidade de continuar pagando, mesmo fazendo outros trabalhos free lancer. Nenhuma resposta, só um pedido de execução da dívida. Pois o juiz executou a dívida. Meus bens foram alienados, minha conta está bloqueada, por sorte, estava negativa no dia do bloqueio. Mas eis que na manhã do último domingo recebo uma ligação da minha advogada, perguntando se eu tinha outra conta. "Não que eu me lembre". "É que saiu uma publicação dizendo que a execução foi parcialmente frutífera". 
    Isso já revirou meu estômago. No dia seguinte fui procurar saber o que havia acontecido: pegaram o dinheiro da poupança que fiz para Miranda! Está no nome dela, mas como é menor e a responsável legal sou eu, tiraram o dinheiro que guardo para minha filha! Isso é vergonhoso...
    Tão vergonhoso quanto essa família Golfeto é o que a Justiça faz com Miranda. Nunca comentei sobre o suposto pai de Miranda, até porque ele ainda é suposto, já que não registrou a menina. Quando eu contei sobre a gravidez, ele me disse que estava namorando, diante da minha surpresa, esclareceu que estava com as duas ao mesmo tempo, para decidir com qual ficaria, como se fosse a última bolacha do pacote. Me surpreendi, porque ele era um professor de natação, educação física, surfe e adorava crianças. Dizia ser louco para ter um filho, enfim, me decepcionei com a atitude, mas como já sofria com um pai obcecado por me separar da minha filha, acreditei que seria melhor sem pai (e a situação de Miranda é de longe muito melhor que a de Dora). Como o cara às vezes ligava chorando ou aparecia chorando arrependido, mas logo depois ignorava a gravidez, decidi pedir Investigação de Paternidade, ainda grávida de 7 meses, para acabar com tanta indecisão.
    O primeiro exame de DNA foi marcado quando Miranda tinha 1 ano e 11 meses! Ele não foi. Daí o segundo foi marcado quando ela tinha 3 anos e 4 meses. Nada de novo. O que acontece agora? Marca-se o terceiro exame, se o provável genitor não aparecer, daí é julgado à revelia, mas ainda pode recorrer. Depois disso é obrigado a pagar pensão retroativa, mas pode dizer que não tem dinheiro. Perguntei para a advogada dessa ação porque não o contrário: o homem é considerado pai, paga pensão até fazer o DNA, caso não seja o pai, a mãe devolve com juros e retroativo? "Ora, porque a Justiça entende que a mãe já vai ter gasto com a criança e não terá como devolver?" E a Justiça não entende que se a mãe não tiver condições a criança pode passar privações e até fome? Não, as Leis foram escritas por homens, homens que parecem que nunca tiveram mãe.
    Enfim, a Justiça para Miranda é tão ineficiente como a Justiça para Dora. Eu sustentei Dora sozinha até ser levada, nunca pedi pensão para Jonas Golfeto, até porque os avós é que seriam acionados, já que são eles que sustentam o filho e nunca quis encrenca com aquela família. Agora, além de tudo, eles querem tirar o que dou para Miranda! É de dar dó dessa gente. Não basta deixarem Dora sem mãe, eles também querem que a mãe de Dora fique à mingua e que sua irmãzinha passe necessidade.
    Eu, se fosse José Hércules Golfeto, o psiquiatra infantil "renomado", avô de minha filha, mentor disso tudo, que há quase 2 anos não permite que eu fale ao telefone com Dora, teria vergonha de sair às ruas! Lamentável tudo isso. Miranda já sofre a falta da irmã, logo mais sofrerá privações por conta de uma família tão mesquinha, que nem a conhce, mas já a prejudica, só porque ela é minha filha. Só não digo que tiraram o leitinho da Miranda porque ela ainda mama em meus seios.
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O dia em que conheci Claudio Tognolli e Rodrigo Vianna

    Pensei que seria mais uma matéria banal sobre o movimento pró-reabertura dos cassinos, com muitos políticos e empresários. Como seria um evento no Hotel Casa Grande (um 5 estrelas conhecido na cidade de Guarujá - SP) e com show de Fausto Fawcett, da famosa música Kátia Flávia (a Godiva do Irajá), seria divertido. A canção composta por Fausto tocou muito nas rádios, o que tornou esse jornalista, autor teatral e escritor de ficção científica, uma figura conhecida.  Apesar de não concordar com o lobby dos cassinos, seria interessante um show com Loiraças Belzebus.
    No meio da multidão vi um cara com olhar agitado e óculos de grau igual ao meu, deveria ser um jornalista. Me aproximei, me apresentei como repórter do jornal Diário da Cidade, caso ele precisasse saber sobre alguém ou alguma coisa da Baixada Santista. "Obrigada, sou Claudio Tognolli" e logo comentou sobre nossos óculos idênticos. "Mas você não é repórter especial da Folha de São Paulo?". Lia as matérias do cara e achei curioso que o mandassem para fazer uma de puro lobby, isso seria coisa mais para um iniciante ou correspondente na Baixada.
    Com seu jeito rápido de falar sobre tudo, me esclareceu que estava ali atrás do bicheiro Ivo Noal, foragido da polícia há mais de 6 meses. Ele estava atrás desse cara e tinha certeza de que o encontraria ali. Eu nem sabia que esse Ivo Noal existia, mas achei o máximo poder participar dessa investigação. Então saímos pelos corredores do Hotel, dando uma de perdidos. Até que Claudio avistou o foragido! Corremos feito loucos atrás dele, eu com minha filmadora VHS, que tinha levado para gravar o show, ele com uma máquina minúscula, portátil, sem recursos, mas que deu  muitas capas para o jornal. Cheia de adrenalina e um pouco esbaforida, segui por outro lado, para tentar cercá-lo. Em vão, o cara sabia como fugir e deveria ter um carro importado esperando na saída. Perguntamos para vários dos presentes sobre o aparecimento do bicheiro, ninguém sabia, ninguém viu, como se fosse um fantasma que só nossa mediunidade avistou.
   Novamente no salão, Tognolli acena para um repórter de TV, alinhado e charmoso, com microfone em punho. Era Rodrigo Vianna, que acabara de sair da Folha de São Paulo e estava em uma de suas primeiras matérias para a TV Cultura. Narramos o acontecido e Rodrigo ficou arrasado por não ter captado essa imagem. "Mas ela tem!", apontou Claudio. Na mesma hora entreguei minha fita para Rodrigo, que adiantou que a Cultura não paga imagens, mas colocaria meus créditos como cinegrafista. Adorei! Mas pedi para devolver depois, já que também haviam imagens pessoais de shows e viagens.
    Enquanto eu fazia anotações para a matéria que só entraria no dia seguinte, vi Tognolli ligar para a redação e ditar cada palavra e vírgula do texto que abriria uma página. Sem erros, com precisão cirúrgica. Não havia internet, nem telefones celulares. Depois Claudio dispensou o táxi e eu o levei até onde estava hospedado. Mas antes ficamos sentados no calçadão da praia, ouvindo o barulho do mar e conversando sobre jornalismo, investigações e rock. Para minha agradável surpresa ele era totalmente rock, já havia entrevistado metade dos meus ídolos e tinha uma coleção de guitarras. 
   Minha matéria ficou infinitamente melhor do que eu mesma imaginei. Escrevi com muita vontade na manhã seguinte. Recebi ligações dos dois jornalistas. Claudio para trocar figurinhas, Rodrigo para passar um endereço em que ele pudesse entregar a fita e me agradacer mais uma vez. Com certo orgulho assisti ao jornal da Cultura, com as imagens do bicheiro Ivo Noal rindo e bebendo com os engravatados, depois correndo por corredores, com minha câmera atrás dele. Nos créditos aparecia Imagens Adriana Mendes.  O jovem e promissor repórter de TV deixou  meu material na casa da avó de uma amiga, em São Paulo. Dona Alice ficou encantada com a educação, beleza e gentileza do rapaz.
    Com Rodrigo Vianna não encontrei mais pessoalmente, mas com Claudio Tognolli tive a oportunidade de outros encontros e coincidências e até o entrevistei antes do lançamento de um de seus livros, O Século do Crime. Pode ser que nenhum dos dois lembre-se deste dia ou desta matéria. Mas para mim, uma foquinha de 22 anos, foi marcante. Em poucas horas aprendi mais sobre jornalismo do que em um semestre inteiro de faculdade. O espírito investigativo e generoso de Tognolli, que não manteve para si a notícia, espalhando-a para outro veículo de comunicação foi uma demonstração de como fazer da profissão um bem de utilidade pública. Ético, não iria passar para um jornal concorrente, mas por que não mostrar imagens desta fuga para uma TV? Por que não enriquecer a matéria de seu colega? Como o professor universitário que também viria a ser, não se importou de me explicar quem era o bicheiro, que eu nem sabia que existia. Também não tive vergonha de dizer que não sabia. Rodrigo Vianna, por sua vez, mostrou sua gratidão e foi pessoalmente entregar uma fita caseira, na casa de uma senhora.
    Não é por acaso que Claudio Tognolli seguiu fazendo reportagens cada vez mais investigativas, em que teve de mudar, inclusive, a identidade. E Rodrigo Vianna não era só um profissional bem apessoado e de voz bonita. Sua preocupação social, com a ética e com os direitos humanos estão explícitos em seu blog. Adoro ler Escrivinhador, no  www.rodrigovianna.com.br. Sempre tem informação, com muita opinião.
     Aquela noite foi daqueles momentos de estar no lugar e hora certas. Mas, principalmente, com as pessoas certas. Era uma noite estrelada, num Hotel em frente ao mar. Poderia ter sido só mais uma noite tranquila, com uma matéria meio boba, sobre um evento que não dizia muito. Mas tornou-se numa espécie de marco para aquela garota foquinha. Foi uma noite apenas, mas que me mostrou que investigar e perseguir a notícia é ainda mais divertido que um show de rock.